Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 19 de abril de 2012

ana hatherly: a palavra-escrita

A palavra-escrita
é um labor arcaico:
sulca enigmas
venda e desvenda
o sentido do gesto

É uma imagem detida
recolhida do mais fundo cinema íntimo
onde o verdadeiro
é um ser invisível

O cinema do mundo está aí
onde houver ilusão
onde houver vontade de ver
mesmo que seja só o nada.

Ana Hatherly. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras, 2005, p.90.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

um belíssimo poema de ana hatherly


Os poemas estão a caminho.
Paul Celan

Os poemas são uma peregrinação
uma crença
que impele o poeta ao corpo a corpo
com o abismo que o cerca

A batalha é infinita
assenta no interesse do acaso
do ocaso
dos infinitos mortos
em cujos ombros subimos
incansáveis

Qual é o prazer do caminhante
senão
o de encontrar a invisível ponte
a ambição de ousar?

A nostalgia é um erro da paixão
O poema é um rio de vozes

Ana Hatherly. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras, 2005, p.97.

sábado, 24 de março de 2012

nunca, jamais, trair a poesia: ou sim, pela vida?

“A tragédia do humano tem a ver com a incapacidade de não atingir Deus. Nunca chegamos a saber. Quando se procura muito, se estuda muito, quando se chega lá, vê-se que não é nada daquilo. (...) Chama-se a isso o pecado original. A árvore do saber... Mas o Homem não soube nada, só soube o mal. Foi castigado. Ninguém consegue saciar o desejo. É o cerne de tudo.”

Ana Hatherly, A idade da escrita e outros poemas, p.142.

sábado, 17 de março de 2012

Ana Hatherly

A HISTÓRIA DO MUNDO

A história do mundo
é uma autobiografia inventada
é a história
dum Paraíso desencontrado
dum velho-novo-mundo
para sempre ultrajado
pela enorme cintilação do ouro

Ah
como é desigual
a viagem da descoberta!

Entre a cópia e a falta
ante o vexame do despenho
uma pergunta maléfica nos assalta:
que fazer?

A alma 
não tem que fazer nada
dizia um célebre quietista...


Ana Hatherly. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras, 2005, p.101.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Ana Hatherly

A MEMÓRIA DO NOME

A memória do nome
é o paradoxo da verdade moderna
em que o livro
é o monumento da letra.

Na alma secreta da palavra
cada momento é uma prisão
porque a história
de tudo faz monumento
e o livro é o monumento da letra.

Memorizar é obliterar
porque a memória é feita de objetos
reapropriações
instantes figurados.

A memória é invisível
por isso tentamos dar-lhe corpo
de cada momento fazendo uma prisão.

Lembrando esquecemos
a ficção do momento
a ficção do monumento.

O modelo é o contrário do único
e toda a memória é funerária.

Ana Hatherly. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras, 2005, p.60

quarta-feira, 7 de março de 2012

Ana Hatherly

Quem, se eu gritar
me concede
a profundeza inversa deste céu
que ao fim da tarde
eu vejo da minha janela
contemplando os anjos
que as nuvens imitam?

Alguém me ouve se eu gritar?

Oiço vozes
mas são inventadas
porque é inútil perscrutar o silêncio
e por isso vos reinvento
a cada pancada do meu coração
a cada pancada surda
que não repercute
no ímpeto claro do vosso desenho fantástico
no alado lado da vossa impossibilidade.

Se eu gritar
         alguém me ouve
                        em todas estas coisas?
[...]

Ana Hatherly. Rilkeana. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p.29.