Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

há pelos menos duas cidades chamadas rio de janeiro

Desconfiar é confiar em alguma coisa diferente, intuída ou vislumbrada, das que facultam, engendram, tornam possíveis e factíveis (os verbos aqui seriam inúmeros) os diferentes tipos de acordo que fazem a teia da sociedade, esgarçada, é bom notar, das conversas de comadres aos acordos políticos ― e é justo perguntar se existe alguma diferença entre uma coisa e outra. É o oposto da ingenuidade. Quem desconfia não necessariamente deixou de confiar, apenas está se fiando em algo diferente do previsto, inclusive por si próprio. "É uma máfia estabelecida", diz Marcelo Freixo sobre as milícias no estado do Rio de Janeiro, e deixando temporariamente o país por ter recebido, só em outubro, sete ameaças de morte, que o governo do estado estaria, conforme o deputado, negligenciandoNada é feito e há um cinismo no Rio de Janeiro, em que se finge que o problema das milícias está resolvido. Eu não posso continuar convivendo com essas ameaças como se a milícia fosse um problema só meu. Não é. Esse é um problema do Rio de Janeiro.” Há uma insuficiência nas ações do Estado. Estamos assistindo (tomando de empréstimo o título e a sugestão do conhecido filme de Victor Erice) à hegemonia do espírito da milícia. 

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