Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 13 de outubro de 2019

Breaking Bad - “El Camino”

Ontem assisti “El Camino”, filme sobre a trajetória de Jesse Pinkman após escapar milagrosamente do inferno em que a parceria com Mr. White o lançou. O filme é apenas mediano, mas imperdível para os saudosos da série. Jesse está quase irreconhecível, e isso o ajuda em sua fuga desesperada. Mas o que me comoveu mesmo foi o final. Também eu queria poder ter a chance de começar do zero, em algum lugar remoto, de preferência longe da civilização. Nada mais irônico que um Alaska para quem se desgraçou junto a um ser chamado “Mr. White”. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

sedução, trapaça e rock'n roll

O cinema educa. A televisão, via de regra, vulgariza. Dito isso, devo confessar que a netflix me reconciliou com a rotina de assistir filmes, da qual tinha me apartado desde que me mudei para o Rio, há sete anos. Por que não vou ao cinema morando na cidade maravilhosa? Pela distância, basicamente, o que inclui os percalços do trajeto, digo, do acesso. Em segundo lugar, pelos valores impraticáveis dos ingressos. A isso se soma certa falta de paciência com o público, tanto aquele das grandes redes de cinema abrigadas em shoppings, quanto o outro, em tese mais sofisticado, dito cult, com ar intelectualizado. Nos dois casos, talvez seja mesmo apenas preconceito meu. Ambos conversam durante os filmes, abrem latas de refrigerante, fazem barulho com seus pacotes enormes e caros de pipoca, e isso é o que mais (me) aborrece, porque afinal é um serviço pago, em que o silêncio deveria ser princípio e não regra, e o público que frequenta cinema no Brasil foi educado pela TV.

Então a netflix foi um achado. Aqui cito uma pérola de Paulo Leminski: “podem ficar com a realidade / esse baixo astral / em que tudo entra pelo cano // eu quero viver de verdade / eu fico com o cinema americano”. E com o independente, o iraniano, o francês, o europeu... Qualquer história boa e bem contada, exceto os filmes de terror. Um detalhe interessante: na última sequência de filmes a que assisti, regalia permitida pelas férias, percebi que a trapaça sustenta boa parte dos personagens mais interessantes do cinema. Trapaça, aqui, no sentido de propensão à mentira, aos truques, a uma imaginação que leva-os a convencer e dominar os demais, espectador incluído. É o que se pode observar, por exemplo, no ótimo Headhunters (2012). São sedutores, os trapaceiros.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Incêndios (Denis Villeneuve, Canadá-França, 2010)


Ouvi falar do filme Incêndios numa entrevista da atriz Marieta Severo, quando comentava a adaptação teatral da peça de mesmo nome, no teatro Poeira. A atriz enfatizava de tal forma a força dramática da peça de que foi adaptado o filme que não havia outro jeito senão assisti-lo. O filme, uma história trágica, é desconcertante, e pede uma segunda visada. Há o contexto contemporâneo, um país em guerra civil, e um fundo mitológico de que o espectador pode suspeitar ao perceber as marcas feitas no pé de um recém-nascido, filho da protagonista, Nawal Marwan, que dela será tirado e cuja busca acaba sendo o fio condutor da trama, contada em dois planos, a busca dela e a busca de seus dois filhos pelo passado enigmático que ela lhes lega no testamento. A cena inicial de Incêndios traz o desamparo estampado no rosto de meninos. Esse desamparo, ao final, vai justificar o perdão possível.

domingo, 5 de janeiro de 2014

três contos

Li os Três contos de Gustave Flaubert, que formam uma intrigante unidade. Sem dúvida "Um coração simples" é o mais cativante — e mesmo de leitura imprescindível —, porque a personagem, em sua trajetória de sofrimento e simplicidade, desmonta aquelas meia-ideias tipicamente burguesas, facilmente identificáveis nas conversas. Aliás, conforme uma fala da “santa” que surge ao final do filme “A Grande Beleza”, não se fala sobre a pobreza: vive-se.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Mad Max


Um colega da filosofia, outro, falava da intenção de exibir Mad Max como ilustração da tese de Hobbes sobre o estado de natureza, creio que o terceiro filme da sequência. Resolvi rever a trilogia, e para minha surpresa achei o terceiro filme, talvez o que mais prometesse, inclusive pela atuação conjunta de Tina Turner, o mais fraco — o correto seria dizer irregular. Mas o fato é que o estado de natureza está lá, progressivamente se instaurando à medida que a violência avança sobre a vida das personagens. O primeiro filme, futurista, é convencional, à moda do herói romântico justiceiro, e mostra a gênese da personagem, que vai aparecer com um etos diferente na sequência da trilogia. Esta, ao adotar uma perspectiva pós-apocalipse, torna possível observar, sobre as pessoas, o efeito do retorno ao estado de natureza. A sombra do herói (Mel Gibson) não desaparece, mas as relações são apenas e unicamente a guerra contínua pela sobrevivência — individual ou em pequenos grupos — sempre baseados na dominação e na violência. A exceção é a pequena comunidade edênica que surge no terceiro filme, sem dúvida seu ponto fraco, fraquíssimo, porque não é um contraponto convincente ao inferno de Batertown, governado por Tina Turner, parecendo antes os eternos meninos da terra do nunca. No conjunto da trilogia, o herói torna-se anti-herói, nômade, errante, solitário, e a moeda de troca para a sobrevivência, de todos, torna-se a própria troca em si — o que cada um tem a oferecer em troca da vida, no limite a própria vida. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

