Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 6 de novembro de 2010

Like a Rolling Stone - Bob Dylan (D&AD Student Awards 2008)

“First prize winner, music video for Bob Dylan’s Like a Rolling Stone exploring the theme of metaphorical masks and aliases, both of which are synonymous with Dylan’s work.”  

Once upon a time you dressed so fine
You threw the bums a dime in your prime, didn’t you?
People’d call, say, “Beware doll, you’re bound to fall”
You thought they were all kiddin’ you
You used to laugh about
Everybody that was hangin’ out
Now you don’t talk so loud
Now you don’t seem so proud
About having to be scrounging for your next meal
How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?
You’ve gone to the finest school all right, Miss Lonely
But you know you only used to get juiced in it
And nobody has ever taught you how to live on the street
And now you find out you’re gonna have to get used to it
You said you’d never compromise
With the mystery tramp, but now you realize
He’s not selling any alibis
As you stare into the vacuum of his eyes
And ask him do you want to make a deal?
How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?
You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns
When they all come down and did tricks for you
You never understood that it ain’t no good
You shouldn’t let other people get your kicks for you
You used to ride on the chrome horse with your diplomat
Who carried on his shoulder a Siamese cat
Ain’t it hard when you discover that
He really wasn’t where it’s at
After he took from you everything he could steal
How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?
Princess on the steeple and all the pretty people
They’re drinkin’, thinkin’ that they got it made
Exchanging all kinds of precious gifts and things
But you’d better lift your diamond ring, you’d better pawn it babe
You used to be so amused
At Napoleon in rags and the language that he used
Go to him now, he calls you, you can’t refuse
When you got nothing, you got nothing to lose
You’re invisible now, you got no secrets to conceal
How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Copyright © 1965 by Warner Bros. Inc. Fonte: site oficial de Bob Dylan.

futebol, alunos, bolinhas de papel...

Alunos me perguntam para que time eu torço. Eu, via de regra, desconverso: que que é isso? Para implicar, cito de vez em quando um clube carioca, qualquer um. Alvoroço geral, disputas. Mas não sou uma alienada futebolística, acompanho notícias, e em época de Copa do Mundo a avalanche geral acaba me levando para a frente do televisor. Mas sou pé frio, descobri isso no último mundial. Melhor continuar sem torcer, inclusive para a seleção, o que atualmente não requer qualquer esforço. E por falar em alunos, ontem foi, para todos o efeitos, o último dia de aula. Alguns meninos queriam de todo jeito saber quem era o meu aluno preferido:
― Professora, você me ama?
― Amo sim, claro!
― Então sou eu seu aluno preferido?
Impossível responder uma pergunta dessas sem ser, no mínimo, desonesta. Vou sentir saudades ― dos ditos graciosos, das brincadeiras, das carinhas fofas, dos sorrisos colgate (ano que vem volta tudo, com novos personagens...), da simpatia arduamente conquistada, das minhas ironias com eles, do chumbo trocado quando foi o caso. Porque tem dias que eu estou impossível. Meu Deus, quanta risada eu dei esse ano, na interação com esses alunos. Nem eu sei como a coisa acontecia, entremeada à aula, que também acontecia. Ontem, numa das turmas, a 603, eu fui verdadeiramente desastrada. Não sei mais por que cargas d’água eu recorri a um dito da infância: “Era uma vez uma vaca chamada Vitória...” Nisso sou interrompida por vozes e risos gerais. Uma das garotas chamava-se Vitória, mas eu me esqueci completamente disso. Ela me olhava espantada, entre surpresa e risonha, enquanto todos riam e falavam... No meio do bulício geral, fui ao quadro escrever o restinho, trocando Vitória por Chicória: “Caiu no buraco e acabou a história”. Não cair é um modo de prosseguir a história, na história... Ah, sim, era para explicar a diferença entre numeral, artigo indefinido e pronome indefinido. Creio que muita coisa ficou subentendida, indefinida. Voltando à turma 601, nos últimos 15 minutos de aula, eu tentando fechar o conteúdo, os meninos tomaram conta, jogando-se bolinhas de papel. Impossível explicar qualquer coisa. Por fim, capitulei: viva as bolinhas de papel! Algazarra geral, sem risco de isso ser tomado como pretexto para uma visita ao hospital. Afinal, bolinhas de papel, por aqui, tornaram-se páreo, em popularidade, às bolas de futebol. 

Os obedientes - Clarice Lispector (trecho)

“O modo súbito do ponto cair no i, essa maneira de caber inteiramente no que existia e de tudo ficar tão nitidamente aquilo mesmo ― era intolerável. [...] Deles alguns conhecidos disseram, depois que tudo sucedeu: eram boa gente. E nada mais havia a dizer, pois que o eram. Nada mais havia a dizer. Faltava-lhes o peso de um erro grave, que tantas vezes é o que abre por acaso uma porta. Alguma vez eles tinham levado muito a sério alguma coisa. Eles eram obedientes. Também não apenas por submissão: como num soneto, era obediência por amor à simetria. A simetria lhes era a arte possível.”

