Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 2 de abril de 2011

René Schickele: Abschwur

Desistência

Desisto:
De toda violência
De qualquer pressão
E mesmo da pressão
De ser bom para os outros.
Sei:
Pressiono somente a pressão.
Sei:
A espada é mais forte
Que o coração,
A batida insiste mais
Que a mão,
Violência rege
O que bem começou
Para o mal.

O mundo como eu quero,
Primeiro preciso eu mesmo
Virar inteiro e leve.
Preciso virar um raio de luz,
Uma água límpida
E a mais pura mão,
Ofertada à saudação e socorro.

Estrela à noite testa o dia,
Noite nina maternal o dia.
Estrela da manhã agradece à noite.
Dia raia.
Dia após dia
Procura raio após raio,
Raio em raio
Vira luz,
Uma clara água quer outra,
E mãos entrelaçadas
Criam em silêncio a união.

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.170-173. Edição bilingue ilustrada.