Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 4 de março de 2011

Bob Dylan: uma canção de amor

 Beyond Here Lies Nothin'

Primeira canção do novo CD de Bob Dylan, Together Throught Life (2009), o vídeo mostra uma história de amor bem punk.

[imagem obtida aqui]

quinta-feira, 3 de março de 2011

Mário Faustino

"Os cães do sono ladram / Mas dorme a caravana de meu ser"

[do poema "Mito"]

BSB

No feriado de Carnaval, viajarei para Brasília. Causa espécie quando falo. Minha analista disse que nunca, mas nunca mesmo, ouviu alguém dizer que iria para Brasília no Carnaval. As pessoas vão para a praia, pra Bahia, para o Nordeste, para o litoral ou mesmo para o Rio de Janeiro. No entanto, me ocorre que em Brasília o carnaval dura o ano inteiro, dando uma trégua agora no feriado, quando os políticos vão para as suas bases, ou vêm pontificar na Marquês de Sapucaí. É ir e conferir. E descansar.

hoje vou dar-me flores, como uma forma de acreditar em Deus

[também aqui]

quarta-feira, 2 de março de 2011

Deus

Em momentos difíceis, sinto uma necessidade absurda de Deus, mais especificamente de acreditar em Deus. Pudesse acreditar como antes e teria-O comigo. Então acabo pedindo a alguém da minha confiança que reze por mim. 

Deus. 

Seria tão bom acreditar. Tanto desejo que quase acredito. 

terça-feira, 1 de março de 2011

Arnaldo Antunes: Música Para Ouvir... Música

Milton Nascimento - Travessia

[composição: Milton Nascimento/Fernando Brant]

uma fantasia barata

O Rio de Janeiro está impossível. Trata-se de uma cidade que vai vencendo a pessoa no âmbito microscópico, no miúdo do cotidiano, bordejando o imponderável. Algumas coisas não funcionam, ninguém sabe explicar por quê, perde-se um tempo incrível com o caos da cidade. E como é difícil equacionar o caos, e mesmo driblá-lo, torna-se uma cidade que cansa. Os preparativos para o Carnaval deixam no ar uma espécie de fantasia coletiva, e dizer preparativos é distorcer o que se vê nas ruas: já é Carnaval. A partir de amanhã as coisas começam a funcionar de forma ainda mais morosa, as pessoas já começam a viajar, a se despedir de suas funções. Entro numa loja de variedades (um genérico das Americanas) para comprar papel A4, depois de mais um dia lutando contra o relógio, resistindo à histeria da cidade, e vejo pessoas comprando fantasias baratas para o Carnaval. Na fila do caixa, falam de coisas que parecem pertencer a um mundo por demais prosaico, ou remoto, como ingredientes para o churrasco. Então é assim a vida, seguir a função biológica da procriação e da alimentação, com alguma religião para salvaguardar o corpo dos excessos do prazer? Não consigo entregar meu corpo tão fácil assim a essas solicitações. E com isso deixo de entregar outras coisas também, coisas que chamo modestamente de espiritualidade, na falta de termo mais adequado, pois não acredito nessa separação. Todos parecem fazer a mesma coisa, cumprir o mesmo ritual. Meu olhar cansado vê tudo à distância. 

relendo Grande sertão: veredas (V)

“Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. Sei como sei. Som como os sapos sorumbavam. Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria a boca; mas era um delém que me tirava para ele ― o irremediável extenso da vida.”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.45.

Caetano Veloso: Shy Moon


A voz que acompanha Caetano é de Ritchie, cantor de origem inglesa que fez muito sucessos nas AMs e FMs nos anos 80 com hits inesquecíveis, como "Menina Veneno".

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu ("há sempre um copo de mar...")

[Canto Primeiro, Fundação da Ilha, II]

A ilha ninguém achou
porque todos a sabíamos.
Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia.

Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim.

Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
há sempre um copo de mar
para um homem navegar.

Nem achada e nem não vista
nem descrita nem viagem,
há aventuras de partidas
porém nunca acontecidas.

Chegados nunca chegamos
eu e a ilha movediça.
Móvel terra, céu incerto,
mundo jamais descoberto.

Indícios de canibais,
sinais de céu e sargaços,
aqui um mundo escondido
geme num búzio perdido.

Rosa-de-ventos na testa,
maré rasa, aljofre, pérolas,
domingos de pascoleas.
E esse veleiro sem velas!

Afinal: ilha de praias.
Quereis outros achamentos
além dessas ventanias
tão tristes, tão alegrias?

LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. São Paulo: Ediouro, s/d, p.15.

mar

...enquanto isso, vou ficando por aqui, com meu mar, em que cabe tanto  mariana, mar, amar, ar... "há sempre um copo de mar para um homem navegar" (Jorge de Lima).

Caetano Veloso: Coração Vagabundo


Caetano Veloso foi mestre em pinçar da imaginário popular certas sugestões e dar-lhes tratamento requintado. Foi assim com "Chão de Estrelas", de Sílvo Caldas, que pontifica na belíssima "Livros". "Coração Vagabundo" tem seu primeiro registro no disco Domingo, de 1967 (aqui). "Coração Vagabundo", de Lindomar Castilho, consta como gravada em 1970 (aqui): então não teria sido aí que Caetano encontrou a imagem que dá título à sua canção (nem se poderia supor o inverso). No entanto, cotejando as duas músicas (aqui), percebe-se o deslocamento de perspectiva que Caetano Veloso faz, introjetando em si uma voz de mulher: há uma mulher que sutilmente fala na música de Caetano, e o que diz é absolutamente libertário. Já na música de Lindomar Castilho... Em tempo: em 1980, Lindomar matou a tiros sua segunda mulher, de quem havia acabado de se separar, cumprindo pena de 12 anos pelo crime. O amor é um sentimento tão estranho que confunde homens e mulheres. Mas querer guardar o mundo em si (linda imagem) traz consigo a possibilidade de libertar das prisões. 

