Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 9 de julho de 2011

o mar, a praia, a fronteira, o limite... (fotografia belíssima)

Tarkovski (sobre a experiência)

Mário Faustino

MITO

Os cães do sono ladram
Mas dorme a caravana do meu ser;
Ser em forma de pássaro,
Sonora envergadura
Ruflando asas de ferro sobre o fim
Dos êxtases do espaço,
Cantando um canto de aço nos pomares
Onde o tempo não treme,
Onde frutos mecânicos
Rolam sobre sepulcros sem cadáver;
E sonho outros planaltos
Por mim sobrevoados na procela;
E sonho outras legendas
Em mim argamassadas pelo vento,
Trabalhadas em mim por mãos sem tato;
E sonho o que foi parco
Mas meu e por que raro perdido;
E sonho o que foi vasto
Mas de alheio me pesa sobre os ombros,
Globo de ásperos polos,
Continentes de medo
E mares onde o sangue é trilha e nódoa;
Deitado no vitral
Da noite intensa, exata,
Assim um Fazedor empunha o cetro
Ornado de serpentes;
Assim refaz o que foi feito à sua
Augusta semelhança
Contrafação de um gesto mais difícil
Sonâmbulo e remoto ― contundente;
E enquanto nuvens quedam
De incenso carregadas, de semente,
Levanto-me e estrangulo
O ato de nascer que me divide
Em morna derrisão
Disforme difidência de um presságio;
O Fazedor anula
O inferno que o refina
E alçando-se ao poente mais seguro
Mergulha na verdade
Acesa que o derrota e reduz ao
Dormente ser de vidro e cor que sonha;

Os cães do sono calam
E cai da caravana um corpo alado
E o verbo ruge em plena
Madrugada cruel de um albatroz
Zombado pelo sol ―


FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.77-78.

Emily Dickinson

Conheço vidas cuja ausência
Não me dá Saudade ―
Outras ― um só momento longe delas
Seria a Eternidade ―

Estas um Número pequeno ―
Duas ― não mais ― seriam ―
Aquelas ― um Horizonte de Mosquitos
Facilmente encheriam.


I know lives, I could miss
Without a Misery —
Others — whose instant's wanting —
Would be Eternity —

The last — a scanty Number —
'Twould scarcely fill a Two —
The first — a Gnat's Horizon
Could easily outgrow — 

Emily Dickinson. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.254-255. Tradutores de Emily Dickinson para a língua portuguesa.

Desolation Row: Dewey Paul Band (live Bob Dylan tribute)

 
All these people that you mention
Yes, I know them, they’re quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can’t read too good
Don’t send me no more letters, no
Not unless you mail them

...e por falar em José Paulo Paes

Ítalo Moriconi não encontrou na poesia de José Paulo Paes motivo suficiente para arrolar um de seus poemas entre Os cem melhores poemas brasileiros do século (Rio de Janeiro: Objetiva, 2001). Talvez o poeta interiorano tenha ficado demais em casa. 

ÉCLOGA

lentos bois,
passam por mim
os dias

Os melhores poemas de José Paulo Paes. Seleção Davi Arrigucci Jr. 3.ed. São Paulo: Global, 2000, p.214. 

poesia: a arte de ficar em casa

“Pondo entre parênteses todo o arsenal de alusões da prática literária que o antecedia, Williams se acercava das coisas em estado de inocência para vê-las com olhos novos.”

José Paulo Paes. WCW: a arte de ficar em casa. In: William Carlos Williams. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 18.

Juan Gris, The Book

uma imagem para o poema de William Carlos Williams

 Kaaru MbijaRodrigo Rodrigues. Imagem obtida AQUI (clique para ampliar).

Gustavo Acioli

Foi através da acidez deste curta, Nada a Declarar, mais propriamente a música que toca nos créditos finais, que prestei atenção ao nome de Gustavo Acioli. É possível escutar no seu site, trata-se da última música do CD Eu, camelô de mim: "Não importam os poemas / O importante é ser poeta." 

O Trenzinho do Caipira: Heitor Villa-Lobos

Último movimento da "Bachianas Brasileiras Nº 2", a "Tocata", 
ou "O Trenzinho do Caipira": Museu Villa-Lobos.

