Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 11 de dezembro de 2010

caça ao tesouro


[imagem copiada aqui]

Paulo Mendes Campos: "Para Maria da Graça" (em torno de Alice)

Subtítulo: Depois de encontrar Alice num filme que estava passando na televisão (e que eu não sabia que era do Wim Wenders)... 

Li esta crônica faz bastante tempo, e postei-a nos idos do mês de abril. Ocorre que certa fase de turbulência que atravesso me fez sentir necessidade desse texto, e o trouxe para cá, dezembro. Se parecer ingênuo, lanço mão do próprio texto: nem toda sabedoria precisa ser grave, solene ou altissonante. 

Para Maria da Graça
Paulo Mendes Campos

Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no país das maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca. Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas". Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

Elenco de cronistas modernos. 24.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008, p.126-129. (Recanto das Letras)  

A queda do humano: acerca de "O leitor" (Stephen Daldry)

Assisti a três filmes, A queda (2004), Um homem bom (2008) e O leitor (2008), este o melhor e mais bem pensado deles (do mesmo diretor de As horas), que supostamente estariam mostrando um outro lado do nazismo, seu lado humano, no modo ingênuo e de certa forma inocente com que pessoas ditas comuns se envolveram no projeto macabro de Hitler. O leitor é um filme muito bem pensado. Quem sabe por isso o núcleo opaco do enigma escapa ao personagem masculino. A personagem Hanna, em excelente interpretação de Kate Winslet, é o grande enigma do adolescente apaixonado, do jovem estudante de Direito e, por fim, do homem desencantado, na sequência um pouco óbvia das fases da vida. Ela é o enigma que escapa ao leitor iluminista, informado pela razão e imbuído das melhores intenções. Já na condição de ré, no tribunal, diante do juiz que questiona suas ações de algoz nazista, Hanna rebate (cito de memória): e o que o senhor teria feito se estivesse no meu lugar? Como a dizer: eu estava cumprindo ordens. Boas intenções fracassam, por exemplo ao se perceber o uso político das ilusões das pessoas, seja de que ordem for. O melhor da literatura moderna (penso principalmente na romanesca) mostra que para além (ou aquém) da cultura subsistem questões da mais alta relevância, como os fins da instrução. O leitor é, finalmente, o fracasso da leitura que confia apenas nos próprios recursos, na letra. Fascinado pela mulher enigmática, o adolescente lê de modo apaixonado para ela, mas não consegue ler o óbvio. É como se a geração que cresceu sob o nazismo, diante do silêncio quase absoluto de seus pais, estivesse finalmente devolvendo para eles: toda a riqueza de nossa cultura, todos os nossos livros não foram bastante para que enxergássemos o que estava diante de nossos olhos, menos ainda, o que é pior, para impedir o horror. Horrorizado diante do que descobre, o homem descobre também que sua vida é um enigma. Persiste o núcleo opaco, resistente às suas tentativas de entendimento e penetração. Então a literatura surge como um sucedâneo que aplaca a angústia de não entender o enigma da própria vida. Uma pergunta decisiva na vida de todo mundo poderia ser: onde estarei daqui a 10 anos?


O Rio de Janeiro continua lindo...

O Rio de Janeiro, à noite, para quem vai ou volta pela Grajaú-Jacarepaguá, parece permanentemente enfeitado para o Natal. Uma visão antropológica... Fico pensando onde caberia, na trinca carnavais-malandros-heróis do Roberto da Matta, os novos atores surgidos com a modernização da cidade e a reconfiguração da geografia do crime. De qualquer forma, a visão é poderosa.

Rainer Maria Rilke

O CISNE

Este sacrifício de avançar
pelos feixes do irrealizado
lembra um cisne, altivo a caminhar.

E a morte ― esse nada mais buscar
do chão diariamente repisado ―
lembra a sua angústia de pousar

sobre as águas que o recebem mansas
e cedem sob ele, em suaves tranças
de marolas que cercá-lo vêm;
enquanto ele, calmo e independente,
segue sempre majestosamente
como ao seu próprio capricho lhe convém.

RILKE, Rainer Maria. Poemas. Trad. Geir Campos. São Paulo: Luzes no Asfalto, 2010, p.57.

