Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Como Dois e Dois - Caetano Veloso


Como dois e dois são cinco, sinto que há amarras demais ao meu redor, invejo os pássaros, quero só o que quero. As pessoas mais interessantes são as livres. Volta e meia lembro-me do médico de Goiás, um ser liberto. Na minha memória ficaram impressos sua gentileza, seus gestos meio amalucados, sua conversa agradável, sua fala imprevisível. Há seres em graus diferenciados de espiritualidade: quando se encontram, dois e dois são cinco: algo da lógica do mundo foi trapaceada. Toda vez que me lembro desse médico, um sorriso se esboça em mim. 

Milonga de Albornoz: Vitor Ramil & Jorge Luis Borges


A canção também pode ser conferida neste vídeo

Paulo Mendes Campos: Experiência com LSD - III

O MUNDO É COLORIDO

Já devia ter ingerido o ácido lisérgico há uma hora e meia quando coisas obscuras começaram a se passar comigo, levando-me até a varanda, um segundo andar dando para o trecho ajardinado da Rua General Glicério. Foi então a rua mais bela que vi em minha vida. Digo bela por faltar-me palavra que identificasse melhor minha correlação com aquela paisagem; talvez fosse mais certo escrever que foi a rua mais significativa que vi em minha vida.
Significava o quê? Significava ela mesma, a própria rua, um trecho do universo e o próprio universo, a relva, as árvores, os prédios, as cores. Estas saltavam aos meus olhos com uma importância inimaginável. A tarde era nitidamente luminosa e meio fria, homens, mulheres, crianças, quase todos usavam agasalhos de lã. Eu me fartava de verde, de azul, de roxo, de amarelo, de vermelho...
As latas na mercearia do lado oposto me seduziram tanto quanto as flores. Por um tempo impreciso, embora remotamente cônscio de minha existência como um todo, os planos da minha consciência cederam ao significado direto das cores. Naquele momento infinito o meu estar-no-mundo era intensamente ver as cores. Receava apenas que o médico viesse distrair-me da descoberta. As pessoas que passavam em roupas coloridas, eu as notava como rara complacência, mas sem maior interesse. Nos próprios seres humanos as cores me prendiam muito mais do que as figuras e expressões do rosto. Foi então, por exemplo, que notei a importância cromática da epiderme preta, mais intensa do que a epiderme clara. (Já havia notado antes que os cinegrafistas de documentários, quando filmam em cores, preferem focalizar os negros). Durante o apogeu dessa verdadeira inauguração do mundo cromático só me lembro de ter reparado com a maior curiosidade na figura de duas meninas japonesas gêmeas. A beleza das mulheres era desimportante diante da cor das saias, das blusas, dos cabelos. Tentei propositadamente sublevar em mim a atitude normal do macho diante da fêmea, isto é, a imanência sexual do olhar masculino diante da figura feminina. Em vão. Sabia apenas, como se fosse de cor, se a mulher devia ser atraente: ela não me atraía. Insisti na tentativa e vi que contemplava no momento um mundo assexuado, minha relação com a realidade daquele momento era sexless. As cores me absorviam e me bastavam. Impossível conceituar essa vivência cromática. As cores significavam elas mesmas. Verde significava verde, azul significava azul. Era como se eu houvesse sido aceito na sociedade secreta das cores e estas me admitissem profundamente.
O médico trocou comigo algumas palavras. Eu lhe disse: estou vendo pela primeira vez ― e desejei que ele se satisfizesse com a resposta. Desagradava-me a hipótese de ser solicitado a traduzir em conceitos verbais minha visão. Ver como eu via era de todo mais transcendente do que tentar exprimir aquilo que eu via. Ainda que meu silêncio frustrasse a possibilidade científica da experiência (só depois soube que isso não era verdade), teria preferido ficar calado naquela hora. Felizmente entregaram-me um álbum de reproduções de quadros modernos, e pude assomar ao segundo ato da minha estreia no palco visual. Era como se fundasse de novo o meu ser através da vista.
Há muito tempo que gosto de ver quadros de arte, reconhecendo embora, muito cedo, que o mundo da pintura não me pertencia. Por isso mesmo, procurei educar-me razoavelmente para a visão plástica em museus, exposições e livros. Aprendi a ver um pouco melhor, me informei das noções mais elementares do valor estético e da evolução da pintura. Mas, ali na varanda, sob o efeito do ácido lisérgico, o álbum que segurava não me transmitia nenhuma experiência radicalmente parecida com as minhas habituais curiosidades plásticas. Antes de mais nada, não tive o mais leve desejo de avaliar a qualidade estética dos trabalhos ali reproduzidos. Não notei o título do livro, nem a origem da impressão, e não quis indagar que denominador comum agrupava os pintores daquele álbum, como também não quis identificar ao pé da página os nomes dos pintores, embora reconhecesse aqui e ali o estilo dum artista.
Sintetizando toda essa especial disposição interior, posso dizer que a pintura, como categoria civilizada da estética, não tinha maior importância para mim, não era a verdadeira coisa a ser vivida no momento (de certo modo esse momento era toda a minha vida).
Apesar de permanecer consciente até certo ponto dos valores culturais aprendidos, apesar de ter à disposição da memória minhas inclinações plásticas e minhas cogitações artísticas, as reproduções me fascinavam ao acaso, sem ideias, sem a tentação de confrontar ou medir a intensidade estética dos trabalhos. Via como nunca vi quadro algum. A tonalidade das cores e a profundidade do desenho me pegavam pelos olhos, gritavam aos meus olhos. Ver era extremamente fácil e significativo em si mesmo, sem qualquer consideração de ordem estética. Os quadros não me pareciam propriamente belos mas dotados dum sentido cósmico não conceitual.
Algum tempo depois substituíram-me o álbum por uma revista colorida, e não cheguei a lamentar a troca. Era ainda como se visse fotografias coloridas pela primeira vez; como, se depois de decorrido um prazo qualquer do meu nascimento, visse aquelas fotos sem prejuízo dos conhecimentos adquiridos em 40 anos de vida. Os dois planos, o da criança e o do adulto, não entravam em conflito. A criança era mais forte ou mais novidade, no que se comprazia o adulto. E eu via, via lentamente, muito lentamente, com um gosto lento, muito lento. Uma serenidade sem tempo era o meu ser. Como se uma membrana tivesse sido arrancada de cima das coisas, todo o meu ser VIA, serenamente, lentamente, muito lentamente.

