Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Fernando Pessoa

Sim, por fim uma certa calma...
Certa ciência antiga, sentida
Na substância da vida,
De que não há acabar da alma,
Qualquer que seja a estrada que é seguida...

Fácil visão?
Crença de muitos? Não.
Que o que sinto tem diferença.
É uma vida, não uma crença...
Não é meu: é do coração.

Sol que atingiste o ocidente,
Sei que outro te tornarei a ver —
Um outro e o mesmo no oriente:
Tudo é ilusão, mas nada mente,
O Nada que é Tudo é o Ser.

Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.256.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

eu, eu, eu...

Talvez, no enunciado “estou sofrendo...”, a questão não seja alterar o verbo, mas a pessoa do discurso, pois o “eu” parece imperar absoluto no reino do sofrimento. Não se trata de mudar de domínio: enquanto houver “eu” haverá sofrimento. “O eu faz parte das coisas que é preciso dissolver”. (Deleuze, A ilha deserta, p.249).

Kafka

De todo modo, as baratas estão debaixo da cama — lentas, semiocultas, empoeiradas, com patas mais espessas e movimentos mínimos. Parecem não querer serem incomodadas pelas inquietações humanas, que no entanto lá chegam, em seu nicho empoeirado. Debaixo da cama é, também, um lugar em que certas camadas dos sonhos são permitidas. 

domingo, 6 de outubro de 2013

sonho-enigma

Da sequência de imagens que consegui organizar e recordar ao acordar — naquele momento em que se tem ciência de que se trata de um sonho —, aconteceu-me estar sentada num metrô, ou coisa equivalente, acompanhada de alguém que não consigo identificar, mas que teria que ceder seu lugar quando uma outra pessoa chegasse, uma espécie de cavaleiro distinto que tinha aquele lugar destinado para si. Já não era mais metrô então, mas um evento social. O cavaleiro chega, o lugar é cedido, e outro personagem sai. Movida quem sabe pela culpa, quem sabe pelo desejo de entender o porquê do que se passava, encaminhei-me ao quarto onde o outro personagem, que cedeu o lugar, se encontrava, e era uma criança, um menino, que sentia frio, mas que parecia disposto a suportar isso, resignado. Aqui seria preciso dizer que o menino era negro. Mas por que dizê-lo? Por que isso faria algum tipo de diferença? Já então a cena é outra, e recorro à minha mãe, que está passando roupa, para conseguir uma forma de agasalhá-lo, protegê-lo, para que ele não sentisse frio. Minha mãe a princípio nega, então insisto e consigo. O sonho termina aí. Não sei mais se ainda dormindo ou já acordada, me dei conta de que aquela criança eu havia expulsado de mim, em troca do mundo adulto e civilizado das convenções. Pode ser que tenha concorrido no sonho a própria forma com que os negros eram tratados nos EUA, cedendo seu lugar no ônibus para os brancos. Não precisaria ir tão longe, pois no Brasil os lugares também são bem marcados, o que remete ao cavalheiro distinto que se sentaria ao meu lado. Seria bem mais fácil para mim, talvez, entender o sonho se o menino não fosse negro. Mas ele não tem só essa diferença em relação a mim: há também a questão do gênero e o fato de ser uma criança. Ele, efetivamente, é a representação do outro, da alteridade, da diferença, que por vezes expulso de mim para sobreviver. Ele é uma diferença que de repente gritou dentro de mim, ou melhor, no seu silêncio resignado, fez-se ouvir, porque eu tentei escutar. Ter sonhado com isso, ter, no sonho, ido atrás, reconhecido, procurado proteger, conseguido discernir e escutar essa diferença frágil e silenciosa é mais do que um consolo: é a indicação de que um percurso está se fazendo.

acordar com clarice lispector

"O anonimato é suave como um sonho." (de A descoberta do mundo, 1999, p.75)

sábado, 5 de outubro de 2013

Emily Dickinson

Depois de mais cem anos
Ninguém sabe o Lugar
É Paz que não se move
A Dor que ali doeu

Cresceu altiva a grama
O Estranho que foi lá
Só viu a Ortografia
De quem já faleceu

No ar do Verão o Vento
Da trilha há de lembrar
O Instinto guarda a Chave
Que a memória perdeu


After a hundred years
Nobody knows the Place
Agony that enacted there
Motionless as Peace

Weeds triumphant ranged
Strangers strolled and spelled
At the lone Orthography
Of the Elder Dead

Winds of Summer Fields
Recollect the way
Instinct picking up the Key
Dropped by memory