Coração vagabundo 

Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer

Meu coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meu sonho sem dizer adeus
E fez dos olhos meus um chorar mais sem fim

Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim
 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

a voz rouca e a batida lenta do Entropy House fechando o domingo

escrever uma história sobre o mar

Essa singela e despretensiosa combinação de palavras, escrever uma história sobre o mar, conduziu até este posttexto crucial na semana que passou, e que teve presença marcante em minha defesa. Que poético, pensar em uma história sobre o mar! Pois o mar é hoje, ontem, sempre; o mar tem vida própria, regido pelos movimentos tectônicos do planeta, a variar de nível segundo o clima, causando estragos mais em função do homem que da natureza, quem sabe. Seria essa a história possível sobre o mar? "Oh, mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!" O mar na história da humanidade. Não resisto e inauguro um novo marcador para o blog, mar, a ser considerado inclusive para posts anteriores em que o mar pontificou.


[imagem obtida aqui]

Vent (animação de Erik van Schaaik com música de Martin Fondse): sensacional!!!

A mulher que escreveu a Bíblia - Moacyr Scliar

A feiura é fundamental, ao menos para o entendimento desta história. É feia, esta que vos fala. Muito feia. Feia contida ou feia furiosa, feia envergonhada ou feia assumida, feia modesta ou feia orgulhosa, feia triste ou feia alegre, feia frustrada ou feia satisfeita ― feia, sempre feia. (SCLIAR, Moacyr. A mulher que escreveu a Bíblia. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.15).

Parágrafo inicial do primeiro capítulo da história narrada em A mulher que escreveu a Bíblia, parodiando, no primeiro enunciado, o poema célebre de Vinicius de Moraes. Na verdade, o livro inicia com uma espécie de prólogo, sem título, em que o analista/terapeuta de vidas passadas situa e apresenta sua paciente, que seria a autora da narrativa cujo primeiro parágrafo é destacado. Tudo com humor cortante. No site da Travessa, é possível conferir o prólogo, em que uma voz masculina, na cena psicanalítica, apresenta o drama de sua paciente/personagem, que passa a ser seu também (aqui).

Morre Moacyr Scliar!!!

Esta notícia caiu-me com uma bomba nesta manhã de domingo. O escritor Moacyr Scliar, de que tanto gosto, um dos mais importantes ficcionistas brasileiros contemporâneos, faleceu nesta madrugada, aos 73 anos de idade. Sempre admirei seu trabalho, sua obstinação, sua capacidade de escrever como poucos. Diante de muitos contos seus, tive a impressão de estar diante do mesmo ceticismo de Machado de Assis. Foi literatura inseparável na minha vida durante muito tempo. Li "Os contistas" e outros contos seus, como "O velho Marx", com  assombro.

Bob Dylan/The Band: Forever Young

The Band - The Weight


The Band é o nome da banda que acompanhou Bob Dylan na segunda metade da década de 60. Não sabia que eles tinham composições próprias. Esta canção, permeada de sugestões místicas (Who sent me here with her regards for everyone?) consta na 41ª posição no ranking da Rolling Stone. Diz a revista: "A The Band era conhecida como a a banda de turnê de Bob Dylan quando se retirou para uma casa rosa em Woodstock, Nova York, para gravar seu álbum de estreia, Music from Big Pink. O LP era centrado em 'The Weight', uma excêntrica fábula de dívida e dever, conduzida pelo indelével refrão ('Take a load off, Fanny...'). Robertson disse que se inspirou depois de assistir aos filmes do diretor Luis Buñuel sobre a 'impossibilidade da santidade', mas personagens como Crazy Chester (que tenta se livrar de seu cachorro dando-o ao narrador) poderiam ter saído de uma velha canção folk. Quanto ao verso de ar bíblico 'pulled into Nazareth' [...], se refere a Nazareth, Pensilvânia, lar da fábrica de Martin Guitar." (Rolling Stone, edição especial de colecionador, 2010, p.38). Curiosa a insistência da revista em impingir uma interpretação. Neste vídeo, a versão original da canção serve de trilha ao filme Easy Rider, um road movie de 1969. Imagens e percurso de encher os olhos, som cuja leveza contraria o título da canção.

Clarice Lispector: um fragmento (para a Sônia)

É preciso também não perdoar

Uma entrevistadora do programa BBC, Inglaterra, na Hora das Mulheres, falou sobre suas experiências como prisioneira de guerra:
― Quando uma pessoa já experimentou muitos sofrimentos, sabe apreciar as fraquezas e as boas qualidades até mesmo dos próprios inimigos. Por que deve ser nosso inimigo completamente mau, ou a vítima completamente boa? Ambos são criaturas humanas, como o que é bom e o que é mau. E creio que se apelarmos para o lado bom das pessoas teremos êxito, na maioria dos casos.
Sei o que ela quis dizer, mas está errado. Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido, mesmo errado, pela vítima, e um partido, mesmo errado, contra o inimigo. E tornar-se primário a ponto de dividir as pessoas em boas e más. A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é a vítima é permitida, a crueldade e a revolta. E não compreender os outros é que é certo.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.137-138. 

Carlos Drummond de Andrade

Sonetilho do falso Fernando Pessoa

Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto 
de tudo quanto é misto
e que odiei ou que senti.

Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião (10 livros de poesia). Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.167.