Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
Mostrando postagens com marcador sentimentos mínimos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sentimentos mínimos. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
terça-feira, 15 de outubro de 2019
quinta-feira, 7 de setembro de 2017
domingo, 12 de junho de 2016
domingo, 24 de abril de 2016
cena de filme
Gosto muito quando, num filme, o personagem tem
alguma espécie de trégua e fica a contemplar a chuva escorrendo pelos vidros da
janela. A cena se converte no mesmo instante em objeto de desejo para mim:
quero aquele lugar subjetivo. O problema é que, a chuva vindo, não traz consigo
a tranquilidade, ainda que fictícia. Mas eu a prefiro à cena do filme.
sexta-feira, 22 de abril de 2016
às mulheres que continuam lutando
Amanhã uma diarista virá a minha casa fazer parte do
trabalho invisível que me mantém visível ― considerando o restrito mundo em que
me movimento. Na terça, nada desandando, serei ouvida, por uma hora ― provavelmente
menos, porque não aguento ― por uma analista que, por enquanto, tem
garantido... o que exatamente? Não sei. Toda vez que tenho ganas de deixar a
análise sinto o desamparo tomar conta e percebo que, se não ir lá falar, posso
comprometer um delicado equilíbrio psíquico que construí após a queda da última
fronteira que representava minha resistência, meu forte. Até os 40 desbravei sem medo tudo o que apareceu. Eu era mais eu. Depois,
alguma coisa se quebrou nessa confiança inabalável, e pela primeira vez eu
precisei admitir que não continuaria dando conta apenas com a fortaleza que
construí na juventude. Por isso, quando vêm com essa história de “bela, recatada e do lar”, eu digo, ok, meu irmão, todos sabemos
exatamente com quantos Rivotril se faz uma bela ― capaz de encarar
as necessidades da fera. Pobre Marcela. Traidora como o ditoso cônjuge. Para as que continuam lutando, um sol de primavera.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
luto
Queria ter o talento e o humor de Xico Sá. Mas tudo
o que consigo dizer é que sinto tristeza. Sinto que nada será como antes. Tristeza. Paralisia. Sou profundamente solidária a essa mulher que
(ainda) ocupa a Presidência da República. Percebi, desde o começo de 2015, que
alguma coisa podia desandar. E eis que estamos à beira de um colapso. É amargo o
que uma parcela da população brasileira, na qual me incluo, está vivendo. Amargo, triste, sem
esperança. Eu queria não ser muitas coisas. Queria não precisar estar passando
por esse momento. Continuo profundamente solidária a Dilma Rousseff. Boa e Velha
República: uma vez golpista, sempre golpista. Até que um dia, quem sabe, esse
país poderá oferecer alguma coisa de melhor para quem nele, sem escolha, tenha de nascer.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
inocência cruel
Já faz certo tempo que venho censurando em mim
qualquer forma de inocência. Não é um processo consciente. Antes, é uma atenção
muda e tensa aos movimentos ao meu redor. Mas certamente a inocência presente,
aquela que ainda não se revelou como tal, deve escapar ao cerco. E então há a
dor da incerteza em relação... em relação a quê? Pois é, não sei.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
memória
Há um conto de Caio Fernando Abreu intitulado “Pela passagem de uma grande dor”. Pressuposto: a dor, mesmo grande, passa. Quando
passa, costuma deixar cicatrizes, que são marcas da ferida que se fechou. Minha
indagação é: conviver com as cicatrizes deixa a dor, que um dia foram, no
passado? Não. Olhar as cicatrizes não deixa esquecer a dor. A dor, cicatrizada,
não é mais dor. Mas a cicatriz é a memória da dor.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
"Ia-o conseguindo?"
Esta pergunta pontua o entrecho do conto “O Espelho”,
de João Guimarães Rosa, numa digressão que termina por interpelar o leitor. A
narrativa condensa um percurso assaz complexo rumo a si mesmo, que o narrador
descreve ao leitor uma vez finda a experiência com o espelho. A questão resume a
angústia diante de uma transformação ou percurso existencial complexo que
alguém porventura atravesse. Ia-o conseguindo? No labirinto da vida, é uma
pergunta que se faz, sem que se vislumbre uma resposta. A pergunta ecoa nos
labirintos da própria mente.
