Esta pergunta pontua o entrecho do conto “O Espelho”,
de João Guimarães Rosa, numa digressão que termina por interpelar o leitor. A
narrativa condensa um percurso assaz complexo rumo a si mesmo, que o narrador
descreve ao leitor uma vez finda a experiência com o espelho. A questão resume a
angústia diante de uma transformação ou percurso existencial complexo que
alguém porventura atravesse. Ia-o conseguindo? No labirinto da vida, é uma
pergunta que se faz, sem que se vislumbre uma resposta. A pergunta ecoa nos
labirintos da própria mente.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
domingo, 29 de abril de 2012
dansa ligeira
“E
aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e
seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da
casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes. E êles negaceavam e
pulavam, numa dansa ligeira, de
sorriso na bôca e faca na mão.”
Rosa,
João Guimarães. A hora e vez de Augusto Matraga. Sagarana. 6.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, p.362-363.
Uma
coisa são os acordos ortográficos, com as modificações na norma de grafia das
palavras; outra é a criação lexical de um autor como Guimarães Rosa, infelizmente
desrespeitada nas sucessivas edições de sua obra. A edição da Nova Fronteira é
bem irregular. Na edição de 2001 de Sagarana
lê-se assim o trecho citado:
“E
aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e
seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da
casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes. E eles negaceavam e
pulavam, numa dança ligeira, de
sorriso na boca e faca na mão.” (p.410)
O
que é lamentável, pois em Guimarães Rosa as palavras querem dansar, na frase
e no universo do leitor, insinuar, no ‘s’, o movimento que elas vivificam...
sábado, 7 de janeiro de 2012
sentimentos confusos
Ao reler o conto “Nenhum, nenhuma”, de Guimarães Rosa, de verve platônica, é inevitável o impacto da cena final:
"E eu precisei de fazer alguma coisa, de mim, chorei e gritei, a eles dois: ― 'Vocês não sabem de nada, de nada, ouviram?! Vocês já se esqueceram de tudo o que, algum dia, sabiam!...'
E eles abaixaram as cabeças, figuro que estremeceram.
Porque eu desconheci meus Pais ― eram-me tão estranhos; jamais poderia verdadeiramente conhecê-los, eu; eu?"
ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p.54.
domingo, 16 de outubro de 2011
ilustração de Poty para Augusto Matraga
Ilustração da 13ª edição de Sagarana, editora José Olympio
Augusto Matraga é marcado por seu inimigo, na descida ao inferno que quase o atirou à morte ― o que não deixa de ser uma morte simbólica ―, com um ferro incandescente contendo um triângulo inscrito numa circunferência. Walnice Nogueira Galvão, no ensaio "Matraga: sua marca" (visualização parcial), observa:
“Muitos e muitos séculos mais tarde, uma personagem de ficção, o Matraga, também saberá transformar sua marca de ignomínia em marca de pertença. Ferrado como rês no quarto traseiro com ferro de ferrar gado, reservado a animal e propriedade, trilhará o duro caminho da penitência e cumprirá em seu destino o sinal numinoso ― triângulo em circunferência ― com que foi marcado. Mas antes de chegar lá, e praticamente a meio caminho, a questão da marca reaparece, com enorme força, no surgimento do fenômeno da estigmatização.” (p.64)
“As duas figuras geométricas, circunferência e triângulo, têm ao mesmo tempo um estatuto igual e oposto. Igual, porque ambas são, a mesmo título, figuras primárias da Geometria Plana. Oposto porque a circunferência, constituída por um número infinito de pontos, enquanto círculo tem tendencialmente um número infinito de lados, e o triângulo o número mínimo possível de lados para constituir uma figura geométrica. Esta igualdade na oposição, e oposição na igualdade, evidentemente não poderia passar despercebida e há séculos perturba a mente humana.” (p.72)
sábado, 15 de outubro de 2011
A hora e vez de Augusto Matraga
Ao tomar conhecimento de uma nova adaptação para o cinema de Augusto Matraga, lembrei o quanto sempre gostei do conto e da fantástica personagem-título, e me senti estimulada a reler a história, afinal o momento é propício (os tais seis meses...). A releitura só fez confirmar a força descomunal de Augusto Matraga (conto e personagem). Três trechos, bem curtos:
“Quando chega o dia da casa cair ― que, com ou sem terremotos, é um dia de chegada infalível, ― o dono pode estar: de dentro, ou de fora. É melhor de fora. E é a só coisa que um qualquer-um está no poder de fazer. Mesmo estando de dentro, mais vale todo vestido e perto da porta da rua. Mas, Nhô Augusto, não: estava deitado na cama ― o pior lugar que há para se receber uma surpresa má.”
