Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 10 de julho de 2016

saturday night suburbano

Loucos passam acelerando e fazendo roncar suas motocicletas na rua em que moro, em plena luz do dia. Eu gostaria de poder entendê-los, dentro dessa dimensão ampla do que se chama “compreensão”, que inclui a bondade em relação ao próximo. Mas não consigo. Então os chamo de “loucos”, modo preconceituoso de nomear (no caso, um falso elogio) o que não se conhece. Não suporto barulho acima de certo grau. E minha vizinhança vem se excedendo no barulho: as festas caretas do saturday night suburbano, incluindo aquelas voltadas para crianças, de estourar os tímpanos; o mais novo bar-boteco da esquina, com um karaokê ofensivo aos ouvidos. Barulho acima de certo grau ― cada uma sabe o seu ―, em áreas residenciais, é falta de educação. 

quinta-feira, 27 de março de 2014

asterismo

Já me disseram que eu complico demais as coisas... Fazendo uma analogia para traduzir a ingenuidade do pensamento, considere-se o jogo de ligar os pontos. Há os que têm menos pontos a unir, ou os pontos estão dispostos de forma tal a dar rapidamente uma figura reconhecível ou dominável pelo imaginário. Eu tenho mais, muitos aliás, pontos a unir, e eles não chegam a formar uma figura, muito menos com sentido facilmente reconhecível — pelo menos até agora.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

o escorpião e o sapo

Penso sempre naquela fábula, em que o escorpião diz ao sapo que não pode mudar sua natureza. Essa fábula coloca um limite, talvez pouco confortável e evidente, entre o animal e o homem. Mas qualquer que seja a vocação humana, seu desafio é contrariar sua natureza.

segunda-feira, 4 de março de 2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

do tamanho do meu coração

O programa ontem era ir ao cinema com a amiga. Das muitas opções em cartaz, escolhemos Django, pelo quesito “onde está passando” e mais os óbvios motivos. Django me atarantou, me deixou tonta, me obrigou a esconder o rosto em mais de uma cena de violência. Um filme terrível, não importa se se conheçam ou não as referências com que o diretor está dialogando. Talvez por isso eu tenha amanhecido hoje mal, fisicamente, espirrando, com uma virose nauseante que foi ganhando força ao longo do dia. Não foi uma boa pedida, ainda mais que minha amiga quis se sentar nas fileiras da frente, a tela era imensa, me obrigando a malabarismos para captar a legenda e a cena. Felizmente houve outra cena, quando entrava no shopping. Um monge, trajado a caráter, vendia alguns livrinhos, e se acercou de mim. Perguntou-me se eu era daqui ou de fora. Disse-lhe que todos nós somos de fora, com o que ele concordou. Mas insistiu na pergunta e eu disse que não era do Rio mas morava aqui. Então escolhi um dos quatro livrinhos e perguntei quanto era. Ele disse que eu poderia dar uma contribuição. “Quanto?” “Do tamanho do seu coração.”  Eu ri e disse que assim ficava difícil, porque não sei estimar o tamanho do meu coração ― menos ainda ali na pressa: estava sol, e eu queria entrar logo, para mais uma viagem capitalista àquele templo do consumo. Saquei da carteira uma importância que não desmerecesse o tamanho do meu coração, mas fiquei desconfiando que ele é instável, mesquinho, depende do outro coração que está frente a mim. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

começou o carnaval

O revolucionário mesmo seria ter coragem para carnavalizar a si mesmo. Trocando em miúdos: ter coragem para fazer o meu carnaval, se possível o ano inteiro. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

em águas profundas

Estou lendo um livro ― seria melhor dizer livrinho, pela pouca extensão e pelo caráter despretensioso ― do David Lynch, Em águas profundas, sobre os benefícios da meditação transcendental. Estou lendo e por enquanto nadando, na superfície de águas tranquilas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

pedido de desculpas

Que ausência nova é esta, em que me percebo distante de mim? E cansada, muito cansada, talvez também de mim, de ser alguém que comparece como “eu” diante de um “tu”, um “ti”, um “você”. “Meu tempo é quando”, disse o poeta. Mas ainda posso falar de um tempo que me pertença? Tenho eu alguma coisa além do pálido contorno com que me defino e afirmo? Parece-me que tenho bem pouco ― palavras como “tempo”, “eu”, “cansaço”. E liberdade de usá-las, inclusive a que acabo de escrever, e com a qual escrevo estas e muitas outras coisas, inúteis e vãs.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

t r a v e s s i a

Em matéria de desertos, não sei se há outro meio de enfrentá-los além da humildade. Naturalmente que não se dispensa a força, a coragem, a perspicácia. Mas é que os desertos, como creio ter lido em Borges, equiparam-se aos labirintos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012