Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 29 de janeiro de 2011

Mário Faustino

PRELÚDIO

He was a poet, sure a love too…
Keats, “I Stood Tiptoe”

O que eu sou, quero dizer a mim mesmo
para que venha a sabê-lo pouco a pouco.
Sejam minhas palavras não um canto
impossível agora mas retrato
que socorra e console enquanto espero
e receba o que não posso mais conter.
Pudesse eu celebrá-las, as rosas e as estrelas
cantar a noite o silêncio a morte a música...
porém, porque não amo, o mundo me repele
e vivo aprisionado atrás das pálpebras
à espera condenado, à angústia, ao sono, ao tédio.
Talvez a infância, que é minha... mas nem isso,
que toda coisa ou ser, até lembrança
só se deixa cantar quando se sabe amada. Se não amo,
só me resta esperar, navegando em meu sangue.
Agora, não vos direi paisagens, porém sonhos
jamais saudades, mas desejo e esperança
e da beleza só pressentimento. E falarei da amada
hoje miragem, mas amanhã visita
que trará tudo e encontrará somente
amor e enfim um canto ― de alegria.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.199.

Emily Dickinson: "Paradise is of the option"


O Paraíso é uma escolha.
Os que querem terão
Lugar no Éden não obstante
O Exílio de Adão.


Paradise is of the option.
Whosoever will
Own in Eden notwithstanding
Adam and Repeal.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.196-197.

João Cabral de Melo Neto

Infância

Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem.

Seriam hélices
aviões locomotivas
timidamente precocidade
balões-cativos si-bemol?

Mas meus dez anos indiferentes
rodaram mais uma vez
nos mesmos intermináveis carrosséis.

MELO NETO, João Cabral. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.6-7.

"ímpetos infinitos"

[uma das sequências mais bem feitas do cinema nacional  similar a um capítulo de livro publicado independente como um conto, vale como um curta]

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Eu, Tu, Eles (Andrucha Waddington, 2000)


A música "Esperando na Janela", composta por Gilberto Gil para integrar a trilha sonora do filme Eu, Tu, Eles (segue aqui um comentário) é uma boa surpresa, e dá bem a medida do tom que pontua o filme, uma espécie de dona flor e seus três maridos do sertão, que se deixam engambelar pela astúcia da personagem feminina, Darlene, que vai ludibriando-os, visando sua segurança social e econômica e a realização amorosa. A rigor, o primeiro marido é o provedor, o segundo é efetivamente o marido, e o terceiro é o amante. Nada espantoso para um ambiente de forte estratificação social e delimitação estreita dos papeis e da propriedade, que inclui a posse da própria mulher.

relendo Grande sertão: veredas (IV)

“Por tudo, réis-coado, fico pensando. Gosto. Melhor, para a idéia se bem abrir, é viajando em trem-de-ferro. Pudesse, vivia para cima e para baixo, dentro dele. Informação que pergunto: mesmo no Céu, fim de fim, como é que a alma vence se esquecer de tantos sofrimentos e maldades, no recebido e no dado? A como? O senhor sabe: há coisas de medonhas demais, tem. Dor do corpo e dor da idéia marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio. Vai, mar...”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 37. 

relendo Grande sertão: veredas (III)

“Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem definitivo a noção ― proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranqüilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?! Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente ― dá susto de saber ― e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons... De sorte que carece de ser escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só. Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de jagunços; para outras coisas não fui parido. Mas minha velhice já principiou, errei toda conta. (...) O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. (...) Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório.”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 31-32.

