Sérgio Sampaio é uma figura meio mítica em Cachoeiro de Itapemirim ― uma espécie de anti-Roberto Carlos. Sei pouco dele, quase nada, mas ouvi relatos curiosos, de moradores de outra geração, dando conta do bulício que se criava na cidade quando ele resolvia aparecer, com seu jeitão hippie, visual colorido, bolsa a tiracolo. Por curioso que pareça, o melhor de Sérgio Sampaio fui descobrir quando já morava em Vitória e estudava na UFES. Certa sexta-feira, os professores da Letras resolveram promover um depatepapo (assim se chamava o evento) sobre Sérgio ― e era uma sexta-feira de Vital (o carnaval fora de época de Vitória). Pois o auditório simplesmente lotou, os professores fizeram falas interessantes, algumas memoráveis, tocou-se música, foi passado o vídeo Cachoeiro em Três Tons, sobre os Sampaios ilustres ― link do youtube aqui. Ficou-me em particular a fala do prof. Jorge Luiz Nascimento, relatando dois encontros com o cantor e compositor, um deles pouco antes de sua morte precoce. Aqui algumas informações sobre Sérgio Sampaio, no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira (link aqui). Dia desses, numa roda, alguém saiu-se com uma piada assaz curiosa, acerca das três utilidades do estado do Espírito Santo: ser a terra do Roberto Carlos; separar o Rio da Bahia (para que a coisa não vire um carnaval só); e uma terceira tão nonsense quanto as outras, mas que em absoluto consigo me recordar no momento. Aí então lembrei de uma quarta, ser a terra do Rubem Braga, com o que o grupo imediatamente assentiu, e já agora se tem aqui uma quinta, terra de Sérgio e de Raul Sampaio. Mas o que eu queria mesmo era lembrar da terceira... E, nesta primavera, se der, "botar meu bloco na rua", nem que isso signifique terminar uma tese, sobre outro Sérgio, que também andou rondando Cachoeiro, embora não fosse de lá ― uma sexta função para minha ilustre e pacata terrinha, estado de espírito (santo) chamada?
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Antonio Carlos Secchin
Reunião
Aqui estamos nós
unidos pelo sangue
e dispersos pela vida.
Sabemos de onde viemos,
mas não sabemos nossa saída.
De Antônio e Catarina
herdamos gestos, sonhos, corpos e voz.
Muito sabemos deles,
e pouco sabemos de nós.
Aqui estamos todos
― tios, sobrinhos, primos, avós ―,
corrente entre um ontem vivo
e um amanhã apressado,
frente a frente
com o futuro que nos chama,
cara a cara
com a chama de um passado.
Agora atravessamos juntos
Cachoeiro de ItapeSecchin,
esta estrada tropical da Itália
que desemboca em você e em mim.
E se recompondo o que nós fomos
este instante cintilar dentro de nós
num sopro que a vida não apaga
mesmo sozinhos não estaremos sós.
Aqui estamos nós
unidos pelo sangue
e dispersos pela vida.
Sabemos de onde viemos,
mas não sabemos nossa saída.
De Antônio e Catarina
herdamos gestos, sonhos, corpos e voz.
Muito sabemos deles,
e pouco sabemos de nós.
Aqui estamos todos
― tios, sobrinhos, primos, avós ―,
corrente entre um ontem vivo
e um amanhã apressado,
frente a frente
com o futuro que nos chama,
cara a cara
com a chama de um passado.
Agora atravessamos juntos
Cachoeiro de ItapeSecchin,
esta estrada tropical da Itália
que desemboca em você e em mim.
E se recompondo o que nós fomos
este instante cintilar dentro de nós
num sopro que a vida não apaga
mesmo sozinhos não estaremos sós.
Cachoeiro, 13/11/1999
SECCHIN, Antonio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p.59-60.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Rubem Braga
"MINHA FRASE CÉLEBRE - Até eu já posso posar como ladrão de frase. É que certa vez escrevi: Nasci, modéstia à parte, em Cachoeiro de Itapemirim - mas escrevi parodiando declaradamente uma letra de Noel Rosa sobre Vila Isabel. A letra de Noel foi esquecida por muita gente, e várias vezes, através dos anos, encabulei ao ganhar elogios pela 'minha' frase. O remédio é a gente silenciar, 'pondo a modéstia de parte', como dizia o bom Noel. Afinal ele escreveu tanta coisa bonita que com certeza não se importaria muito com este pequeno furto. Em todo caso, Noel, desculpe o mau jeito." (BRAGA, Rubem. Recado de primavera. 8. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 94).
sábado, 30 de janeiro de 2010
Rubem Braga
É da minha terra, Cachoeiro de Itapemirim (terra de empréstimo, pois nasci na zona rural, e fui registrada num distrito do município; não importa: lá nasci, e vivi parte da infância e a adolescência) - então, como ia dizendo, é de Cachoeiro, modéstia à parte, um dos melhores cronistas que esse país já teve. Dele transcrevo uma crônica, cuja delicadeza e senso de técnica narrativa nada ficam a dever ao conto:
O compadre pobre
O coronel, que então morava já na cidade, tinha um compadre sitiante que ele estimava muito. Quando um filho do compadre Zeferino ficava doente, ia para a casa do coronel, ficava morando ali até ficar bom, o coronel é que arranjava médico, remédio, tudo.
Quase todos os meses o compadre pobre mandava um caixote de ovos para o coronel. Seu sítio era retirado umas duas léguas de uma estaçãozinha da Leopoldina, e compadre Zeferino despachava o caixote de ovos de lá, frete a pagar. Sempre escrevia no caixote: CUIDADO É OVOS — e cada ovo era enrolado em sua palha de milho com todo cuidado para não se quebrar na viagem. Mas, que o quê: a maior parte quebrava com os solavancos do trem.
Os meninos filhos do coronel morriam de rir abrindo o caixote de presente do compadre Zeferino; a mulher dele abanava a cabeça como quem diz: qual... Os meninos, com as mãos lambuzadas de clara e gema, iam separando os ovos bons. O coronel, na cadeira de balanço, ficava sério; mas, reparando bem, a gente via que ele às vezes sorria das risadas dos meninos e das bobagens que eles diziam: por exemplo, um gritava para o outro – “cuidado, é ovos”!
Quando os meninos acabavam o serviço, o coronel perguntava:
— Quantos salvaram?
Os meninos diziam. Então ele se voltava para a mulher: “Mulher, a quanto está a dúzia de ovos aqui no Cachoeiro?” A mulher dizia. Então ele fazia um cálculo do frete que pagara, mais do carreto da estação até a casa e coçava a cabeça com um ar engraçado:
— Até que os ovos do compadre Zeferino não estão me saindo muito caros desta vez.
Um dia perguntei ao coronel se não era melhor avisar ao compadre Zeferino para não mandar mais ovos; afinal, para ele, coitado, era um sacrifício se desfazer daqueles ovos, levar o caixote até a estação para despachar e para nós ficava mais em conta comprar ovos na cidade.
O coronel me olhou nos olhos e falou sério:
— Não diga isso. O compadre Zeferino ia ficar muito sem graça. Ele é muito pobre. Com gente pobre a gente tem de ser muito delicado, meu filho.
Novembro, 1952.
BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. 29. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 399-400.
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