Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 15 de setembro de 2012

Caê Guimarães

QUARTO DE TORQUATO

Por vezes ando assustado, como os pombos.
Porque corro,
concordo com o boicote ao estado normal das coisas.
Tiro do meu afeto todos meus segredos
- quinhões de coragem e medo -
olho desatento para os lados,
e impaciente não me percebo em lugar nenhum.

Não acredito mais no amor de múmias.
Elas também fedem sob as gazes encardidas.

Múmias podem até ser divertidas.

Instantâneo: poesia e prosa. Vitória: Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, 2005, p.82.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Paulo Leminski

Transar bem todas as ondas
a Papai do Céu pertence,
fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense.
A nós, gente, só foi dada
essa maldita capacidade,
transformar amor em nada.

Os melhores poemas de Paulo Leminski. 6.ed. São Paulo: Global, 2002, p.108.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Herberto Helder

"Eu quero gritar paralém da loucura terrestre."

poesia de circunstância

Com miúda paciência
encontrar a cada dia
um verso... sem
consciência.

vida amanhecendo

A aragem da manhã tornou-se vento forte, impetuoso. Quando cedo se acorda, o dia ainda é embrionário ― acordar cedo, por um deslizamento de sentidos, torna-se entrar em contato com as próprias promessas, o frescor que palpita na vida amanhecendo.

Clarice Lispector

POESIA

― Fiz hoje na escola uma composição sobre o Dia da Bandeira, tão bonita, mas tão bonita... pois até usei palavras que eu nem sei bem o que querem dizer.

Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.316.

Clarice Lispector

SEGUIR A FORÇA MAIOR

É determinismo, sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que se é livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio. Há uma grande liberdade em se ter um destino. Esse é o nosso livre-arbítrio.

Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.140.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Alexei Bueno: livro de haicais

Entre o sol e as flores
Como é difícil às vezes
Desdenhar tal mundo.

BUENO, Alexei. Livro de haicais. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.214.

definição de poesia

É o que restitui a respiração ao ritmo quase imperceptível da normalidade.

Fé Cega, Faca Amolada - do musical "Milton Nascimento: Nada Será Como Antes"

roberto arlt, do conto "escritor fracassado"

“Sou um burguês egoísta. Reconheço. E é por isso que nada chega a me indignar de verdade. Seja bom ou mau. Também não experimento um desejo ardente de deslumbrar meus semelhantes. Se eu disse em alguma ocasião que sofria quando não conseguia escrever, é mentira. Afastei-me da verdade para enfeitar minha personalidade com um atributo capaz de torná-la interessante.”

Roberto Arlt. As feras. Trad. Sérgio Molina. São Paulo: Iluminuras, 1996, p.63.

domingo, 9 de setembro de 2012

UMA NOITE EM 67 (documentário completo)

entrevistas e vídeos com chico buarque, caetano veloso, roberto carlos, 
gilberto gil, mpb4 e edu lobo; outros filmes nacionais no youtube

Orides Fontela

Inútil a ternura pelo leve
momento a desprender-se do infinito:
frágil, a construção do tempo é morte
do que se atualiza. Mais fecundo

é secundar o pássaro buscando
o momento possível, voo pleno.
Mais fecundo é voar. Mas a ternura
(este pássaro morto abandonado

como forma perdida de nós mesmos)
nos alimenta em sua sombra. Torna-nos
em sombras sem alento. E sofremos

como pássaros frágeis: desprendidos
do voo pleno nos cristalizamos
realizando a morte que vivemos.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.266.

vagando alto

Uma palavra, redonda. Outra palavra, torta. Uma terceira, áspera. A quarta, inquietação. Na sequência: O torturado exaspera-se em silêncio

ponte aérea para os sonhos

O sonho de viver no sonho que reproduz a vida dia ou noite, qual deles é nossa verdade? Ou seremos um compósito dos dois, sabendo de si o pouco que o dia dá e tomando a noite como recalque? O sonho, absurdos por vezes inaceitáveis, mas que estão lá, manifestando-se pela manhã como restos da noite. E o que a lembrança não acessa, e por isso sequer imagina ou supõe? Existirá?

hard sun - eddie vedder