watchmen - o filme

Watchmen é um filme fabuloso, que pede do espectador uma segunda ou quem sabe terceira visada, sobretudo pelos diálogos. Perfeição técnica, suspense, vilões charmosos, diálogos requintados, trilha sonora empolgante ― elementos arrolados casualmente numa primeira impressão. Comprei o DVD um tanto tendenciosamente, pela magnífica abertura ao som de “The Times, They Are A-Changin”. Bob Dylan comparece mais duas vezes, em “All Along the Watchtower, por Jimi Hendrix, e “Desolation Row”, numa versão alucinada da banda My Chemical Romance. Por enquanto é isso, trilha sonora. Um detalhe: há uma paródia de cena clássica do filme Apocalypse Now, ao som de "Ride of the Valkyries".

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

o fim do cinema

“Decreto que vou escrever um estudo de 120 páginas, com epígrafe do Fukuyama, dedicados à seguinte e simples proposta: o cinema acabou. Estamos todos como meninos de castigo. Ainda não tomei todas as minhas notas, mas creio que o fenômeno se deu lá pelo mesmo ano do livro que me inspirou. Como piorou o cinema, meu Senhor! Tudo é muito ruim. O que foi uma sorte para a televisão que melhora a olhos vistos, para quem não é astigmata ou daltônico. É só não mexerem, por pura novidadice, com o raio da 3D que vem emborcando como cruzeiros italianos capitaneados por indivíduos da mesma raça que já nos deu Fellini, Visconti e Sergio Leone. Até o Scorsese, que fez uns dois ou três filmes razoáveis, já embarcou nessa dimensão, e, como numa história de The Twilight Zone, por lá deveria ficar, apenas recuperando cópias de velhas obras-primas esquecidas, que nisso ele é mestre.” Ivan Lessa.

domingo, 15 de janeiro de 2012

La Haine

Em La Haine as cores da liberdade, igualdade e fraternidade cedem ao cinza sombrio da negação violenta dos três símbolos modernos da promessa de um novo homem. Em vez, a queda vertiginosa: "Até aqui está tudo bem, até aqui está tudo bem... Mas o importante não é a queda, é a aterrissagem." No meio da queda, uma pausa para uma anedota búlgara, na falta de expressão melhor. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

trainspotting


E por falar em cinema, comecei a assistir Trainspotting, mas tive que dar o pause logo numa das cenas iniciais. Estava de estômago cheio. O filme terá que aguardar na fila uma outra oportunidade. 

cinema

Ao ver proliferar em blogs e sites especializados em cinema as listas dos mais mais de 2011, dou-me conta de que não fui, metonimicamente falando, ao cinema neste ano que ora finda. Nem tentei trazê-lo até mim, assistindo a filmes e filmes em casa. Assisti sim a muita coisa, desde que não se estabeleça como parâmetro os longas. Vi curtas como nunca, e o blog é um testemunho disso. Pequenos prazeres, sem o desconforto da bilheteria e do barulho das sacolas de pipoca. Dos poucos longas a que assisti, em casa, marcou-me em particular A Liberdade é Azul, bem como ter revisto Minha Vida de Cachorro. Há muitos longas a que quero assistir, mas isso não tem nada a ver com os filmes que a indústria do cinema escolhe anualmente para que eu veja. Há filmes incríveis ao alcance da mão (cada um tem o seu rol de imperdíveis ou obrigatórios), mas posso pensar no cinema como uma variante da leitura. 

domingo, 6 de novembro de 2011

minha vida de cachorro


Revejo Minha Vida de Cachorro. Quando assisti no cinema, mal captei uma atmosfera de criança angustiada. Houve um avanço, pois pude apreender uma outra esfera da história: o menino fala, do princípio ao fim, que é sempre bom comparar, recorrendo para tanto aos exemplos mais bizarros, como a cachorra Laika, mandada ao espaço e de lá não voltando viva, mas que contribuiu com seu sacrifício para o progresso humano. 

domingo, 30 de outubro de 2011

cinema público

Numa troca de comentários sobre cinema, acabei descobrindo, nos arredores, um canal do youtube com filmes antigos completos: cinema público. Entre os títulos, Metrópolis e O Encouraçado Potemkin.