William Carlos Williams

EL HOMBRE

Estranha é a coragem
que me dás estrela antiga:

Brilha sozinha na alvorada
para a qual em nada contribuis!


EL HOMBRE

It’s a strange courage
you give me ancient star:

Shine alone in the sunrise
toward which you lend no part!


William Carlos Williams. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.36-37. AQUI outros poemas do autor.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Murilo Mendes:

A OUTRA INFÂNCIA

Meninos que daqui não vejo
Dançam e cantam de roda no terreiro ao lado.

O menino que também brincou de roda
Seria mesmo eu? Creio que não.
(Viramos crianças
Ao imaginar a criança que fomos.)
Já era outro menino, já pensava,
Iluminando-me com duas luas
― Uma na cabeça.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994, p.423.

escolher o menos

Escolher o menos. Utilizei esta expressão numa postagem meio intempestiva escrita ano passado (aqui), e já havia mesmo me esquecido, quando hoje, ao refletir sobre uma série de coisas que me são caras, lembrei-me dela ― mas me lembrei assim: quem é que li ano passado que usou esta expressão, escolher o menos? Alguém que li falou isso ― continuei em minhas divagações  e cheguei mesmo a fazer um post. Mas quem?  ― e continuei a buscar contorno para o post que faria, este que ora escrevo, em que a expressão se coadunaria com o restante, só faltando encontrá-la e a fonte. E afinal encontrei, e para minha surpresa não foi lida de ninguém: fui eu mesma que a cunhei, para falar de coisas que eram prementes, dentre as quais o que pretendia aqui. Escrevi então: "É bom notar também que não se trata de nenhum blog campeão de audiência, com grandes pretensões, mas antes uma ilhota, uma micro-ilha, rodeada de milhares de ilhas mais portentosas, dispersas num oceano imenso, que eventualmente configuram arquipélagos, territórios discursivos. A pretensão aqui é mais simples: falar e, com sorte, fazer-se ouvir, quem sabe conseguindo também ouvir." É sobre este falar que vem a propósito a expressão escolher o menos.

Sempre ouvi falar em poeta menor (Manuel Bandeira é emblemático a esse respeito), como também não me escapou o título do conhecido texto de Deleuze, "Kafka: por uma literatura menor", que nunca cheguei a ler, embora tivesse me rondado mais de uma vez na Universidade, nas conversas e nas ementas das disciplinas (sempre maravilhosas, as ementas, as disciplinas era melhor perguntar antes a alguém bem informado). Quando escrevi o texto sobre o livro de poemas traduzidos por Augusto de Campos, fui derivando, por conexões que parecem ter um mecanismo próprio, este texto, no sentido da intenção desses meus escritos de crítica literária (se posso chamá-los assim), para usar o termo de Alexandre Eulálio. Como situá-los? Porque é claro que, por maior que seja minha timidez, estou me aventurando neste campo, e foi então que me ocorreu que a par do poeta menor pode existir a crítica menor: crítica no sentido da palavra crítica ― mas crítica como substantivo feminino também  me ocorreu imediatamente. A nossa literatura forjou um Rodrigo S.M., nada impede que outras vozes dissonantes, embora com bem menor alcance, possam se lançar. Esta que aqui fala nem sequer pretende (verbo pretensioso, este), apenas sabe-se fazendo um exercício de crítica menor  em muitos e variados e complexos e contraditórios sentidos. Mas menor, sempre, e mesmo o sentido disso ainda está por se fazer. Pois uma coisa é certa: o que é grande já possui muitos que lhe tomem conta. Menor, sobretudo, porque é o que vai me franquear as portas possíveis. 

um pedaço do céu

No meio do turbilhão da tarde olhei para o azul e vi um pedaço do céu ― e me ocorreu que o ser humano não faz falta à tarde.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Clarice Lispector

CONDIÇÃO HUMANA

Minha condição é muito pequena. Sinto-me constrangida. A ponto de que seria inútil ter mais liberdade: minha condição pequena não me deixaria fazer uso da liberdade. Enquanto que a condição do universo é tão grande que não se chama de condição. O meu descompasso  com o mundo chega  ser cômico de tão grande. Não consigo acertar o passo com ele. Já tentei me pôr a par do mundo, e ficou apenas engraçado: uma de minhas pernas sempre curta demais. O paradoxo é que minha condição de manca é também alegre porque faz parte dessa condição. Mas se me torno séria e quero andar certo com o mundo, então me estraçalho e me espanto. Mesmo então, de repente, rio de um riso amargo que só não é um mal porque é da minha condição. A condição não se cura, mas o medo da condição é curável.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.165.