(continua...)

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.119-122.

a vida é curta

A vida é curta ― e os rastos que aqui deixarmos desaparecerão antes mesmo que suspeitem nossas mais alentadas esperanças e ilusões nos vínculos criados. A história da senhora portuguesa encontrada depois de nove anos de morta, sem que dessem pela sua ausência, faz bem desconfiar que importamos menos às pessoas do que gostaria de acreditar a estima que devotamos a nós mesmos. 

De volta ao quarto 666 (entrevista com Wim Wenders)


A proposta reinveste sobre o que Wim Wenders fez em Quarto 666, tomando-o como entrevistado sobre o futuro do cinema. Mas se então o debate girava em torno do cinema e a emergência de novas mídias, como a televisão e o VHS, a possibilidade de assistir o filme em casa, o que conferia uma tônica de pessimismo às falas dos entrevistadoss, conforme o próprio Wenders pontua, sua posição, cerca de 20 anos depois, é otimista em relação ao cinema, otimista demais talvez, e o alvo que ele tem em mira é bastante problemático: "...as pessoas precisam do cinema, precisam desse instrumento, mais do que qualquer coisa. Todos nós sabemos que a 'palavra', a 'palavra falada' ou a 'palavra escrita', pertencem à cultura do passado. E que o futuro de nossa cultura é a 'imagem'. E este futuro recém começou." Há muito que se anuncia o fim do conhecimento centrado na palavra. A conclusão da entrevista é decepcionante, vinda de um cineasta como Wim Wenders, cujo brilhantismo da obra dispensaria esse triste papel de advogar em causa própria. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Quarto do Filho (Nanni Moretti, 2001)


