Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Como Dois e Dois - Caetano Veloso


Como dois e dois são cinco, sinto que há amarras demais ao meu redor, invejo os pássaros, quero só o que quero. As pessoas mais interessantes são as livres. Volta e meia lembro-me do médico de Goiás, um ser liberto. Na minha memória ficaram impressos sua gentileza, seus gestos meio amalucados, sua conversa agradável, sua fala imprevisível. Há seres em graus diferenciados de espiritualidade: quando se encontram, dois e dois são cinco: algo da lógica do mundo foi trapaceada. Toda vez que me lembro desse médico, um sorriso se esboça em mim. 

Milonga de Albornoz: Vitor Ramil & Jorge Luis Borges


A canção também pode ser conferida neste vídeo

a vida é curta

A vida é curta ― e os rastos que aqui deixarmos desaparecerão antes mesmo que suspeitem nossas mais alentadas esperanças e ilusões nos vínculos criados. A história da senhora portuguesa encontrada depois de nove anos de morta, sem que dessem pela sua ausência, faz bem desconfiar que importamos menos às pessoas do que gostaria de acreditar a estima que devotamos a nós mesmos. 

De volta ao quarto 666 (entrevista com Wim Wenders)


A proposta reinveste sobre o que Wim Wenders fez em Quarto 666, tomando-o como entrevistado sobre o futuro do cinema. Mas se então o debate girava em torno do cinema e a emergência de novas mídias, como a televisão e o VHS, a possibilidade de assistir o filme em casa, o que conferia uma tônica de pessimismo às falas dos entrevistadoss, conforme o próprio Wenders pontua, sua posição, cerca de 20 anos depois, é otimista em relação ao cinema, otimista demais talvez, e o alvo que ele tem em mira é bastante problemático: "...as pessoas precisam do cinema, precisam desse instrumento, mais do que qualquer coisa. Todos nós sabemos que a 'palavra', a 'palavra falada' ou a 'palavra escrita', pertencem à cultura do passado. E que o futuro de nossa cultura é a 'imagem'. E este futuro recém começou." Há muito que se anuncia o fim do conhecimento centrado na palavra. A conclusão da entrevista é decepcionante, vinda de um cineasta como Wim Wenders, cujo brilhantismo da obra dispensaria esse triste papel de advogar em causa própria. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Quarto do Filho (Nanni Moretti, 2001)


Pessoas sofisticadas que não sabem o que fazer diante do que não entendem, ou relutam em aceitar. Se o principal personagem deste filme é a ausência, o súbito vazio deixado por uma vida que se vai sem explicação, o quarto do filho é o lugar dessa ausência, e o divã o lugar onde a culpa (não) se resolve. O divã, a experiência da cura pela palavra que o pai conduz com destreza e segurança, atrela-se, pelo acaso, à morte acidental do filho, e o pai se desnorteia com isso, não entende mais sua profissão, pois passa a vê-la como instância da culpa que sente: a culpa por não conhecer bem o filho, a culpa por não ter passado mais tempo com ele, a culpa pelas escolhas que fez, ou acredita ter feito. Em todo caso, os papeis analista/paciente são subitamente invertidos: é o analista que precisa do divã para continuar seguindo sua vida. Mas o que ele faz/fazia pelos outros não consegue fazer por si próprio, e os três seres da família que continuam vivos parecem não encontrar mais sentido em viver juntos. Na cena final, na praia, cada um caminha em uma direção, deixando tudo num plano vago e indefinido. Se o divã funcionava para fora dos limites da casa, ele desaparece como possibilidade de resolver o drama familiar que se instala, a ele atrelado. Todos são cultos, sofisticados, comunicam-se com elegância, usam a linguagem de forma fluida, mas choram em segredo. Após a missa pelo filho, o pai questiona vivamente o provérbio cristão mencionado pelo sacerdote, do ladrão que entra na casa de surpresa, levando o que encontrar, uma outra forma de falar de acaso, destino e fatalidade. Ele questiona vivamente o dito cristão, mas antes de sua perda dolorosa tentava, de alguma forma, fazer seus pacientes aceitarem suas vidas, suas limitações, num plano fortemente intelectualizado. Contradições são apontadas pelos próprios pacientes, mas o que tira tudo dos eixos é o acaso, o imprevisível, a dor pela perda, acentuada pela culpa. O divã falha, a linguagem só tinha valor, e um valor elevado, enquanto aquela família era feliz. Mas então é o próprio pressuposto do divã que está sendo posto em causa. O quarto do filho dá notícia do vazio com que lida todo aquele que se dispõe a fazer análise. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

II, 3

Espelhos: o que sois ninguém se viu,
em sua essência, retratá-lo.
Vós que vazais um intervalo
no tempo com as peneiras do vazio.

Perdulários das salas ocas esqueceis,
quando anoitece, como florestas distantes,
e o lustre ― cervo de dezesseis 
pontas ― devassa com as luzes penetrantes.