Rubem Braga: ODABEB


Contam de Murilo Mendes que um dia ele ia passando com um amigo por uma rua de Botafogo quando viu uma mulher na janela de um sobrado. Deu uma coisa no poeta, ele se deteve na calçada fronteira, ergueu o braço e gritou:
― Meus parabéns, minha senhora. Está uma coisa belíssima! Mulher na janela! Há muito tempo não se via! Está belíssimo!
A senhora, assustada, fechou a janela bruscamente, achando que estava diante de um louco. Mas o poeta prosseguiu seu caminho com o sentimento do dever cumprido.
Também contam que um bêbado ia pela rua e um enorme jacaré ia atrás dele. Cada vez que o homem entrava em um bar o jacaré gritava: bêbado! Quando o homem saía de um bar para entrar em outro, o jacaré gritava outra vez: bêbado! Até que uma hora o homem perdeu a paciência, agarrou o jacaré pelos queixos e o virou pelo avesso, jogando-o a um canto da calçada. Quando saiu do bar o jacaré lhe disse ― odabeb! ― que é bêbado de trás para diante.
Há outras histórias, mas penso nessa. Não matamos o nosso jacaré, nem nenhum outro bicho; apenas o que fazemos é virá-lo pelo avesso, o que é lamentável, mas ineficiente. E a última mulher na janela foi lá dentro atender ao telefone. Os prédios são altos e se espreitam traiçoeiramente com binóculos na sombra. E como todo mundo tem mais o que fazer, os poetas se tornam incômodos. Virá-los pelo avesso não é solução. Eles não silenciam ― e você, que não entende os versos, pensa que ele não está querendo dizer nada. Mas "se meu verso não deu certo foi teu ouvido que entortou", disse um mestre. Os pintores também foram virados pelo avesso, mas continuam a pintar tudo tão insistentemente que, vendo suas telas, uma pessoa mal informada pode pensar que o mundo é que foi virado pelo avesso.
A classe burguesa levou mais de um século para se abster, e não completamente, de ensinar moral aos seus artistas. A classe proletária começa agora a impor sua moral, em outra fútil e dolorosa campanha.
Dêem-lhe tempo: ao fim de algumas gerações ela obterá centenas de pintores condecorados e acatados, músicos e poetas importantíssimos em suas academias ― mas nenhum artista. O artista, virado pelo avesso, dirá apenas: odabeb. E muitos dos homens felizes consigo mesmos e com sua vida ficarão desconfiados; e alguns ficarão pálidos.

Rio, abril de 1951.

BRAGA, Rubem. Para gostar de ler. Vol. 4. São Paulo: Ática, 1994, p.72-73.

Uma contextualização: esta crônica vem me acompanhando vida afora, conforme o método infalível da leitura assistemática. Devo ter lido pela primeira vez na adolescência, e ela se fixou em minha memória pelo gesto tresloucado do poeta diante da imagem de uma mulher na janela, já então rara. Depois voltei a ela numa turma de ensino médio, mas pouco alcancei. Hoje, num relance, ela me veio à mente, procurei entre os papeis dispersos pela casa e não foi difícil localizar. Reli, e não só percebi o que se adensa ao final como me dei conta do porquê da dificuldade dos alunos. De fato, Rubem Braga apresenta questões sofisticadas numa linguagem própria ao veículo a que a crônica sempre se destinou, o jornal, matizando-se apenas o fato de que outro era o tempo.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

uma sensação nova

O mais estranho é essa sensação nova de liberdade. Eu simplesmente não me importo mais ― com o quê? Com o que a obrigação impõe importar-se. Não sei bem o que é, só sei que não tem mais importância. Minha vida foi adquirindo, ao longo dos anos e das idas e vindas, uma riqueza tão grande, que simplesmente transbordou, e se eu não escrever vou naufragar. Um amigo me disse: escreve, não importa que leiam ou não, escreve. As pessoas que me conhecem pessoalmente sabem pouco de mim: como se a cada um eu desse apenas um fragmento, a alguns mais, outros menos. Mas eu fico de fato impressionada com a facilidade com que algumas delas incorrem na "ilusão realista": com algumas poucas indicações elas supõem me conhecer. Eu rio, claro. 

Tenho um amigo, de longa data, que sempre que me encontra relembra um dito meu do nosso tempo de convívio mais estreito, antes dele se casar e eu me mudar de cidade. Eu falei algo assim: o mundo não tem lugar para ingênuos e arrependidos. Aí que ele me encontra e fala que não esquece o que eu falei, já na versão dele: o mundo não tem lugar para os fracos, ingênuos e arrependidos. Quando falei isso, eu havia acabado de levar bastante na cara, estava escaldada. Mas o curioso é que continuo pensando assim: ingênuos e arrependidos dançam, e não é conforme a música. E olha que sou ingênua. Talvez por isso continue levando na cara ― 2010 foi um primor nesse sentido ―, mas aprendi a bater também, é certo.

