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Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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sexta-feira, 15 de abril de 2016
sexta-feira, 25 de março de 2016
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
sexta-feira, 31 de julho de 2015
...que seria do amarelo?
Sou essencialmente melancólica — a vida me parece
quase sempre um circo trágico. Ao mesmo tempo, coexistindo com isso, tenho um senso
de humor constante, que me faz rir do que em princípio poderia parecer sem
graça. Exemplo? Certas passagens de Machado de Assis, como esta, de “O
alienista”: “Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do
amarelo?” Machado está falando de uma coisa séria, e de repente introduz uma
comparação que quebra a seriedade do tema e confirma a falta de sentido da
ciência do alienista, comparação que é, também, muito próxima do senso comum. Deve
ser isso que faz rir, produz a comicidade. E também imaginar o próprio Machado
escrevendo isso, pilheriando com o leitor.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
terça-feira, 30 de setembro de 2014
quinta-feira, 20 de março de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
terça-feira, 27 de agosto de 2013
uma nota de humor no fim da tarde
Aconteceu no ponto de ônibus. Que, no Rio de Janeiro,
dependendo do bairro, é também ponto das vans. As vans trabalham em geral com
um trocador, que vai cantando o destino à medida que passa nos pontos. Por
exemplo: “sulacap-taquara-recreio” — a que se costuma acrescentar: “vaga sentado”.
Tudo isso prolongando o “o” de sentadooo. Talvez seja impossível reproduzir em
palavras o pequeno chiste que o inusitado de uma situação ensejou. Um gari
dependurado no carro de coleta de lixo passou no ponto cantando um destino
qualquer das vans, não esquecendo a “vaga sentadooo”. Naturalmente se ele,
depois de um dia pesado de trabalho, tinha disposição para brincar com os
passageiros também cansados que aguardavam no ponto, por que não retribuir? E,
de fato, ficou engraçado, algumas pessoas riram, talvez pela surpresa de alguém
extrair humor do que comumente é opaco.
domingo, 28 de julho de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
The Big Lebowski cura qualquer tarde de tédio
Dentre os muitos méritos deste filme, uma
concepção de masculinidade associada não ao poder ― que afinal resulta inócuo e
vazio ―, mas antes ao imponderável e irresistível charme do protagonista. A
canção de abertura, The Man In Me, é inseparável
desse charme.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
hermeneutas
Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria.
― Os hermeneutas estão chegando!
― Ih, agora que ninguém vai entender mais nada…
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
― Alô...
― O que é que você quer dizer com isso?
Luis Fernando Verissimo. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.111.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
resposta sofisticada
"É apenas meu cérebro tentando me salvar de um tigre."
Scientific American Brasil, n.120, p.51.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Luis Fernando Verissimo: "controlar a demência solta no mundo"
SOZINHOS
Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:
Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.
― Ronca.
― Não ronco.
― Ele diz que não ronca ― comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.
Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar e sai cedo. Ficam os dois sozinhos.
― Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer ― diz ela. E em seguida tem a ideia infeliz. ― É o que eu vou fazer! Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.
― Humrfm ― diz o velho.
Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias ideias e deixado de escrevê-las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.
Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.
Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.
― Rarrá! ― diz a velha, feliz.
Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha também ronca!
― Rarrá! ― diz o velho, vingativo.
E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida. Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio ― por causa dos roncos ― não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes. É um diálogo sussurrado.
"Estão prontos?"
"Não, acho que ainda não..."
"Então vamos voltar amanhã..."
VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p.31-33.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Luis Fernando Verissimo
HISTÓRIA
ESTRANHA
Um
homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de
idade. Está com quarenta, quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo
chutando uma bola perto de um banco onde está a sua babá fazendo tricô. Não tem
a menor dúvida de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o
banco e a babá. Tem uma vaga lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando
bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo.
Ajoelha-se, põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se
enchem de lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa
pior ainda é o tempo. Como eu era inocente. Como os meus olhos eram limpos. O
homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a
si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás.
O
garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E
fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos, como eu
vou ser sentimental!
Luis Fernando Verissimo. Comédias
para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p.41.
domingo, 11 de março de 2012
Millôr Fernandes
A VAGUIDÃO ESPECÍFICA
"As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica."
Richard Gehman
― Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte.
― Junto com as outras?
― Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia.
― Sim senhora. Olha, o homem está aí.
― Aquele de quando choveu?
― Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo.
― Que é que você disse a ele?
― Eu disse pra ele continuar.
― Ele já começou?
― Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse.
― É bom?
― Mais ou menos. O outro parece mais capaz.
― Você trouxe tudo pra cima?
― Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar até a véspera.
― Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite.
― Está bem, vou ver como.
O Pif-Paf / O Cruzeiro / 1956
Disponível em: http://www2.uol.com.br/millor/aberto/textos/005/011.htm
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
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