Talvez estejais cheios de pinturas.
Umas parecem em vós incorporadas ―,
outras dispensais com um brilho indeciso.

Mas as mais belas ficarão guardadas,
até que lá do alto, em suas feições puras,
penetre, livre e lúcido, Narciso.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.159.

Genesis - The Grand Parade Of Lifeless Packaging

Um post do Zé Alberto trouxe-me à lembrança o fantástico álbum conceitual do Genesis, The Lamb Lies Down on Broadway, de que destaco essa música.

vida de passarinho

Numa turma de 6º ano, quando fui introduzir mitos, comecei por esboçar uma espécie de diferença entre realidade e ficção, me valendo de tudo que lembrava disso, mas usando linguagem própria. Tentava dizer que a relação com a "realidade" é, em maior ou menor grau, mediada, e com isso perpassada por algum componente de fantasia. Isso o que recordo da minha fala. Então um garotinho, que eu particularmente estimava, me interrompeu e disse: "Professora, não fala essas coisas não que eu fico nervoso" (e foi engraçado o jeito com que ele disse isso, impossível traduzir aqui na escrita). Parei na hora e olhei para ele curiosa, afinal "essas coisas" era o conteúdo que eu estava explanando. Ele disse então alguma coisa sobre sentir medo à noite, na hora de dormir, ficar agitado, nervoso, e mais outras coisas que eu achei melhor não entender. O que eu entendi, da voracidade de leitura e filmes daquela turma, é que eles estavam alimentando intensamente a imaginação com coisas que iam além da capacidade de assimilar. O imaginário infantil é delicado, mas eles vinham me contar sobre filmes que eu mesma não consigo assistir, e alguns relatavam inclusive "verem coisas". De modo que certa feita perguntei-lhes se os pais deles tinham conhecimento do que eles estavam assistindo. Tratava-se de uma espécie de hiper mediação, na falta de termo melhor. Se este post diz muito do meu tatear/hesitar ao lidar com o público infantil, na condição de professora acostumada ao ensino médio e ao terceiro grau, percebo, pelo menos, que não se apresenta uma obra, um filme, um autor para uma criança sem pensar nas consequências. As aves que hoje gorjeiam na infância não são aquelas que pontificavam na minha, no sítio de pica-pau amarelo. Talvez esta a maior dificuldade: as aves não podem ser as mesmas, pois as narrativas são outras.

O Trenzinho do Caipira: Heitor Villa-Lobos

O Trenzinho do Caipira: Uakti

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Boca Livre - O Trenzinho do Caipira


P.S. A melodia de Heitor Villa-Lobos recebeu letra de Ferreira Gullar (aqui)

um verso de Drummond

Eu sempre me lembro deste verso do Drummond, "sempre esquecidos de alguma coisa", de "Um boi vê os homens" (postado aqui), seu poema que mais aprecio. É que eu sempre estou esquecida de alguma coisa.  

ouvido na infância... ouvido de infância

[imagem obtida aqui]

...que se a gente aproximasse o ouvido de uma concha, escutaria o barulho do mar. Não havia mar onde eu morava, mas havia moluscos, como em qualquer parte, e imaginação. Só muito tempo depois vim descobrir o conteúdo daquelas peças calcárias que encontrava comumente no lugar onde nasci e passei a infância. Escutava o barulho do mar pondo a concha ao ouvido? Criança escuta o que quiser. Quando conheci o mar, na adolescência, não me apaixonei nem nada, sequer o notei, pois a moda era ir à praia. Não o vi, mas ele me viu, pois fiquei muito tempo na água, o calor era forte, experimentei uma força que não conhecia, e acabei desmaiando no dia seguinte ao ver no espelho meu rosto alterado pelo sol. Isso me afastou de praias. Eu descobri o mar quando fui morar no litoral e me dei conta de que não precisava ir à praia para sentir o mar. Bastava tomar um ônibus à noite e ir em direção à praia, sentar em qualquer lugar e, quase indiferente, saber que o mar estava ali, fazendo companhia. Mas faz bem pouco tempo que liberei meus sentidos para perceber o barulho inconfundível do mar. A lembrança do episódio da concha do molusco é uma pérola da infância, esquecida por tanto tempo, e agora secretada pelo mar.

 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Manuel Bandeira

O rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.203.