Pessoas sofisticadas que não sabem o que fazer diante do que não entendem, ou relutam em aceitar. Se o principal personagem deste filme é a ausência, o súbito vazio deixado por uma vida que se vai sem explicação, o quarto do filho é o lugar dessa ausência, e o divã o lugar onde a culpa (não) se resolve. O divã, a experiência da cura pela palavra que o pai conduz com destreza e segurança, atrela-se, pelo acaso, à morte acidental do filho, e o pai se desnorteia com isso, não entende mais sua profissão, pois passa a vê-la como instância da culpa que sente: a culpa por não conhecer bem o filho, a culpa por não ter passado mais tempo com ele, a culpa pelas escolhas que fez, ou acredita ter feito. Em todo caso, os papeis analista/paciente são subitamente invertidos: é o analista que precisa do divã para continuar seguindo sua vida. Mas o que ele faz/fazia pelos outros não consegue fazer por si próprio, e os três seres da família que continuam vivos parecem não encontrar mais sentido em viver juntos. Na cena final, na praia, cada um caminha em uma direção, deixando tudo num plano vago e indefinido. Se o divã funcionava para fora dos limites da casa, ele desaparece como possibilidade de resolver o drama familiar que se instala, a ele atrelado. Todos são cultos, sofisticados, comunicam-se com elegância, usam a linguagem de forma fluida, mas choram em segredo. Após a missa pelo filho, o pai questiona vivamente o provérbio cristão mencionado pelo sacerdote, do ladrão que entra na casa de surpresa, levando o que encontrar, uma outra forma de falar de acaso, destino e fatalidade. Ele questiona vivamente o dito cristão, mas antes de sua perda dolorosa tentava, de alguma forma, fazer seus pacientes aceitarem suas vidas, suas limitações, num plano fortemente intelectualizado. Contradições são apontadas pelos próprios pacientes, mas o que tira tudo dos eixos é o acaso, o imprevisível, a dor pela perda, acentuada pela culpa. O divã falha, a linguagem só tinha valor, e um valor elevado, enquanto aquela família era feliz. Mas então é o próprio pressuposto do divã que está sendo posto em causa. O quarto do filho dá notícia do vazio com que lida todo aquele que se dispõe a fazer análise. 

