Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

cisão, fratura, ser ou não ser

“De que me valem essas árvores e essas janelas, e essa sombra sobretudo, se a cada passo me assalta esta certeza, esta incerteza, apesar de toda a experiência ou por isso mesmo?”

Campos de Carvalho. A chuva imóvel. 2.ed. Rio de Janeiro: José Oympio, 2008, p.15.

Vladimir Maiakóvski: sei o pulso das palavras

Sei o pulso das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça

Maiakóvski: poemas. Trad. Boris Shnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos. 8.ed. São Paulo: Perspectiva, 2011, p.140. Tradução deste poema: Augusto de Campos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

PS a encontro: até lembrei de Roberto Carlos

encontro

Hoje saí pra caminhar com muita força, depois de dois dias sem poder fazê-lo, e a força era tal que, por alguns instantes, eu parecia estar me encontrando com meu destino.

The Big Lebowski cura qualquer tarde de tédio


Dentre os muitos méritos deste filme, uma concepção de masculinidade associada não ao poder ― que afinal resulta inócuo e vazio ―, mas antes ao imponderável e irresistível charme do protagonista. A canção de abertura, The Man In Me, é inseparável desse charme. 

o olhar voltando...

Da árvore seca ― e também porque hoje não tive aula de natação ― eu fui para a infância, uma geografia já bem remota: a árvore, a hora do dia e o calor avivaram na memória o tempo em que levava marmita na lavoura para meu pai.                    Agora a música de fundo: Milton Nascimento ecoando as canções de Sentinela.

o revolucionário, na fotografia, é obrigar o olhar a sair de si...

... para depois voltar com novas dimensões

irritante

Irrita-me sobremaneira o costume de viver em bando. Das pessoas que assim entendem sua vida, cada vez mais, eu estabeleço uma educada distância. 

o livro de horas

Amo as horas sombrias de meu ser,
nas quais se me aprofundam os sentidos:
nelas eu tenho achado, como em velhas cartas,
meu dia a dia já vivido, e feito
alguma lenda distante e sofrida.
Delas me vem a noção de que tenho
lugar numa outra vida mais ampla e infinita.

E eu às vezes me sinto feito a árvore
que, sobre um túmulo, madura e ciciante,
preenche o sonho de algum morto jovem
(a cuja volta ela aperta as raízes mornas)
perdido entre amarguras e cantigas.

RILKE, Rainer Maria. O livro de horas. Trad. Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.19.

manhã

Mário Quintana

COMUNHÃO

Há anjos boêmios que costumam frequentar esses antros noturnos que são os sonhos humanos. São estes que finalmente intercedem por ti. O resto é dedo-duro.

Mário Quintana. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.159. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

liberdade

Vinha lendo bem o livrinho ofertado pelo monge, até esbarrar na palavra submissão ― como condição para o conhecimento de Deus (ou como O chamam). Quer dizer que o caminho para a libertação começa pela negação da liberdade? Eis um paradoxo difícil de aceitar pela razão, e ainda mais pela intuição. Porque há pessoas que não se submetem, jamais vão querer se submeter ― a uma crença, uma teoria, um afeto, um esquema de vida, ao que quer que seja. Se há um caminho para a liberdade, ele precisa ser construído com a própria liberdade de quem a deseja. A liberdade é um bem supremo.

é preciso receber bem os amigos

especial a sede do peixe (milton nascimento)

roubou a cena do carnaval

Minas, Minas, Minas...

Orides Fontela

BALADA

Os anjos são
livres.

Podemos sofrer
podemos viver
o acontecer
único

― os anjos são
livres ―

podemos morrer
inocentemente

― e os anjos são
livres
até da inocência.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.352.

nuvem cigana (de lô borges e ronaldo bastos)

tudo é poesia nesta canção: pé na estrada, pó, poeira, movimento, flor de vento

domingo, 10 de fevereiro de 2013

do tamanho do meu coração

O programa ontem era ir ao cinema com a amiga. Das muitas opções em cartaz, escolhemos Django, pelo quesito “onde está passando” e mais os óbvios motivos. Django me atarantou, me deixou tonta, me obrigou a esconder o rosto em mais de uma cena de violência. Um filme terrível, não importa se se conheçam ou não as referências com que o diretor está dialogando. Talvez por isso eu tenha amanhecido hoje mal, fisicamente, espirrando, com uma virose nauseante que foi ganhando força ao longo do dia. Não foi uma boa pedida, ainda mais que minha amiga quis se sentar nas fileiras da frente, a tela era imensa, me obrigando a malabarismos para captar a legenda e a cena. Felizmente houve outra cena, quando entrava no shopping. Um monge, trajado a caráter, vendia alguns livrinhos, e se acercou de mim. Perguntou-me se eu era daqui ou de fora. Disse-lhe que todos nós somos de fora, com o que ele concordou. Mas insistiu na pergunta e eu disse que não era do Rio mas morava aqui. Então escolhi um dos quatro livrinhos e perguntei quanto era. Ele disse que eu poderia dar uma contribuição. “Quanto?” “Do tamanho do seu coração.”  Eu ri e disse que assim ficava difícil, porque não sei estimar o tamanho do meu coração ― menos ainda ali na pressa: estava sol, e eu queria entrar logo, para mais uma viagem capitalista àquele templo do consumo. Saquei da carteira uma importância que não desmerecesse o tamanho do meu coração, mas fiquei desconfiando que ele é instável, mesquinho, depende do outro coração que está frente a mim. 

my sweet lord