Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Raimundo Carvalho

Procissão dos homens

Nossa Senhora da Penha,
sou um homem casado,
pai de três filhos,
todos bem criados.
O mais velho é juiz,
o do meio, delegado.
O caçula é o padre
que nos perdoa
o crime organizado.

Nossa Senhora da Penha,
que tortura eu sofria
vendo meus filhos crescerem
em porte, beleza e graça;
a casa cheia de amigos
bebendo de nossa taça!

Mas um dia, uma onda
altíssima, implacável,
levou meu filho mais velho.
O do meio foi queima de arquivo,
o padre foi visto boiando
de bruços num manguezal.

Nossa Senhora da Penha,
Nossa Senhora da Terceira Ponte,
Nossa Senhora da Terceira Margem,
minha aposentadoria não dá pra nada.

Nossa Senhora da Penha,
meus filhos estão sorrindo,
braços abertos para mim,
lá embaixo.

In: Instantâneo: poesia e prosa: fermento literário. Vitória: Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, 2005, p.220. [Trata-se de uma coletânea de autores capixabas]

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Jorge de Lima: "entre a raiz e a flor, o tempo e o espaço"

Apresentei a análise do poema abaixo como um exercício informal ao prof. Raimundo Carvalho, quando cursei sua disciplina sobre poesia moderna ― mais propriamente poesia modernista ― no Mestrado em Estudos Literários da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), em 2002. Dos vários poemas do cânone modernista brasileiro que lemos e discutimos, este soneto do Jorge de Lima foi o que mais me fascinou. E sequer sei se a escansão, que me levou a versos decassílabos, está correta ― o fato é que o professor, um exímio conhecedor de poesia, resolveu não mexer com ela, ou porque isso não fosse importante para ele, ou porque ele julgasse que no fundo o aluno precisa dar suas cabeçadas para aprender. Acho que se trata da segunda opção. Seguem o poema e a análise:

Entre a raiz e a flor: o tempo e o espaço,
e qualquer coisa além: a cor dos frutos,
a seiva estuante, as folhas imprecisas
e o ramo verde como um ser colaço.

Com o sol a pino há um súbito cansaço,
e o caule tomba sobre o solo de aço;
sobem formigas pelas hastes lisas,
descem insetos para o solo enxuto.

Então é necessário que as borrascas
venham cedo livrá-la da cobiça
que sobe e desce pelas suas cascas;

que entre raiz e flor há um breve traço:
o silêncio do lenho, ― quieta liça
entre a raiz e a flor, o tempo e o espaço.

LIMA, Jorge de. Poesia completa. Org. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p.474. [Para quem se chateia com análises, basta não seguir adiante na leitura.]

Formalmente, trata-se de um soneto com um padrão de rimas bastante interessante, pois por de trás de uma aparente irregularidade (abca aacb ded aea) observa-se, nas finalizações dos versos, a presença de um fonema que se sobrepõe aos demais, a terminação “aço” (rima “a”), presente em seis dos versos, contra duas vezes das demais (rimas “b”, “c”, “d” e “e”), de forma que ocorrem:

a.    rimas entre versos de uma mesma estrofe, observável em todas elas;
b.    rimas entre versos de estrofes contíguas: entre a 1ª e 2ª estrofes (três rimas, uma delas presente quatro vezes) e entre a 3ª e  4ª estrofes (uma rima);
c.     rimas entre versos de estrofes não-contíguas: entre  a 1ª e 4ª estrofes (uma rima, presente quatro vezes) e entre a 2ª e 4ª estrofes (uma rima, presente quatro vezes).

