Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 14 de setembro de 2013

Fernando Pessoa: "Ah, sempre no curso leve do tempo pesado / A mesma forma de viver!"

Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de ser enganado
Por crer ou por descrer!

Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!

Saudade, ‘sperança — muda o nome, fica
Só à alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.

Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!

Sempre, ou no dia ou na noite, sempre — seja
Diverso — o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão! 

Fernando Pessoa. Poesia 1918-1930. São Paulo, Companhia das Letras, 2007, p.161.

o que detesto quando digo “eu detesto a Rita Lee”

Naturalmente o que a Rita Lee representa (para mim): uma musiquinha fácil, de supermercado, grudenta; a postura pseudorrebelde; a voz chata dela; o adocicado viscoso de letra e melodia; a autocomplacência burguesa de um gosto musical duvidoso; os sorrisos de comercial de margarina... É preciso, acima de tudo, poder detestar, ter o direito de detestar — algo, alguém, alguma coisa —, porque não há como ficar indiferente às coisas detestáveis.

neil young (onde corre a veia do rock)

embrace (curta)

Costuma acontecer de manhã, quando já estou no ônibus indo para o trabalho. Surpreendo-me rezando o pai-nosso, que às vezes se prolonga numa ave-maria. É então que acontece a quebra. Não sendo mais um gesto rotineiro, quando começo a rezar suspendo o movimento, às vezes junto com a oração, e surpreendo em mim, diferentemente da fé, uma espécie de atavismo, memória do tempo em que rezar era inseparável da vida — e com isso se diz tudo. Que esse tempo era bom não há a menor dúvida. É sempre melhor ter fé do que não tê-la. Então agora tratar-se-ia de uma necessidade da fé? Quase um paradoxo isso, necessidade da fé, já que a fé não admite questão, e quem questiona não consegue simplesmente manter a fé, aquela que nos mantém unidos a uma crença ou religião. Mas não quero aqui começar a raciocinar por hipóteses, nem mesmo tentar racionalizar o meu gesto rotineiro. Ele tem força e dinâmica próprias, impõe-se sobre mim, memória de um tempo em que rezar era tão inquestionável quanto Deus.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

felizmente o rock não tem contraindicações... pelo menos para quem está na outra ponta

dave matthews band - show completo (hartford, maio de 2012)

vício

Os médicos, ao longo dos anos, foram me cortando vários pequenos prazeres do paladar, quando não fui eu mesma que me adiantei. Cada um tinha sua explicação — a ATM (disfunção da articulação temporomandibular), o fígado, o colesterol, por fim o labirinto. Saíram da mesa, mais ou menos nessa ordem, o café, a cerveja, o vinho, o chocolate, o capuccino, o licor... Substituí o chocolate pela canela, no leite, e ficou saboroso. Mas é pouco para tantos sabores que foram subtraídos. Então eu reabilitei o café, expulso há pelo menos vinte anos, porque se trata de poder ter algum vício, e o fiz em grande estilo, porque, já que é um vício, que seja um vício decente.

escravo da alegria

domingo, 8 de setembro de 2013

filosofia - noel rosa (belíssima performance)

noel rosa (curta)

protestos

noite

“Como a noite pode se fazer presente. Feita só de si mesma, é absoluta, cada espaço é seu, impõe-se com sua mera presença, com a mesma presença do fantasma que você sabe estar bem na sua frente, mas está por todo lado, inclusive às suas costas, e caso se refugie num pequeno foco de luz ficará prisioneiro, porque ao redor, como num mar que circunda seu pequeno farol, está a insuperável presença da noite.” (Antonio Tabucchi. O tempo envelhece depressa.Trad. Nilson Moulin. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p.38-39).