A uma outra amiga, recente, eu comentei o seguinte: a página de Agradecimentos da minha tese encolheu em relação à dissertação. Duas possibilidades: eu me tornei mais pessimista; eu me tornei mais exigente. O que me parece, contudo, é que eu me tornei mais livre: a césar o que é de césar, que o restante é da mariana. Não sou fraca, embora me reconheça frágil (há uma diferença sutil entre as duas coisas), e tento não me arrepender do que faço, mesmo porque sou prudente, característica que se acentuou com o tempo. Mas às vezes me arrependo de uma ou outra coisa que escrevo, pecado menor, creio, pois se eu não escrever é pior. 

Quanto à ingenuidade, só com muita precaução e reserva. Por vezes sou tão reservada que as pessoas têm uma imagem bastante infiel de mim, o que não deixa de ser curioso. Entre o que penso saber de mim e o que as pessoas pensam ao meu respeito às vezes vai a distância de um abismo. Mas não será assim com todo mundo? Conhece-se de fato alguém? Ingenuidade seria supor que sim, que é possível conhecer o outro (e talvez daí venham meus maiores equívocos). Quando a percepção se refina, é possível discernir a fronteira, às vezes nítida, às vezes nebulosa, envolvendo o outro. Como conhecer o outro se o eu titubeia em relação a si próprio? Perceber essa fronteira é justamente reconhecer que o outro escapa, assim como o eu é esquivo, e equívoco. Sem essa percepção não se pode falar em amor ou amizade.

Embora esquiva, estou aqui escrevendo, porque estar aqui é um risco que aceitei correr por pura necessidade, sobrepujando a própria timidez e reserva. Sei que isso parece um curto-circuito, um nó, uma teia. E é, também. Mas a contraparte da liberdade eu nunca havia sentido antes, e é das coisas mais primorosas que alguém pode alcançar. Exercer-se nisso, nessa liberdade, é uma dádiva que só quem muito lutou por ela poderá saber o que é.

Paulo Leminski

das coisas
que eu fiz a metro
todos saberão
quantos quilômetros
são

aquelas
em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos
não?

Os melhores poemas de Paulo Leminski. 6.ed. São Paulo: Global, 2002, p.31. 

Syd Barrett - Bob Dylan Blues

[algumas pistas aqui e aqui]

relendo Grande sertão: veredas (II)

“Bem, mas o senhor dirá, deve de: no começo ― para pecados e artes, as pessoas ― como por que foi que tanto emendado começou? Ei, ei, aí todos esbarram. Compadre meu Quelemém, também. Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração. Não é que eu esteja analfabeto. Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória. Tive mestre, Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra-de-três, até geografia e estudo pátrio. Em folhas grandes de papel, com capricho tracei bonitos mapas. Ah, não é por falar: mas, desde do começo, me achavam sofismado de ladino. E que eu merecia de ir para cursar latim, em Aula Régia ― que também diziam. Tempo saudoso! Inda hoje, apreceio um bom livro, despaçado. Na fazenda O Limãozinho, de um meu amigo Vito Soziano, se assina desse almanaque grosso, de logogrifos e charadas e outras divididas matérias, todo ano vem. Em tanto, ponho primazia é na leitura proveitosa, vida de santo, virtudes e exemplos ― missionário esperto engambelando os índios, ou São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Geraldo... Eu gosto muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom caminho, aconselhar o justo. (...) Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre ― o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 30-31.

Hatred (VFS): o ciclo interminável do ódio

Awakening (VFS)

petralhas

Em minha natural boa vontade para com o próximo, e dada minha reclusão recente em virtude do excesso de trabalho, estava um pouco afastada das discussões políticas. Eis que, ao retornar ao mundo, sou surpreendida por um neologismo: petralhas, cuja etimologia não é difícil de rastrear: os famosos irmãos metralhas dos quadrinhos + a sigla do PT. Logicamente, meus interlocutores, leitores assíduos da Veja e que consideram o Reinaldo Azevedo o homem mais inteligente deste país, não deram espaço à contra-argumentação, e é mesmo complicado varar discursos que se erigem como muralhas, numa estranha semelhança fônica com o termo difundido pelos anti-comunistas, anti-terroristas, anti-populistas à espreita de qualquer ameaça de transformação social. Segue aqui a resenha da obra do gênio, aliás assinada por outro suposto gênio e divulgada pelo próprio semanário mais reacionário deste país, em que o gênio pontifica, num páreo duro com o William Bonner e o Jornal Nacional. A edição é da Record, e por aí fica-se sabendo mais um pouco acerca do barulho que houve em torno do prêmio Jabuti de 2010. Tentar ler a Veja é o mesmo que tentar ler Paulo Coelho: insuportável. No entanto, seus colunistas e leitores se supõem as pessoas mais bem informadas deste país, e olham, quando o fazem sem arrogância, os discursos que deles tentam divergir com uma estranha indulgência ou complacência, como a dizer: um dia você ainda vai acordar e se deixar tocar/iluminar pela verdade, por enquanto você está na escuridão, não consegue ver. Não estranha que tal postura lembre os discursos religiosos: estamos no terreno do dogma, não do diálogo. Assim, vele a pena conferir duas posições divergentes, entre tantas: A peculiar democracia paulista e Petralhas são inimigos do sucesso pessoal. Neste último site encontrei uma curiosa enquete, Quem é o maior pensador intelectual da atualidade? Quase deu Reinado Azevedo, e os comentários falam por si.  

