Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 15 de outubro de 2011

A hora e vez de Augusto Matraga

Ao tomar conhecimento de uma nova adaptação para o cinema de Augusto Matraga, lembrei o quanto sempre gostei do conto e da fantástica personagem-título, e me senti estimulada a reler a história, afinal o momento é propício (os tais seis meses...). A releitura só fez confirmar a força descomunal de Augusto Matraga (conto e personagem). Três trechos, bem curtos:

“Quando chega o dia da casa cair ― que, com ou sem terremotos, é um dia de chegada infalível, ― o dono pode estar: de dentro, ou de fora. É melhor de fora. E é a só coisa que um qualquer-um está no poder de fazer. Mesmo estando de dentro, mais vale todo vestido e perto da porta da rua. Mas, Nhô Augusto, não: estava deitado na cama ― o pior lugar que há para se receber uma surpresa má.”

“Assim, quase qualquer um capiau outro, sem ser Augusto Estêves, naqueles dois contratempos teria percebido a chegada do azar, da unhaca, e passaria umas rodadas sem jogar, fazendo umas férias da vida: viagem, mudança, ou qualquer coisa ensossa, para esperar o cumprimento do ditado: ‘Cada um tem seus seis meses...’”

“E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar nem por, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.”

ROSA, João Guimarães. Sagarana. 13.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.324-370.

Álvaro de Campos

Álvaro de Campos tem uma característica rara: condensar num verso um universo ― verso (uni)verso. O que equivale a dizer que poderiam figurar como poemas de um único verso. Numa amostra casual:

“Que mal fiz eu aos deuses todos?”

“O ter deveres, que prolixa coisa!”

“Ah, as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...”

“O tumulto concentrado da minha imaginação intelectual...”

“Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...”

“Perdi a esperança como uma carteira vazia...”

“Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.”

“Mas eu não tenho problemas; tenho só mistérios.”

Não diria o Universo... seria (um verso) impossível.
“Ó Verdade, esquece-te de mim!”
Amanheço lendo Álvaro de Campos.


Todos os versos citados de: Poesia completa de Álvaro de Campos. Org. Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, respectivamente páginas: 242; 233; 232; 251; 277; 286; 341; 450; 299.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

amanhã é dia do professor

Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.


Álvaro de Campos

Rainer Maria Rilke, Mário Faustino, Manuel Bandeira, a poesia

TORSO ARCAICO DE APOLO

Não conhecemos a sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo ergue-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.


FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.262-263. O mesmo poema, na tradução de Manuel Bandeira:

TORSO ARCAICO DE APOLO

Não sabemos como era a cabaça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandeceria mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.


BANDEIRA, Manuel. Alguns poemas traduzidos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, p.36.

***
― Certo. Trata-se aqui, sobretudo, daquele aprofundamento provocado por toda obra de arte no ser que a considera, que a revive. A poesia trágica, sobretudo, mas também qualquer outra forma de poesia absoluta ― e, quanto mais intenso o poema, mais forte será, neste sentido, seu impacto sobre o ser que o recebe ― provocam na alma sobre que agem uma espécie de catarse, uma purgação, uma purificação. Aquele que verdadeiramente vive um poema, imediatamente, por mais que disso não se dê conta, muda de vida.
― Como quem vê o “torso arcaico de Apolo”?
― Precisamente: “Du must dein Leben aendern”, diz toda aquela obra-prima a quem, contemplando-a, por ela e nela morre e ressuscita. Toda grande poesia [...] relembra ao homem sua grandeza, seu alto destino. Recorda, igualmente, a quem vive, a seriedade, a importância da vida.”


FAUSTINO, Mário. Para que poesia? __. Poesia-experiência. São Paulo: Perspectiva, 1976, p.29-30.

dicionário

Seguindo o percurso da comum e prosaica palavra tatuagem, cheguei a indelével, passando por marca, sinal, cicatriz. Marca e sinal são profusas em sentidos, renderiam um bom texto. Já indelével... Pensando bem, este post é um antípoda dos dois anteriores, ou o contrário:
adj.2g. que não é delével, que não se pode delir 1 que não se pode apagar, eliminar <tinta, mancha i.>  2 que é durável, permanente; que não se pode destruir, suprimir ou fazer desaparecer totalmente <amor i.> <lembrança i.>  * etim lat. indelebìlis,e 'que não pode ser apagado ou riscado', de in + delebìlis e este de delére 'apagar, destruir'.