sábado, 16 de janeiro de 2016
prece espontânea (enquanto preparava o almoço):
― Senhor, me livra de mim, que do resto eu me livro.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
trégua (ou recesso)
Esta é a melhor época do ano ― seu finzinho. Passou o
frisson do Natal, aquela expectativa midiática toda em torno de uma ceia que
poderia descambar em barracos natalinos. Sobreviveu-se aos próprios barracos, com
um arranhão ou outro, que um bom vinho e o analista vão resolver. São cinco
dias sagrados, entre 26 e 30 de dezembro, em que ainda se está em 2015 e ainda
não é 2016. Uma adorável suspensão de (quase) tudo, que permite ao ser
palmilhar a superfície das coisas, sem penetrá-las ou ser muito afetado por
elas. Um mar caribenho em que não se vislumbra qualquer pontinha de iceberg
desmancha-prazeres, porque o clima está ameno, agradável, está um clima
metafórico. No dia 31 começará a contagem regressiva para o novo ano, o Ano
Novo, e será dada a largada a uma nova maratona de sabe-se lá o que. Angústias,
incertezas, previsões e notícias ruins, ataques, mortes violentas, a crise
nossa de cada dia ― enfim, todo o rosário da desgraça humana a que Brás Cubas assistiu
em seu célebre delírio. Mas, por enquanto, nesses breves cinco dias, vive-se o
nirvana do tempo, um parêntese generoso nas (e das) solicitações, demandas e
necessidades.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
S Í N T E S E
O antigo endereço de minha ex-analista (fiasco total)
agora é uma loja de lingerie chamada Intimity.
Da última vez que passei pelo local, estava em promoção a grife Hope.
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
estatísticas
70% vê o governo Dilma como ruim ou péssimo. 80% dos brasileiros quer a queda de Eduardo Cunha. 99,9% da população está
lotando shoppings e centros de consumo popular para as compras de Natal. De 75 a
80% das mulheres adotou o animal print
como elemento do vestuário. 99% dos brasileiros está triste, chateado ou infeliz
com o país, a falta de dinheiro, o desemprego, a inflação, os rumos da economia.
100% dos usuários de ônibus, trens e metrô no Rio de Janeiro mostram expressão
taciturna. O ceticismo e a indiferença são generalizados. O calor,
insuportável.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
o ciclo da natureza
Ontem foi dia dos mortos. Saí para a caminhada
habitual, a recomendada pelos médicos, de fim de tarde. A chuva (também) habitual da
data começou enfim a cair, no momento em que saía. Sendo pouca, prossegui. Mas
logo engrossou, assumiu ares de chuva de finados. Não recuei. Ao contrário,
deixei que a chuva me lavasse e quem sabe levasse um pouco da ansiedade, da
respiração opressa. Já quando retornava, quase chegando em casa, me dei conta
de que aquela mesma chuva estará um dia encharcando o chão onde estarei enterrada.
E senti um enorme sufoco, uma falta de ar, e desejei viver, continuar vivendo,
simplesmente, por muito tempo, enquanto a mim isso for concedido.
Ah!
Procurei
uma palavra sob que me proteger. Pensei na palavra paz. Mas logo percebi o
engodo. A palavra paz não protege, não guarda ninguém. Ela é pequena demais
para isso, escudo impróprio, e tem no centro um enorme a, vogal aberta, vazada, que a tudo dá passagem.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
sexta-feira, 31 de julho de 2015
...que seria do amarelo?
Sou essencialmente melancólica — a vida me parece
quase sempre um circo trágico. Ao mesmo tempo, coexistindo com isso, tenho um senso
de humor constante, que me faz rir do que em princípio poderia parecer sem
graça. Exemplo? Certas passagens de Machado de Assis, como esta, de “O
alienista”: “Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do
amarelo?” Machado está falando de uma coisa séria, e de repente introduz uma
comparação que quebra a seriedade do tema e confirma a falta de sentido da
ciência do alienista, comparação que é, também, muito próxima do senso comum. Deve
ser isso que faz rir, produz a comicidade. E também imaginar o próprio Machado
escrevendo isso, pilheriando com o leitor.
terça-feira, 28 de julho de 2015
oitavo andar
Moro no oitavo andar, como diz a música. Na verdade,
contando o play e os dois pisos de garagem, moro no 11º. Trata-se de imóvel
alugado, cujo contrato, recentemente renovado, encerra-se em 2017. Como o condomínio
do prédio deixa muito a desejar, impõe-se, quando o contrato encerrar, procurar
outro imóvel, maior de preferência. Também alugado. E de novo em andar alto. A maré econômica não está dando trégua, e torna-se remota a hipótese de financiar
um imóvel — as condições (entrada e juros) pegaram o elevador da crise, resposta para quase tudo que está
ruim no país. Aos bancos e aos graúdos que estão no comando da economia do país não
interessa que o brasileiro comum tenha condições facilitadas, humanas, de adquirir
um imóvel. Então se aluga um. De mais a mais, a que (ou a quem) ainda serve o
sonho da casa própria? Que mito se esconde aí? Talvez o de poder bater um prego
na parede sem ter que explicá-lo (depois). Ao diabo todos os proprietários de
imóvel, que impõem, mediante o disfarce da lei, condições azedas a quem
simplesmente quer morar em paz, pagando em dia por isso. Ao diabo.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
vinho
A vida tem qualquer coisa de cansaço, repetição,
monotonia. O jeito é beber vinho, não muito vulgar.
Assinar:
Postagens (Atom)