Paulo Mendes Campos: Experiência com LSD - II

SENTIMENTO DO TEMPO

Uma experiência singular começou a realizar-se na minha consciência: eu me desinteressava do tempo, não o apreendia como habitualmente, embora me fosse possível, através de artifícios mentais, manter uma noção aproximada de determinados espaços de tempo. Durante todo o apogeu da experiência (umas três horas, creio), essa isenção em relação ao fluir do tempo intensificou-se, sem que sentisse por isso propriamente prazer, mas indiscriminado alívio. O sentimento do tempo também diminui nas outras intoxicações conhecidas, mas havia no caso uma diferença qualitativa: no alcoolismo, depois da ligeira fase de lucidez aparente, a mente se conturba; sob a ação do ácido lisérgico, pelo contrário, minha mente se clarificava o tempo todo, só que centralizava sua atenção em objetos e percepções que antes viviam, fora ou dentro de mim, sem suscitar maiores curiosidades.
O médico cronometrava o desenrolar da experiência; a mim não seria possível indicar, mesmo aproximadamente, a gradação cronológica dos diversos estágios vividos. Quando indagaram de Aldous Huxley a respeito, respondeu ele que havia fartura de tempo, plenty of it. Essa resposta me parece corresponder perfeitamente à minha impressão de que, sob o efeito do ácido lisérgico, o tempo não está interessado em nós e portanto não podemos nós estar interessados nele. O tempo existe: é fenômeno que não nos concerne e do qual não podemos extrair nenhum elemento de angústia ou de prazer. A vida passa, e estamos biologicamente condicionados para o passar da vida; o penoso e inútil esforço de remar contra a corrente do tempo desaparecia de mim.
A conotação que me ocorreu depois da experiência foi esta: a criança vive normalmente com o tempo, sem saber medi-lo ou sofrê-lo. Ela se confunde espontaneamente com o tempo, integra-se à corrente, como se fosse fundamental à inocência infantil o profundo e repousante desinteresse pela passagem das horas e pela aproximação gradativa da decadência-e-morte. A perda da inocência, da naturalidade e conformidade com o mundo, equivale a adquirir consciência da velhice e da morte. Perdemos a inocência quando aprendemos a olhar as horas. Mais importante que tudo, o tempo do adulto é um imposto cobrado pela inteligência do mundo, um peso de que fomos libertos na infância e de que podemos nos livrar em estados excepcionais de pureza, de contemplação, de prazer, de intoxicação ou de loucura. Insisto nesse ponto porque, adiantando conclusões, o ácido lisérgico pareceu demonstrar-me que, em nossa vida cotidiana, seria-nos possível atingir a um estado maior de convivência (ou mesmo conivência) com o tempo, poupando-nos angústias excessivas e apontando-nos esclarecimentos sobre a natureza da readaptação dos neuróticos.
A diferença principal entre o ácido lisérgico e outros excitantes psíquicos ou alucinógenos, tanto quanto posso saber, é essa de apresentar uma correlação inequívoca com a experiência normal da pessoa, sugerindo, imediata e ricamente, noções praticáveis de ordem psicológica ou psiquiátrica. Controlada cientificamente, ela poderia permitir ao médico um corte rápido e profundo nas personalidades normais ou anormais.
Não sou médico, nem me dedico responsavelmente ao assunto: dou com sinceridade um depoimento leigo. Talvez os entendidos possam utilizá-lo de certo modo. Se tento tirar conclusões da experiência, em vez de relatá-la simplesmente, é porque me desagradaria fazer de outra maneira, sem utilidade visível. No entanto, pelo fato de exibir minhas analogias ou conclusões não significa que dê a elas outro valor além da possibilidade. Tenho mais de um motivo para desconfiar que as nossas faculdades perceptivas podem ser aguçadas através da concatenação cada vez mais consequente de inúmeros dados novos da filosofia e do psicossomatismo.
Certo ou errado, o primeiro contato com o ácido lisérgico me deu a impressão muito razoável de se tratar de um elemento útil à pesquisa da natureza humana, no sentido de redescobri-la para melhor. Não chego, como Aldous Huxley, a achar que a mescalina deve ser facilitada à deprimida sociedade moderna, substituindo outras formas de evasão. Dentro das limitações que eu mesmo imponho a essa ideia, não vejo bem o caráter de evasão no ácido lisérgico, mas uma concentração da realidade, o antônimo da evasão, pelo menos uma concentração de certos aspectos da realidade.
O ácido lisérgico a meu ver deveria ser um ponto de partida para uma recuperação da realidade, dos dons da percepção e acomodação à vida. Não só nos indivíduos de psiquismo anormal ou prejudicado há um terreno a ser recuperado. Também a recuperação de espaços amortecidos no indivíduo normal é socialmente relevante e imprevisível como energia psíquica.

(continua...)  

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.116-119. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Paulo Mendes Campos: Experiência com LSD - I

