Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Armando Freitas Filho (1940-2024)

 VIAGEM 

Pregado no céu, o gavião feito 

de paciência e espaço 

permanece cruzando, quase único 

a estrada que atravessa, e toca 

nos possíveis violinos silvestres 

que o vento afina lá dentro 

da mata veloz que passa  

na janela do carro: zás, zap 

na paisagem ― a decisão do azul. 

Asas paradas e o olhar duro que 

o asfalto e a distância alimentam. 

 

Boa companhia: poesia (Org. José Almino). São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.99. 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Armando Freitas Filho, na abertura da FLIP:

"A minha poesia, eu a entendo como a que toca todas as coisas, inclusive as mais monstruosas. Que pode tocar um Temer, por exemplo", declarou.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Armando Freitas Filho

MARÇO

O verão ainda atira
com todos os canhões:
chumbo, céu e chão
e as chuvas não quebram
o teto do ar livre
de um negro tão preto
que só pensando
num branco absoluto
para obtê-lo, sem nuvens
para registro nesta folha
enquanto um rio que não molha
mas agulha
passa e arrepia tudo
com suas águas que são pontas
― pregos ― por favor
não olhe o que só quer sofrer
a seco, sem lágrimas.

FREITAS FILHO, Armando. Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.449-450.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Armando Freitas Filho (a decisão do azul)

VIAGEM

Pregado no céu, o gavião feito
de paciência e espaço
permanece cruzando, quase único
a estrada que atravessa, e toca
nos possíveis violinos silvestres
que o vento afina lá dentro
da mata veloz que passa
na janela do carro: zás, zap
na paisagem ― a decisão do azul.
Asas paradas e o olhar duro que
o asfalto e a distância alimentam.

Boa companhia: poesia (Org. José Almino). São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.99.