Tentar ser o que os outros esperam de nós, o que os
discursos esperam que cada vida-existência seja. Falava disso na última sessão
de análise, da angústia decorrente, quando disse a palavra envenenamento. Tinha
ido para a sessão bastante angustiada com minhas dores físicas ― fazendo
trocadilhos do tipo: estou cheia de dores, estou cheia da dor ― e com muito
medo de falar delas, das dores, porque poderiam se irritar e aumentar (não
aumentaram, ao contrário, passaram a incomodar menos). Foi quando saiu a questão
das expectativas, o preço que se paga por. Disse envenenamento porque lá, na
sessão, e suficientemente livre para falar, eu conseguia perceber o quão nefasto
pode ser tentar ser o que determinado espectro discursivo legitima como
existência autêntica, plena, rica de experiências. O outro é outro,
inatingível. Eu sentia muita culpa. Culpa pelas escolhas que fiz, que por
obscuros caminhos ― que eu tentava supor ― teriam desembocado nas dores físicas,
supondo também a pertinência de minhas suposições. Uma escolha nunca é
totalmente livre, porque ela passou pelo abandono de alguma coisa, o que exige
renúncia de quem escolhe, e isso a cada passo, a cada milésimo de passo, uma
vida se fazendo. Os desdobramentos de tentar atender alheias expectativas, que
acabam por compor com as próprias, podem terminar por estiolar a árvore que
cada um nasceu para ser.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
Mostrando postagens com marcador bovarismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador bovarismo. Mostrar todas as postagens
sábado, 9 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
envenenamento
Estava falando ontem de uma forte angústia na sessão
de análise, quando, para tentar exprimir seu efeito sobre minha vida, ou
melhor, o efeito de suas causas, disse a palavra envenenamento ― pensamento então
subjacente: o que envenena Emma são as histórias (românticas) que ela leu...
pensamento agora subjacente: vi faz umas duas semanas uma moça de pé no metrô,
comum, uma moça de suburbano coração ― a contar da linha do metrô em que estava
― lendo em pé no metrô Madame Bovary,
numa edição recente da Companhia das Letras. Lia Madame Bovary (como a outra personagem célebre lia A dama das camélias?) e, não sei se são
meus preconceitos, o fato é que a moça de pé no metrô lendo Madame Bovary a caminho do trabalho
compunha um quadro incomum, inesperado, a sugerir que não há mesmo sentido
evidente... Não que eu esperasse uma mocinha da zona sul lendo de pé Madame Bovary no metrô. Não esperava nada, e nem é disso que se trata.
Trata-se da confluência entre a cena
moça-comum-lendo-madame-bovary-de-pé-no-metrô e as angústias que levei ontem para a sessão,
acerca de um certo bovarismo com que a vida vai ganhando incerto e por vezes
complicado contorno, muitas vezes angustiante... Como escapar ao próprio
círculo vicioso da linguagem, que não me deixa falar dessa moça sem apelar para
o lugar comum? Porque é claro que eu também sou comum, e não escapo ao círculo vicioso da angústia.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
domingo, 1 de agosto de 2010
bovarismo
"Emma Bovary c'est moi". Esse dito célebre de Flaubert foi repetido à exaustão. A personagem de Emma Bovary foi tão bem pensada que deu origem a um substantivo, "bovarismo", assim definido pelo dicionário: "s.m. (1923) 1 tendência que certos indivíduos apresentam de fugir da realidade e imaginar para si uma personalidade e condições de vida que não possuem, passando a agir como se as possuíssem 1.1 p.ext. faculdade que tem o ser humano de se conceber diferente do que é. ETIM fr. bovarysme, orig. grafado bovarrisme (1865), de Madame Bovary, personagem de G. Flaubert (escritor francês, 1821-1880)." Bovarismo é o equivalente romântico de "quixotesco" (o que não tem nada a ver com a classificação de Madame Bovary como obra realista; em seu fundamento, o texto é romântico). Mas a conversa aqui é outra: numa roda recente, alguém saiu com uma pergunta assaz curiosa: "Você preferia ter sua vida contada por José de Alencar ou Machado de Assis?". Machado de Assis, evidente. Outras duplas equivalentes foram propostas, não me lembro mais quais, mas certamente, se me fosse concedido o luxo de escolher um romancista para contar minha vida, esse romancista seria Gustave Flaubert. Poucas obras me deram mais prazer que Madame Bovary. Fiquei com a impressão de que estava diante de uma dicção literária que beirava a perfeição. Tenho inclusive medo de reler e não confirmar essa impressão. E aqui retomo o dito que abre esse texto: "Emma Bovary c'est moi". Todos trazem, em algum momento da vida, uma Emma Bovary dentro de si, no sentido do inevitável conflito entre as leituras românticas, que impelem para a fantasia, e a realidade, que chama para o chão (na falta de termo melhor). Madame Bovary é uma obra no limiar entre o romantismo e o realismo, ela problematizou ambos. Infelizmente, não me sinto capaz de aprofundar essa discussão, mas isso pouco importa. O que quero frisar é o alcance da obra em termos da encenação de conflitos que transcendem o século XIX: a fantasia das leituras leva para um lado; o mundo, que precisa ser fantasiado, leva para outro. Nesse terreno resvaloso nos movemos. Nem é preciso lembrar o conto Fita Verde no cabelo, de Guimarães Rosa, que tem como subtítulo (nova velha estória), postado neste blog. E que agosto seja bem-vindo.
Assinar:
Postagens (Atom)