PRIMEIROS PASSOS

No último sábado de agosto de 1962, às 14h30, eu entrava num apartamento da Rua General Glicério pela primeira vez. Diante do dr. Murilo Pereira Gomes ia submeter-me à experiência da dietilamida do ácido lisérgico. Cinco ou dez minutos depois, já tinha ingerido três bolinhas coloridas e aguardava. Por quê?
A experiência me seduzia em si mesma, mas certas informações talvez esclareçam melhor as raízes de minha curiosidade. Quando me dirigia para Laranjeiras o dia estava tão luminoso, a temperatura tão agradável, as cores tão nítidas, que pensei: hoje não é vantagem sofrer os efeitos dum psicotrópico. Reparei sobretudo na intensidade cromática duma flor que não sei se tem o nome de laburno. Na verdade brincava comigo mesmo: meu desejo de conhecer a consequência da droga era profundo ― e esse é o adjetivo preciso para o caso.
Por que profundo? Resumo com a maior economia possível uma série de fatos e circunstâncias que cobrem um período de mais de 20 anos.
Quando era adolescente e resolvi fazer-me escritor, ou achei que era escritor, comprei três cadernos: num fui copiando poemas sobre a morte; no outro anotava todos os trechos que me pareciam pertinentes ao problema do tempo; transcrevia no terceiro verso e prosa que se referissem à solidão. Tempo, solidão, morte. No way out. Em vez de sair para o mundo, mesmo que ficasse em casa, eu me fechava num quarto escuro; mesmo que saísse para a rua, estava confinado a três dimensões depressivas. Por um motivo ou por outro, eu me negava a própria vida sobre a qual tinha a pretensão de escrever. Fechando as portas da comunicação do mundo exterior (e também do interior, quase por uma consequência), fadava o meu destino de escritor a uma frustração cruel. Mas não sabia. Pior que isso, e ignorando ainda mais as conclusões de minhas três premissas, criava condições intoleráveis a meu destino de homem simplesmente.
Aos 20 anos de idade, trabalhando numa biblioteca de medicina, dei para ler tratados sobre a loucura, tóxicos estupefacientes, os únicos que eu podia entender ou que de certo modo me interessavam naquela sala. Foi assim que me caiu nas mãos e na alma o tratado dum médico francês sobre um princípio ativo do qual nunca ouvira falar: o Anhalonium Lewinii, extraído da raiz dum cacto mexicano chamado peyotl. Falei com entusiasmo a médicos e leigos sobre o livro. O desconhecimento da mescalina era total. Obrigando-me ao silêncio até há poucos anos, quando li As portas da percepção de Aldous Huxley. Dessa vez, com sensacionalismo, o mundo científico e cultural entrou em contato com a mescalina, tendo sido preciso para isso que um escritor de grande sedução intelectual experimentasse a droga e transcrevesse suas vivências.
Li com muita curiosidade o livro de Huxley há alguns anos e o reli há poucos dias, antes de realizar minha própria experiência. Os pontos que me chamaram mais a atenção nas duas leituras são sensivelmente diversos: também nós fazemos parte do texto, e este pode transformar-se à medida que nos transformamos. Atribuo esse meu deslocamento de foco sobretudo a algumas leituras sobre zen-budismo, feitas recentemente. Em resumo, diria que me sinto muito menos seguro sobre minhas percepções da realidade do que, por exemplo, há dois anos atrás.
Fisiologicamente, o ácido lisérgico, como a mescalina, inibe a produção de enzimas que regulam o suprimento de glicose nas células cerebrais. Os sintomas provocados se devem em essência a essa redução da taxa normal de que o cérebro apresenta constante necessidade.
Aldous Huxley, advertindo que a reação individual, aqui como em tudo o mais, sempre é de rara importância, faz uma súmula possível dos sintomas gerais de todas as pessoas que ingerem mescalina: redução da capacidade de lembrar e pensar diretamente; impressões visuais grandemente intensificadas, o olhar recuperando a inocência da percepção infantil; diminuição do interesse pelo espaço; o interesse pelo tempo caindo quase a zero; a experiência nos mundos interior e exterior simultânea ou sucessivamente; o registro de impressões extra-sensoriais não é comum.
Bem, eu estava na sala do apartamento do médico e aguardava com um máximo de curiosidade mas sem a menor ansiedade.
Os primeiros sintomas surgem em geral depois de uma hora, disse-me o médico. Passado esse tempo, comecei a alimentar ligeiramente duas desconfianças: quem sabe se o hábito do álcool não me criasse no organismo uma resistência muito forte à pequena dose ingerida? Quem sabe se o médico me ministrara uma pílula inócua e estivesse a realizar comigo uma simples experiência por sugestão?
Pouco depois, passei a sentir uma leve pressão no cérebro, entre o couro cabeludo e o crânio, as mãos e os pés bastante frios. Uma pessoa presente me pergunta se a música da vitrola me incomoda. Já estava a responder sinceramente que não, quando essa pessoa se sentou numa cadeira, ocultando-me uma garrafa de cerveja colocada no assoalho e da qual o sol arrancava reflexos. Notei então que estava sentindo em relação àquela garrafa um interesse desusado, um interesse aparentemente fora do comum, embora não muito intenso. Passei a olhar para um cinzeiro de metal, onde também fulgia a luz solar, e achei que o objeto me parecia mais vivo, mais presente, mais interiormente luminoso. Era divertido, mas permaneci desconfiado, pois o teor da experiência não me é estranho em outros estados psíquicos.
Estenderam-me um pequeno álbum de reproduções de quadros de Matisse. Talvez as cores me parecessem mais intensas; talvez, pensei, apenas o trabalho de impressão fosse de boa qualidade. Olhei as páginas com interesse, mas um interesse que ainda podia ser a própria curiosidade pela experiência. A sensação me parecia pobre. Não sabia que dentro de poucos minutos seria lançado numa experiência psicológica inteiramente nova.