Milton Nascimento é gênio... e quem quiser que conte/cante outra

Composição: Milton Nascimento e Fernando Brant. 
AQUI na interpretação clássica de Milton e Elis.

ponta de areia


do modo estranho com que as coisas vão entrando em nossa vida

 Música: Loneliness of the Shot Down Bomber (AQUI)

It's All Over Now, Baby Blue (Bryan Ferry)

recusa

Acabo de receber em casa o livro Poesia da recusa, projeto de Augusto de Campos de tradução de certa estirpe de poetas/poemas que o tradutor assim apresenta: “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas (...) A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo.” (p.16). Cansa, antes mesmo de começar a conferir o volume, esta pomposa declaração de princípios: não informa nada que não já se saiba. Dou uma passada de olho, detenho-me em Hart Crane, a quem Mário Faustino teria homenageado em sua Balada (cuja dedicatória é ainda matéria de controvérsia) e me deparo com isso: “Em 1956, Faustino traduziu dois poemas de Crane, ‘Praise for na Urn’ e ‘Garden Abstract’. Não são, porém, traduções criativas. Antes, versões quase literais, de cunho didático, para a sua ‘Página-Experiência’ no Suplemento Literário do Jornal do Brasil.” (p.294). É cômodo desqualificar o trabalho de quem não está mais aqui para se defender... Só há um porém: a tradução de Mário Faustino pareceu-me mais bonita, entre outros porque primeiro me trouxe o poema em seu frescor e novidade. Traduções são traduções ― disse-me alguém versado, e em versos versado, na questão ― cada uma atende uma demanda própria ― desde que recubra o que cabe na palavra tradução. Há várias possibilidades de recusa. Pode-se pensar que não há literatura ou poesia fora do espectro que recobre a palavra recusa ― de quê? O leitor também costuma ter suas recusas, nem sempre é fácil contorná-las, mas se elas encontram expressão na arte, isso pode sinalizar que não há uma poesia da recusa pairando acima das contingências que a ensejaram: porque uma hora vai sempre aparecer alguém que necessita dela. Na palavra recusa está pressuposta a palavra escolha: escolhemos os poetas que amamos; traduzir é escolher. Se Dylan Thomas nasceu falando uma língua diferente da minha, isso não impede que sinta necessidade de sua poesia. Aí vem sempre alguém lembrar, pelo menos aqui no Brasil, que a melhor leitura é a que se faz no original, que poesia não se traduz (cansei de ouvir isso nos eventos de que participei na Universidade), que as traduções que pratica "procuram preservar as características formais do original. São, nesse sentido, estudos de dicção e estilo. Mas o meu lema é oferecer ao público somente poemas que efetivamente continuem poemas depois de traduzidos. Daí a necessidade de captar, além da sua forma, a sua 'alma', o que traz para o tradutor o problema de identificar-se com o texto e abdicar de uma programação inteiramente premeditada." (p.17). E traz para o leitor uma enorme sensação de incompetência, para qualquer coisa, inclusive ler poesia. Será preciso lembrar tanto a própria erudição para alcançar a vontade de poesia do outro? Um poema que não continue poema depois de traduzido foi bem traduzido? É passível de tradução? Não sei responder a estas questões. O que sei é que se há quem se proponha a traduzir é porque existe, na outra ponta, a demanda de leitura. E se as melhores traduções, as mais desejadas, são ainda as bilingues, é porque o leitor quer, por ele mesmo, quando pode, fazer a comparação. A título de, segue a versão que Augusto de Campos propôs para o poema de Hart Crane:

JARDIM ABSTRATO

A maçã no seu galho é tudo o que ela quer, ―
Suspensão cintilante, mímica do sol.
O ramo arrebatou-lhe o sopro, e sua voz,
mudamente cingida aos declives e alturas
De ramo a ramo acima, turva-lhe a visão,
Prisioneira da árvore e seus dedos verdes.