Monte Negro - Give Me Love (No Llores)

Once Upon a Time in Mexico


Era uma vez no México tem uma coisa de bom: Johnny Depp. Para quem encontrou mais coisas, um comentário inspirado aqui.

menudos americanos


[não é "sessão nostalgia", é o tédio do sábado mesmo; o pop tem disso, a gente esquece completamente, e um belo dia dá de cara com o nome da banda num site]

Edgar Allan Poe e a brevidade do escrito moderno

“O progresso realizado em alguns anos pelas revistas e magazines não deve ser interpretado como quereriam certos críticos. Não é uma decadência do gosto ou das letras americanas. É, antes, um sinal dos tempos; é o primeiro indício de uma era em que se irá caminhar para o que é breve, condensado, bem digerido, e se irá abandonar a bagagem volumosa; é o advento do jornalismo e a decadência da dissertação. Começa-se a preferir a artilharia ligeira às grandes peças. Não afirmarei que os homens de hoje tenham o pensamento mais profundo do que há um século, mas, indubitavelmente, eles o têm mais ágil, mais rápido, mais reto, mais metódico, menos pesado. De outro lado, o fundo dos pensamentos se enriqueceu. Há mais fatos conhecidos e registrados, mais coisas para refletir. Somos inclinados a enfeixar o máximo possível de ideias no mínimo de volume, a espalhá-las o mais rapidamente que pudermos. Daí nosso jornalismo atual; daí, também, nossa profusão de magazines.”

POE, Edgar Allan. Ficção completa, poesia e ensaios. Tradução, organização e notas Oscar Mendes, com a colaboração de Milton Amado. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001, p.989. 

Graciliano Ramos: trecho de entrevista concedida a Homero Senna

Casado duas vezes, Graciliano tem seis filhos e duas netas. Pergunto-lhe se costuma ajudar a mulher em casa, e ele se espanta:
Já faço muito em pagar as despesas... Aliás, tenho horror a compras. E quando ouço o telefone, tranco-me.
Aos domingos, o que costuma fazer?
― Em geral escrevo pela manhã e à tarde durmo.
O autor de Vidas secas não faz visitas, não vai a concertos nem a conferências e não gosta de música. Tem, entretanto, um velho hábito: vai diariamente à Livraria José Olympio, na Rua do Ouvidor, e fica lá várias horas, num banco que já é quase propriedade sua, localizado no fundo da loja.
― Muitas vezes vou lá dormir ― esclarece-me. ― Mas aparecem amigos, conhecidos, e toca-se a conversar.
Em virtude desse hábito, muita gente pensa que Graciliano dá a vida por um “papo”. Ele, porém, desfaz-me essa impressão:
― Quase sempre converso forçado, porque chegam pessoas. Mas na verdade muitos dias preferiria ficar quieto, sem trocar palavra. Também é fato que lá aparecem bons amigos, desses que a gente revê com prazer. De um modo geral, porém, sou uma vítima dos cacetes.

SENNA, Homero. República das letras: entrevistas com 20 grandes escritores brasileiros. 3.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p.208-209. [1944] Homero Senna informa em nota que o referido banco, por doação do editor da José Olympio, encontra-se hoje na Fundação Casa de Rui Barbosa, Centro de Literatura Brasileira, e é conhecido como “o banco do velho Graça”. 

A descoberta do mundo: Clarice Lispector

Ocorreu-me uma ideia nem tanto bizarra. O livro de crônicas de Clarice Lispector, A descoberta do mundo, poderia ter sido um blog. A nota introdutória adverte: "Este livro reúne, em ordem cronológica, as contribuições de Clarice que apareceram aos sábados no Jornal do Brasil, de agosto de 1967 a dezembro de 1973. Julgamos que seria importante oferecer ao leitor esta visão geral, que de outra forma ficaria dispersa, destes textos que não se enquadram facilmente como crônicas, novelas, contos, pensamentos, anotações." O livro está organizado por anos e sábados, digo, datas. Por exemplo: 19 de agosto de 1967, sua estreia, uma coluna já toda em fragmentos, com pequenos trechos, como este, intitulado "A surpresa": 

"Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência. Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo." (p.23)

Imagino Clarice Lispector falando de música (ela que amava tanto a música, como uma necessidade para a vida) e de repente postando um vídeo do youtube que traduzisse aquele seu momento. Ou então, tendo à sua disponibilidade a internet e seu relativo anonimato, e não apenas os sábados de um jornal então importante de circulação nacional, as liberdades maiores que se permitiria, ou mesmo uma maior frequência nos escritos. Ela tantas vezes admitiu estar escrevendo de madrugada enquanto os outros dormiam... Ninguém está impedido de imaginar nada, e então eu imaginei a Clarice Lispector des-cobrindo o mundo via internet. Para quem desejar descobrir o mundo de Clarice Lispector, segue a referência completa: A descoberta do mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. Nas melhores livrarias.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Enigmático

copiado aqui

NO LIMITE


A mímica consiste em inventar distâncias, de preferência da ordem de anos-luz. Uma coletividade atravessada pela violência, que bem pode ser a nossa, não tolera o humor, o riso gratuito. Está sempre inquirindo, julgando, pedindo contas, assediando das mais diversas formas, restringindo, em última instância, a pouca liberdade que se tem. Pior que a polícia são os que a aplaudem, pois assumem como pressuposto exatamente a intolerância. Na dúvida, é melhor manter-se à distância, buscando refúgio onde o humor ainda seja possível. Isso é apenas uma divagação inspirada por uma das cenas mais violentas do filme em tela, em que a violência reside na gratuidade com que se elimina o outro.  

