"A incorreção nas informações cadastrais do cliente só mostra o quanto a empresa é desorganizada e incoerente. Naturalmente que assim mais erros são cometidos, e é o consumidor quem paga por isso. Uma empresa deveria apenas oferecer, em troca do valor pago, serviços de qualidade ao cliente, e não problemas. Os problemas que a empresa me deu em apenas dois meses recobrem a chateação mínima aceitável para umas três encarnações, de forma que, nos próximos 500 anos, não tenho a menor intenção de contratar novamente os serviços da empresa. Felizmente há concorrentes no mercado."
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Beyond The Horizon: Bob Dylan
Beyond The Horizon é a segunda canção na sequência. Aqui na interpretação de Bob Dylan, com cenas que remetem ao título do álbum, Modern Times.
James Laughlin
NO COMPARISON
A parrot
A talking parrot
a parrot in a cage
“pretty Polly”.
A poet
no fooling a poet
a poet in the USA
“Hyla Shakespeare”.
SEM QUERER COMPARAR
Um papagaio
um papagaio falante
um papagaio numa gaiola
“Rosa formosa”.
Um poeta
falando sério um poeta
um poeta nos EE.UU.
“Que-que-há Shakespeare”.
FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p. 280-281. James Laughlin: The Poetry Foundation.
THE HAND THAT SIGNED THE PAPER
The hand that signed the paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.
The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose’s quill has put an end to murder
That put an end to talk.
The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand that holds dominion over
Man by a scribbled name.
The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor stroke the brow;
A hand rules pity as a hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.
A mão que assina o ato assassina a cidade.
Cinco dedos reais taxam o ar ― é a lei.
Cevam o morticínio e ceifam um país;
Os cinco reis que dão cabo de um rei.
A mão que manda mana de um ombro em declínio,
Cãibras deduram nós nos dedos que a cal cala.
Penas de ganso firmam o assassínio
Que pôs fim a uma fala.
A mão que assina o pacto traz a peste,
Praga e devastação, o gafanhoto e a fome;
Grande é a mão que pesa sobre o homem
Ao rabisco de um nome.
Os cinco reis contam os mortos mas não curam
A crosta da ferida e o rosto já sem cor.
A mão rege a clemência como a outra os céus.
Mãos não têm lágrimas a expor.
CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.332-333.
A mão que assinou o papel derrubou uma cidade;
Cinco dedos soberanos tributaram a respiração,
Duplicaram a esfera dos mortos e reduziram um país à metade;
Esses cinco reis levaram um rei à morte.
A poderosa mão chega a um ombro arqueado,
As juntas dos dedos foram imobilizadas pelo gesso;
Uma pena de ganso pôs um fim ao crime
Que deu fim à troca de palavras.
A mão que assinou o tratado fez brotar a febre,
E cresceu a fome, e vieram os gafanhotos;
Grande é a mão que mantém o seu domínio
Sobre um homem por ele ter escrito um nome.
Os cinco reis contam os mortos, mas não aplacam
A ferida cicatrizada nem acariciam a fronte;
Há mãos que regem a piedade como outras o céu;
As mãos não têm lágrimas para derramar.
Dylan Thomas. Poemas reunidos. Trad. Ivan Junqueira. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: José Olympio, p.105.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Dylan Thomas: trabalhar a partir das palavras
Com o perdão antecipado dos puristas, mais um Dylan Thomas traduzido. Não resisto.
DIR-SE-Á QUE OS DEUSES
Dir-se-á que os deuses esmurram as nuvens
Quando o trovão as amaldiçoa?
Dir-se-á que choram quando urra a atmosfera?
Serão os arco-íris a cor de suas túnicas?
Quando chove, onde estão os deuses?
Dir-se-á que fazem brotar a água
Dos vasos do jardim, ou que desatam as torrentes?
Dir-se-á que, à maneira de Vênus, as tetas
De um velho deus são ordenhadas e mordidas,
Ou que a úmida noite me censura como alguma ama-de-leite?
Dir-se-á que os deuses são pedra.
Ecoará sobre a terra uma pedra que caiu,
Ressoará o seixo arremessado? Deixa que as pedras falem
Com as línguas que falam todas as línguas.
Dylan Thomas. Poemas reunidos. Trad. Ivan Junqueira. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: José Olympio, p.105.
