Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 31 de maio de 2012

aos intelectuais

A arte não age por acúmulo.

em boa companhia: a poesia de fernando pessoa

A morte chega cedo,
Pois breve é toda a vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto. 

Fernando Pessoa. Poesia: 1931-1935. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.177-178.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

[um poema que poderia ter sido escrito por fernando pessoa]

Viemos ao mundo no ventre do Acaso, e ele só, neste mundo,
        Sem nos querer nem sonhar, célere nos acolheu.

BUENO, Alexei. Poemas gregos. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.192.

o frescor de Deus

A brisa dessa manhã, à janela da cozinha, me trouxe Deus, misturado ao cheiro bom de café que vinha do ar vizinho.

domingo, 27 de maio de 2012

uma ave para o final de tarde

especulando

Pensando na relação que mantenho com este espaço, surpreendeu-me um pouco (mas só um pouco) a ideia de que a janela que se abre com o blog é uma espécie de espelho ― lugar em que me miro, mais do que quem eventualmente me lê. Não é desconsideração com quem aqui aporta, lê e comenta ― é tão somente admitir que todo diálogo (ou monólogo) se dá primeiro consigo mesmo.

nem um nem outro: um belo encontro ― ou será desencontro?