(continua...)

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.113-116.

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

II, 3

Espelhos: o que sois ninguém se viu,
em sua essência, retratá-lo.
Vós que vazais um intervalo
no tempo com as peneiras do vazio.

Perdulários das salas ocas esqueceis,
quando anoitece, como florestas distantes,
e o lustre ― cervo de dezesseis 
pontas ― devassa com as luzes penetrantes.

Talvez estejais cheios de pinturas.
Umas parecem em vós incorporadas ―,
outras dispensais com um brilho indeciso.

Mas as mais belas ficarão guardadas,
até que lá do alto, em suas feições puras,
penetre, livre e lúcido, Narciso.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.159.

Genesis - The Grand Parade Of Lifeless Packaging

Um post do Zé Alberto trouxe-me à lembrança o fantástico álbum conceitual do Genesis, The Lamb Lies Down on Broadway, de que destaco essa música.

vida de passarinho

Numa turma de 6º ano, quando fui introduzir mitos, comecei por esboçar uma espécie de diferença entre realidade e ficção, me valendo de tudo que lembrava disso, mas usando linguagem própria. Tentava dizer que a relação com a "realidade" é, em maior ou menor grau, mediada, e com isso perpassada por algum componente de fantasia. Isso o que recordo da minha fala. Então um garotinho, que eu particularmente estimava, me interrompeu e disse: "Professora, não fala essas coisas não que eu fico nervoso" (e foi engraçado o jeito com que ele disse isso, impossível traduzir aqui na escrita). Parei na hora e olhei para ele curiosa, afinal "essas coisas" era o conteúdo que eu estava explanando. Ele disse então alguma coisa sobre sentir medo à noite, na hora de dormir, ficar agitado, nervoso, e mais outras coisas que eu achei melhor não entender. O que eu entendi, da voracidade de leitura e filmes daquela turma, é que eles estavam alimentando intensamente a imaginação com coisas que iam além da capacidade de assimilar. O imaginário infantil é delicado, mas eles vinham me contar sobre filmes que eu mesma não consigo assistir, e alguns relatavam inclusive "verem coisas". De modo que certa feita perguntei-lhes se os pais deles tinham conhecimento do que eles estavam assistindo. Tratava-se de uma espécie de hiper mediação, na falta de termo melhor. Se este post diz muito do meu tatear/hesitar ao lidar com o público infantil, na condição de professora acostumada ao ensino médio e ao terceiro grau, percebo, pelo menos, que não se apresenta uma obra, um filme, um autor para uma criança sem pensar nas consequências. As aves que hoje gorjeiam na infância não são aquelas que pontificavam na minha, no sítio de pica-pau amarelo. Talvez esta a maior dificuldade: as aves não podem ser as mesmas, pois as narrativas são outras.

O Trenzinho do Caipira: Heitor Villa-Lobos

O Trenzinho do Caipira: Uakti

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Boca Livre - O Trenzinho do Caipira


P.S. A melodia de Heitor Villa-Lobos recebeu letra de Ferreira Gullar (aqui)

um verso de Drummond

Eu sempre me lembro deste verso do Drummond, "sempre esquecidos de alguma coisa", de "Um boi vê os homens" (postado aqui), seu poema que mais aprecio. É que eu sempre estou esquecida de alguma coisa.  

ouvido na infância... ouvido de infância

[imagem obtida aqui]