“Assim, quase qualquer um capiau outro, sem ser Augusto Estêves, naqueles dois contratempos teria percebido a chegada do azar, da unhaca, e passaria umas rodadas sem jogar, fazendo umas férias da vida: viagem, mudança, ou qualquer coisa ensossa, para esperar o cumprimento do ditado: ‘Cada um tem seus seis meses...’”
“E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar nem por, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.”
ROSA, João Guimarães. Sagarana. 13.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.324-370.
sábado, 16 de julho de 2011
Guimarães Rosa
Na literatura, Dantas, há muito de penoso sacerdócio. É uma posição que se assume muito seriamente, importantemente perante o mundo. Persigo sempre as formas mais altas. Sou um homem de vida ascética. [...] Receio demais os lugares-comuns, as descrições muito exatas, os crepúsculos certinhos.
DANTAS, Paulo. Sagarana emotiva: cartas de João Guimarães Rosa. São Paulo: Duas Cidades, 1975, p. 28.
terça-feira, 28 de junho de 2011
Caetano Veloso: Cajuína
Anterior à pergunta que norteia esta canção, sondando o destino, na belíssima homenagem a Torquato Neto, há outra, formulada pelo narrador-especulador do conto “O espelho”, de Guimarães Rosa: "Você chegou a existir?"
sexta-feira, 11 de março de 2011
o espírito e a letra
Como num comentário recente refiro um artigo de Sérgio Buarque intitulado "O espírito e a letra", a propósito de uma tradução de Thomas Mann no Brasil, vem-me à lembrança um conto de Guimarães Rosa que seria uma tradução/recriação de A montanha mágica. Trata-se de "Nada e a nossa condição", constante das Primeiras estórias. Já ouvi sobre este conto a anedota de que teria sido feito de encomenda por setores progressistas interessados em discutir a questão da distribuição de terras no Brasil. Desnecessário dizer que guardei apenas na memória o registro da anedota. Um professor me disse a respeito: pediram ao cara errado. O que me fez suspeitar da presença de A montanha mágica em "Nada e a nossa condição"? A atmosfera do conto, o espaço, a onomástica, o próprio título estranho do conto, seu desfecho em fogo, em nada. O que dizer de um protagonista chamado Tio Man'Antônio? "Na minha família, em minha terra, ninguém conheceu uma vez um homem, de mais excelência que presença, que podia ter sido o velho rei ou o príncipe mais moço, nas futuras estórias de fadas. Era fazendeiro e chamava-se Tio Man'Antônio. Sua fazenda, cuja sede distava de qualquer outra talvez mesmo dez léguas, dobrava-se na montanha, em muito erguido ponto e de onde o ar num máximo raio se afinava translúcido". Guimarães Rosa parece entrever que no nome Thomas Mann está latente a palavra montanha, e faz ambas confluir em Tio Man'Antônio (quase tio da montanha), o que fica mais claro no último enunciado: "Man'Antônio, meu Tio". [Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p.73-82]
Mas faz bastante tempo que li o conto, de forma que isso é apenas uma impressão superficial. Guimarães Rosa conhecia bem o idioma alemão, o mesmo se passando com Sérgio Buarque, que entrevistou Thomas Mann quando morou em Berlim, em 1929, às vésperas de Thomas Mann ser laureado com o Nobel, confirmando, mediante depoimento do próprio romancista, a mãe de origem brasileira. [HOLANDA, Sérgio Buarque de. Thomas Mann e o Brasil. Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Org. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p.199-204. Entrevista concedida em 18 de dezembro de 1929]
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O espelho cego - Cildo Meireles
imagem obtida aqui
"O trabalho produzido em 1970 apresenta uma textura cinzenta, enquadrada em uma moldura. A observar a peça, o espectador é confrontado com uma massa que, de modo ambivalente, está entre a forma e o informe. Acostumados com a ideia de que um espelho devolva nossa imagem tal como é, vivemos situação similar à do protagonista do conto "O espelho", de Guimarães Rosa. (...) A obra não apenas sugere que o espelho seja cego por ser incapaz de retribuir como esperado pela retina. É a própria visão do espectador que, pela vivência do choque, se vê ameaçada por uma contemplação que provoca tensão na estabilidade do olhar. (...) O espectador, se sustentar o olhar, se perguntará pelos limites da própria percepção, limites que estabelecem uma impossibilidade de deixar fluir a visão. O que está sendo visto, o que pode ser visto? É a própria visão do espectador que percebe seu limite, sua incapacidade de ver. A obra aponta para uma forma de subjetividade que exige atenção. Contrariando as heranças vindas do pensamento cartesiano e do Iluminismo, encontramos aqui a projeção da imagem de um sujeito que não tem condições de organizar a produção do conhecimento. Essa limitação faz com que se volte sobre si, atingido pela própria incompreensão. É um sujeito que, descobrindo uma distância entre sua auto-imagem habitual e inesperadas imprecisões, está aquém de si mesmo."