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

sentar-se no "café" do post

Um comentário recente num post de um poema de Manuel Bandeira, sentei-me um pouco aqui no post "do café" (aqui), trouxe-me a sugestão de pensar no post como uma parada num café, como a conter (nos dois sentidos), ainda que momentaneamente, o fluxo do caos, em que esse caos encontre alguma expressão tangível, inteligível. Imaginar na escrita de um post (ou na sua leitura, ou mesmo na leitura do que quer que seja) certo imponderável de quem se coloca na pausa, no contrafluxo; imaginar certa gratuidade no gesto de ler e escrever, como quem se senta em um café para nada, para simplesmente subtrair-se ao turbilhão da vida, à agitação frenética das pessoas. Sentar-se no post do "café", sentar-se no "café" do post, pelo menos no meu caso, e nos últimos tempos, não deixa de ser um exercício em que encontro um respiradouro para o turbilhão. Livrarias não costumam dispensar seus cafés, por vezes charmosos, como também se tornou metáfora corrente café literário, ou café filosófico. Pois este post quer ser apenas isso: a gratuidade do gesto de escrever. Eu, que sou tão porosa, e preciso tanto da escrita. 

sessão nostalgia - Duran Duran (Save a Prayer)

Nasa encontra nova forma de vida em lago na Califórnia

Fonte da imagem (aqui). 
Lembra mais uma paisagem pré-histórica que um prognóstico futurista.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Um Homem Bom (Alemanha, Vicente Amorim, 2008)


Um homem bom (Good, no original), mais que mais um filme sobre o universo nazi, é o relato cruel da falência do humano. Aparentemente movido pelas melhores intenções, e não desconfiando a que fins poderiam estar servindo suas ações (seria ingenuidade?), o protagonista, misto de professor e intelectual, vai, aos poucos, sutilmente, envolvendo-se numa trama que não tem nada de bondade, movido, em princípio, pelo desejo de mudar de vida. "John Halder, aliás, é o grande mérito e o grande problema de Um homem bom. Mérito porque a atuação de Viggo Mortensen é muito boa. [...] Problema porque Halder não é um homem bom pelo que faz (ou deixa de fazer, no caso). O que o torna bom aos olhos do espectador é somente a atuação de Mortensen. Cada decisão que ele toma afeta a vida de todos à sua volta. A apatia dele é quase um disfarce. Halder não aguenta mais a vida em família e troca a esposa por uma loira novinha, a esposa ariana exemplar. Cuidar da mãe também é complicado, então ela volta a morar sozinha. E o nazismo? Hitler é uma piada rápida, vai passar. Que matança de judeus o quê? Então Halder entra para o partido nazista e é promovido na universidade. Seus filhos estão tão orgulhosos! Enquanto sua vida melhora, a dos outros colapsa. Quando seu grande amigo Maurice, um judeu, precisa de sua ajuda para fugir do país, Halder fica com medo de se encrencar e não faz nada. Não há necessidade de fugir! Está tudo tão bem. Logo Hitler cairá." (aqui). O comentário resume bem o perfil do protagonista: não há nada de especificamente bom nele, sua bondade é aquela comum, de todos os dias, que torna a vida tolerável. Ele é apenas um trabalhador de vida pacata que de repente percebe uma chance de melhorar suas condições de vida. Se em princípio nenhum de seus passos pode ser recriminado, pois o move esse desejo tão comum às pessoas, de ascensão social, por outro lado, ele, cegamente, vai galgando postos sem questionar muito onde isso o levará e quais as consequências de suas escolhas sobre os que estão à sua volta. Os piores regimes e totalitarismos se alimentam do humano mesmo, não são uma exceção a ele. Mete medo pensar nas consequências disso, a que se está servindo no fim das contas.

