Um amigo disse ter cometido faceboquicído. Cansou.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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terça-feira, 26 de julho de 2016
domingo, 22 de março de 2015
sem álibi
Pratiquei
umas três boas ações ontem, duas delas inadvertidamente (na falta de termo melhor). O mesmo
deve valer para o mal que pratico.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Benfica
Com frequência as entregas dos Correios têm atrasado. Elas chegam
à Unidade Operacional de Benfica e lá ficam.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
fim de ano
José Simão diz que a mensagem de fim de ano no
Brasil precisa mudar: “Feliz Natal ou Próspero Ano Novo.” Os dois juntos não dá.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
destino
Uma fantasia qualquer me faz imaginar que um dia
farei uma viagem à Grécia, e passarei por aquelas simpáticas costas com casas brancas, que
devem ofuscar a vista pelo tanto de luz que refletem. É um destino turístico
que promete qualquer coisa como paz, descanso e tranquilidade — sem adjetivos
gregos. Naturalmente, há bovarismo neste post, assim como em planos de viagem.
sábado, 23 de novembro de 2013
terça-feira, 12 de novembro de 2013
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
aflição moderna
Você está numa fila qualquer, via de regra de
supermercado. A pessoa que está atrás de você dá, de repente, o ar de sua
presença, através de um leve e inconveniente esbarrão, ou empurrão, suficiente para
você sentir a presença física da pessoa e traduzi-la como pressão para andar mais
depressa. Mas se você, incomodado com aquele contato súbito e indesejado, cede
à pressão, arrisca-se a repetir o mesmo gesto com quem está na frente. Você
então move-se um pouco, o suficiente para se proteger da pressão exercida por
quem está atrás, mas a pessoa entende então que a fila andou, e anda também,
mantendo a pressão para que você continue a andar, a avançar, para que chegue
logo ao caixa, passe logo os produtos que veio comprar, pague rápido, porque
você mal termina de fazer cada uma dessas etapas e quem está atrás já está
ocupando o lugar que você achou que era seu na fila do supermercado. Então é desconfortável
saber, sentir, que o lugar ilusório que se ocupa no mundo não é necessariamente
a possibilidade de estar em paz, porque parece que ninguém está em paz.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
o bem mais precioso
Imaginar a possibilidade da perfeição não é alucinação.
A liberdade, bem supremo, é a perfeição.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
o imponderável nas contingências
A história do que nos oprime é também a história de nossa estreiteza de pensamento.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
ingenuidade
A ingenuidade é a experiência da cegueira existencial. Há sempre um momento-lobo espreitando a distração do cordeiro. Ocorre que não é possível viver em atenção constante, viver imaginando todas as variáveis possíveis de uma situação, até porque as situações costumam sobrepor-se, e as variáveis imbricar-se, sofrendo imprevistas deformações. Alguém atulhado de informações sobre o mundo será menos ingênuo?
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
admirar
Admiração não se confunde com amor e amizade ― pelo contrário, pode ofuscá-los. Há qualquer coisa de exterioridade na admiração: ad-mirar, olhar que se aproxima, que se quer próximo, mas que para na pura exterioridade do gesto, na opacidade (epiderme não transparente) daquele que resiste à admiração. As palavras, na admiração, são excessivas e nunca bastantes. Simplesmente porque na admiração busca-se no outro a confirmação do próprio narcisismo. Gostar tem outra qualidade, e inclusive pode economizar palavras. A propósito, Fernando Pessoa distinguiu bem as duas coisas.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
casinha na Gamboa
Hoje, passando pela Gamboa, não pude deixar de me lembrar da célebre menção ao bairro. A geografia é inseparável da literatura. Nos dias de hoje, onde Machado de Assis abrigaria da vigilância pública o casal de amantes? Ainda seria necessário fazê-lo?