Na introdução que faz à coletânea, Ivan Junqueira transcreve o trecho de uma carta enviada por Dylan Thomas a Pamela Hansford Johnson: “Meus versos, todos os meus versos, são de uma intensidade de décima ordem. As palavras que expresso não são as que desejo expressar; são apenas palavras que consigo encontrar para chegar à metade do que estou dizendo. E isso não é bom. Sou um excêntrico usuário de palavras, não um poeta. Essa é a única verdade. Nada de piedade para comigo mesmo. Um excêntrico usuário de palavras, não um poeta. Isso é terrivelmente verdadeiro.” (p.24). À parte o excesso de rigor e certa performance, esta concepção revela a poesia como tradução. E é claro que Dylan Thomas era um poeta, não um usuário de palavras. Tanto que tinha elevada consciência de seu ofício. Alguém que sabia que pedras podem falar conhecia por dentro a linguagem: “It shall be said that gods are stone. / Shall a dropped stone drum on the ground, / Flung gravel chime? Let the stones speak / With tongues that talk all tongues.”
matéria vertente
Esta semana tive um sonho visguento ― noite mal dormida, e uma espécie de torpor que deixava o corpo à mercê de indefinições. No informe de tudo, eu fazia uma péssima escolha. Porque manter a disponibilidade para o risco é difícil, e o medo produz covardias, rendições. Eu me rendia ao que jamais poderia admitir, naquilo que tenho de coragem, e isso me jogava numa negação que não era interrogação, mas vazio, nulidade, frustração. A formulação de Torquato, em “Pessoal Intransferível”, continua gritando, fazendo bovinos seres inertes acordar diante do perigo: “E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi.” Esta tarde, ao dormir aquele sono metade sono das tardes, uma parte de mim parecia querer ir, sufocar, enquanto a outra resistia e mandava voltar. E se não parasse para escrever isso o soño da tarde estaria perdido.
"Mas cá estou eu a colher palavras e isso me basta"
O que mais surpreende na blogosfera, e que justifica em última instância ter um blog, é o inesperado de uma fala, que ademais parece querer antes o enigma ― reviro suas páginas como se, ao fazê-lo, revirasse os dias de uma existência que não me alcança de fato, e ainda assim volto aqui e bato à porta e me pergunto. É possível pensar este verbo em sua intransitividade, quando pronominal: perguntar-se. Bato à porta do território adrede desarrumado da linguagem e me pergunto. E como um ritual já consagrado e incorporado, corto periodicamente os cabelos, como se daí pudesse advir alguma liberdade: os cabelos deixados para trás corporificam aquilo que pouco pertence a mim, de que preciso me desfazer para que possa mais livremente me perguntar.
My Back Pages (1992)
My Back Pages - The 30th Anniversary Concert - 1992 on Vimeo. Neste link é possível conferir a gravação com melhor qualidade. Aqui a versão original pelo The Byrds.
Alejandra Pizarnik
INFANCIA
Hora en que la yerba crece
en la memoria del caballo.
En viento pronuncia discursos ingenuos
en honor de las lilas,
y alguien entra en la muerte
con los ojos abiertos
como Alicia en el país de lo ya visto.
Alejandra Pizarnik. Poesía completa. Barcelona: Lumen, 2000, p.176.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
antologia: Knockin' On Heaven's Door
- Bob Dylan live
- Eric Clapton
- soundtrack do filme Pat Garret And Billy The Kid
- cena do filme Knockin' On Heaven's Door
- uma sequencia bizarra encontrada na net
- um cover country
- um belo vídeo encontrado na net
- Bob Dylan e Tom Petty (muito bom!)
- Harmonica cover
- Bob Dylan 33 r.p.m (original versão em vinil)
“O mais seguro nesta vida é o que jamais se conhece”
Este verso. O mais seguro na vida é o que jamais se conhece. Li o poema todo na sessão de análise. Não calculei. Abri o livro e li. Eis tudo. Um livro que se abre ― e um pouco mais se sabe, mesmo que seja saber que não sabe. Os românticos recriando Adão e Eva ― ler o livro do mundo.
terça-feira, 12 de julho de 2011
aos navegantes
Arrisco, numa enquete, meu singelo mar à vista... ¿QUÉ TE PARECE ESTE BLOG? É apenas minha vocação para a curiosidade. Está ali, na barra lateral, abaixo dos seguidores. Sem maiores expectativas, exceto a mais recôndita: saber um pouco mais deste espaço pelos passos de quem, com ou sem compasso, ou bússola, aporta seus barcos momentaneamente aqui.
Dylan Thomas: Was there a time...
É impossível ser indiferente a tanta beleza:
Houve um tempo em que os bailarinos com seus violinos
Esqueciam suas agruras nos circos da infância?
Houve um tempo em que choravam sobre os livros,
Mas o tempo engendrou uma larva em seus rastros.
Eles não estão a salvo sob o arco do céu.
O mais seguro nesta vida é o que jamais se conhece.
