Precisei trocar o número do telefone celular, tamanho
o assédio de empresas de variada natureza. Essa noite sonhei que uma prima
muito querida recebia ligações de meu ex-número, em outro DDD, e que na
verdade era alguém de um presídio ligando, uma situação potencialmente perigosa. Fiquei perturbada, constrangida, não
sabia o que dizer ou fazer. Mas privacidade é algo que não temos mais. Mesmo trocando de
número, um “número desconhecido” acaba de me ligar, agora, sábado, 23h, em um momento wild wild life.
Nunca atendo a essas ligações, em que aparece “número desconhecido” no visor, jamais,
nem, via de regra, ligações de números não registrados. Coloquei meu
celular no silencioso, estado
do qual ele só sai para a função despertador ou em situações muito particulares.
Segundo relatos próximos, já estamos n’O Conto de Aia. Ainda não assisti à série, nem me animei a ler o
livro. Estou me refazendo de Joker,
com a certeza de quem ri por último ri melhor.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
Mostrando postagens com marcador exílio às avessas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador exílio às avessas. Mostrar todas as postagens
sábado, 26 de outubro de 2019
domingo, 21 de abril de 2019
exílio às avessas
Já faz um tempo
que o que sinto é cansaço, da vida mesmo. Chegar aos 50 anos inevitavelmente
evoca a célebre fala de Glauber Rocha, de que aos 43 já tinha vivido tudo o que
tinha pra viver. Mesma sensação, sem a contraparte das realizações. Mas isso
não é uma carta de suicida. Suicídio é ter nascido no Brasil, vivido a abertura
política e a redemocratização, acreditado em alguma espécie de futuro (crença
fatal a qualquer jovem com alguma saúde mental) e agora encontrar o passado.
Não vou sair, é certo, porque sei que não há saída, e aqui é a luta. Entendo os
que precisaram ou escolheram sair. Mas acho desrespeitoso que, tendo condições
para tal, fiquem mandando selfies de
sua nova vida no exterior. Porque muitos não conseguem sequer sair da favela em
que nasceram. Então tudo isso dá um enorme cansaço, e não há o que fazer, a não
ser continuar.
sábado, 1 de setembro de 2018
fim
2018 foi o ano em que perdi o que ainda havia de inocência
em mim. Acabou. Grata a tod@s @s envolvid@s. Foi também o ano em que completei
meio século de vida. Talvez sejam mesmo coisas excludentes.
sábado, 15 de abril de 2017
até que um dia
Viver é estar cercado por pessoas que
podem morrer a qualquer momento, até que uma dia chega o momento em que tudo deixará
de fazer sentido.
quarta-feira, 15 de março de 2017
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
2016
2016 não para de matar gente bacana e nos lembrar constantemente da
existência de homens sórdidos.
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
distopia
A série Black Mirror mexeu mais comigo que a própria tecnologia que ela encena e questiona.
A distopia é o destino ingrato em direção à Singularidade. Não sou mais a mesma
depois de assistir a duas temporadas.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
luto
Queria ter o talento e o humor de Xico Sá. Mas tudo
o que consigo dizer é que sinto tristeza. Sinto que nada será como antes. Tristeza. Paralisia. Sou profundamente solidária a essa mulher que
(ainda) ocupa a Presidência da República. Percebi, desde o começo de 2015, que
alguma coisa podia desandar. E eis que estamos à beira de um colapso. É amargo o
que uma parcela da população brasileira, na qual me incluo, está vivendo. Amargo, triste, sem
esperança. Eu queria não ser muitas coisas. Queria não precisar estar passando
por esse momento. Continuo profundamente solidária a Dilma Rousseff. Boa e Velha
República: uma vez golpista, sempre golpista. Até que um dia, quem sabe, esse
país poderá oferecer alguma coisa de melhor para quem nele, sem escolha, tenha de nascer.
terça-feira, 29 de março de 2016
clichê perverso
Alguns colegas me disseram que
Eduardo Cunha é um mal necessário. Raciocínio semelhante vem justificando e
permitindo justamente o Mal, maiúsculo e absoluto.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
impressões na fila do caixa
Ir ao mercado tornou-se um exercício dramático de
descapitalização ― e de votos de abstinência: vou me abster do palmito; vou me
abster do tomate; vou restringir a cebola. Do pão não preciso me abster, pois
já não faz mais parte da dieta há algum tempo. O que sinto, percebo, é que as
pessoas estão sendo maltratadas nessa alta abusiva de preços, e em muitas outras situações. Em nome de
índices fabricados e de contas amargas, os preços dos produtos de consumo diário
dispararam, não sem uma dose de má-fé por parte dos donos de estabelecimentos
comerciais. Em novembro do ano passado, diante da oferta de maçãs avariadas e hiper
inflacionadas, tive um choque de realidade no mercado e considerei a
possibilidade de ir a Brasília dar uma bifa na cara de Eduardo Cunha, o
político mais sórdido do país nos últimos anos. Porque é claro que há uma
relação entre os podres poderes e as maçãs podres, oferecidas aos pobres. Não
fui, claro; perderia meu emprego e ganharia problemas com a justiça. O
brasileiro reclama, com razão, do preço do pão, do tomate, da cebola. O melhor
conselho que ouvi foi também no mercado: deixa apodrecer, não compra.
