Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 21 de março de 2010

Picasso, arte e máscaras africanas

Assim Nicolau Sevcenko caracteriza a concepção de arte que norteava Picasso à época do surgimento do Cubismo: "Quando à arte negra, que começava a ser exibida em exposições de curiosidades etnológicas em Paris, Picasso descobriu seu significado profundo por si mesmo, numa de suas habituais incursões ao bricabraque do Trocadero, conforme o relato eletrizante que ele fez a André Malraux: 'Todo mundo sempre fala das influências que os Negros tiveram em mim. O que eu posso fazer? Nós todos amávamos fetiches. (...) Quando eu fui ao velho Trocadero, era repugnante. O Mercado das Pulgas. O cheiro. Eu estava completamente só. Eu queria ir embora. Mas eu não saí. Eu fiquei. Eu fiquei. Eu entendi que era muito importante: alguma coisa estava acontecendo comigo, certo? As máscaras não eram simplesmente como quaisquer outras peças de esculturas. (...) Elas eram coisas mágicas. Mas por que não o eram também as peças egípcias ou caldeias? Nós não havíamos entendido. Aquelas eram coisas primitivas, não mágicas. As peças negras eram intercesseurs, mediadores (...) Eles eram contra tudo  contra espíritos desconhecidos, ameaçadores. Eu sempre examinei os fetiches. Eu entendi, pois eu também sou contra tudo. Eu também acredito que tudo é desconhecido, que tudo é um inimigo! Tudo! Não os detalhes  mulheres, crianças, bebês, tabaco, jogar  mas o conjunto de todas as coisas! Eu entendi para que os Negros usavam sua escultura. Por que esculpir daquele jeito e não de um outro modo qualquer? Afinal, eles não eram cubistas! Já que o cubismo nem existia. Eu percebia. Eu percebia que alguns sujeitos tinham inventado os modelos e outros os tinham imitado, certo? (...) Mas todos os fetiches eram usados para a mesma coisa. Eles eram armas. Para ajudar as pessoas a evitarem ficar sob a influência dos espíritos de novo, para ajudá-las a ficarem independentes. (...) Eu compreendi então por que sou um pintor. Completamente só naquele museu horrível, com máscaras, bonecas feitas pelos peles-vermelhas, manequins empoeirados. O Demoiselles d'Avignon deve ter vindo a mim naquele mesmo dia, mas de modo algum por causa das formas; porque ele foi a minha primeira pintura-exorcismo — sim, definitivamente!'" Prossegue Sevcenko: "Picasso (...) está muito longe de procurar algo assim como a autenticidade do primitivo, a verdade das formas, a espontaneidade do inconsciente ou a pureza das origens. Como mediador, ele pretende purgar a imaginação dos fantasmas da emoção inconsciente. As esculturas ibéricas e as máscaras negras não são nem índices da verdadeira raiz nem exotismos que magnetizam as fantasias e mobilizam as projeções. Toda arte é uma falsificação, inclusive o cubismo, inclusive a arte moderna, inclusive a arte dita popular e primitiva. Segundo ele, 'todos nós sabemos que a arte não é verdade. A arte é uma mentira que nos ensina a compreender a verdade. Pelo menos a verdade que nós, como homens, somos capazes de compreender'. A pintura de Picasso dá substância a uma sintaxe fundamental do relativismo, da ambiguidade, da dúvida, da argúcia. É um artifício para encravar a imaginação com a reflexão, de modo inseparável e profundo, de tal forma que elas se potencializam em reação mútua." (SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 195-197.)