Sob os signos do céu, os que não possuem braços
Têm as mãos imaculadas, e, assim como o espectro sem coração
É o único intocado, assim o cego é quem melhor vê.
Dylan Thomas. Poemas reunidos. Trad. Ivan Junqueira. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: José Olympio, p.109.
Agora a moldura: li este poema hoje, no ônibus, indo para a análise, enquanto a memória buscava, em vão, lembrar-se de qual teria sido o poema de Dylan Thomas traduzido para o português que havia lido alhures, na blogosfera, muito bonito. Li de relance as considerações do tradutor sobre os poemas que serviram de base, questão sempre complexa na edição de textos, e ao que consta mais complexa no caso de Dylan Thomas. Vai ficar para outro post. A tradução não é bilingue, o vírus da desconfiança falou mais alto que a beleza que arrebatou no momento da leitura, e a carne por fim foi fraca: uma rápida combinação de palavras no Google levou não só ao poema original como ao outro poema que referi acima, e que era este mesmo, vertido para o português por HMBF.
Bob Dylan: Born In Time
In the hills of mystery
In the foggy web of destiny
You can have what’s left of me
Where we were born in time
[site oficial de Bob Dylan]
segunda-feira, 11 de julho de 2011
o ponto onde começa o silêncio: marguerite duras
“Nas histórias de meus livros que remetem à minha infância, de repente não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei do amor que sentíamos por nossa mãe, mas não sei se falei do ódio que também sentíamos por ela e o amor que sentíamos uns pelos outros, e o ódio também, terrível, nessa história de ruína e morte que era a dessa família em qualquer caso, de amor ou de ódio, e que ainda não consigo entender plenamente, ainda me é inacessível, oculta no mais fundo de minha carne, cega como um recém-nascido no primeiro dia de vida. Ela é o ponto onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, essa lenta labuta durante toda a minha vida. Ainda estou lá, diante daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Nunca escrevi, e pensei que escrevia, nunca amei, e pensei que amava, nunca fiz nada a não ser esperar diante da porta fechada.”
DURAS, Marguerite. O amante. Trad.Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p.23.
William Carlos Williams e Pieter Brueghel
A Parábola dos Cegos, 1568, Pieter Brueghel
IX A PARÁBOLA DOS CEGOS
Esta horrível mas soberba tela
a parábola dos cegos
sem vermelho algum
na composição mostra um bando
de mendigos um a
guiar o outro atravessando
diagonalmente o quadro
desde um lado
para tropeçar enfim num charco
onde a pintura
e a composição terminam atrás
do qual nenhum homem vidente
é representado os rostos
sem barbear dos in-
digentes com seus poucos
e miseráveis pertences vê-se
uma bacia de lavar numa casinha
campônia e a ponta de uma torre de igreja
as faces estão erguidas
como que para a luz
não há nenhum detalhe estranho
à composição cada um
segue os outros bordão
na mão triunfante até o desastre
Esta horrível mas soberba tela
a parábola dos cegos
sem vermelho algum
na composição mostra um bando
de mendigos um a
guiar o outro atravessando
diagonalmente o quadro
desde um lado
para tropeçar enfim num charco
onde a pintura
e a composição terminam atrás
do qual nenhum homem vidente
é representado os rostos
sem barbear dos in-
digentes com seus poucos
e miseráveis pertences vê-se
uma bacia de lavar numa casinha
campônia e a ponta de uma torre de igreja
as faces estão erguidas
como que para a luz
não há nenhum detalhe estranho
à composição cada um
segue os outros bordão
na mão triunfante até o desastre
IX THE PARABLE OF THE BLIND
This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red
in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward
across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog
where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man
is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few
pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire
the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous
to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster
This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red
in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward
across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog
where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man
is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few
pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire
the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous
to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster
WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 252-253.
domingo, 10 de julho de 2011
Mário Faustino
E SONHOU A MULHER QUE SE CUMPRIRA
E sonhou a mulher que se cumprira.
E sonhou que no ventre da guitarra
Silente uma semente se partira
Em pranto, riso e música, fanfarra
De dor e glória por delfim nascido.
E sonhou a mulher que, enfim florido
Seu trato de terreno roxo, aberto,
Dormia sem sonhar sobre o deserto
Passado que em futuro então se abria
Frutificando em palmas de alegria.
Na lira umbilical Orfeu tocava
Acalanto ilusório à que dormia
E entre as árvores de sonho balançava
A rede filial inda vazia.
FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. Org. Maria Eugenia Boaventura. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.190. Na edição organizada por Benedito Nunes, em nota é informado que este poema também recebeu o título-dedicatória de Sonnet to a childless mother.
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