Permeiam esses debates e questões disputas seculares, e em surdina, pelo poder no país, não tanto pelos espaços que legitimam os discursos, que estes há aos montes, mas pela própria legitimidade dos discursos. Então, diante do quadro geral e progressivo de rebaixamento da qualidade da educação oferecida no país, torna-se mais fácil a construção de saberes que com ares de verdade, e mesmo aqueles que pretendem desmistificá-los, ou estar acessando a verdade, não se desconfiam como agentes/pacientes de um processo que lhes ultrapassa. O maior problema, ainda, é não desconfiar, é olhar ao redor de si e supor-se seguro acerca do saber que (supostamente) se possui, daquilo que é dado a cada um conhecer. Os que se alinham às forças conservadoras não desconfiam, e seria ingênuo supor que o simples debate vai mudar alguma coisa. Daí eu normalmente me calar e deixar-me passar por tola ou enganada: de uma forma ou de outra, todos estão enganados, não há possibilidade de um olhar objetivo, de fora e isento de tudo, exceto para uma entidade como Deus, mas isso já é outra conversa. Tudo o mais é factível e passível de engano e confusão. Por isso a temeridade daquela sentença: Se Deus não existe, então tudo é permitido, afirmação que, longe de ser religiosa, encerra os próprios dilemas da modernidade, cujo principal movimento foi por tudo em questão, inclusive Deus. Tudo está em questão, e as mudanças de perspectiva não vêm pela boa vontade dos discursos, embora estes possam ajudar aqui e ali: costumam vir por abalos sísmicos que atravessam de fora a fora quem os experencia. Talvez seja esta a diferença posta entre arte e cultura por Godard naquele curta. Um livro de Dostoiévski tem muito maior poder de abalo e transformação que cem livros de sociologia, e por isso as discussões em torno das relações entre arte e política às vezes se tornam tão inócuas. 

No entanto, a disputa por espaços e pela legitimidade dos discursos prossegue, e basta um olhar ligeiro para o cenário atual da crítica literária brasileira para perceber o quanto as disputas em torno dos prêmios literários (se o livro de Chico Buarque mereceu ou não o prêmio Jabuti e tal) envolve disputas de maior envergadura, e essa é uma politização da arte bastante nociva, pois que se sai da esfera do juízo de valor, que nunca é isento, para uma assunção de imparcialidade. Não sei se a emenda melhorou o soneto, mas o fato é que esse espaço não vai mais se furtar à discussão de questões de crítica, falando num sentido abrangente, pelo próprios antecedentes da signatária dos posts. Se alguém se sente autorizado a desqualificar um escritor tendo como horizonte apenas a ideologia dos discursos de que se alimenta, então necessariamente é preciso que se diga que está em jogo um perigoso mecanismo de uso político da arte. 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

29º Bienal de São Paulo (uma tentativa)


Fui conferir, no Palácio das Artes de Belo Horizonte, uma pequena sucursal (aqui) da 29º Bienal de São Paulo (aqui aqui). A proposta parte de um belíssimo verso de Jorge de Lima, "Há sempre um copo de mar para um homem navegar", e pretende discutir as relações entre arte e política. Daí a minha hesitação. Vi coisas por lá que não fizeram pensar em arte, em caráter francamente panfletário, primando pelo mau gosto. A primeira coisa que vi foi esse curta do Godard, que já conhecia, legendado em português lá, em inglês aqui, que faz uma distinção básica e fundamental entre arte e cultura, incidindo em questões que permeiam a cena contemporânea europeia, e que eu, forçosamente, ignoro: o vídeo tem uma intenção política, mas seu texto me escapa em grande parte.