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
aniversários
Aniversários costumam ser uma coisa aborrecida, pelo
simples fato da obrigação que os acompanha. Passo o ano recebendo notificações,
lembretes e convites de aniversários, do circulo familiar às amizades. “Liga
pra fulana, é aniversário dela”. “Hoje é aniversário de sicrano”. “Parabéns,
que Deus lhe dê alegrias e muitos anos de vida”. É isso ou condenar-se ao ostracismo social. Há, no entanto, outras maneiras de
amar as pessoas e os amigos. Como disse um compositor, eu acho tudo isso um saco. Mas a cereja do bolo vem em dezembro, quando o aniversariante-mor
mobiliza pessoas ao redor do mundo e de uma árvore, para celebrar... o que
mesmo? Acho que ninguém mais sabe.
sábado, 28 de novembro de 2015
luzes
Foram vários reajustes ― para cima ― no valor cobrado
pela energia elétrica ao longo do ano, consumando ao todo uma incidência de 50% na tarifa, fora as bandeiras tarifárias. Ainda assim, começam a se acender as
luzes de Natal nos lares, lojas, edifícios. As pessoas estão mesmo dispostas a
pagar a conta.
terça-feira, 5 de maio de 2015
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
o sol
Há uma semana faz um sol imperioso aqui no Rio de
Janeiro — absoluto, quente, sem nuvens para amenizar. O calor, sem exagero,
está infernal, e as praias, lotadas. Em particular sinto-me refém, saindo de
casa apenas para o necessário e optando por não duelar com o sol — o fim de
tarde e a noite tornaram-se horários alternativos para sair, inclusive ir à
praia e entrar no mar sem sentir que a pele está sendo devorada pelo sol. Acredito
que muitos tenham o mesmo sentimento, e olham as praias lotadas com
indiferença. O ar condicionado é indispensável para dormir. Mas, mas, mas... aqui
não temos a pena de morte — pelo menos oficialmente. Parece hipócrita o que estou
dizendo, e em muitos sentidos talvez o seja. Implica a visão a partir de um
certo lugar social. Mas quando vejo comentários raivosos na internet desejando
a implementação da pena capital no país, me espanto e me pergunto de onde vem
tanto ódio.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
páscoa
Tive uma páscoa
maravilhosa, sem precisar de chocolate — e sem precisar lembrar que era páscoa.
sábado, 21 de dezembro de 2013
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
vinto tinto seco
Driblando essa e aquela recomendação médica — aliás,
as especialidades sabem bem sê-lo quando o assunto é divergir nas restrições
alimentares —, retornei ao vinho (quase) cotidiano e ao café (quase) diário, mas
não ordinário. Também o cacau em pó foi reabilitado, em porções parcimoniosas.
E dizer “parcimônia” é menos vulgar que “beba com moderação”. Pelo menos até a
próxima crise de labirintite.
terça-feira, 19 de março de 2013
náusea
Desci para
comprar uns complementos para o almoço, cheia de disposição para preparar meu
alimento (em vez de sair e comer fora). Mas, já na saída, deparo-me com o amor
contrariado, negado, interditado. Ao chegar ao mercado, a fila estava grande, e
deduzi que pelo horário todos haviam ido lá no mesmo intento. Foi então que a
náusea foi vindo, fazendo-se perceptível aos poucos, náusea da própria
humanidade em suas entranhas e de fazer parte delas, dessas entranhas, e a
imagem do amor interditado acentuando tudo, a náusea, o sentimento de asco, de
nojo, de recusa. Impossível almoçar depois disso. As palavras que poderiam me
salvar também estão interditadas, e então eu entro batendo o portão com alarde,
impotente diante da vida.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
irritante
Irrita-me sobremaneira o costume de viver em bando.
Das pessoas que assim entendem sua vida,
cada vez mais, eu estabeleço uma educada distância.
domingo, 6 de janeiro de 2013
exílio
Um verso para esta tarde quente, árida
Em que um remoto rock clássico ecoa sua ária.
Um verso ― que o viver desordenado
Precisa repousar em alguma pátria.
Assinar:
Postagens (Atom)