Prehistoric Black Hole (Spitzer Virtual Museum)

Clique na imagem para ampliar. Fonte: aqui e aqui.

a cosmologia me restitui um senso agudo de humildade

O QUE É UMA GALÁXIA
James E. Geach

TALVEZ a mais emocionante experiência que um cientista pode ter é o sentimento de uma grande mudança em sua perspectiva sobre o mundo. Para mim, aconteceu quando tive de reavaliar o que pensava sobre uma galáxia. Tradicionalmente, pensamos em galáxias luminosas como universos-ilha isolados e pontuais, como o filósofo Immanuel Kant propôs. Em alguns casos, isso é certamente verdade. Ocorre que as brilhantes ilhas galácticas são apenas os pontos visíveis de um oceano muito maior, mas ainda elusivo, de matéria bariônica. Esse material permeia o Universo, distribuído e moldado por uma vasta arquitetura escura subjacente, evoluindo continuamente pela ação da gravidade.
Todos aqueles bárions começaram no mesmo estado: um gás quente primordial que rapidamente formou os elementos fundamentais hidrogênio e hélio, além de pequenas quantidades de deutério e lítio. O que chamamos de galáxias se formou desse material bruto, empurrado para o interior de regiões com densidade mais elevada pela gravidade. Mas essas estruturas não são grupos fixos de bárions. O material se move entre elas como parte de um grande ciclo que tem estado em operação desde o Big Bang. A influência competitiva entre a gravidade e o processo de feedback faz o gás se resfriar sobre as galáxias e depois ser ejetado dela. Simulações recentes sugerem que até metade dos bárions presos nas galáxias no Universo local foram reciclados ao menos uma vez e, frequentemente, muitas vezes através do meio intergaláctico. Os bárions que constroem nosso corpo participaram desse ciclo por aproximadamente 14 bilhões de anos; a matéria em nossa unha poderia ter sido formada em estrelas de outras galáxias e, então, consumido bilhões de anos exilada no espaço intergaláctico antes de chegar ao Sistema Solar. Somo apenas uma fase efêmera, breves hospedeiros, para essa substância rara que dizemos ser “normal”.
Esse conceito de ciclo de bárions sustenta a visão emergente sobre a evolução das galáxias. O grande quadro que você deve ter em mente é de que a evolução galáctica é apenas um pequeno componente e uma evolução em larga escala do meio intergaláctico. O universo bariônico  é predominantemente gasoso, não galáctico. O meio intergaláctico é um campo de batalha para forças e, em meio a esse turbilhão, as galáxias se formam. Galáxias são apenas um estágio de processamento em um ciclo que desloca continuamente bárions de uma face à outra, e a cada instante a maioria dos bárions de uma fase à outra, e a cada instante a maioria dos bárions não está dentro das galáxias.
Concebemos as galáxias como nossa casa cósmica, um brilhante, vasto e complexo lar mergulhado na escuridão. De um ponto de vista antrópico, apenas tivemos sorte suficiente de existir em um tempo quando os bárions que compõem a Terra e tudo sobre ela tomaram a forma estável e fria. Esse não será sempre o caso. A morte do Sol em cerca de 5 bilhões de anos calcinará os planetas interiores, evaporará os exteriores e gradualmente dispersará os detritos resultantes de elementos pesados no meio interestelar. A menos que os humanos deem um jeito de enganar o ciclo desenvolvendo a capacidade técnica para escapar do confinamento do Sistema Solar, as cinzas de todo o material sobre a Terra estarão fadadas a retornar e enriquecer o Cosmos. E assim o ciclo continua.

“Galáxias Perdidas” (trecho), SCIAM Brasil, n.109, jun. 2011, p.61. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

limites

Sou a primeira a saber de minhas limitações, o que gerou, com o tempo, algumas necessidades curiosas. A primeira delas é correr apenas os meus riscos, somente eles, que os riscos do outro são arena alheia, perigosa, porque já é difícil entender o traçado dos próprios riscos, arriscar-se neles, imagine então. Este foi um aprendizado difícil, lento, especialmente porque pressupõe aprender (ou apreender) quais são os próprios riscos, discernindo-os daquilo que vem por assimilação, tarefa inconclusa. Não se intercambiam riscos. A segunda necessidade foi a escrita, risco que corro (correndo por fora) não sem hesitar e compreender o quanto sou limitada. Mas (lendo e) escrevendo, quem sabe, eu possa ampliar o campo de meus riscos e inclusive entender por que, por bondade, o outro pede que eu corra também os riscos dele. Como um desdobramento da segunda necessidade, escrever, vem a terceira, entender que meus frágeis limites ― ou os limites de minha fragilidade ― circunscrevem também os limites dos riscos que me permito correr, o que equivale a aceitar minhas limitações e tentar... tentar o quê? Aí é que está. A resposta se encontra na tentativa, voo cego que é, e a terceira via é pauta aberta.