No entanto, do que alcancei do vídeo, considerei-o uma boa moldura, mas o que vinha depois, pelo menos naquela galeria, não encaixava na moldura: eu me sentia por vezes diante de discursos sobre arte e política, ou seja, no campo da cultura, e não diante da arte. Uma das propostas me pareceu, particularmente, um grande equívoco: assim como via de regra não meto a falar da Europa ou de qualquer outro lugar do mundo, a não ser que os conheça pelo menos o suficiente para não incorrer em equívocos, acho muito estranha a facilidade com que certos estrangeiros vêm falar da América Latina ou do Brasil, pecando pela superficialidade e incidindo na estereotipia. É o caso de Jimmie Durham, cujo Bureau for research into Brazilian normality (Centro de pesquisa da normalidade brasileira), apresenta sua “investigação contínua sobre as realidades e os mitos curiosos da cidade de São Paulo e do Brasil em geral”. Na instalação, estão recortes de jornal, revistas, folhetos de todo tipo, fotografias e objetos que, por alguma razão, são característicos do país ou de acontecimentos locais  todos devidamente acompanhados de notas escritas à mão com as observações do artista. Segundo ele, “como todos os regimes americanos colonizadoso Brasil vive numa área que não corresponde exatamente ao mundo real em que se situa. A questão de como, então, ele funciona numa base cotidiana e internacional é merecedora de um estudo detalhado” (aqui). 

Mas que coisa mais interessante! Pesquisar a normalidade brasileira. Como o sujeito que diz tais idiossincrasias (palavra aqui bastante suspeita) é americano de origem, permito-me perguntar se seu país vive numa área que corresponde exatamente ao mundo real em que se situa (se é que alguém sabe explicar o que é isso, a diferença entre o espaço imaginário de uma nação e o espaço efetivamente ocupado). Tanto não vive que vive fazendo suas invasões e intervenções, aqui, ali, lá, acolá. Tudo isso dentro da mais absoluta normalidade americana, para não dizer dentro da nova ordem (norma) mundial. Nada mais anacrônico, portanto, num mundo que guerreou como nunca pela demarcação de fronteiras, e que se viu obrigado a repensá-las. Até quando essa aceitação passiva do que os outros têm a dizer de nós, eu não sei... Deparar-me com essa pérola desanimou-me muito de ver o restante. 

Mas na outra galeria encontrei propostas que atenuaram essa impressão negativa. Havia coisas boas, enquanto proposta estética, e eu me permiti entrar em contato com elas. Uma delas foi esta, da artista plástica Cinthia Marcelle, "Sobre este mesmo mundo": 

"Sobre este mesmo mundo é uma instalação resultante de um apagamento. Abaixo de um longo quadro-negro, montes de pó de giz repousam denunciando tudo que um dia ali já foi expressado. Da mancha branca sobre o quadro, avistam-se versões, dizeres e paisagens deixadas para trás. Apropriando-se de signos da educação formal, a obra subverte a doutrina escolar e reserva à artista a oportunidade de vivenciar produtiva e imaginativamente o 'desaprendizado'. No vídeo Buraco negro (aqui), dois personagens fora de quadro dialogam em sopros e espirros diante de uma porção do mesmo giz. Os diálogos impulsionam diagramas visuais de branco sobre preto e, compartilhados numa pequena sala escura atrás do quadro, mantêm aberta e sem hierarquias a inscrição dos atos de fala e resposta na história" (aqui).

[imagem obtida aqui]

E mais todo um conjunto de propostas boas, não sei se esteticamente boas, discutindo as relações entre arte e política. Uma delas é o vídeo clássico de Clarice Lispector, sua última entrevista dada em vida, em que fala de sua crônica "Mineirinho" (a alusão à crônica aparece apenas no final da entrevista). A escritora mostra-se bastante cética em relação ao potencial de transformação de seu trabalho.


E também Cildo Meireles e o assassinato de Herzog (aqui), bem como outras propostas tendo como foco Herzog e outros assassinatos políticos, aqui e alhures. Ainda, a série de assassinatos de Gil Vicente (aqui). "Há sempre um copo de mar para um homem navegar".

relendo Grande sertão: veredas (I)

“Que o que gasta, vai gastando o diabo dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E alegria de amor ― compadre meu Quelemém diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois ― e Deus. Vi muitas nuvens.”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 27-28.