E ela se sonha enfim a própria árvore.
O vento, que a possui, tece-lhe as veias jovens,
Retendo-a para o céu e seu rápido azul,
E afoga a febre de suas mãos no sol.
Ela não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e sombras a seus pés.

CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.300-301.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Torquato Neto: a linguagem na contramão

Torre de Babel, Escher, 1928

“... & depois da tempestade já não temos tempo de levantar a questão de uma nova Torre de Babel sintática: ela já explodiu sua possibilidade, seus alicerces, suas palavras. As palavras inutilizadas são armas mortas (a linguagem de ontem impõe a ordem de hoje). A imagem de um cogumelo atômico informa por inteiro seu próprio significado, suas ruínas: as palavras arrebentadas, os becos, as ciladas etc. etc. ad infinitum.”


NETO, Torquato. Torquatália {do lado de dentro}. Org. Paulo Roberto Pires. Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p.312.

afastando-se do discurso

"Eu estou depois das tempestades", disse Riobaldo. 

"Não estou procurando nada nos olhos de ninguém", disse Bob Dylan. 

Já eu trago a tempestade no olhar: tudo o que preciso tenho aqui, nesta escrita intempestiva, inclusive o distanciamento do discurso, do olhar do outro.

Hart Crane: Garden Abstract

JARDIM ABSTRATO

A maçã sobre seu ramo é seu desejo, ―
Brilhante suspensão e mímica do sol.
O ramo aprisionou-lhe o sopro, e sua voz
Mudamente articulada na queda e na ascensão
De galho sobre galho acima dela ofusca-a
Prisioneira da árvore e de seus dedos verdes.

E sonha-se ela assim a própria árvore,
Possuída pelo vento, que lhe tece as veias jovens,
Segurando-a contra o céu e o azul breve
Mergulhando no sol a febre de seus braços.
Não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e das sombras a seus pés.


GARDEN ABSTRACT

The apple on its bough is her desire,—
Shining suspension, mimic of the sun.
The bough has caught her breath up, and her voice,
Dumbly articulate in the slant and rise
Of branch on branch above her, blurs her eyes.
She is prisoner of the tree and its green fingers.

And so she comes to dream herself the tree,
The wind possessing her, weaving her young veins,
Holding her to the sky and its quick blue,
Drowning the fever of her hands in sunlight.
She has no memory, nor fear, nor hope
Beyond the grass and shadows at her feet.

FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.292-293.

manu chao

Fabiano Martins

Aquedar e quedar

Ouça a voz,
Ela pulsa em teu peito
à noite.
É a voz que reconhece
em si mesmo;
que te acorda na manhã
pós-pernoite

Não afoito
siga
como os pássaros
vão...
todos cuspindo ar;
como os braços
que a tudo abraçam
abarcam teu peito
a quedar
e quedar

Não há pleito
inerente
ao que te fala
essa voz
Ela diz
condescendente
algo forte
e atroz
É faca de dois gumes
por certo
É tão direto, o que diz; é tão completo...
Descinge a ternura
para além do olhar;
cessa os idos para além
da janela;
quer à queda
quedar e quedar.

do blog do Fabiano Martins

álbum de fotografias

Ontem, enquanto aguardava na rodoviária a chegada de minha mãe, enganando o quanto podia o frio e tentando em vão enganar o cansaço (já passava das onze da noite), uma pessoa (uma moça, mais especificamente) me abordou pelo nome:
― Mariana?
― Sim?
― Sou eu, K.
― !?
E continuei na íntima interrogação (e espanto) enquanto durou a conversa. Impossível reconhecê-la. Não pelo pouco que convivemos na faculdade, mas pelo muito que o tempo, relativamente curto aliás, lhe fez. Num curto interregno de 10 anos quanto uma vida se transforma! Os traços do rosto de hoje não deixavam entrever os traços que a memória guardou do rosto esquecido de outrora. Daquelas pessoas ficaram-me uma ou duas, e um álbum de fotografias, a que volta e meio volto. Meu maior susto, em tudo, foi a possibilidade de tornar-me também irreconhecível a alguém, não porque quero ser lembrada (em alguns casos quero exatamente o oposto), mas pela transformação em si.  

uma reflexão a menos

Não querer nada ― exceto o esquecimento. Há um querer, um desejar, profundamente estético: só a arte pode satisfazer... Por isso este post também poderia se intitular niilismo. Mas faz frio lá fora, algumas pessoas passaram por aqui e deixaram promessas de diálogos, o frio é mais frio na paisagem, aqui dentro há algum aconchego (minha mãe dormiu aqui esta noite), e pelo não humano consigo vislumbrar minha melhor fortuna.

a life on facebook (curta... curta!... curta?)



