Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 26 de março de 2011

indecisão

relendo grande sertão: veredas (VI)

“Há-de que eu certo não regulasse, ôxe? Não sei, não sei. Não devia de estar relembrando isto, contando assim ao senhor o sombrio das coisas. Lenga-lenga! Não devia de. O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.55. 

Clarice Lispector por Gonçalo M. Tavares

“Uma barata pode ser mais importante que um imperador. Se os teus olhos olharem mais tempo para uma barata do que para um imperador, a barata se tornará mais importante que o imperador. Chamamos imperador ao imperador, e barata à barata, porque a média dos olhos humanos olha mais tempo para o imperador do que para a barata.
‘O que é um revolucionário?’, pergunta-me a minha filha de 3 anos, e eu respondo: ‘É quem olha mais tempo para uma barata do que para um imperador.’
‘E o que é um imperador?’, pergunta-me minha filha. ‘É aquele que não deixa que se olhe demasiado tempo para a barata’, respondi.
E, por favor, não me faças mais perguntas." 

Fragmento do livro Biblioteca, de Gonçalo M. Tavares, em diálogo com a obra de Clarice Lispector. Postado por Luiz Lopes em seu Caderno de Caligrafia

The Cat Piano (legendas em espanhol): narração Nick Cave

 site oficial: catpianofilm

sexta-feira, 25 de março de 2011

Mozart: Sinfonia nº 40

Mozart: Sinfonia nº 25

VIPs

"VIPs é o típico filme feito com a estética dos publicitários, e pela primeira vez essa constatação não é necessariamente um demérito", diz o omelete. Pois vou assistir essa bobagem, porque estou precisando de ir ao cinema apenas para me divertir. Depois de ter conferido O Discurso do Rei e me perguntado por que um filme tão insosso foi o grande vencedor do Oscar 2011, posso perfeitamente me permitir uma bobagem sem fins lucrativos, ao contrário, por exemplo, do que seria assistir Cisne Negro porque quase todo mundo disse que é bom, muito bom (mas houve quem dissesse que não). E há um motivo adicional: uma reminiscência de infância, ou juventude talvez. Havia um radinho de pilha que eu colava ao ouvido, e na estação que sintonizava passava sempre uma voz agradável de locutor falando do VIPs motel: era tão bem feita a propaganda que devia ser um lugar muito agradável, de alto nível: pelo menos era essa a imagem passada. Havia uma leveza em tudo, e até hoje não consigo entender o modo como então escutava a palavra motel: escutava sem perguntar, sem saber, sem querer saber. Escutava inocentemente. Sabia vagamente o que seria um motel, mas isso não interessava. Queria mesmo saber o que era VIPs. Quem seriam os VIPs? Por que, me perguntava então, sem sentir qualquer necessidade de resposta, algumas pessoas eram chamadas de VIPs? Agora sei: Very Important Person. A pessoa mais VIP com quem esbarrei na vida, e nem sei se ele aceitaria o rótulo, foi Caetano Veloso. Portanto, vou assistir ao filme para finalmente saber o que é um VIP. 

trecho de conversa: a confusão da vida

"Vou terminar com uma frase que tenho dito para mim: fique bem, apesar de tudo." São muitas as vozes, as possibilidades, as exigências. Meu nível de exigência comigo mesma é elevado, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque mantém sempre por perto o farol crítico. Ruim porque traz sofrimento. Na confusão do trânsito do início da noite, enquanto tentava tomar um táxi, percebei que ultimamente tenho estado às voltas com muitas decisões, decisões que representam escolhas. E aí flagrei: qualquer que seja o caso, estou sempre tentando não errar, o que cria uma armadura, uma couraça. Senti um imenso cansaço de mim mesma, desse enrijecimento da vida. Não errar, fazer sempre escolhas acertadas. Isso é uma ficção, não existe, mas eu tenho, absurdamente, sem perceber, levado meu nível de exigência a esse grau, o que foi acentuado pela passagem pelo doutorado. Quer dizer: não é preciso tiranos, eu instauro a tirania. No limite, não há uma ética da vida, embora a ética seja uma boa baliza para nortear a vida de relação. O trânsito das vozes, no concerto das escolhas, é dissonante, e talvez seja a consciência disso a maior fonte de sofrimento. Não só dissonante: não encontra, por vezes, um terreno comum em que possa intercambiar-se na condição de diálogo: a arena dos discursos não é plana, ela configura-se antes ao modo de uma paisagem de Escher. As perspectivas não podem dialogar, o que não deixa de mostrar os limites da linguagem, para além da ilusão referencial.

Escher, Castrovalva, 1930, litografia (aqui)

quinta-feira, 24 de março de 2011

escrita

"Respondi que o que mais queria, acima de qualquer outra coisa, era escrever, só isso, nada mais."