...que se a gente aproximasse o ouvido de uma concha, escutaria o barulho do mar. Não havia mar onde eu morava, mas havia moluscos, como em qualquer parte, e imaginação. Só muito tempo depois vim descobrir o conteúdo daquelas peças calcárias que encontrava comumente no lugar onde nasci e passei a infância. Escutava o barulho do mar pondo a concha ao ouvido? Criança escuta o que quiser. Quando conheci o mar, na adolescência, não me apaixonei nem nada, sequer o notei, pois a moda era ir à praia. Não o vi, mas ele me viu, pois fiquei muito tempo na água, o calor era forte, experimentei uma força que não conhecia, e acabei desmaiando no dia seguinte ao ver no espelho meu rosto alterado pelo sol. Isso me afastou de praias. Eu descobri o mar quando fui morar no litoral e me dei conta de que não precisava ir à praia para sentir o mar. Bastava tomar um ônibus à noite e ir em direção à praia, sentar em qualquer lugar e, quase indiferente, saber que o mar estava ali, fazendo companhia. Mas faz bem pouco tempo que liberei meus sentidos para perceber o barulho inconfundível do mar. A lembrança do episódio da concha do molusco é uma pérola da infância, esquecida por tanto tempo, e agora secretada pelo mar.

 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Manuel Bandeira

O rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.203.

Guernica (VFS)

[música: Duran Duran, The Chauffer]

O espelho cego - Cildo Meireles

imagem obtida aqui

"O trabalho produzido em 1970 apresenta uma textura cinzenta, enquadrada em uma moldura. A observar a peça, o espectador é confrontado com uma massa que, de modo ambivalente, está entre a forma e o informe. Acostumados com a ideia de que um espelho devolva nossa imagem tal como é, vivemos situação similar à do protagonista do conto "O espelho", de Guimarães Rosa. (...) A obra não apenas sugere que o espelho seja cego por ser incapaz de retribuir como esperado pela retina. É a própria visão do espectador que, pela vivência do choque, se vê ameaçada por uma contemplação que provoca tensão na estabilidade do olhar. (...) O espectador, se sustentar o olhar, se perguntará pelos limites da própria percepção, limites que estabelecem uma impossibilidade de deixar fluir a visão. O que está sendo visto, o que pode ser visto? É a própria visão do espectador que percebe seu limite, sua incapacidade de ver. A obra aponta para uma forma de subjetividade que exige atenção. Contrariando as heranças vindas do pensamento cartesiano e do Iluminismo, encontramos aqui a projeção da imagem de um sujeito que não tem condições de organizar a produção do conhecimento. Essa limitação faz com que se volte sobre si, atingido pela própria incompreensão. É um sujeito que, descobrindo uma distância entre sua auto-imagem habitual e inesperadas imprecisões, está aquém de si mesmo."

GINZBURG, Jaime. Cegueira e literatura. In: VECCHI, Roberto; FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Formas e mediações do trágico moderno: uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco, 2004, p.89-90.

hipocrisia

A hipocrisia é tanto mais detestável quando se descobre a facilidade com que se recorre a ela, quando, olhando para si próprio, é difícil admiti-la como atitude. A hipocrisia é um desfavor à saúde, e por uma razão bem simples: o hipócrita não respeita a dor do outro. O hipócrita é aquela criatura mediana que, tentando se fazer passar pelo bom-mocismo, adere como figurante ao teatro das convenções, e fica na caricatura. É um aviltamento, uma vulgaridade.

um ato de liberdade

Chega um momento em que o cansaço avizinha-se da estafa, e torna-se paralisante. Há livros, muitos, para ler, mas falta força para envolver-se com a narrativa; há filmes interessantes a assistir, mas são apenas uma lembrança remota; há coisas interessantíssimas na blogosfera para ler e comentar, mas o cansaço dirige a atenção para o que pressupõe o princípio da parcimônia. Então não é um estado interessante. Vejo diante de mim mais um ano de trabalho exaustivo, e já inicio cansada. Há um ano atrás conheci o que era a estafa: creio que ainda não me refiz. Sem contar que isso não diz respeito apenas ao trabalho, mas à própria vida, quando se descobre o que a Clarice Lispector diz em "O ato gratuito", ao situar o profundo cansaço pela luta: "Eu precisava ― precisava com urgência ― de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu secretamente era. E necessitava de um ato pelo qual eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver." (A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.410). O que atenua isso tudo é escrever, pois aqui não se trata de uma pena de aluguel ― não escrevo por obrigação, mas por necessidade, por gosto e prazer.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O que os outros sabem de nós: Nietzsche

“Aquilo que sabemos de nós mesmos e que temos na memória não é tão decisivo para a felicidade de nossa vida como se pensa. Um dia cai sobre nós aquilo que outros sabem (ou acreditam saber) de nós ― e então reconhecemos que isso é mais forte. É mais fácil lidar com sua má consciência do que com sua má reputação.”

NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.91.

Wild (VFS)

Genesis - That's All (fase Phill Collins)

U2 - Bullet the Blue Sky

"And through the walls you hear the city groan"

domingo, 6 de fevereiro de 2011

mar à vista da ilha

Imagem por Reinaldo Pellegrino (aqui). Todos os direitos reservados.

Ontem fui à praia, final da tarde, Barra da Tijuca, quando as pessoas já estavam voltando. Cheguei por volta das 6 da tarde, sol ainda alto. É a primeira vez que consigo ir à praia este ano, e teve  a força de um ritual de desintoxicação. O pôr-do-sol foi um capítulo à parte, de tão belo, aquela bola de fogo baixando aos poucos no céu, para enfim desaparecer. Tirei fotos com meu celular, mas cheguei em casa e descobri que não tinha a conexão para passá-las para o computador. Então tomei a bela imagem acima de empréstimo, cujo ângulo equivale aproximadamente ao local em que me encontrava, embora quisesse mesmo postar as minhas. Talvez ainda consiga. As pessoas simplesmente pararam para olhar o pôr-do-sol. Já então ventava frio, recolhi minhas coisas e tomei o rumo de casa. Mas antes, quando ainda era dia, entrei no mar, de um jeito muito próprio, que é aos poucos, sondando a profundidade e a força das ondas. Havia correnteza, avancei o suficiente para sentir aquela água boa batendo em mim. Há poucas sensações que se equiparam a entrar no mar numa praia aprazível, de preferência com pouca gente e a força do sol já se atenuando. Pois o que quero mesmo é a força do mar. 

Eric Clapton - Knockin' On Heaven's Door (um bom som para fechar o domingo)

não sei o que isso quer dizer


Prefiro o ondular dos afetos
à prisão dos sentimentos
[imagem obtida aqui]

Emily Dickinson

Pudesse perceber o lábio humano
A Carga em perspectiva
Em uma sílaba pronunciada
O peso o esmagaria.


Could mortal lip divine
The undeveloped Freight
Of a delivered syllable
‘Twould crumble with the weight.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.268-269.

Jefferson Airplane - Somebody to Love


Esta ótima música, que tem tudo de rock'n roll, está na 279ª posição no ranking da revista Rolling Stone (edição especial de colecionador, 2010) das 500 maiores músicas de todos os tempos (aqui, aqui, aqui...). Sou apenas uma conhecedora razoável, para não dizer amadora, de música, mas a partir da 3ª eu já discordei (com qualquer ranking deve ser assim). E é claro que o ranking está circunscrito ao universo pop rock em língua inglesa, século XX, com alguma coisa do XXI. 500 greatest songs of all time: na língua inglesa, song não recobre o mesmo campo semântico de music. Diz o Oxford em song: "a short piece of music with words that you sing";  music: "sounds that are arranged in a way that is pleasent or exciting to listen to. People sing music or play it on instruments: pop/dance/classical/church music", já aí entrando na espinhosa questão de gêneros e classificação. Então na tradução brasileira seria mais apropriado as 500 melhores canções de todos os temposMas o fato é que a Rolling Stone queria fazer seu ranking do pop rock em língua inglesa e escolheu um título atraente, não havia muito o que pensar quando o assunto é capa, e a tradução brasileira cochilou, ou pensou mais no mercado que na semântica. Em tempo: a música de Jefferson Airplane foi tema do ótimo Um Homem Sério (2010), dos irmãos Coen (segue o trailer e um comentário), um filme com as tintas e o humor de Kafka.