poema aqui
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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terça-feira, 15 de outubro de 2019
terça-feira, 11 de agosto de 2015
domingo, 9 de março de 2014
chove...
CANTIGAS
ESQUECIDAS – III
Paul Verlaine
Chora no meu coração
Como chove na cidade;
Qual será tal lassidão
Entrando em meu coração?
Como chove na cidade;
Qual será tal lassidão
Entrando em meu coração?
Ó doce rumor da chuva
Pela terra e sobre os tetos!
Coração que se enviúva,
Ó, a cantiga da chuva!
Pela terra e sobre os tetos!
Coração que se enviúva,
Ó, a cantiga da chuva!
Chora sem qualquer
razão
No coração que se enfada,
Pois! Nenhuma traição?…
Este luto é sem razão.
No coração que se enfada,
Pois! Nenhuma traição?…
Este luto é sem razão.
É bem certo a pior dor
A de não saber por quê
Sem amor e sem rancor
Coração tem tanta dor!
A de não saber por quê
Sem amor e sem rancor
Coração tem tanta dor!
Tradução José Lino Grünewald. Disponível aqui.
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo: Companhia
das Letras, 2009, p.199-200.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Paulo Henriques Britto
OP. CIT., PP.
164-65
“No poema
moderno, é sempre nítida
uma tensão
entre a necessidade
de exprimir-se
uma subjetividade
numa
personalíssima voz lírica
e, de outro, a
consciência crítica
de um sujeito
que se inventa e evade,
ao mesmo tempo
ressaltando o que há de
falso em si
próprio — uma postura cínica,
talvez, porém
honesta, pois de boa-
fé o autor
desconstrói seu artifício,
desmistifica-se
para o ‘leitor-
irmão…’” Hm.
Pode ser. Mas o Pessoa,
em doze
heptassílabos, já disse o
mesmo — não,
disse mais — muito melhor.
Paulo
Henriques Britto. Tarde. São Paulo: Companhia
das Letras, 2007, p.9.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Fernando Pessoa
Sim, por fim uma certa calma...
Certa ciência antiga, sentida
Na substância da vida,
De que não há acabar da alma,
Qualquer que seja a estrada que é seguida...
Fácil visão?
Crença de muitos? Não.
Que o que sinto tem diferença.
É uma vida, não uma crença...
Não é meu: é do coração.
Sol que atingiste o ocidente,
Sei que outro te tornarei a ver —
Um outro e o mesmo no oriente:
Tudo é ilusão, mas nada mente,
O Nada que é Tudo é o Ser.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.256.
sábado, 14 de setembro de 2013
Fernando Pessoa: "Ah, sempre no curso leve do tempo pesado / A mesma forma de viver!"
Ah,
sempre no curso leve do tempo pesado
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de ser enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!
Saudade, ‘sperança — muda o nome, fica
Só à alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!
Sempre, ou no dia ou na noite, sempre — seja
Diverso — o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão!
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de ser enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!
Saudade, ‘sperança — muda o nome, fica
Só à alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!
Sempre, ou no dia ou na noite, sempre — seja
Diverso — o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão!
Fernando
Pessoa. Poesia 1918-1930. São Paulo, Companhia
das Letras, 2007, p.161.
sábado, 27 de julho de 2013
Fernando Pessoa
Onde
quer que o arado o seu traço consiga
E onde a fonte, correndo, com a sua água siga
O caminho que, justo, as calhas lhe darão,
Aí, porque há a paz, está o meu coração.
Bem sei que o som do mar vem de além dos outeiros
E que do seu bom som os ímpetos primeiros
Toldam de ser diverso o natural da hora,
Quando o campo a não ouve e a solidão a ignora.
Mas qualquer cousa falsa e vera se insinua
Nos árvores que são vestígios sob a lua.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.309.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Fernando Pessoa: "Eram todos mascarados"
Eram
todos mascarados
Porque eram todos gente…
Iam muitos, misturados,
Iam misturadamente…
Porque eram todos gente…
Iam muitos, misturados,
Iam misturadamente…
E sem haver entender
Entre o que um ou outro era,
Ia tudo num viver
Como dentro de uma esfera…
Entre o que um ou outro era,
Ia tudo num viver
Como dentro de uma esfera…
Era um globo de ninguém
Toda aquela mascarada,
Como uma bola que tem
A superfície pintada,
Toda aquela mascarada,
Como uma bola que tem
A superfície pintada,
E que rola monte abaixo
Só pelo declive que há.
