Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 28 de março de 2012

para as horas indecisas ― álvaro de campos

Ah, as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.232.

millôr fernandes

o relógio bate para todos

eu?!

À margem de mim o espanto dos dias ― mas poderia ser também à margem dos dias o espanto de ainda ser. Ser? Ou?

domingo, 25 de março de 2012

Murilo Mendes

INSÔNIA

Ao longe um cão branquíssimo latindo
Divide a noite em duas.
Se aquele cão fosse negro
Talvez eu pudesse dormir.

Pressinto uma bomba atômica
Adormecida no bosque.

Vivo ou morto estarei, inculpe ou réu?
Visito-me ao espelho: sem algemas.
Munido de passaporte para este mundo, ou não?

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.952.

Luis Fernando Verissimo: Bárbaros

“A história nos diz, com aquele ar enfarado das velhas professoras, que o Império Romano terminou com a invasão dos bárbaros, e todos sabem quem eram os bárbaros: os hunos, os godos, etc. Poucos sabem que, além dos bárbaros mais conhecidos, muitas hordas menores percorreram a Europa na mesma época, espalhando o medo e a destruição, só mais discretamente. Por exemplo: além dos hunos, havia os úmidos, que atacavam a pé, pois sempre que tentavam montar deslizavam dos cavalos. Sua tática preferida era correr atrás das pessoas e encostar nelas a palma da mão, sempre molhada e pegajosa, provocando gritos de ‘Iecht’ e ‘Iug’ em todo o mundo civilizado. Até hoje existem descendentes dos úmidos e é fácil identificá-los pelo aperto de mão, mole e oleoso, pelo hábito de só falar com a gente com a cara a centímetros da nossa e de insinuar que são assim, ó, com o Maluf.”

Luis Fernando Verissimo. A velhinha de Taubaté. 3.ed. Porto Alegre: L&PM, 1984, p.115.

o silêncio dos livros é mais forte que o ruído do mundo

e cantaram a dor em seus poemas