omelete

Pelas chamadas das revistas, é possível acompanhar o desenrolar das novelas da televisão. As revistas sempre antecipam o que vai acontecer, uma forma de assistir as novelas à distância, mantendo-as à distância. Mas o mais curioso são as chamadas: crimes, mortes, assassinatos, roubos, toda sorte de ardis para se conseguir o que se quer. O tempo todo vilões de quinta categoria, personagens mal construídos, maquinam mal o mal, criando uma estereotipia perigosa. Além do reducionismo que acusa pobreza de imaginação, é interessante observar que o público se alimenta de doses equivalentes de sexo e violência, violência que adentra as casas com o pleno assentimento das pessoas. A pobreza de imaginação é tão grande que, na atual novela das nove, Passione, uma das vilãs se chama Clara e sua principal oponente, Gemma. As mesmas pessoas, depois, vão reclamar do excesso de violência das ruas.

alguma ordem está fora da coisa

"traduzir aprende-se traduzindo" (Paulo Rónai)

Há um blog que sigo, que descobri inteiramente por acaso, nomeado não gosto de plágio, e que presta um enorme serviço de utilidade pública, não só ao confrontar traduções e tradutores, como ao discutir o ofício da tradução. É o que se passa no post que reproduzo a seguir, remetendo para aqui:

encontro hoje uma encantadora palestra de paulo rónai, nos idos de 1985, no departamento de letras da universidade federal do paraná. gosto muito e partilho dessa visão da tradução como ofício artesanal.

Traduzir aprende-se traduzindo. Os artesões de antigamente formavam-se como aprendizes ao lado de um mestre, com quem passavam longos anos. É muito difícil encontrar um mestre tradutor que aceite aprendizes. Os cursos de tradução ensinam os conhecimentos básicos indispensáveis ao métier, mas o modo de fazer é objeto de aprendizado individual. Cada tradutor deve ser seu próprio mestre. Ele mesmo deve inventar seus exercícios, confrontar um original com alguma tradução impressa, comparar a sua própria tradução com uma dessas versões, justapor duas ou mais versões do mesmo texto, organizar sua relação de falsos-amigos, de expressões idiomáticas, de equivalentes sintáticos. É preciso resignar-se à gratuidade desses exercícios antes de se atrever a fazer traduções remuneradas. O lema horaciano – Multa tulit fecitque puer, sudavit et alsit ("muito fazer e suportar em jovem, suar e tremelicar") – aplica-se ao tradutor como a ninguém.

a palestra foi publicada pela revista letras, n. 34 (1985), às pp. 186-195, com o título cascas de banana no caminho do tradutor. Disponível aqui.

Fecha aspas. 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Emily Dickinson

Muita Loucura faz Sentido ―
A um Olho esclarecido ―
Muito Sentido ― é só Loucura ―
É a Maioria
Que decide, suprema ―
Aceite ― e você é são ―
Objete ― é perigoso ―
E merece uma Algema ―


Much Madness is divinest Sense ―
To a discerning Eye ―
Much Sense ― the starkest Madness ―
‘Tis the Majority
In this, as All, prevail ―
Assent ― and you are sane ―
Demur ― you’re straightway dangerous ―
And handled with a Chain ―

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas, SP: Ed. Unicamp, 2008, p.44-45.

assim a vida fica melhor

Mari, tenho pensado muito muito em você esses dias. Queria muito conversar. [................................................................................................................................................................................................................................] (trecho inaudível).

E você???

Nem tive tempo de ver o vídeo...

Beijo grandão.

Fernanda.

enciclopédia itaú cultural de artes visuais: Cildo Meireles

Digitais, 1973
Fonte: Itaú cultural.

enciclopédia itaú cultural de artes visuais: Cildo Meireles

Inserção em Circuitos Ideológicos - 3. Projeto Cédula, 1970 - 1976 
Fonte: Itaú Cultural.

enciclopédia itaú cultural de artes visuais: Ismael Nery

Amparo, 1927

enciclopédia itaú cultural de artes visuais: Candido Portinari

Criança Morta, 1944
Fonte: Itaú Cultural.

enciclopédia itaú cultural de artes visuais: Poty

[Ilustração do livro Canudos], s.d. 
CUNHA, Euclides da. Canudos. Ilustração Poty. Rio de Janeiro: Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, 1956. 
Fonte: Itaú Cultural.

enciclopédia itaú cultural de artes visuais: Poty

[Ilustração do livro Sagarana], s.d. 
ROSA, João Guimarães. Sagarana.14ª edição. Ilustração Poty. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. Fonte: Itaú Cultural.

