Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 16 de julho de 2010

imagem rara de uma estrela envelhecida

Imagem feita pelo telescópio espacial Hubble mostra os últimos momentos de uma estrela, na constelação do Cisne, a 15 mil anos-luz da Terra 
Uol Notícias AFP/Nasa/ESA/Hubble

quinta-feira, 15 de julho de 2010

de um texto intitulado "Delicadeza" (Maria Rita Kehl)

A dificuldade de pensar sobre os últimos acontecimentos envolvendo um jogador de futebol e seus comparsas no aparente assassinato ― brutal e grotesco ― de uma mulher, com quem este jogador teria tido um envolvimento e um filho, levou-me a uma coletânea de ensaios intitulada A condição humana. Trata-se de um livro resultante dos ciclos de conferências organizados por Adauto Novaes, em que intelectuais são chamados, dentro de suas especialidades, a posicionar-se sobre um determinado tema em debate. Pois bem. Os acontecimentos referidos, nos lâmpejos e contradições que os depoimentos conseguem fornecer, sinalizam uma brutalidade definitivamente não assimilável, e mesmo complicada de ser posta em discurso. Trata-se de algo que a consciência repele, que a linguagem não nomeia, exceto se se quiser cair na banalidade do mal. No conjunto dos textos, um chamou-me de imediato a atenção - a palestra proferida pela psicanalista Maria Rita Kehl, intitulada "Delicadeza", cujos parágrafos iniciais transcrevo. Abre aspas:

"Por que escolhi a delicadeza como parte essencial da condição humana? Por não ser uma qualidade intrínseca do humano. Isso é justamente o que a faz necessária. A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado ― daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza.

Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama ― pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força  é um gozo ao qual poucos renunciam. Além disso, o homem é capaz de indiferença, essa forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele ― por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade ―, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo.

O cientista político Renato Lessa, autor nesta mesma coletânea, utilizou o naufrágio como metáfora do humano em nossos tempos. Proponho acrescentar a essa a metáfora do atropelamento, que expressa perfeitamente a relação do sujeito contemporâneo com o tempo. Não por acaso a palavra já está incorporada à linguagem cotidiana para expressar os efeitos da pressa sobre a subjetividade. Dizemos, com frequência, que fomos atropelados pelos acontecimentos ― mas quais acontecimentos têm poder de atropelar o sujeito? Aqueles em direção aos quais ele se precipita, com medo de ser deixado para trás. Deixamo-nos atropelar, em nossa sociedade competitiva, porque medimos o valor do tempo pelo dinheiro que ele pode nos render [...].

A velocidade normal da vida contemporânea não nos permite parar para ver o que atropelamos; torna as coisas  passageiras, irrelevantes, supérfluas. [...] Corremos na intenção de não perder nada e perdemos o essencial: o desfrute do próprio caminho. A vida, no entanto, não é exatamente isso, travessia?" 

KEHL, Maria Rita. Delicadeza. In: NOVAES, Adauto (Org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC, 2009, p. 453-454.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bandeira

Nietzschiana

― Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
― Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.

Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 162.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Leraning to Fly (Pink Floyd): "A soul in tension that's learning to fly"


hoje é dia mundial do rock!

Fonte da imagem: Acid Fingers 
(ouça o melhor do rock na Rádio UOL)

os quatro elementos: Fernando Pessoa e o esoterismo

“Apesar de ter afirmado não haver pertencido a qualquer Ordem Iniciática, o interesse de Fernando Pessoa por ocultismos pronunciou-se de diversos modos. Acreditava ‘na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até se chegar a um Ente Superior, que presumivelmente criou este mundo’. Este e outros preceitos de que tinha convicções são fundamentos da seita esotérica e magista, Ordem Rosacruz, de que foi simpatizante e estudioso. Resulta daí seu interesse por astrologia. Ergueu não só o mapa astrológico de Portugal, como também de seus três heterônimos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Em apontamentos deixados para servir de prefácio ao seu livro de poemas Ficções de interlúdio, o poeta aborda a influência dos quatro elementos (fogo, água, terra e ar) sobre todas as coisas e sobre a personalidade de Caeiro, para explicar sua existência: ‘Referem-se os astrólogos os efeitos em todas as cousas à operação de quatro elementos - o fogo, a água, o ar e a terra. Com este sentido poderemos compreender a operação das influências. Uns agem sobre os homens como a terra, soterrando-os e abolindo-os, e esses são os mandantes do mundo. Uns agem como o ar, envolvendo-os e escondendo-os uns dos outros, e esses são os mandantes do além-mundo. Uns agem sobre os homens como a água, que os ensopa e converte em sua mesma substância, e esses são os ideólogos e os filósofos, que dispersam pelos outros as energias da própria alma. Uns agem sobre os homens como o fogo, que queima neles todo o acidental, e os deixa nus e reais, próprios e verídicos, e esses sãos os libertadores. Caeiro teve essa força. Que importa que Caeiro seja de mim, se assim é Caeiro? Assim operando sobre Reis, que ainda não havia escrito alguma cousa, fez nascer nele uma forma própria e uma pessoa estética. Assim operando sobre mim mesmo, livrou-me de sombras e farrapos, deu-me mais inspiração à inspiração e mais alma à alma. Depois disso, assim prodigiosamente conseguido, quem perguntará se Caeiro existiu?’

um trecho de Clarice Lispector

"Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda." 

"Aprendendo a viver", A descoberta do mundo, Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.160.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

a luz de Caetano - "A Luz de Tieta" (1996)

"Existe alguém em nós / Em muitos dentre nós / Esse alguém / Que brilha mais do que / Milhões de sóis / E que a escuridão / Conhece também / Existe alguém aqui/ Fundo no fundo de você/ De mim/ Que grita pra quem quiser ouvir/ Quando canta assim:/ Eta eta eta eta/ É a lua, é o sol, é a luz de Tieta/ Eta, eta!"