Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 2 de fevereiro de 2013

José Paulo Paes

IVAN ILITCH, 1958

Trrrim, bocejo, 
Roupão, chinelos, 
Gilete, escova,
Água, sabão, 
Café com pão, 
Chapéu, gravata, 
Beijo, automóvel, 
Adeus, adeus.

Gente, trânsito, 
Sol, bom-dia, 
Escritório, 
Relatório, 
Telefones, 
Almoço, arroto, 
Contas, desgosto, 
Adeus, adeus. 

Clube, vento, 
Grama, tênis, 
Ducha, alento, 
Bar, escândalos, 
Pedro, Paulo, 
Mulher de Pedro, 
Mulher de Paulo, 
Adeus, adeus. 

Lar, esposa, 
Filhos, pijama, 
Janta, living, 
Jornal, cismares,
Tricô, vagares, 
Hiato, ausências, 
Bocejo, escada, 
Adeus, adeus. 

Quarto, cama, 
Glândulas, êxtase, 
Dois em um, 
Dois em nada, 
Dever cumprido, 
Luz apagada, 
Adeus, adeus. 

Horas, dias, 
Meses, anos, 
Cãs, enganos, 
Desenganos, 
Vácuo, náusea,
Indiferença, 
Cipreste, olvido, 
Há Deus? adeus. 

José Paulo Paes. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.141-142.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

a experiência da dor e da morte

A morte de Ivan Ilitch é um livro que se lê devagar ― devagar no sentido da expectativa de leitura e do(s) sentido(s) do que está sendo narrado. Esse sentido vai chegando sem alarde, e nunca chega de todo, como se a leitura continuasse depois de finda a narrativa e a vida de Ivan Ilitch. Tudo é muito doloroso, morte e vida compõem o mesmo teatro hediondo que causa horror a Ivan Ilitch no final trágico de sua vida, vida que trazia a morte em embrião: “Quando ele viu de manhã o criado, depois a mulher, em seguida a filha, o médico, cada um dos movimentos deles, cada uma de suas palavras confirmavam para ele a terrível verdade que se revelara naquela noite. Via neles a si mesmo, tudo aquilo de que vivera, e via claramente que tudo aquilo era não o que devia ser, mas um embuste horrível, descomunal, que ocultava tanto a vida como a morte.” (TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Trad. Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2009, p.72). 

morrer burocraticamente

“A mentira, essa mentira que lhe era pregada nas vésperas de sua morte, a mentira que devia abaixar esse ato terrível e solene da sua morte até o nível de todas as suas visitas, das cortinas, do esturjão do jantar... era horrivelmente penosa para Ivan Ilitch. [...] Por meio daquela mesma ‘decência’ a que ele servira a vida inteira, todos os circunstantes rebaixavam o ato terrível, horroroso, da sua morte, ele via bem, ao nível de um acaso desagradável, quase uma inconveniência (a exemplo da maneira com que se trata um homem que, entrando numa sala de visitas, passa a exalar um mau cheiro); via que ninguém haveria de compadecer-se dele, porque ninguém queria sequer compreender a sua situação.”

TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Trad. Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2009, p.56.