Wallace Stevens

O impecável, solar fruto da vida
Cai por seu próprio peso sobre a terra.
Quando eras Eva a seiva era suave,
E ele, intacto, em celeste ar de pomar.
A maçã serve tanto quanto um crânio
Para ser livro onde se ler um círculo
Vicioso, por ser feita do que volve
Ao solo, como um crânio, apodrecendo.
Mas o supera por ser, como fruto
Do amor, louca demais para ser lida
Enquanto não se lê por passatempo.


This luscious and impeccable fruit of life
Falls, it appears, of its own weight to earth.
When you were Eve, its acrid juice was sweet,
Untasted, in its heavenly, orchard air ―
An apple serves as well as any skull
To be the book in which to read a round,
And is as excellent, it that it is composed
Of what, like skulls, comes rotting back to ground.
But it excels in this that as the fruit
Of love, it is a book too mad to read
Before one merely reads to pass the time.


CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.264-265.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

linhas da mão

A relativa facilidade com que se recorre a noções como intuição, acaso, destino e coincidência, a tentativa de manipulá-las no sentido de projetar enredos, não ilude o próprio destino e seus poderosos fios. O conto de Cortázar foi mais do que um achado. Fez-me perceber, por conexões bastante sutis, não apenas as delicadas linhas de minha mão, enquanto abria e fechava o livro, mas o intricado que se move por elas, as mãos. Mas é claro que não se trata apenas disso. Trata-se de perceber algo maior, percepção que não depende da vontade: depende às vezes de um acaso, o acaso das linhas de um livro, por exemplo. Então o discurso fácil cede a outras possibilidades: as mãos rumam em direções que, num relance, fazem perceber uma parte, ainda que ínfima, dos fios que tecem o enredo (ou enredos) de uma vida, fios que estão e não estão nas mãos. O que está nas mãos são as linhas que dela partem, as linhas do texto que as mãos vão compondo, via palavras, itinerários que se confundem com as linhas, e que tentam delinear, apreender, alcançar, lograr entender, capturar qual teia os fios sutis e a custo discerníveis que movem a vida, uma vida, qualquer vida.

Julio Cortázar

As linhas da mão

De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha continua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do pára-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de náilon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) alcança o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.

CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e de famas. Trad. Glória Rodriguez. 12.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.89.

Julio Cortázar: doppelgänger

― ... Por sua vez, não pode negar que nunca esteve tão acordado como agora. E quando digo acordado, você me entende, não é?
― Pergunto-me se não será o contrário, meu velho.
― Oh, essas são soluções fáceis, contos fantásticos para antologias. Se você fosse capaz de ver a coisa pelo outro lado, talvez já não quisesse sair dessa cadeira. Se você saísse do território, digamos da casa um para a dois, ou da dois para a três... É tão difícil, doppelgänger, eu passei toda a noite tentando e só consegui chegar à casa oito. Todos gostaríamos de alcançar o reino milenário, uma espécie de Arcádia onde, talvez, fôssemos mais infelizes do que aqui, porque não se trata de felicidade, doppelgänger, mas onde não mais haveria este imundo jogo de substituições que nos ocupa durante cinquenta ou sessenta anos, e onde nos daríamos verdadeiramente a mão, em vez de repetir o gesto do medo e querer saber se o outro leva uma faca escondida entre os dedos. Falando de substituições, não estranharia que você e eu fôssemos o mesmo, um de cada lado. Como você disse que sou vaidoso, parece que escolhi o lado mais favorável, mas quem sabe, Manú. Só sei uma coisa: é que não posso estar do seu lado, tudo quebra nas minhas mãos, faço cada barbaridade de enlouquecer, supondo que fosse assim tão fácil. Mas você, que está em harmonia com o território, não quer entender estes ires-e-vires, dou um empurrão e acontece-me alguma coisa, então cinco mil anos de genes jogados fora me atiram para trás e volto a cair no território, chapinho duas semanas, dois anos, quinze anos... Um dia meto um dedo no costume e é incrível como o dedo se afunda no costume e parece do outro lado, parece que vou chagar finalmente à última casa e, de repente, uma mulher se afoga, imagine, ou tenho um ataque, um ataque de piedade pelo divino botão, porque isso de piedade... Já lhe falei das substituições, não? Que imundície, Manú! Consulte Dostoievski sobre isso das substituições. Por fim, cinco mil anos me atiram outra vez para trás e tenho de voltar a começar. Por isso sinto que você é o meu doppelgänger, porque todo o tempo estou indo e vindo do seu território para o meu, se é que consigo chegar ao meu, e nessas lastimáveis passagens parece-me que você é a minha forma que fica aí, olhando-me com piedade, você é os cinco mil anos do homem amontoados em um metro e setenta, olhando para este palhaço que deseja sair da sua casa. Tenho dito.


CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. 15. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.401-403.

Efterklang: Doppelgänger

Um pouco sobre o termo doppelgänger aqui.

muito me apraz ler koisas komo exta

“Abila Sanhes foi um omem meresedor de atensão i de apreso. Soldado valorozo, onrô a sua instituisão na teoria i na prátika. Teve um alto konseito de lialdade i xegou mesmo a ir ao kampo de batalia. Omen de kultura, ensinou siênsias a jovens i adultos. Pensador, eskreveu bastante em jornais i deixou algumas obras inéditas, entre elas ‘Másimas de Kuartel’. Poeta, versifikava kom grande fasilidade em vários jêneros. Artista do lápis e da pluma, encantounos várias vezes kom as suas kriasões. Linguista, era muito amigo de traduzir as suas próprias produsões para o inglês, o esperanto e outros idiomas.”

CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. 15. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.434, capítulo 69.

lados

Do lado de cá há muito o que falar ― falta apenas encontrar o idioma. 

terça-feira, 11 de outubro de 2011

o jardim de veredas que se bifurcam

“O resto é irreal, insignificante. Madden irrompeu, prendeu-me. Fui condenado à forca. Abominavelmente venci: comuniquei a Berlim o secreto nome da cidade que devem atacar. Ontem a bombardearam; li isso nos mesmos jornais em que apresentaram à Inglaterra o enigma de que o sábio sinólogo Stephen Albert morrera assassinado por um desconhecido, Yu Tsun. O Chefe decifrou esse enigma. Sabe que meu problema era indicar (por intermédio do estrépito da guerra) a cidade que se chama Albert e que não achei outro meio a não ser matar uma pessoa com esse nome. Não sabe (ninguém pode saber) minha imensa contrição e cansaço.”

BORGES, Jorge Luis. Obras completas I. São Paulo: Globo, 1998, p.533. Tradução de “O jardim de veredas que se bifurcam”: Carlos Nejar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ouvindo um quero-quero

Por tanto querer uma brecha no moto-contínuo dos últimos dias, acabei vislumbrando, com a surpresa que sempre me toma nas aparições da lua, uma enorme lua cheia no céu de fim de tarde já início de noite, não sendo propriamente um crepúsculo. Vislumbrei e considerei que a hora, imprópria para voltar para casa, poderia ser brindada com aquela lua inusitada, o que ficaria perfeito com a presença do mar. O mar estava ali, próximo, a alguns metros de caminhada e paciência, considerando que me encontrava na Barra da Tijuca. Caminhei, pois, em direção à praia, lá chegando já de noite, e me sentei num quiosque para simplesmente me apropriar daquela conjunção única de lua cheia, fim de tarde começo de noite e mar. O mar estava lá, indo e vindo, marulhando de leve naquele recanto quase sem ninguém. Foi quando, passado algum tempo, escutei cantar um quero-quero. Para quem nunca ouviu esta ave, é mesmo curioso imaginar como a onomatopeia funcionou para transformar o singular canto no singular nome da ave. Ocorre que ouvi quero-queros durante toda a infância, quer dizer, enquanto morei no interior. Devia ser uma ave típica, pois escutávamos sempre, especialmente à tarde. Então, era inconfundível o canto que estava ouvindo na praia no início da noite. O que traiu a distância foi a surpresa de perceber que, apesar da semelhança do canto e do reconhecimento, era outra a ave, ou canto, que agora escutava, pois os quero-queros da infância não sabiam nada de onomatopeias, muito menos de quereres acima de suas possibilidades. Bastava ouvir o canto e estranhar o nome.