DURAS, Marguerite. O amante. Trad.Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p.21. 

escrita (por Marguerite Duras)

"A história da minha vida não existe. Ela não existe. Nunca há um centro. Nem caminho, nem linha. Há vastos lugares em que é de se crer que houvesse alguém, não é possível que não houvesse ninguém. A história de uma minúscula parte de minha juventude, já a escrevi mais ou menos, enfim, quero dizer, dei-a a perceber; falo justamente desta parte, a da travessia do rio. O que faço aqui é diferente, e parecido. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam esclarecidos. Aqui falo dos períodos encobertos dessa mesma juventude, de certos fatos, certos sentimentos, certos acontecimentos que enterrei. Comecei a escrever num meio que me impelia fortemente ao pudor. Escrever para eles ainda era moral. Escrever, agora, é muitas vezes como se não fosse mais nada. Às vezes sei disto: que a partir do momento em que não é mais, todas as coisas confundidas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever não é nada. Que a partir do momento em que não é, a cada vez, todas as coisas confundidas numa só por essência indefinível, escrever não é nada senão publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião, vejo que todos os campos estão abertos, que não haveria mais muros, que a escrita não teria mais onde se esconder, onde ser feita, onde ser lida, que sua inconveniência fundamental não seria mais respeitada, mas não vou muito além."

DURAS, Marguerite. O amante. Trad.Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p.12

quarta-feira, 23 de março de 2011

versão digital da minha tese de doutorado

Esta é a notícia alegre do dia, pelo menos do meu dia, e alegre para mim. A UFMG disponibilizou a versão digital, em PDF, de minha tese de doutorado (aqui). Gostaria de sinalizar dois aspectos técnicos, formais. O editor de textos não oferece recursos, pelo menos a uma leiga em informática como eu, para numerar as páginas conforme pedem as normas técnicas: embora a numeração conte desde o início, páginas exibindo números só poderiam aparecer a partir da segunda página do texto propriamente dito. Ou seja, a numeração das páginas iniciais não é a mesma da versão impressa, e há um segundo fator em cena. A ficha catalográfica, na versão impressa, aparece no verso da folha de rosto, enquanto na versão digital não consta a folha de aprovação, já que, como documento expedido pelo programa de pós-graduação, teria que ser escaneada para figurar no texto, alterando ainda mais a numeração (a folha de aprovação não conta como página numerada), e também porque a entrega da cópia digital, em CD, era um dos pré-requisitos para liberar a documentação, e eu precisava agilizá-la. Uma burocracia que exige paciência.

Dito isso, cumpre sinalizar que a versão definitiva sofreu pequenas alterações em virtude de ponderações da banca, e como essas alterações tiveram que ser feitas com rapidez para a liberação da documentação, pode ter escapado algum truncamento sintático, ao passo que na versão que seguiu para a banca, a que foi examinada e arguida, revisei o texto para eliminar problemas linguísticos/gramaticais e de digitação, e apenas um me foi apontado por um dos arguidores. Nem tão cedo pretendo reler o texto, preciso de um tempo para me refazer dos excessos que cometi para finalizá-lo. Então, a eventuais leitores, peço de antemão desculpas por problemas gramaticais e de normalização que forem encontrados. Peço a gentileza de não denunciá-los para mim: não me apraz rever nada no momento, além de me desagradar saber que deixei passar deslizes no uso da língua. Como o marido traído da história, prefiro não saber. É uma posição mais confortável no momento.

Mas, no que concerne a questões teórico-críticas, terei o maior prazer em discutir o que quer que seja. É para mim motivo de satisfação poder debater um trabalho que, afinal, me trouxe tanta alegria. E é essa alegria que estou partilhando ao divulgar, neste espaço, meu trabalho sobre a crítica literária de Sérgio Buarque de Holanda.

terça-feira, 22 de março de 2011

Cacaso: Jogos Florais

No post anterior, não escapa que a canção Lero-Lero tenha letra de Cacaso, talvez, junto com Torquato Neto, o mais corrosivo dos poetas marginais. Subjacente a uma melodia que pode sugerir certa displicência do brasileiro (e o vídeo da canção é de 79...), há um jogo sutil de ironias acerca do que era então esse personagem, em que avulta a voz da dissonância: "Eu sou poeta e não nego a minha raça / Faço versos por pirraça e também por precisão." Preciso. Ou melhor, incerto, não inserto. Pois é de Cacaso um dos mais irônicos poemas da época, publicado na primeira edição da antologia 26 poetas hoje (1975). 