GINZBURG, Jaime. Cegueira e literatura. In: VECCHI, Roberto; FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Formas e mediações do trágico moderno: uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco, 2004, p.89-90.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
domingo, 28 de novembro de 2010
Lá, nas campinas (Guimarães Rosa)
“Drijimiro andara (…) às vastas terras e lugares. Nada encontrava, a não ser o real: coisas que vacilam, por utopiedade. E esta vida, nunca conseguida. Ia ficando esperto e prático.”
ROSA, João Guimarães. Tutaméia. 8.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.131.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
a vida representada em papel... de teatro
“Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei por achar, era uma só coisa ― a inteira ― cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver ― e essa pauta cada um tem ― mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo que está encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o senhor fizer, o que beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e visível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador ― sua parte, que antes já foi inventada, num papel...”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Círculo do Livro, 1984, p.370-371.
sábado, 6 de novembro de 2010
um sertão chamado Brasil
A inédita viagem feita recentemente ao interior do Brasil ― ao estado de Goiás ― provocou certo bulício em algumas de minhas certezas, conquistadas com persistência e paciência. Acostumada a certa itinerância, já conhecia os estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais (onde residi, em dois períodos intermitentes, por significativos oito anos) e Bahia, além do estado do Espírito Santo, claro, onde nasci e residi até a juventude. Há uma obra versando sobre a dualidade litoral x interior que tem um título curioso ― Um sertão chamado Brasil, de Nísia Trindade Lima. Cito pela riqueza imagética do título. E aí me recordo, num dos eventos que assisti dedicados a Guimarães Rosa, de uma fala do nada ortodoxo Flávio Aguiar, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo, quando contou que naquela prestigiosa universidade os alunos do curso de Letras (literatura brasileira) necessariamente tinham (não sei se ainda têm) que ler Grande sertão: veredas. De forma que havia a brincadeira de sugerir fazer uma camiseta, após passar pela disciplina dele, com os dizeres, nas costas (ou no verso): "Eu li Grande sertão". Uma frase simples, que me vem agora. Não saberia dizer, sem titubear, que li Grande sertão. Obras assim não se dão fácil ao leitor. Peguei para reler no início deste ano, mas como estava muito envolvida com a tese acabei declinando. O fato é que esse interior do interior reavivou em mim Guimarães Rosa, e então eu retorno para a questão do sertão, destacando uma fala da obra citada:
"De espaço geográfico a lugar simbólico de intenso apelo emocional, abordei aqui ― diz a autora ― o sertão de ângulos distintos, mas que indicam quase sempre uma tensão permanente diante dos contrastes, das desigualdades e dos problemas que acompanham o debate sobre a modernidade na sociedade brasileira. Ao longo do trabalho procurei demonstrar que a matriz dualista é parte constitutiva da imaginação social sobre o país, revelando algo mais do que a oposição entre o Brasil moderno e o atrasado [...].” A autora refere-se “à ambivalência dos intelectuais no que toca ao tema da identidade, seja a identidade nacional, seja a sua própria identidade [...]. Daí, que a condição de estrangeiro seja lembrada nas referências à própria intelectualidade, como a esses diferentes 'outros' ― sertanejos, caipiras, pobres, classes subalternas ― que se toma por objeto de pesquisa. Vendo-os como estrangeiros em seu próprio país, é também como estrangeiro que o intelectual se coloca diante da sociedade." [LIMA, Nísia Trindade. Um sertão chamado Brasil. Intelectuais e representação geográfica da identidade nacional. Rio de Janeiro: Revan; Iuperj, 1999, p.207].