Imagem daqui. Um PS: queria ter escrito melhor esse texto, mas no fundo a coisa mais fiel que poderia ter feito era simplesmente deixar aquela ave cantar. 

Murilo Mendes

TEMPO ÍNTIMO

A forma da noite carrega
Lanternas à esquerda e à direita.

Sombrio passante estendeu
As mãos de humanidade
Sobre os campos talados
Gerando trombones de queixas.

Correu para se alcançar.
Para suprimir o descanso à sombra das pirâmides
Para ouvir a confidência vegetal
E ficar simples, anônimo, no universo de contrastes
― O próprio avesso desta criação.


MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.422.

dia mundial da saúde mental

― Parece um diálogo de idiotas ― comentou Traveler.
― De mongolóides puros ― disse Oliveira.
― A gente acha que vai explicar alguma coisa e cada vez é pior.
― A explicação é um erro bem-vestido ― afirmou Oliveira. ― Anote isso.

***

“Longo bate-papo com Traveler sobre a loucura. Falando dos sonhos, demo-nos conta, quase ao mesmo tempo, de que certas estruturas sonhadas seriam formas correntes de loucura, a menos que continuassem na vigília. Quando sonhamos nos é dado exercitar de graça nossa aptidão para a loucura. Suspeitamos, ao mesmo tempo, que toda loucura é um sonho que se fixa.”

CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. 15. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, respectivamente p.332 e  p.459-460.

cisco arisco

Cisterisco é uma mistura de cisco e asterisco.* Um asterisco, mesmo de perto, não passa de um cisco ― cisco da palavra que manda para o rodapé, para o dicionário, para outro texto, na hermenêutica sem fim da busca do sentido. De longe, bem longe, o mais longe que se puder, talvez tudo não passe de cisco, o Universo como uma profusão de ciscos em rota constante de colisão, quem sabe de coalizão, embora um cisco no olho, qualquer que seja o tamanho do cisco e do olho, possa dar algum trabalho, o que joga de novo para a hermenêutica. De todo modo, a distância parece ser um modo confortável para lidar com os ciscos: primeiro pelo senso de proporção que é restituído a tudo; segundo porque, muito perto, o cisco pode invadir o olho, atrapalhando ver o que antes era o objeto a ser visto ― desnecessário lembrar o provérbio bíblico e sua subliminar mensagem hermenêutica. Mais do que isso, o cisco que invade o olho é o peso do objeto na visão do sujeito. Como resistir à tentação de não seguir a trilha do asterisco, dos ciscos ao redor da palavra?

* Fusão intuída livremente numa passagem de Rayuela, é preciso admitir.

domingo, 9 de outubro de 2011

hidropsia

Ler não deixa de ser uma forma de viver vicariamente ― viver por procuração, em linguagem de dia de semana. Valendo-me da imagem do atoleiro proporcionada pelo esplêndido capítulo de O jogo da amarelinha em que Heráclito comparece, a personagem se deixa atolar no lugar do leitor, curando-o da hidropsia sem a radicalidade do método de Heráclito, que afinal curou-se porque morreu. Mas, supremo paradoxo, a melhor ficção que se pode ler/viver não deixa de lembrar ao leitor que os atoleiros em que se meteu, inclusive aqueles que ousou chamar de vida, não passaram de uma ficção barata e de mau gosto. O nosso Horacio, colocando seu hagá hem quase tudo, não deixa de ter hum portenho har de nobreza. Parodiando-o (ou odiando-o, pela inveja meta-física), quando ele diz, em conversa com a Maga, que seus perigos são apenas metafísicos, também se poderia pensar que, ao ler, o que o leitor experimenta são atoleiros metafísicos, dos quais a obra pode ou não içá-lo, dependendo de como lê ― e O jogo da amarelinha é fantástico a este respeito, pois deixa o leitor “livre” para escolher o percurso de leitura que melhor lhe aprouver. Mas, de fato, eu nunca olhei através de um caleidoscópio, talvez eu tenha me atolado só pela metade. 

The Woman With The 5 Elephants (documentário)


Hoje, no Canal Futura, às 19:30. Site oficial do documentário.
Há vários comentários e sinopses na internet, como aqui e aqui.