A rede social

Um lugar chamado Summerhill: O favorito: "Breve comentário sobre A rede social, de David Fincher: É sério que essa apresentação de Power Point disfarçada de filme recebeu oito indicações ao Oscar?"

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Entropy House: Walking the Dirge


a pessoa mais encantadora que conheci ano passado

Tenho o hábito de dormir cedo, mas volta e meia, à meia noite, me acontecem coisas inesperadas. O que fazer? 

Eu entrevi, num episódio muito rápido e intenso que vivenciei, o estranho imponderável  que pontua a vida, e por isso esse post se chama a pessoa mais encantadora que conheci ano passado. Não foi a mais interessante, a mais inteligente, a mais bonita, a mais qualquer coisa que se diz, quando isso é possível, ao se conhecer uma pessoa, pois a frustração também entra no rol das adjetivações. Encantador(a) é outra coisa, é uma raridade. 

A pessoa mais encantadora que conheci ano passado foi um médico que me atendeu numa situação muito delicada, e mesmo eu já escrevi sobre isso aqui, logo que a coisa se deu. Mas como naquele conto "A quinta história", da Clarice Lispector, outras versões são possíveis. Esta é a segunda história. Encontrando-me em viagem ao interior de Goiás, entre o final de outubro e o início de novembro, numa excursão turística à Chapada dos Veadeiros, eis que meu corpo sucumbiu ao esforço, e caí de cama, longe de casa. À meia noite acordo, olho espantada para o relógio, e saio do quarto da pousada em busca de ajuda. Nisso uma vizinha de quarto me vê e pergunta o que tenho, o que me faz imediatamente cair num pranto que dava bem a medida do meu desamparo. Eu não sabia o que eu tinha, mas sabia o que sentia, algo acentuado pelo medo. É incrível minha capacidade de angariar a simpatia de desconhecidos. O auxílio veio, foi brotando gente daqui e dali. Uma dessas pessoas era o médico. Não sei o que ele viu em meu choro, certamente medo, o fato é que ele começou a falar, sem parar, se movimentando e brincando, as coisas mais disparatadas e estranhas, que me pareciam vindas de uma esfera até então estranha ao meu saber, letrado ou não, à minha vivência mais urbana que rural. Alguma coisa que remetia ao universo de Guimarães Rosa. Ali, lá, à meia noite de uma noite chuvosa, entre desconhecidos que cuidavam de mim sem nenhuma obrigação ou interesse, eu estava adentrando alguma fronteira, que só quem chegou perto pode saber o que é. E de repente então eu parei de chorar e percebi o médico, e percebi um ser que eu só posso chamar de encantador. O que se passou ali eu não sei, pouco do que ele disse minha memória reteve. Mas alguma coisa se passou. Fui medicada, e a própria vizinha me levou de volta ao quarto, com todo o cuidado. Aí ela disse uma coisa que tem a ver com esse meu dom de angariar a simpatia de desconhecidos. Ela disse algo assim: você nunca vai estar sozinha. Há uma legião de pessoas no mundo, desconhecidas, incógnitas, inesperadas, surpreendentes. Muitas vezes, esse desconhecimento ajuda mais que a familiaridade. Aliás, A legião estrangeira é o título de um livro da Clarice Lispector.

sessão nostalgia - Always On My Mind (versão Pet Shop Boys)

Carlos Drummond de Andrade: Quadrilha


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Reunião: dez livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p. 19.

polidez

Logo no início de S. Bernardo, Paulo Honório, reconhecendo suas limitações para narrar, afirma: "Ora vejam. Se eu possuísse metade da instrução de Madalena, encoivarava isto brincando. Reconheço finalmente que aquela papelada tinha algum préstimo." (Graciliano Ramos. S. Bernardo. 83. ed. Rio de Janeiro: Record, p.12).

Olhando ao redor a papelada espalhada pela minha casa, reconheço que tive mais sorte que Madalena: ela viveu sob o mando do coronelismo no interior do Brasil, no tempo da República Velha, e o suicídio foi a única saída que encontrou para se livrar de um marido doentio e ensandecido pelo ciúme; eu cresci sob o mando do autoritarismo paterno e militar, parte no interior, parte na cidade, durante os anos de chumbo da ditadura, e por pouco, mas muito pouco mesmo, não entro em um casamento que significaria, senão a morte como a experimentou Madalena, certamente minha ruína pela mutilação dos sonhos e do meu potencial de viver. Até hoje não sei que milagre foi aquele, que me salvou de um destino que poderia ser muito ingrato, mas é certo que houve um milagre. Creio que tinha 18 anos recém-completos, e embora na aparência e nos modos eu fosse pouco mais que uma roceira, meu rio subterrâneo estava o tempo todo em ação.