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.74-75.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

sonhos

O que dizer dos sonhos quando, para se dizer algo deles, já são matéria transformada pela linguagem, incorporados como narrativa reconhecível? Sonhei com Bob Dylan, que estava muito próximo de mim, mas havia um silêncio imposto que impedia a fala, minha e dele. Esse silêncio — suas circunstâncias — é a parte mais estranha de tudo, praticamente intraduzível, e trazia consigo uma origem, um agente deflagrador. Havia uma interdição à fala, algo que foi se construindo, se fazendo, e era doloroso, difícil, e traía fragilidade, vulnerabilidade, ausência de proteção de minha parte, como se eu tivesse desamparado alguém que amo. O impedimento de falar era muito incômodo, porque não era simplesmente algo físico: antes, falar representava uma espécie de perigo, uma ameaça. A sensação foi única, muito viva e real, intraduzível e praticamente incompreensível pelo pensamento e seus signos verbais. Havia uma situação envolvendo um improvável Bob Dylan, frágil e desamparado, e a mim, impedida de falar por coisas que eu mesmo havia feito, ou fizeram, quem sabe. Mas aqui eu posso, ainda que me censure.

respeitar os professores está na moda

terça-feira, 1 de outubro de 2013

poesia

Porque
    O som
E o
    Silêncio
Irmanam-se
    À vida — que sabe quando o som deixa de ser silêncio.

Emily Dickinson

O Espírito não mostra
A mais íntima Hora
Que Horror subjugaria as Ruas
Se lhe viesse à Cara

O Porão dentro da Alma
O Subterrâneo Peso –
Só Deus faz um Lugar tão cheio
Ficar silencioso.


Its Hour with itself
The Spirit never shows
What Terror would enthrall the Street
Could Countenance disclose

The Subterranean Freight
The Cellars of the Soul
Thank God the loudest Place he made
Is license to be still.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.172-173.

sábado, 28 de setembro de 2013

Ricardo Reis

Pobres de nós que perdemos quanto
Sereno e forte nos dava a vida
        O único modo
O único humano de a ter...
        Pobres de nós
Crianças tristes que mal se lembram
De pai e mãe
E andam sozinhas na vida cega
        Sem ter carinhos
        Nem saber nada
De aonde vamos pela floresta,
Nem donde viemos pela estrada fora…
E somos tristes, e somos velhos,
        E fracos sempre…
        Sem que nos sirva.

Poesia completa de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005, p.33.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

aflição moderna

Você está numa fila qualquer, via de regra de supermercado. A pessoa que está atrás de você dá, de repente, o ar de sua presença, através de um leve e inconveniente esbarrão, ou empurrão, suficiente para você sentir a presença física da pessoa e traduzi-la como pressão para andar mais depressa. Mas se você, incomodado com aquele contato súbito e indesejado, cede à pressão, arrisca-se a repetir o mesmo gesto com quem está na frente. Você então move-se um pouco, o suficiente para se proteger da pressão exercida por quem está atrás, mas a pessoa entende então que a fila andou, e anda também, mantendo a pressão para que você continue a andar, a avançar, para que chegue logo ao caixa, passe logo os produtos que veio comprar, pague rápido, porque você mal termina de fazer cada uma dessas etapas e quem está atrás já está ocupando o lugar que você achou que era seu na fila do supermercado. Então é desconfortável saber, sentir, que o lugar ilusório que se ocupa no mundo não é necessariamente a possibilidade de estar em paz, porque parece que ninguém está em paz.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

o bem mais precioso

Imaginar a possibilidade da perfeição não é alucinação. A liberdade, bem supremo, é a perfeição.

domingo, 22 de setembro de 2013

O que é a vida espiritual de alguém?

Seria aquilo que, tradicionalmente, se opõe à matéria? Então seria mais por tradição linguística — ou conceitual — que se continua a falar em vida espiritual. Mas deixando essa oposição de lado, é difícil não admitir que há uma dimensão espiritual da existência, com necessidades próprias e pouco conhecidas, talvez porque sejam menos intercambiáveis que as demais, mais visíveis e evidentes por si. Reconhecer em si demandas espirituais é, de alguma forma, perceber-se à parte, ainda que se saiba pertencendo a uma maioria. Há as que são canalizadas e satisfeitas nas religiões. E há aquelas que não encontram refúgio ou sentido na religião. Mas continuam sendo espiritualidade.

o silêncio, esse ancestral do homem

Tantos nomes que não há para dizer o silêncio —

a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.

Evapora-se a roupa, mas não sinto.

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.247.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

no limite da tensão do dizer

Por baixo das palavras, as linhas e os silêncios de uma vida. Na impossibilidade de ser invisível, o visível das palavras, palavras que querem proteger.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Ludwig Uhland

A COROA SUBMERSA

No alto daquele monte
Há uma casa pequenina,
Panorama deslumbrante
Da porta se descortina;
Livre e justo lavrador
Lá mora, que ao fim do dia
Cânticos ergue ao Senhor
E o gume da foice afia.

Embaixo um pântano existe
Sombrio, onde jaz no fundo
Coroa, em que já se viram
A glória e o poder do mundo;
Carbúnculos e safiras
Lá estão à noite a brilhar;
Ali ela vive há séculos,
Ninguém ainda foi a buscar.

Cinco séculos de poesia. Org. e trad. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Record, 2013, p.35.