enciclopédia itaú cultural de artes visuais: Hugo Adami

Pássaros, 1982
Fonte: Itaú Cultural

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

a bela e a fera

"Ela uma vez vira uma amiga inteiramente de coração torcido e doído e doido de forte paixão. Então quisera nunca a experimentar. Sempre tinha medo das coisas belas demais ou horríveis demais: é que não sabia em si como responder-lhes e se responderia se fosse igualmente bela ou igualmente horrível. Estava assustada como quando vira o sorriso de Mona Lisa, ali, à sua mão no Louvre. Como se assustara com o homem da ferida ou com a ferida do homem. Teve vontade de gritar para o mundo: 'Eu não sou ruim! Sou um produto nem sei de quê, como saber dessa miséria da alma.' Para mudar de sentimento ― pois que ela não os aguentava e já tinha vontade de, por desespero, dar um pontapé violento na ferida do mendigo ―, para mudar de sentimentos pensou: este é o meu segundo casamento, isto é, o marido anterior estava vivo." 

LISPECTOR, Clarice. A bela e a fera ou a ferida grande demais. In: ___. A bela e a fera. 5.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, p.113. 

anagrama

Toda vez que vou escrever alma, meus dedos se confundem e vai saindo lama.

WikiLeaks e os “segredos” diplomáticos dos Estados Unidos

Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer.
E com isto já to disse
Estavas farta de o saber...

(Fernando Pessoa, Quadras, I.79, p. 30)

De: Fernando Pessoa Para Todas as Ocasiões (aqui).

Murilo Mendes

Janela do caos

1

Tudo se passa
Num Egito de corredores aéreos.
Numa galeria sem lâmpadas
À espera de que Alguém
Desfira o violoncelo
― Ou teu coração?
Azul de guerra.

2

Telefonam embrulhos,
Telefonam lamentos,
Inúteis encontros,
Bocejos e remorsos.

Ah! Quem telefonaria o consolo,
O puro orvalho
E a carruagem de cristal.

3

Tu não carregaste pianos
Nem carregaste pedras,
Mas na tua alma subsiste

― Ninguém se recorda
E as praias antecedentes ouviram ―
O canto dos carregadores de pianos,
O canto dos carregadores de pedras.

4

O céu cai das pombas.
Ecos de uma banda de música
Voam da casa dos expostos.

Não serás antepassado
Porque não tiveste filhos:
Sempre serás futuro para os poetas.
Ao longe o mar reduzido
Balindo inocente.

5

Harmonia do terror
Quando a alma destrói o perdão
E o ciclo das flores se fecha
No particular e no geral:
Nenhum som de flauta,
Nem mesmo um templo grego
Sobre colina azul
Decidiria o gesto recuperador.

Fome, litoral sem coros,
Duro plano da morte.
A terra abre-se em sangue,
Abandona o branco Abel
Oculto de Deus.

6

A infância vem da eternidade.
Depois só a morte magnífica
― Destruição da mordaça:

E talvez já a tivesses entrevisto
Quando brincavas com o pião
Ou quando desmontaste o besouro.

Entre duas eternidades
Balançam-se espantosas
Fome de amor e a música:
Rude doçura,
Última passagem livre.

Só vemos o céu pelo avesso.

7

Cai das sombras da pirâmide
Esse desejo de obscuridade.
Enigma, inocência, bárbara,
Pássaros galopando elementos.
Do fundo do céu
Irrompem nuvens equestres.
Onde estão os braços comunicantes
E os pára-quedistas da justiça?
Vultos encouraçados presidem
À sabotagem das harpas.

8

Que esperam todos?
O vento dos crimes noturnos
Destrói augustas colheitas
Águas ásperas bravias
Fertilizam os cemitérios.
As mães despejam do ventre
Os fantasmas de outra guerra.

Nenhum sinal de aliança
Sobre a mesa aniquilada.

Ondas de púrpura,
Levantai-vos do homem.

9

Penacho da alma,
Antiga tradição futura:
?Se a alma não tem penacho
Resiste ao Destruidor?

10

A velocidade se opõe
À nudez essencial.
Para merecer o rompimento dos Selos
É preciso trabalhar o coroa de espinhos,
Senão te abandonam por aí,
Sozinho, com os cadáveres de teus livros.

11

Pêndulo que marcas o compasso
Do desengano e solidão,
Cede o lugar aos tubos do órgão soberano
Que ultrapassa o tempo:
Pulsação da humanidade
Que desde a origem até o fim
Procura entre tédios e lágrimas.
Pela carne miserável,
Entre colares de sangue,
Entre incertezas e abismos,
Entre fadiga e prazer.
A bem-aventurança.
Além dos mares, além dos ares,
Desde as origens até o fim,
Além das lutas, embaladores,
Coros serenos de vozes mistas,
De funda esperança de branca harmonia
Subindo vão.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.436-439.