Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 21 de julho de 2013

Mário Quintana

Romance sem palavras

Há vidas, longas vidas que deixam em nossa lembrança — não uma história mas um certo ar, um clima, uma presença apenas.
Oh! aquelas velhas tias provincianas...
Vidas de uma harmonia tão sutil, tão simples e tão lenta que nem se nota.
Como uma valsinha que alguém fosse tocando ao piano espaçadamente — com um dedo só...

Mário Quintana. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.115. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Mário Quintana

Crime & castigo

O remorso é quando o filme (silencioso) da memória põe-se a repetir a mesma cena e fica o pobre ator a representá-la para sempre.
Um exemplo? Aí vai ele. É um simples faz de conta: não te assustes. Estás à cabeceira da tua velha tia Filomena e eis que resolves apressar-lhe a herança. Tinhas de dar-lhe cinco gotas de meia em meia hora e dá-lhes cinquenta de supetão. Ora, o que vês na tela implacável é a contagem das primeiras gotas inocentes... e agora não podes, não podes nunca mais parar!
Será isso o inferno? Esse inevitável mecanismo de repetição?
Em todo caso, todos já devem estar mais ou menos preparados para esses requintes infernais, graças àquele famoso disco em que o cantor repete umas 37 ou 38 vezes, sem ao menos variar de entonação: ― Eu te amo! Eu te amo! Eu te...
Neste ponto, um anjo segreda-me sonsamente ao ouvido:
― Mas quem sabe se a gravação não estará com defeito?

Mário Quintana. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.225. 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Mário Quintana (a falsa verdade desses versos não esconde o pertencimento do poeta, num sutil jogo de contrastes)

Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente...
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda a gente,

Nem é deste Planeta... Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal...

E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda...

Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!...

Mário Quintana. Canções seguido de Sapato florido e A rua dos cataventos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.193.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Mário Quintana: "Andam por tudo signos diversos / Impossíveis da gente decifrar"

Vontade de escrever quatorze versos...
Pobre do Poeta!... É só pra disfarçar...
Andam por tudo signos diversos
Impossíveis da gente decifrar.

Quem sabe lá que estranhos universos
Que navios começaram a afundar...
Olha! os meus dedos, no nevoeiro imersos,
Diluíram-se... Escusado navegar!

Busca perdida que não sabe o porto,
Carregada de cântaros vazios...
Oh! dá-me a tua mão, Amigo Morto!

Que procuravas, solitário e triste?
Vamos andando entre os nevoeiros frios...
Vamos andando... Nada mais existe!...

Mário Quintana. Canções seguido de Sapato florido e A rua dos cataventos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.210. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

companhia de viagem (a extrema precisão de um poema)

CANÇÃO DE VIDRO

E nada vibrou...
Não se ouviu nada...
Nada...

Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.

Cala, amigo...
Cuidado, amiga...
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre...

E é tão puro o silêncio agora!

Mário Quintana. Canções seguido de Sapato florido e A rua dos cataventos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.20. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Mário Quintana

COMUNHÃO

Há anjos boêmios que costumam frequentar esses antros noturnos que são os sonhos humanos. São estes que finalmente intercedem por ti. O resto é dedo-duro.

Mário Quintana. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.159. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

memória:

AVAREZA

Os momentos mais belos de nossa vida, desconfio que ficam para sempre esquecidos, porque a memória, essa velha avarenta, os rouba e guarda a sete chaves no baú.

Mário Quintana. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p.688.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Mário Quintana

DO EXERCÍCIO DA FILOSOFIA

Como o burrico mourejando à nora,
A mente humana sempre as mesmas voltas dá...
Tolice alguma nos ocorrerá
Que não a tenha dito um sábio grego outrora...

Mário Quintana. O aprendiz de feiticeiro seguido de O espelho mágico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.101. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Mário Quintana

DA PAZ INTERIOR

O sossego, se queres atingi-lo,
Não deixes coisa alguma incompleta ou adiada.
Não há nada que dê um sono mais tranquilo
Que uma vingança bem executada...

Mário Quintana. O aprendiz de feiticeiro seguido de O espelho mágico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.79. 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Mário Quintana

INCOMUNICABILIDADE

Querer que alguém seja sensível ao nosso mundo íntimo é o mesmo que estar sentindo um zumbido no ouvido e pensar que o nosso vizinho de ônibus o possa escutar.

Mário Quintana. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.89. 


P.S. Seria antes um pré-escrito. Li este fragmento quando havia acabado de entrar no transporte coletivo. De uma forma ou de outra, tem a ver com o post anterior.

Mário Quintana

DA SOLIDÃO

O problema da solidão não consiste em saber como solucioná-la, mas em saber como conservá-la.

Mário Quintana. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p.657.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

a liberdade como condição... da liberdade

“Seus passos tinham ― enfim! ― a liberdade de traçar seus próprios labirintos.”
Mário Quintana

Mário Quintana

REZAS

Rezas da infância, tão puras...
Um dia a gente as esquece!
Mas o bom Deus, das alturas,
Ainda escuta a nossa prece...

Mário Quintana. A cor do invisível. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.43.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Mário Quintana

O POEMA

O poema
essa estranha máscara
mais verdadeira do que a própria face...

Mário Quintana. A cor do invisível. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.31.

Mário Quintana: terceiras intenções (ou a fratria em perigo)

INTENÇÕES

Os que andam com segundas intenções não conseguem enganar ninguém. Está na cara... O perigo mesmo ― porque é invisível ― está nos que têm terceiras intenções.

Mário Quintana. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.48 



sábado, 19 de janeiro de 2013

Mário Quintana

S.O.S.

O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar.
Quem a encontra
Salva-se a si mesmo...

Mário Quintana. A cor do invisível. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.119.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Mário Quintana

TRÁGICO ACIDENTE DE LEITURA

Tão comodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO. Que momento passei!… O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se posta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda… O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: Fogo!

Mário Quintana. Nova antologia poética. São Paulo: Globo, 2007, p.97.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Mário Quintana

DA HUMANA CONDIÇÃO

Custa o rico a entrar no Céu
(Afirma o povo e não erra).
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra...

Mário Quintana. Eu passarinho. São Paulo: Ática, 2006, p.41.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Mário Quintana

POEMINHO DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Mário Quintana. Eu passarinho. São Paulo: Ática, 2006, p.67.