Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 10 de março de 2012

Manuel António Pina

NA BIBLIOTECA

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

Manuel António Pina. Poesia, saudade da prosa: uma antologia pessoal. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, p.37. 

"e com vocês a pós-modernidade" (de um poema de cacaso)

Nani, a charge on line, 31/01/2012 (aqui)

o poder da palavra

Esta noite sonhei com vermes, aqueles mesmo, que dão em barriga de menino ― e menina. Sonhei que tinha vermes, e via-os, numa cena que me causou profundo nojo. Também sonhei com outras coisas, talvez o fundo indizível de onde brotaram os vermes, talvez já metafóricos. Mas não estava entendendo, até que me lembrei de uma conversa casual que tive ontem à tarde com um colega de profissão. Falávamos de astronomia, do modo como ela ressignificou nossa insignificância ― de um modo totalmente sem precedentes. 

saudade de dostoiévski (doppelgänger)

sexta-feira, 9 de março de 2012

...

poeira ―
irmã do pó ―
resíduo da
perspectiva ―
o que resta
do sopro
de vida.

quinta-feira, 8 de março de 2012

escalada (animação)

Manuel Bandeira

O PARDALZINHO

O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.185.

poesia

Bendito o verso de cada dia.

o que foi feito devera

sonho

No Dia da Mulher permitir-se um pouco de liberdade, a liberdade possível, e tirar um cochilo no meio da tarde. Acordar, já noite feita, e perceber que se sonhou alguma coisa de fundo indizível. 

o direito ao silêncio (trecho de conversa)

"Uma coisa que vinha acontecendo comigo é muito sintomática: como a própria análise vinha se transformando numa DR, eu instintivamente imaginava um interlocutor para as coisas que estavam acontecendo lá. Era meio imprevisível. Vinha um pensamento assim: 'Eu preciso falar sobre isso...' Mas 'isso' era alguma coisa (ou fala) que tinha acontecido lá, na sessão. E, ao sentir necessidade de falar, o interlocutor é como se fosse o analista, mas um outro, sempre outro, que me ouvisse, outro que eu não sei quem é, supostamente alguém que ocupe esse lugar da escuta psicanalítica. Nunca o complemento da frase, com quem?, era a minha analista. Essa situação se intensificou nos últimos dias, a ponto de eu proclamar para mim mesma, esta semana, o direito ao silêncio, porque não aguentava mais falar, falar, falar... e continuar sentindo necessidade de ser ouvida." 

a sede do peixe (para o que não tem solução)

para o que não tem mais razão / a calma do louco ensinou / a dizer nada

quarta-feira, 7 de março de 2012

Ana Hatherly

Quem, se eu gritar
me concede
a profundeza inversa deste céu
que ao fim da tarde
eu vejo da minha janela
contemplando os anjos
que as nuvens imitam?

Alguém me ouve se eu gritar?

Oiço vozes
mas são inventadas
porque é inútil perscrutar o silêncio
e por isso vos reinvento
a cada pancada do meu coração
a cada pancada surda
que não repercute
no ímpeto claro do vosso desenho fantástico
no alado lado da vossa impossibilidade.

Se eu gritar
         alguém me ouve
                        em todas estas coisas?
[...]

Ana Hatherly. Rilkeana. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p.29.

(feliz)(mente) não preciso escolher entre chico e caetano

felizes?

Brasil lidera ranking da felicidade: "O Brasil é tetracampeão mundial de felicidade futura. Numa escala de 0 a 10, o brasileiro (sic) dá uma nota média de 8,6 à sua expectativa de satisfação com a vida em 2015, superando todos demais países pesquisados. A média mundial é 6,7." [FGV/CPS]

cidade ao anoitecer

terça-feira, 6 de março de 2012

é possível

flor da alma

Hoje escutei uma expressão que me foi absolutamente nova: nervos à flor da alma. E alguma coisa floresceu nas nervuras da minha imaginação.

canción por la unidad de latino america

(composição de Pablo Milanés)