Se as representações dos intelectuais em relação a esse “outro” tentam pelo menos ser benevolentes, na medida em que, pelo menos mais modernamente, não se travestem de preconceitos, o mesmo não se pode dizer sobre as representações que fazem de si, entre si, os brasileiros. Carlos Drummond de Andrade, num poema famoso, “Hino Nacional”, decantando todo o azedume da época, inclusive o seu, perguntava/afirmava, ao final do poema: “Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?” Traduzia, com precisa incerteza, a perplexidade primeiro modernista que quis redescobrir o Brasil. A ironia dos versos finais é demolidora acerca de qualquer ilusão de identidade nacional. Não é possível esquecer que Drummond é um dos intelectuais que Nísia Trindade tem em mira, por ver-se estrangeiro na própria terra. Que terra? O Brasil, ora, essa que nos coube habitar.
Hino Nacional
Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.
Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.
Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.
Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...
Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos...
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos...
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?
ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.36-37.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
recados do sertão
Acabo de retornar de uma viagem à Chapada dos Veadeiros, estado de Goiás. O objetivo era fazer um passeio ecológico ― cerrado, quedas d'água magníficas, muita natureza. No segundo dia o corpo cedeu às investidas da dor e do cansaço, e a coisa periclitou. O fato é que quem está mergulhado na literatura por vezes vê as coisas por uma via fortemente imagética. Lembro-me de um professor, oriundo da região do São Francisco, que dizia ter a região onde ele nasceu sentida mais pelas páginas do Grande sertão do que pela memória pessoal. De minha parte, eu estava também atrás de Guimarães Rosa. Quem supõe, procura. Quem procura, encontra, mais do que está buscando. Tudo é muito confuso. Encontrei não uma paisagem, mas um personagem vivo, vivíssimo aliás, saído das páginas de Guimarães Rosa. Na confusão geral de passar mal, e de me assustar deveras com isso, no meio da noite, enquanto todos dormiam, fui sendo atendida por pessoas absolutamente estranhas. Havia um médico na pousada, marido da proprietária, na confusão de tudo as pessoas iam brotando, aparecendo como que por encanto. E esta é uma palavra muito a calhar. Que homem encantador. Eu chorava, de medo, de susto, de mal estar, de tudo. Me sentaram numa cadeira, e enquanto água, chá e remédio eram providenciados, esse médico ia falando, falando, falando, falando, coisas as mais bizarras, mas cheias de uma sabedoria que eu apreendia, mas não conseguiria reproduzir. E de repente, no meio do mal estar e da confusão e do medo, eu fui me dando conta, muito de mansinho, por aquela fala aloprada, que eu estava diante de um personagem saído diretamente das páginas de Grande sertão, e ali eu entendi muita coisa. Que criatura, que ser era aquele? Creio que vivi algo único, que não acontecerá outra vez. Claro que Guimarães Rosa não ia tirar aquela confusão toda que reina em Grande sertão do nada ― agora eu sei disso, de uma maneira muito capciosa, sutil e delicada. Há uma sabedoria estranha nesses confins de Brasil, nesses seres interioranos. É uma pena que minha memória não tenha guardado quase nada daquela fala, das maluquices, das idas e vindas, dos torneios, das brincadeiras misturadas a ditos sérios. Uma vez medicada, fui dormir. No outro dia, mais mal estar, e lá estava o tal personagem, prontificando-se a ajudar novamente, um humor fora do comum. Na volta do posto médico, eu perguntei se ele havia lido Grande sertão, e ele falou que tinha apenas folheado. Então eu comuniquei minha impressão da noite anterior. E esse ser me disse uma coisa fantástica: então você ouviu os recados do sertão. Inacreditável! Só não sei se entendi...