quinta-feira, 23 de junho de 2011
diz-me uma amiga ao telefone
Ainda uso esse instrumento prestes a enferrujar pela avalanche das redes sociais, o telefone. Pouco, mas uso. Para falar com pessoas amigas, por exemplo, ou completamente desconhecidas (atendentes de telemarketing). E foi ao telefone que ouvi uma coisa muito pertinente, de uma amiga: é preciso tomar cuidado para não ficar se repetindo, escrevendo sempre o mesmo texto. Já ouvi depoimentos de atores dizendo que se afastaram da teledramaturgia porque perceberam que lhes era reservado sempre o mesmo papel (e na televisão há casos notórios de múmias, pois incorporaram um papel e não vão mais sair dele, aliás nem querem). O perigo de se repetir é o engessamento. Então, quando minha amiga falou isso, eu ouvi com mais vagar, porque ser apenas um, um só personagem, é de um empobrecimento desolador. No extremo, é tornar-se atendente de telemarketing.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
tempestade
Um vento fortíssimo sopra lá fora, querendo levar tudo. Mas o dia foi tão bom, tão bom, que o vento parece antes estar trazendo ar novo, renovando o ar parado dos últimos tempos. Os telefonemas de hoje, as decisões, o almoço com o amigo que há tempos não via, seu presente de aniversário, o presente para a sobrinha, outro para mim, a coragem de chamar as coisas, certas coisas, pelo devido nome, a discussão ao telefone com a atendente de telemarketing de uma imprestável prestadora de serviços, a ameaça de levar ao Procon que não vai se concretizar, porque no Rio de Janeiro é muito enrolado, mais ainda assim um bate-boca ao telefone com uma desconhecida que finge não entender as reclamações (no plural) do cliente, e fica repetindo a mesma coisa (qual boneca programada): no fim das contas (as pagas e aquelas a pagar), uma boa forma de colocar alguns demônios para fora. E então o bem-estar do vento forte. A vida em movimento, com lobos calados de repente postos a uivar.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
dificionário
A bondade é uma coisa que foi aparecendo bem aos poucos em mim. Assisto em mim a uma espécie de generosidade entranhada, mas ao mesmo tempo com um tom de impessoalidade. Pois continuo perfeitamente capaz de sentir ódio, se for o caso. Ódio, desprezo, desdém e indiferença são sentimentos que aparecem quando me deparo com uma cegueira maior que a minha, e que de alguma forma me afeta negativamente. Não há nada de cristão em minha bondade. É assim: não quero poluir o meio ambiente, então procuro um posto de coleta seletiva de pilhas e baterias, embora eles estejam mais e mais escassos. Não quero fazer o mal, muito menos o mal absoluto, tomo muito cuidado, mas não aceito que me façam mal. Não permito. Pois é simples: o primeiro beneficiário de qualquer bondade que possa haver em mim deve ser eu mesma. Preciso ser generosa comigo, preciso escrever quando sinto necessidade, trabalhar corretamente, (me-)afastar (d)os envenenadores e produtores da má consciência. Essa operação é complexa, pede filtros sutis e preciosos, mas sem ela o melhor de mim vai ficar condenado às sombras. Porque sei o quanto há de bondade em mim, mas ela só aparece com os canais desobstruídos. Caso contrário, ela perece.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
A hora do cansaço (um dos títulos possíveis para "A hora da estrela")
Chega uma hora que bate o cansaço. Começa então uma fase de paciente mas definitiva depuração, de recusa aos pequenos e gratuitos mise-en-scènes que ainda parecem divertir os mais jovens; aos gestos que mal escondem sua teatralidade, inútil de todo modo, pois a fase performer, a sua, já passou; aos gestos que, sugerindo seu contrário, mal escondem o vazio que se encontra em sua origem; aos que ainda se agitam no vazio. Já basta o alto custo de viver, como disse a Clarice Lispector na crônica "Um ato gratuito". A hora do cansaço chega exatamente quando se tem a noção desse custo, quando uma intuição funda e certeira mostra tudo que foi percorrido para se estar sentado, numa segunda-feira à noite, diante de uma tela fria escrevendo, depois de um dia exaustivo de trabalho. Tudo: quatro décadas de existência, sem qualquer promessa de que haverá outras quatro. Quatro décadas de esforço, luta, obstinação, entrega aos estudos, entrega a uma promessa, a muitas esperanças, a um sonho de futuro, à busca de um lugar no futuro. Soaria irônico se eu fosse pensar em garantir um bom lugar para o meu futuro, daqui a quatro décadas, pois só há um lugar, um ponto de chegada, um fim, que iguala a todos.
aquila non captat muscas
Antigos provérbios, a lembrar que pelo menos na intenção é possível alçar voos, voos que podem ser altos, e quando tais permitem distanciar-se de tal modo das miudezas do cotidiano a ponto de não mais enxergá-las, pois elas são menos que ninharias... são NADA. Imagem obtida aqui.
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