JOGOS FLORAIS

I           
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. 26 poetas hoje. 2.ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007, p.41. 

um pouco de MPB: Lero-Lero (Edu Lobo & Cacaso)


[desconsiderar release inicial do apresentador do Fantástico]

angústia

Paciência é algo difícil de ser conjugado quando o bom senso é muito afrontado. Cai-se no risco da passividade. As coisas funcionam de forma estranha neste país, com variações de estado a estado. Ineficiência, lentidão, burocracia excessiva, feriados em demasia, e a sensação de correr contra o tempo, de que a própria vida está atrasada. Daí a sensação de angústia. Daí que é preciso agir, mas intuindo qual é a ação, que fornece uma espécie de limite: a intuição ilumina a ação, a ação é uma forma de colocar um limite ao que estava incomodando. Então hoje, depois de um desses bastas que têm o poder de catarse de um palavrão, vi numa banca de jornais, num daqueles jornalecos sensacionalistas cujo único fim é chocar, uma imagem tão grotesca, tão ofensiva à própria vida, que me assustei com os limites da vida, da ação, da inteligência, da intuição, do acaso, de tudo. Era, digamos assim, o meu rato (quem puder que entenda). Diante do grotesco, do monstruoso, primeiro emudecemos, dando um grito abafado pelo susto. Imediatamente se deseja fugir, pois nada parece fazer mesmo sentido. O monstruoso que ali via simplesmente me dava os limites da vida, e por isso assustava, pois as pessoas querem viver, e a travessia poderia ser um pouco mais suave. Mas os jornais insistem em gritar misérias todos os dias.

metáfora de barco nas palavras

Ando tão à flor da vida que qualquer combinação de palavras é pretexto para me fazer falar. Alguém me dá de presente esta, "metáfora de barco nas palavras", e nela embarco, não na metáfora, mas na combinação. Oh, sim, eu estou tão cansado. Mas não pra dizer que eu estou indo embora. Porque eu sempre estou indo embora, não importa se ou não em boa hora, meu movimento é este, o importante é ir, sair (todos estamos indo embora, é apenas uma questão de perspectiva). As palavras, em sua combinação, podem dizer tanto ficar quanto partir. Metáfora de barco nas palavras. Buscar nas palavras seu barco, seu movimento. Fazer o movimento que pedem as palavras, tirá-las de sua rigidez de dicionário, das metáforas gastas e vazias. Tornar cada palavra nua, em seu frescor edênico. Encontrar o barco das palavras, libertá-las das prisões dos significados estabelecidos, dura lex sed lex. Dar à vida um outro sentido que não sejam os previstos pelos ditames da sobrevivência. Buscar, buscar sempre, o barco das palavras, as palavras em seus barcos, navegar nos barcos das palavras em movimento. Criar novas possibilidades de viver. Existir. 

segunda-feira, 21 de março de 2011

ARTISTAS QUE NÃO FAZEM ARTE - Clarice Lispector

"B. D. tem o olhar agudo de fotógrafo que sabe que uma imagem nunca vem duas vezes. Na sua procura, ele não faz arte: procura como quem jamais vai contar o que viu. O tipo de coisas que ele vê, aliás, são dificilmente contáveis. Não organiza bem o que sente e o que vê num conjunto: isso faz dele um não-artista. Mas todo homem tinha que ser pelo menos essa espécie de não-artista para que o espírito possa sobreviver."

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 464. 

eu sei, eu sei...

Eu sei: sei do caminho da paciência, do desprendimento, do passo adiante. Sei também da minha timidez, o quanto demoro a acreditar em um elogio. Sei que tenho o que preciso em minhas mãos. Só preciso encontrar o modo. 

domingo, 20 de março de 2011

o passado à espreita

Entre outras coisas, ouvi na minha defesa que, apesar de minhas posições em contrário, eu estava estudando o passado como uma benjaminiana, e confesso que, dado o avançado da hora e do cansaço, não tive munição para discutir a questão, pois afinal eu havia me desligado bastante de Benjamin, pelo menos num plano mais ou menos consciente. A defesa continua sendo uma nebulosa para mim, muita coisa ainda não processei, precisarei de tempo para ver/perceber efetivamente quais são minhas questões... Mas... ao visitar, neste final de semana, o Espírito Santo (um pouco ao contrário de Maria...), deparei-me com a escola em que iniciei meus estudos, ou melhor, com as ruínas do que um dia foi a Escola Singular de Destino, rebatizada posteriormente de Escola Unidocente de Ensino. E aí que tiramos algumas fotografias, cerca de 35 anos se passaram. Então, a imagem nova que coloquei para ilustrar o blog é justamente uma fotografia tirada em frente a esta escola: porque há um passado que continua vivendo dentro da gente, independente de ações deliberadas em negá-lo, e é muito bom quando se descobre a força que existe nele, a força que, a cada instante em que se respirava, no presente que é o tempo do viver, fazia alguma coisa meio imperceptível ser palmilhada, que a gente pode escolher chamar de destino ou de história. 

fotografar é encontrar a beleza insubstituível

supermoon, sábado, 19 de março de 2011

[imagem obtida aqui]

Quem tem boca vai a Roma

Diante de situações difíceis, não há propriamente escolha. Mas há recursos com que enfrentá-las. Sempre há. Escutei dia desses que o famoso provérbio é na verdade "Quem tem boca vaia Roma." Nos dois casos, é preciso boca, quer dizer, linguagem. E vaiar dá outro colorido ao dito.