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
amizade pela voz de riobaldo
“Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou ― amigo ― é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 19. ed., 2001, p. 196.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
de um conto de Guimarães Rosa
"O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O."
(Primeiras estórias)
domingo, 26 de setembro de 2010
Nunca é demais lembrar, carece não esquecer
"No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso..."
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Círculo do Livro, 1984, p.66.
sábado, 11 de setembro de 2010
Guimarães Rosa, em entrevista concedida pouco antes de falecer
“[...] mas na mesma hora em que leio tenho de fato paixão por aquilo, gosto imenso, de maneira que entra, deve ter entrado muita coisa. Mas ao mesmo tempo, pobre de mim, entra outra coisa, entra tanta coisa, ficando tudo misturado. O que entra eu junto com... Júlio Dantas, Fernando Camacho, Walter Benjamin, Goethe, Rubem Braga, Magalhães Junior, Machado de Assis, Eça de Queiroz. Nada é alto demais. Nem baixo demais. Tudo é aproveitável. Agora, qualquer coisa que eu leio, se eu gosto, eu começo a colaborar com o que leio, mentalmente, eu estou mudando, aproveitando, vivendo, imaginando...”
CAMACHO, Fernando. Entrevista com João Guimarães Rosa. Humboldt, Rio de Janeiro, vol. 18, n. 37, p. 52, 1978.
domingo, 29 de agosto de 2010
"Nenhum, Nenhuma" - Guimarães Rosa
“As nuvens são para não serem vistas. Mesmo um menino sabe, às vezes, desconfiar do estreito caminhozinho por onde a gente tem de ir ― beirando entre a paz e a angústia.”
João Guimarães Rosa. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p.49.
domingo, 1 de agosto de 2010
bovarismo
"Emma Bovary c'est moi". Esse dito célebre de Flaubert foi repetido à exaustão. A personagem de Emma Bovary foi tão bem pensada que deu origem a um substantivo, "bovarismo", assim definido pelo dicionário: "s.m. (1923) 1 tendência que certos indivíduos apresentam de fugir da realidade e imaginar para si uma personalidade e condições de vida que não possuem, passando a agir como se as possuíssem 1.1 p.ext. faculdade que tem o ser humano de se conceber diferente do que é. ETIM fr. bovarysme, orig. grafado bovarrisme (1865), de Madame Bovary, personagem de G. Flaubert (escritor francês, 1821-1880)." Bovarismo é o equivalente romântico de "quixotesco" (o que não tem nada a ver com a classificação de Madame Bovary como obra realista; em seu fundamento, o texto é romântico). Mas a conversa aqui é outra: numa roda recente, alguém saiu com uma pergunta assaz curiosa: "Você preferia ter sua vida contada por José de Alencar ou Machado de Assis?". Machado de Assis, evidente. Outras duplas equivalentes foram propostas, não me lembro mais quais, mas certamente, se me fosse concedido o luxo de escolher um romancista para contar minha vida, esse romancista seria Gustave Flaubert. Poucas obras me deram mais prazer que Madame Bovary. Fiquei com a impressão de que estava diante de uma dicção literária que beirava a perfeição. Tenho inclusive medo de reler e não confirmar essa impressão. E aqui retomo o dito que abre esse texto: "Emma Bovary c'est moi". Todos trazem, em algum momento da vida, uma Emma Bovary dentro de si, no sentido do inevitável conflito entre as leituras românticas, que impelem para a fantasia, e a realidade, que chama para o chão (na falta de termo melhor). Madame Bovary é uma obra no limiar entre o romantismo e o realismo, ela problematizou ambos. Infelizmente, não me sinto capaz de aprofundar essa discussão, mas isso pouco importa. O que quero frisar é o alcance da obra em termos da encenação de conflitos que transcendem o século XIX: a fantasia das leituras leva para um lado; o mundo, que precisa ser fantasiado, leva para outro. Nesse terreno resvaloso nos movemos. Nem é preciso lembrar o conto Fita Verde no cabelo, de Guimarães Rosa, que tem como subtítulo (nova velha estória), postado neste blog. E que agosto seja bem-vindo.
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