Cumpre ainda o observar a semelhança do padrão de rimas dos dois tercetos finais (ded  e aea), além da rima entre estas duas estrofes, produzindo um conjunto de alta unidade poética. Assim, o padrão de rimas “a b c a/ a a c b/ d e d/ a e a”  constitui uma rede: as rimas “a”, “b” e “c” unem os quartetos; a semelhança de padrão de rimas e a rima “e” unem os tercetos; a rima “a” une os dois quartetos entre si e ao terceto final.
Ou seja, o poema apresenta uma organicidade verificável já a partir de seu padrão de rimas, o qual configura o texto poético como um “tecido”, uma “rede” de remissões, de ecos de sons. Basta fazer a representação gráfica do padrão de rimas para visualizar essa rede de remissões, importante para sinalizar a idéia de unidade, totalidade que subjaz aos aspectos semânticos do texto. No que concerne a esses aspectos, o poema trabalha com dois planos:

a.    um plano “concreto”, material, presentificado na imagem da árvore, significante que não aparece explicitamente no texto em nenhum momento, porém sugerido pela referência a seus componentes (“raiz”, “flor”, “frutos”, “seiva”, “folhas”, “ramo verde”, “caule”, “hastes lisas”, “cascas”, “lenho”) e indicado pelo pronome oblíquo presente no 10º verso  “venham cedo livrá-la  da cobiça”  anaforicamente retomando um elemento já citado no texto, que só pode ser o significante “árvore” (livrá-la: livrar a quem? A construção sintática do texto não leva a outra leitura: livrar a árvore);
b.    um plano “abstrato”, metafísico, presentificado nas categorias de “tempo” e “espaço”.

O primeiro verso apresenta esses dois planos, já imbricados (“Entre a raiz e a flor: o tempo e o espaço”), sendo essa união, essa necessária conjunção, retomada no último verso, com ligeira variação sintática (“entre a raiz e a flor, o tempo e o espaço”), reiterando a idéia de unidade indissolúvel. As categorias de tempo e espaço se materializam na concretude de uma árvore: “acontecem” na materialidade da árvore, que (portanto) existe no tempo, obedecendo a uma cronologia, e no espaço. São, em certo sentido, essa árvore.
Entretanto, a materialidade da árvore é “qualquer coisa além” dessas categorias. É a matéria em toda a sua exuberância, palpável pelos olhos e demais sentidos: “e qualquer coisa além: a cor dos frutos/ a seiva estuante, as folhas imprecisas/ e o ramo verde como um ser colaço.” A exuberância da árvore é tal que o “ramo verde” parece querer se desprender, tornar-se ser autônomo (“colaço” = irmão de leite).
Ao mesmo tempo em que aponta para a exuberância da matéria, o poema aponta para a sua precariedade, para a finitude divisada na linha do horizonte, pois o existir é uma contingência, uma forma de manifestação do ser: a matéria existe (“acontece”) enquanto manifestação de uma potencialidade qualquer, e o faz no tempo e no espaço.
Tempo e espaço remetem então à outra face do existir, manifestação transitória de uma potencialidade que é constitutiva da matéria. A existência se configura assim como luta, como combate silencioso (“quieta liça”) entre as forças que impelem à manifestação da matéria, as forças da vida, e forças que levam à sua destruição: “Com o sol a pino há um súbito cansaço,/ e o caule tomba sobre o solo de aço;/ sobem formigas pelas hastes lisas,/ descem insetos para o solo enxuto.// Então é necessário que as borrascas/ venham cedo livrá-la da cobiça/ que sobe e desce pelas suas cascas;// que entre a raiz e a flor há um breve traço: o silêncio do lenho, ― quieta liça”.
O combate, a luta, se dá no próprio cerne da matéria, num movimento contínuo, indicado pela repetição do primeiro verso na última estrofe, fechando o poema. Essa repetição, por outro lado, e em adição ao padrão de rimas anteriormente assinalado, confere ao poema um sentido de organicidade que é a própria condição da existência de qualquer ser: existir é uma potencialidade que se concretiza, no tempo e no espaço. Existir é inseparável da materialidade que o conforma, das categorias de tempo e espaço que o enformam.