João Cabral de Melo Neto

LENDO PROVAS DE UM POEMA

Com Rubem Braga, certa vez,
lia em provas Dois parlamentos.
Na manhã ipanema e verão,
em volta do alto apartamento,
sem que carniça houvesse perto,
sem explicação, todo um elenco
de urubus se pôs a rondar
a cobertura, em vôos pensos:
como se farejassem a morte
no texto que estávamos lendo
e se a inodora morte escrita
não fosse esconjuro mas treno.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.100.

segunda-feira, 5 de março de 2012

João Cabral de Melo Neto

METADICIONÁRIO

Em qualquer idioma ela tem
mesmo e só nome que chamar-se,
incapaz de não decifrar-se
lida ou entendida por ninguém.

Nem mesmo Deus tem a faculdade
de se chamar em qualquer língua:
só a aspirina existe acima
da geografia e seus sotaques.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.135.

a singularidade das mãos

domingo, 4 de março de 2012

posso ser seu amigo?

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

I.19

Mesmo que o mundo mude velozmente,
como nuvens num mosaico,
tudo o que é perfeito tende
de volta ao arcaico.

Sobre a mudança e o andar,
ampla e livre, inda perdura
tua voz que vibra no ar,
ó Deus da lira pura!

Nem a dor aqui se encerra,
nem do amor sabemos a sorte;
nem o temor do exílio da morte,

nada disso está desvendado.
Somente o canto na terra
será santo e celebrado.

RILKE, Rainer Maria. Os sonetos a Orfeu. Elegias de Duíno. Trad. Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.50-51.

easy rider (1969)

Os problemas apontados pela crítica em Easy Rider procedem. O filme vale por três aspectos: Jack Nicholson e a personagem que interpreta (George Hanson), sem dúvida o ponto alto do filme, pela competência de sempre; o diálogo, inserto no meio do filme, entre as três personagens principais naquele momento, em que George declara a Billy e Watty (a dupla de traficantes que segue rumo ao Mardi Gras), sutilmente, não precisar da marihuana (e o que vem depois) para sonhar com um mundo melhor. Na cena, enquanto conversam sobre UFO's e liberdade, seu cigarro apaga e ele nem percebe, e esta é a melhor pista de que a viagem dos outros dois não lhe interessava ― liberdade era outra coisa para ele. O terceiro ponto do filme é seu aspecto de videoclipe de canções dos anos 60, o que não deixa de ser um mérito.

Mário Faustino

...
Gaivota, vais e voltas,
gaivota, vais — e não voltas.

Somem-se os homens, deixam-se os peixes
ir à deriva —
mal se respira
o ar do mundo
e experimenta-se a voracidade
do mar, do fundo
envenenado:
esperma — e mente,
ira — e sorriso,
esperança — e dança.
Alguém traz a mirra,
traz açafrão, azeite, vinagre:
eis o homem disposto, com suas faixas,
ei-lo em templo deposto, entre seus panos.
Maresia, santidade ― que perfume!
Exaure-se a vela de ouro, esgota-se o pavio,
cala-se alguém que não quis beber seu cálice,
alguém que não quis beber,
alguém que não quis
o mar, em vão e nada, o árduo mundo,
gota após gota, anos e anos.
Contemplando o poente, os albatrozes
refletem-se nos elmos derrotados.
Alguém canta o refrão. As algas dançam
no mar de vinho amargo. Xerxes, Xerxes,
açoite após açoite,
agora, enfim, é noite
e esvaem-se os navios.
— É esta, então, a Vera Cidade?
— É essa, Adão, a tua verdade?
Alguém não quis viver,
alguém não quis seu fardo, suas rotas,
alguém entre alcatrazes,
entre peixes vorazes, ser disforme —
santo lume nascente, ou heresia?
Um rei entre santelmos —

(pássaro, pássaro, cala-te, dorme,
Lázaro, Lázaro, vai-te, não voltes.)
...

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.110-111.

train of thought (curta de animação maravilhoso)

reencontro

Um dinossauro do rock trará amigos de Belo Horizonte até mim no final de março. Isso é o bastante para que eu perceba sua chegada ao Chile.