Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 17 de setembro de 2019

lido por aí

"O Brasil nunca foi um país sério, mas não precisava ter virado um país triste."

domingo, 8 de setembro de 2019

o que fazer?

As pessoas perguntam, se perguntam, o que fazer diante do bolsonarismo. Chamar de fascismo não adianta. Diante de suas demonstrações mais recentes, como esta, tem-se noção do grotesco a que chegamos. Mas a pergunta continua, incômoda. O que fazer? Interlocutores próximos e lúcidos dizem que ainda vai piorar muito antes de melhorar. Não adianta se descabelar diante das falas criminosas do ser que ocupa atualmente a presidência da república. O brasileiro no fundo é assim: não tolera mulheres feias, gosta de posturas autoritárias, odeia com todas as suas forças o PT, é racista, deseja o extermínio dos indígenas, não suporta o beijo gay, bateu panelas para Dilma e agora bate palmas para o capitão. Então, de novo a pergunta: o que fazer? À sombra do bolsonarismo explodem os microfascismos. O bolsonarismo é o precedente de que muitos precisavam para cometer seus pequenos ou grandes crimes, abusos de poder e de autoridade. Está posto e legitimado por uma sociedade cujas instituições se encontram em frangalhos. Esse o objetivo, acabar com todas as possibilidades da via republicana. O que fazer? Não ser cúmplice já é alguma coisa. No mais, jamais perdoarei os que apoiaram o impeachment de Dilma Roussef. Foi lá que tudo começou.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

distopia

A cara traz no nome uma metáfora (messias) e uma metonímia (bolso). Geral foi de metáfora. Sinto uma espécie de horror cotidiano, cujo sintoma mais imediato é o álcool e a depressão. O Brasil acabou. Depois dessa distopia virá outra e outra e outra...

quarta-feira, 24 de julho de 2019

hacker?


O Brasil entrou de vez no circuito mundial da realidade paralela. Com o Supremo, com tudo. Terra arrasada é o que viramos. O nível de ficção é tal que faz do jornalismo brasileiro hegemônico uma espécie de bolha. Zero credibilidade. Impossível qualquer prognóstico, a não ser a continuação da histeria coletiva, que nos levará só Deus sabe onde.

domingo, 23 de setembro de 2018

vocação para o passado

Invariavelmente a banda que anima o barzinho da esquina toca legião urbana e capital inicial. O país não sai dos anos 80, e tudo indica que quer retroceder mais. “Nas favelas, no senado / sujeira pra todo lado.” Como assim, nivelar as favelas ao senado? O país não sai desse ponto, de Jânio Quadros e sua vassourinha pra varrer a corrupção. O problema não é a corrupção (ninguém parece ter ouvido falar em transparência internacional), mas a distribuição de renda.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Museu Nacional

O incêndio do Museu Nacional é da ordem do inominável. Quem viu de longe enxergou um país em guerra consigo mesmo:

“acordo com a insuportável notícia da destruíção do magnífico museu nacional do brasil, que é da ordem do absurdo.
como pode ser descurada uma casa daquelas? uma casa que definia o brasil, defenia a história do brasil.
o museu nacional do brasil não pode arder. só em tempo de guerra, no grotesco que a guerra pode ser, coisas assim acontecem. fico com a impressão de que o brasil está em guerra consigo mesmo.
meu abraço solidário a todos os que prestigiam o brasil e a sua cultura, e a todas as gerações futuras que se vêem impedidas de aceder ao melhor do seu próprio património e tanta da sua memória.
estou horrorizado.

Valter Hugo Mãe, escritor português, no facebook.

sábado, 1 de setembro de 2018

fado tropical


Setembro começou, mas não tem Beto Guedes. Parecemos estar, desde 2016, num eterno novembro. Salvo engano, justo em novembro haverá possibilidade de reverter, ou afundar de vez.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

degradação

Tenho um perfil mais ou menos consolidado na profissão docente, uma espécie de respeito associado ao bom convívio com os/as estudantes e os/as colegas de profissão. Pois bem. Ontem uma estudante da 3ª série do ensino médio conseguiu se superar. Venho percebendo o descaso de parte de uma turma de 3ª série com a disciplina de Português e Literatura, no retorno das aulas após o recesso do meio do ano. Ontem decidi não esperar mais e coloquei a roda para girar. Uma estudante continuou no pátio, depois de me ver subindo para a turma, enquanto alguns outros estavam simplesmente à deriva, numa postura que vem se repetindo nas últimas semanas. Quando retornei da sala para mandar um grupo de atrasados à bedelaria, a estudante lançou mão de alguns argumentos curiosos. Um deles foi sintomático da crise que atravessa o Brasil: Mas minha mochila está na sala, professora. Numa semana em que discuti o poema “O cacto” de Manuel Bandeira, paralelamente à presença dessa estranha forma de vida na pintura modernista brasileira, uma estudante me diz que tem coisas mais importantes a fazer do que assistir à aula, e pede que eu seja compreensiva, pois, afinal, sua mochila está na sala.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Brasil: o que dizer?