Pois bem. A papelada continua aqui, mas às vezes ela me parece uma casquinha, uma espécie de verniz de cultura. Sou normalmente polida, trato as pessoas com gentileza e educação, contando com a reciprocidade, é certo. Quando esta não vem, é questão de um simples bye, bye, baby: a vida é preciosa demais para ser desperdiçada com quem admite o desrespeito ao outro como parte do ritual em sociedade. De forma nenhuma. Nesses casos, eu faço questão de lembrar à criatura a existência da papelada, o quanto de sacrifício ela custou, algo que Paulo Honório nunca conseguiu enxergar em Madalena, tal seu utilitarismo capitalista, grosseiro e vulgar. Paulo Honório, evidentemente, aqui, é uma metáfora.

Quadro by Marcela Biasi (amanheceria / amanhã seria)



Javier Bardem

[imagem obtida aqui]

Javier Bardem deve levar o Oscar de melhor ator de novo. Embora Biutiful seja uma produção estrangeira, que aliás concorre nesta categoria, Javier Bardem, que protagoniza o drama, acaba de receber a indicação ao Oscar de melhor ator (aqui). A continuar a tendência à dispersão dos prêmios, em vez de concentrá-los em uma única produção, é grande a chance do angustiado personagem Uxbar bater o queridinho de A rede social.

Biutiful (Alejandro González Iñárritu, 2010)


Biutiful é o que Javier Bardem consegue fazer de Biutiful. Sem o talento polimorfo de Bardem, um ator capaz de encarnar qualquer personagem e conferir-lhe uma forte identidade, o filme talvez não fosse metade do que é. Onde os fracos não têm vez teria a mesma densidade se o assassino fosse interpretado por outro ator? Vicky Cristina Barcelona seria tão empolgante se o espanhol sedutor não fosse otimamente encarnado por Bardem? São questões que podem ser dirigidas a outros filmes em que o ator/intérprete constitui um diferencial, mas no caso de Biutiful essa questão torna-se crucial, dada certa fragilidade do roteiro e a tendência à dispersão que se verifica também em Babel, produção anterior de Alejandro González Iñárritu, um filme regular, se se considerar que segue a trilha aberta por Crash - No Limite, este bem mais contundente e corrosivo.

Biutiful é, assim, um filme imperdível para os fãs de Javier Bardem e do próprio cinema de Iñárritu. A morte, em sua estranha relação com o capitalismo, é, digamos, a grande protagonista. O submundo do submundo do capitalismo assola a existência de um sem-número de pessoas que tentam sobreviver numa metrópole europeia, Barcelona. Desde o início, a morte se insinua, mediante o estranho dom que Uxbal, o personagem de Bardem, tem de se comunicar com os mortos. Sua importância cresce ao longo da narrativa, e diante da morte, Uxbal, um personagem bastante contraditório, mantém uma postura de dor contida (não faz de sua morte iminente um drama lacrimogênico), mas ao mesmo tempo resiste-lhe, como se acreditasse poder sobreviver à doença que o devora aos poucos. No entanto, e isso é fundamental, o pano de fundo do capitalismo parece mesmo sugerir que já estão todos mortos (este, a meu ver, o maior trunfo do filme), de forma que o drama pessoal de Uxbal se repete em muitas outras mortes ao longo da narrativa. Ele por vezes a lamenta, por vezes a contempla como quem também sabe que vai morrer, isso antes mesmo de saber da doença. A cena mais forte me parece aquela em que Uxbal assiste à própria morte, o que, aliás, ele faz desde o início, com seu olhar sombrio e seu rosto cansado. 

não deixa de ser curioso...


Tom Jobim

doodle google de hoje, em homenagem aos 84 anos do compositor 
cantor Tom Jobim, que seriam completados neste 25 de janeiro (aqui).

