Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 10 de novembro de 2013

Ricardo Reis

Em vão procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins dadas aos outros
Como hão-de mais que perfumar de longe
       Meu desejo de tê-las?

Poesia completa de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005, p.66.

domingo, 27 de outubro de 2013

sábado, 28 de setembro de 2013

Ricardo Reis

Pobres de nós que perdemos quanto
Sereno e forte nos dava a vida
        O único modo
O único humano de a ter...
        Pobres de nós
Crianças tristes que mal se lembram
De pai e mãe
E andam sozinhas na vida cega
        Sem ter carinhos
        Nem saber nada
De aonde vamos pela floresta,
Nem donde viemos pela estrada fora…
E somos tristes, e somos velhos,
        E fracos sempre…
        Sem que nos sirva.

Poesia completa de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005, p.33.