"A man's life told through the Facebook interface, from his date of subscription to his death. The day Alex Droner subscribes to Facebook, his life gets told through the interface in highspeed, starting from that very day as he lives a lifes of pain, happiness and woes, all the way to his death, in a three minutes time span." (AQUI)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

um poema de Drummond, a vida e outras reentrâncias

Se tivesse de escolher um poema de Drummond, seria este, aliás há muito escolhido, "Um boi vê os homens". A crueldade do homem, a capacidade para o mal, diria mesmo disposição, está toda ali, nos versos ― e no rastro da tristeza chegam à crueldade. Porque as notícias se sucedem, e a cada vez a consternação é coletiva, mas como entender o enjaulamento, o abuso, a violência, o cárcere privado e o espancamento até a morte de uma criança, de mais uma criança, sem que ninguém tivesse feito nada para impedir? Chamava-se Christian o garoto. Soa cândido, ao final da reportagem, deparar-se com isso: investigadores locais e estaduais estão agora tentando determinar como e por que o sistema fracassou em descobrir o abuso sofrido por Christian Choate. O sistema não fracassou em descobrir: simplesmente não quis ver, porque não lhe interessa a vida, a integridade das pessoas. Aliás, a quem pode interessar? O que vale uma pessoa entre tantas? O que terá verdadeiramente acontecido? Como, de abuso em abuso, essa criança chegou até a morte?

UM BOI VÊ OS HOMENS

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentarem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rastro da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos ― e perde-se

a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia.  Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.167. (Claro enigma) 

Anselm Kiefer, To the Unknown Painter, 1983

imagem obtida aqui 

Alejandra Pizarnik

SALVACIÓN

Se fuga la isla
Y la muchacha vuelve a escalar el viento
y a descubrir la muerte del pájaro profeta
Ahora
es el fuego sometido
Ahora
es la carne 
    la hoja
    la piedra
perdidos en la fuente del tormento
como el navegante en el horror de la civilización
que purifica la caída de la noche
Ahora
la muchacha halla la máscara del infinito
y rompe el muro de la poesía.

Alejandra Pizarnik. Poesía completa. Barcelona: Lumen, 2000, p.49.

domingo, 3 de julho de 2011

David Bowie: Something in the Air

tênue

Só depois percebi a contiguidades entre estes extremos (aqui e aqui). Assim é minha esperança: na abundância se perde; na ausência se reinventa. Porque se todos os loucos que li estiverem certos, não há lugar para meio termo quando o assunto é o homem, aquilo que um dia, numa savana perdida, um bípede intuiu como diferença fundamental, tênue, fugaz talvez, entre ser sapiens e não ser, ainda quando ainda não o era: foi esperança o que aquele bípede sentiu. E me assusto toda vez que a esperança se afasta de mim, pois é como se estivesse negando a herança daquele ser (era já um bípede?), que, se não justificou a humanidade, deu-lhe sua única justificativa ante o vazio que aquela intuição imediatamente descortinou. Nós, ao nos afastarmos da natureza, nos tornamos os únicos seres capazes da solidão. Os animais, as árvores não estão sós, simplesmente porque são o que são, bastam-se em sua substância. A nossa substância pediu mais ao Universo, e nisso ela se viu só, buscando abrigo no semelhante, alimentando aquela remota esperança de... de quê? De ser algo mais que a matéria. 

Em tempo: qualquer leitor versado em filosofia desmonta este meu texto em dois tempos: noções como ser, o ser e substância estão sendo usadas aqui no seu dado mais bruto, imediato. Mas foi brutal e prenhe de consequências a revelação que aquele bípede teve, sentir em si o brotar da esperança. Que deus lhe terá feito isso?