Se a procuro não n’acho,
Porque rolou para lá…
Só pelo declive que há.
Se a procuro não n’acho,
Porque rolou para lá…
Para lá aonde acabou
O monte que ali começa…
E em busca dela me vou
Até que o buscar me esqueça.
O monte que ali começa…
E em busca dela me vou
Até que o buscar me esqueça.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.321.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Fernando Pessoa e os versos que valem por poemas inteiros
"Os que mais me conhecem ignoram-me de todo." (aqui)
terça-feira, 16 de julho de 2013
Fernando Pessoa: o cansaço e o perdão
Tenho
dó das estrelas,
Luzindo
há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão —
Qualquer coisa assim
Como um perdão?
Fernando
Pessoa. Poesia 1918-1930. São Paulo, Companhia
das Letras, 2007, p.323-324.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Fernando Pessoa
As
formigas do ardor
Mato-as
sem regas nem pós,
E não
sei o que é pior ―
Se
ter por alguém amor
Ou
alguém tê-lo por nós.
Fernando
Pessoa. Poesia 1918-1930. São Paulo, Companhia
das Letras, 2007, p.403-404.
terça-feira, 5 de março de 2013
Fernando Pessoa
Meus
versos são meu sonho dado.
Quero viver, não sei viver,
Por isso, anónimo e encantado,
Canto para me pertencer.
O que salvamos, o perdemos.
O que pensamos, já o fomos.
Ah, e só guardamos o que demos,
E tudo é sermos quem não somos.
Fernando
Pessoa. Poesia 1918-1930. São Paulo, Companhia
das Letras, 2007, p.376-377.
sábado, 2 de março de 2013
Fernando Pessoa
DIFERENÇA
DE PESSOA
Que
lindo dia o que vemos!
Mas,
como estes tempos vão,
É bom
que não confiemos...
É melhor
dizer que temos,
Não
um dia de verão,
Mas
um dia de veremos.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.506.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Fernando Pessoa
Não
digas nada a quem te disse tudo —
Tudo, esse tudo que se nunca diz…
Essas palavras feitas do veludo
A que se não sabe o matiz.
Tudo, esse tudo que se nunca diz…
Essas palavras feitas do veludo
A que se não sabe o matiz.
Não
digas nada a quem te deu a alma…
Que a alma não se dá. O confessar
É feito só para se obter a calma
De nos ouvirmos a falar.
Que a alma não se dá. O confessar
É feito só para se obter a calma
De nos ouvirmos a falar.
Tudo
é inútil e também mentira.
É um pião que um garoto na estrada
Deita só para ver como ele gira.
E ele gira. Não digas nada.
É um pião que um garoto na estrada
Deita só para ver como ele gira.
E ele gira. Não digas nada.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.380.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Fernando Pessoa
Ninguém me disse quem eu era, e eu
A ninguém perguntei.
Vi-me vivendo sob um vasto céu
E senti uma lei.
A informe natureza, desdobrada
Em terra e rio e mar,
Deu-me um indício, como que uma estrada
Para eu caminhar.
Mas o caminho era para quem sou,
E tinha por seu fim
O saber que o caminho por que vou
Está dentro de mim.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.327.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Fernando Pessoa
Aqui, que é o fundo
Do fim do mundo,
Livre do tudo
De ter que ser,
Poderei, mudo
De mim, esquecer.
Sob o ermo e quedo
Grande arvoredo,
Dormindo experto,
Verei passar,
De mim
liberto,
Meu sonho no ar.
Ele é diverso
Do ser disperso
Com que, distinto
De mim sonhei.
Não penso; sinto.
Ignoro: sei.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.236.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
fernando pessoa, sempre
A rudeza do mundo apara as arestas, suaviza os
movimentos. Fernando Pessoa me consola do que em mim é lamento. Qualquer verso
desse homem parece ser maior que a sombra que faz o sofrimento:
Que dia este! Quantas coisas foram
Irregulares no acontecer!
E
não são todos os dias assim?
domingo, 18 de novembro de 2012
lido pouco antes de dormir: quando a madrugada chega
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.130.
lido pouco antes de dormir: quando chega o sono
Mas entre mim e ver há um grande sono,
E sentir é só a janela a que eu assomo.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.130.
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