Antes estava acompanhando o noticiário, e sofrendo muito. Agora compreendi que o que se passa no Brasil é um filme de terror, e saí da sessão.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

ameaças do (e ao) subterrâneo - bernardo mello franco

"Vou contar tudo o que aconteceu no impeachment, com todos os personagens que participaram de diálogos comigo. Esses serão tornados públicos em toda a sua integralidade. Todos, todos, todos. Todo mundo que conversou comigo", prometeu o agora ex-deputado. Questionado se havia gravado as conversas, ele respondeu com um sorriso irônico: "Tenho boa memória".
Desde os tempos da Telerj, no governo Collor, Cunha cultiva a reputação de fabricar dossiês contra adversários. A diferença é que ele não pode mais usá-los para acumular poder ou ampliar os negócios. Agora as informações do subterrâneo da política se tornaram a sua última arma para tentar escapar da cadeia.
http://folha.com/no1813104

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Brasil: o que dizer?

SIGLAS
Luis Fernando Verissimo


― Bota aí: “P”
― “P”?
― De “Partido”.
― Ah.
― Nossa proposta qual é? De união, certo? Acho que a palavra “União” deve constar o nome.
― Certo. Partido de União...
― Mobilizadora!
― Boa! Dá a ideia de ação, de congraçamento dinâmico. Partido da União Mobilizadora. Como é que fica a sigla?
― PUM.
― Não sei não...
― É. Vamos tentar outro. Deixa ver. “P”...
― “P” é tranquilo.
― Acho que “Social” tem que constar.
― Claro. Partido Social...
― Trabalhista?
― Fica PST. Não dá.
― É. Iam acabar nos chamando de “Ei, você”.
― E mesmo “trabalhista”, não sei. Alguém aqui é trabalhista?
― Isso é o de menos. Vamos ver. “P”...
― Quem sabe a gente esquece o “P”?
― É. O “P” atrapalha. Bota “A”, de Aliança. Aliança Inovadora...
― AI.
― Que foi?
― Não. A sigla. Fica AI.
― Espera. Eu ainda não terminei. Aliança Inovadora... de Arregimentação Institucional.
― AIAI... Sei não.
― É. Pode ser mal interpretado.
― Vanguarda Conservadora?
― Você enlouqueceu? Fica VC.
― Aliança Republicana de Renovação do Estado.
― ARRE!
― O quê?
― Calma.
― Espera aí, pessoal. Quem sabe a gente define a posição ideológica do partido antes de pensar na sigla? Qual é, exatamente, a nossa posição?
― Bom, eu diria que estamos entre a centro-esquerda e a centro-direita.
― Então é no centro.
― Também não vamos ser radicais...
― Nós somos a favor da reforma agrária?
― Somos, desde que não toquem na terra.
― Aceitaremos qualquer coalizão partidária para impedir a propagação do comunismo no Brasil.
― Inclusive com o PCB e o PC do B?
― Claro.
― Não devemos ter medo de acordos e alianças. Afinal, um partido faz pactos políticos por uma razão mais alta.
― Exato. A de chegar ao poder e esquecer os pactos que fez.
― Partido Ecumênico Republicano Unido.
― PERU?
― Movimento Institucionalista Alerta e Unido.
― MIAU?
― Que tal KIM?
― O que significa?
― Nada, eu só acho o nome bonito.
― MUMU. Movimento Ufanista Mobilização e União.
― MMM... Movimento Moderador Monarquista.
― Mas nós somos republicanos.
― Eu sei. Mas por uma boa sigla a gente muda.
― TCHAU.
― Hum, boa. Trabalho e Capital em Harmonia com Amor e União?
― Não, é tchau mesmo.
― Aonde é que você vai?
― Abrir uma dissidência.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

ativismo

Por questões políticas da máxima urgência, abri uma conta no twitter. A atividade aqui caiu sensivelmente.