LISPECTOR, Clarice. Os obedientes. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.85-86.

Emily Dickinson: "seeds of smiles"

Essas pequenas
gentilezas
como um livro
uma flor
são as sementes
de sorrisos
que vão no escuro
brotar


By Chivalries as tiny,
A Blossom, or a Book,
The seeds of smiles are planted ―
Which blossom in the dark.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.314-315. [Seção Invenções] 

Manfred Mann - Mighty Quinn (Bob Dylan)


"Quinn the Eskimo (Mighty Quinn)" is a 1967 folk-rock song written by Bob Dylan during The Basement Tapes sessions. The song became a hit in 1968 for the British band Manfred Mann, who released it as a single using the title "Mighty Quinn" (Fonte: Wikipédia).

um sertão chamado Brasil

A inédita viagem feita recentemente ao interior do Brasil ― ao estado de Goiás ― provocou certo bulício em algumas de minhas certezas, conquistadas com persistência e paciência. Acostumada a certa itinerância, já conhecia os estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais (onde residi, em dois períodos intermitentes, por significativos oito anos) e Bahia, além do estado do Espírito Santo, claro, onde nasci e residi até a juventude. Há uma obra versando sobre a dualidade litoral x interior que tem um título curioso  Um sertão chamado Brasil, de Nísia Trindade Lima. Cito pela riqueza imagética do título. E aí me recordo, num dos eventos que assisti dedicados a Guimarães Rosa, de uma fala do nada ortodoxo Flávio Aguiar, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo, quando contou que naquela prestigiosa universidade os alunos do curso de Letras (literatura brasileira) necessariamente tinham (não sei se ainda têm) que ler Grande sertão: veredas. De forma que havia a brincadeira de sugerir fazer uma camiseta, após passar pela disciplina dele, com os dizeres, nas costas (ou no verso): "Eu li Grande sertão". Uma frase simples, que me vem agora. Não saberia dizer, sem titubear, que li Grande sertão. Obras assim não se dão fácil ao leitor. Peguei para reler no início deste ano, mas como estava muito envolvida com a tese acabei declinando. O fato é que esse interior do interior reavivou em mim Guimarães Rosa, e então eu retorno para a questão do sertão, destacando uma fala da obra citada:

"De espaço geográfico a lugar simbólico de intenso apelo emocional, abordei aqui ― diz a autora ― o sertão de ângulos distintos, mas que indicam quase sempre uma tensão permanente diante dos contrastes, das desigualdades e dos problemas que acompanham o debate sobre a modernidade na sociedade brasileira. Ao longo do trabalho procurei demonstrar que a matriz dualista é parte constitutiva da imaginação social sobre o país, revelando algo mais do que a oposição entre o Brasil moderno e o atrasado [...].” A autora refere-se “à ambivalência dos intelectuais no que toca ao tema da identidade, seja a identidade nacional, seja a sua própria identidade [...]. Daí, que a condição de estrangeiro seja lembrada nas referências à própria intelectualidade, como a esses diferentes 'outros' ― sertanejos, caipiras, pobres, classes subalternas ― que se toma por objeto de pesquisa. Vendo-os como estrangeiros em seu próprio país, é também como estrangeiro que o intelectual se coloca diante da sociedade." [LIMA, Nísia Trindade. Um sertão chamado Brasil. Intelectuais e representação geográfica da identidade nacional. Rio de Janeiro: Revan; Iuperj, 1999, p.207].

Se as representações dos intelectuais em relação a esse “outro” tentam pelo menos ser benevolentes, na medida em que, pelo menos mais modernamente, não se travestem de preconceitos, o mesmo não se pode dizer sobre as representações que fazem de si, entre si, os brasileiros. Carlos Drummond de Andrade, num poema famoso, “Hino Nacional”, decantando todo o azedume da época, inclusive o seu, perguntava/afirmava, ao final do poema: “Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?” Traduzia, com precisa incerteza, a perplexidade primeiro modernista que quis redescobrir o Brasil. A ironia dos versos finais é demolidora acerca de qualquer ilusão de identidade nacional. Não é possível esquecer que Drummond é um dos intelectuais que Nísia Trindade tem em mira, por ver-se estrangeiro na própria terra. Que terra? O Brasil, ora, essa que nos coube habitar.

Hino Nacional

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes
 dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos
 dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...

Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos...
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.36-37.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Chapada dos Veadeiros - GO


Chapada dos Veadeiros - GO


Chapada dos Veadeiros - GO


Chapada dos Veadeiros - GO


Titãs - Diversão (bons ruídos dos anos 80)

U2 - Helter Skelter

Manuel Bandeira

Soneto inglês nº 1

Quando a morte cerrar meus olhos duros
― Duros de tantos vãos padecimentos,
Que pensarão teus peitos imaturos
Da minha dor de todos os momentos?
Vejo-te agora alheia, e tão distante:
Mais que distante ― isenta. E bem prevejo,
Desde já bem prevejo o exato instante
Em que de outro será não teu desejo,
Que o não terás, porém teu abandono,
Tua nudez! Um dia hei de ir embora
Adormecer no derradeiro sono.
Um dia chorarás... Que importa? Chora.
Então eu sentirei muito mais perto
De mim feliz, teu coração incerto.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.172.

qualquer música

Quando a confusão está muito grande, eu ponho Jokerman para tocar, e sintonizo no verso "Fools rush in where angels fear to tread", de longa data. Não me vejo tola, não presumo anjos, apenas pressinto algo de proteção, prudência quem sabe, no contraste das imagens. A melodia bonita, a voz esganiçada do Dylan, a gaitinha compondo o conjunto encarregam-se do restante. Música acalma, qualquer música, como quer o belo poema de Fernando Pessoa, qualquer, que me tire da alma essa incerteza que quer qualquer impossível calma. Música, a possível calma.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Panis et circenses (Caetano Veloso e Gilberto Gil)


recados do sertão

Acabo de retornar de uma viagem à Chapada dos Veadeiros, estado de Goiás. O objetivo era fazer um passeio ecológico ― cerrado, quedas d'água magníficas, muita natureza. No segundo dia o corpo cedeu às investidas da dor e do cansaço, e a coisa periclitou. O fato é que quem está mergulhado na literatura por vezes vê as coisas por uma via fortemente imagética. Lembro-me de um professor, oriundo da região do São Francisco, que dizia ter a região onde ele nasceu sentida mais pelas páginas do Grande sertão do que pela memória pessoal. De minha parte, eu estava também atrás de Guimarães Rosa. Quem supõe, procura. Quem procura, encontra, mais do que está buscando. Tudo é muito confuso. Encontrei não uma paisagem, mas um personagem vivo, vivíssimo aliás, saído das páginas de Guimarães Rosa. Na confusão geral de passar mal, e de me assustar deveras com isso, no meio da noite, enquanto todos dormiam, fui sendo atendida por pessoas absolutamente estranhas. Havia um médico na pousada, marido da proprietária, na confusão de tudo as pessoas iam brotando, aparecendo como que por encanto. E esta é uma palavra muito a calhar. Que homem encantador. Eu chorava, de medo, de susto, de mal estar, de tudo. Me sentaram numa cadeira, e enquanto água, chá e remédio eram providenciados, esse médico ia falando, falando, falando, falando, coisas as mais bizarras, mas cheias de uma sabedoria que eu apreendia, mas não conseguiria reproduzir. E de repente, no meio do mal estar e da confusão e do medo, eu fui me dando conta, muito de mansinho, por aquela fala aloprada, que eu estava diante de um personagem saído diretamente das páginas de Grande sertão, e ali eu entendi muita coisa. Que criatura, que ser era aquele? Creio que vivi algo único, que não acontecerá outra vez. Claro que Guimarães Rosa não ia tirar aquela confusão toda que reina em Grande sertão do nada ― agora eu sei disso, de uma maneira muito capciosa, sutil e delicada. Há uma sabedoria estranha nesses confins de Brasil, nesses seres interioranos. É uma pena que minha memória não tenha guardado quase nada daquela fala, das maluquices, das idas e vindas, dos torneios, das brincadeiras misturadas a ditos sérios. Uma vez medicada, fui dormir. No outro dia, mais mal estar, e lá estava o tal personagem, prontificando-se a ajudar novamente, um humor fora do comum. Na volta do posto médico, eu perguntei se ele havia lido Grande sertão, e ele falou que tinha apenas folheado. Então eu comuniquei minha impressão da noite anterior. E esse ser me disse uma coisa fantástica: então você ouviu os recados do sertão. Inacreditável! Só não sei se entendi... 

"por ser uma menina má"

professor é quem de repente aprende

O título deste post, evidentemente, é apropriação de um dito conhecido de Grande sertão: veredas, esse livro infinito, que promete o infinito. Hoje reencontrei meus alunos, 6º ano, depois de alguns dias fora, e não pude deixar de notar o quanto criança é diferente, seres cuja presença não pesa. Vejo olhares interrogativos em minha direção, vejo muita coisa. Hoje brinquei bastante. Dia desses, numa das turmas, ao trabalhar poesia, coloquei para tocar a música "Passaredo", de Chico Buarque e Francis Hime, e eles perguntaram: pode dançar? Sim, claro! E muitos começaram a dançar, eu entre eles, alguns vieram dançar comigo, e continuaram na música seguinte. Sequer sei se eles ouviram a letra direito: "Muito cuidado, bico calado, que o homem vem aí / O homem vem aí / O homem vem aí." Vem e estraga tudo. O homem, o ser adulto racional lógico hipotético dedutivo, que vem ocupar o lugar da criança. E eu me sinto assim uma grande privilegiada de estar participando desse restinho de infância deles, que eles ainda não sabem (ou talvez muitos até já suspeitem) que está acabando... que o homem vem aí...