My French Film Festival (14 a 29 de janeiro de 2011)

Tenho mania daqueles postais publicitários distribuídos nos cinemas, cafés, livrarias etc. Outros admitem manias mais bizarras. Esta é bem inofensiva, e ontem deparei-me com isso:


Conferi o site (http://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/), e a proposta parece bem interessante. Talvez, como acontece como qualquer mostra ou festival, aquele 1% que vale a pena demanda paciência com os 99% que serão fatalmente esquecidos.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

turismo acidental

O turista acidental é um filme já meio antigo, que não tenho certeza se assisti ou não. Para não parecer plágio, cito-o de saída para justificar a expressão que utilizo para falar de coisas que não têm nada a ver com o filme. Apenas calhou bem a ideia de um turismo não programado para remeter a algo bem simples: a cidade do Rio de Janeiro prega peças em quem não a conhece bem, e hoje foi mais um daqueles dias em que me vi fazendo coisas não programadas. Saio do cinema, preciso almoçar (não deu tempo antes), procuro um lugar nas imediações e nada convence muito. Dirijo-me ao metrô, tencionando ir para o Centro, mas está impraticável. Tomo o rumo oposto, de Ipanema, onde consigo encontrar um lugar para comer. Resolvo então fazer diferente, tomar um ônibus até a Presidente Vargas, e aí entra o turismo acidental: passo por lugares desconhecidos, enquanto o ônibus roda. E quanto mais o ônibus roda pela zona sul (e quanto mais vou lá), mais sei que não é por lá que quero morar. Passo pela avenida Copacabana, nem sombra de um rato para assustar a Clarice Lispector. O ônibus roda mais, estou de volta a Botafogo, também não empolga. Pela primeira vez, creio, passo no túnel Santa Bárbara, e do outro lado, já no Centro, descortino, numa região que não conhecia e que fica atrás do Sambódromo, uma igreja que se destaca na paisagem. Em quase todos os lugares por que passei, uma nesga de ruína, uma amostra de paisagem contradizendo o cartão postal. De forma que esse turismo não programado tem me feito grandes favores.

ciclos que se fecham

Fechar um ciclo em Belo Horizonte. Exato. Ou inexato. Há cinco anos atrás, aportava em Minas com alguns livros, minhas roupas e meu computador, tudo isso espremido num carro pequeno, de viagem. Três anos depois, um concurso público me trouxe para o Rio de Janeiro, e pago um frete para trazer meus livros, em maior número, alguns poucos pertences e o computador. E eis que a proximidade da defesa da tese precipita as coisas em mim: Belo Horizonte, a ufmg, a vida intensa que tive por lá, tudo isso, que já estava ficando no passado, agora se mostra em seu contorno de um ciclo. Naturalmente há os imponderáveis, os encontros felizes, as amizades: mas depois da defesa não terei mais vínculos profissionais por lá. Postei esse vídeo no último dia de 2010. É minha melhor tradução para essa coisa rara que estou sentindo, e que sei que é inevitável que passe. Muitas coisas que acontecem comigo acabam adquirindo, na distância do tempo, uma curiosa conformidade.

fazer temeridades acompanhada

― Mari, você roubou mesmo o copo? Pelo jeito acabou tudo bem...
― Roubei.

A expressão fazer temeridades bem acompanhada é da amiga de Belo Horizonte que me pergunta se "roubei" o copo do bar onde estávamos, conforme havia dito que ia fazer. Ela foi embora mais cedo, fiquei com a R., que esqueceu a coisa. Quando estávamos indo embora, eis que saco da bolsa o precioso copo trazido de lembrança do bar orizontino (assim mesmo, sem o h). Ir ao bar é força de hábito e de expressão: quase não tenho bebido, e muitas vezes peço a cerveja sem álcool, só para sentir o gosto desse líquido dourado que adoro. Mas o caso é que essa prática de levar o copo para casa eu conheço de outros bares e carnavais, vendo amigos fazer ou ouvindo-os contar histórias. Nunca havia feito antes, mas como estou fechando um ciclo em Belo Horizonte, achei que merecia a façanha. Na verdade, a amiga empregou a expressão fazer temeridades bem acompanhada, em princípio, para outra coisa: decidir que filme assistir em cima da hora, na rua, comprando um jornal barato qualquer com a programação e sentando no primeiro lugar que encontrar. Já fizemos isso, dentro de um banco, mas não me lembrava mais. Aí que ela me escreve um mail intitulado "temeridades", perguntando pelo copo. Sorte a minha, que tenho boa companhia para fazer temeridades, mesmo ingênuas e inofensivas. Quando estou sozinha, também não é incomum fazê-las, só que não há testemunhas.