Guernica (VFS)

[música: Duran Duran, The Chauffer]

O espelho cego - Cildo Meireles

imagem obtida aqui

"O trabalho produzido em 1970 apresenta uma textura cinzenta, enquadrada em uma moldura. A observar a peça, o espectador é confrontado com uma massa que, de modo ambivalente, está entre a forma e o informe. Acostumados com a ideia de que um espelho devolva nossa imagem tal como é, vivemos situação similar à do protagonista do conto "O espelho", de Guimarães Rosa. (...) A obra não apenas sugere que o espelho seja cego por ser incapaz de retribuir como esperado pela retina. É a própria visão do espectador que, pela vivência do choque, se vê ameaçada por uma contemplação que provoca tensão na estabilidade do olhar. (...) O espectador, se sustentar o olhar, se perguntará pelos limites da própria percepção, limites que estabelecem uma impossibilidade de deixar fluir a visão. O que está sendo visto, o que pode ser visto? É a própria visão do espectador que percebe seu limite, sua incapacidade de ver. A obra aponta para uma forma de subjetividade que exige atenção. Contrariando as heranças vindas do pensamento cartesiano e do Iluminismo, encontramos aqui a projeção da imagem de um sujeito que não tem condições de organizar a produção do conhecimento. Essa limitação faz com que se volte sobre si, atingido pela própria incompreensão. É um sujeito que, descobrindo uma distância entre sua auto-imagem habitual e inesperadas imprecisões, está aquém de si mesmo."

GINZBURG, Jaime. Cegueira e literatura. In: VECCHI, Roberto; FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Formas e mediações do trágico moderno: uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco, 2004, p.89-90.

hipocrisia

A hipocrisia é tanto mais detestável quando se descobre a facilidade com que se recorre a ela, quando, olhando para si próprio, é difícil admiti-la como atitude. A hipocrisia é um desfavor à saúde, e por uma razão bem simples: o hipócrita não respeita a dor do outro. O hipócrita é aquela criatura mediana que, tentando se fazer passar pelo bom-mocismo, adere como figurante ao teatro das convenções, e fica na caricatura. É um aviltamento, uma vulgaridade.

um ato de liberdade

Chega um momento em que o cansaço avizinha-se da estafa, e torna-se paralisante. Há livros, muitos, para ler, mas falta força para envolver-se com a narrativa; há filmes interessantes a assistir, mas são apenas uma lembrança remota; há coisas interessantíssimas na blogosfera para ler e comentar, mas o cansaço dirige a atenção para o que pressupõe o princípio da parcimônia. Então não é um estado interessante. Vejo diante de mim mais um ano de trabalho exaustivo, e já inicio cansada. Há um ano atrás conheci o que era a estafa: creio que ainda não me refiz. Sem contar que isso não diz respeito apenas ao trabalho, mas à própria vida, quando se descobre o que a Clarice Lispector diz em "O ato gratuito", ao situar o profundo cansaço pela luta: "Eu precisava ― precisava com urgência ― de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu secretamente era. E necessitava de um ato pelo qual eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver." (A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.410). O que atenua isso tudo é escrever, pois aqui não se trata de uma pena de aluguel ― não escrevo por obrigação, mas por necessidade, por gosto e prazer.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O que os outros sabem de nós: Nietzsche

“Aquilo que sabemos de nós mesmos e que temos na memória não é tão decisivo para a felicidade de nossa vida como se pensa. Um dia cai sobre nós aquilo que outros sabem (ou acreditam saber) de nós ― e então reconhecemos que isso é mais forte. É mais fácil lidar com sua má consciência do que com sua má reputação.”

NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.91.

Wild (VFS)

Genesis - That's All (fase Phill Collins)

U2 - Bullet the Blue Sky

"And through the walls you hear the city groan"

domingo, 6 de fevereiro de 2011

mar à vista da ilha

Imagem por Reinaldo Pellegrino (aqui). Todos os direitos reservados.

Ontem fui à praia, final da tarde, Barra da Tijuca, quando as pessoas já estavam voltando. Cheguei por volta das 6 da tarde, sol ainda alto. É a primeira vez que consigo ir à praia este ano, e teve  a força de um ritual de desintoxicação. O pôr-do-sol foi um capítulo à parte, de tão belo, aquela bola de fogo baixando aos poucos no céu, para enfim desaparecer. Tirei fotos com meu celular, mas cheguei em casa e descobri que não tinha a conexão para passá-las para o computador. Então tomei a bela imagem acima de empréstimo, cujo ângulo equivale aproximadamente ao local em que me encontrava, embora quisesse mesmo postar as minhas. Talvez ainda consiga. As pessoas simplesmente pararam para olhar o pôr-do-sol. Já então ventava frio, recolhi minhas coisas e tomei o rumo de casa. Mas antes, quando ainda era dia, entrei no mar, de um jeito muito próprio, que é aos poucos, sondando a profundidade e a força das ondas. Havia correnteza, avancei o suficiente para sentir aquela água boa batendo em mim. Há poucas sensações que se equiparam a entrar no mar numa praia aprazível, de preferência com pouca gente e a força do sol já se atenuando. Pois o que quero mesmo é a força do mar. 

Eric Clapton - Knockin' On Heaven's Door (um bom som para fechar o domingo)

não sei o que isso quer dizer


Prefiro o ondular dos afetos
à prisão dos sentimentos
[imagem obtida aqui]

Emily Dickinson

Pudesse perceber o lábio humano
A Carga em perspectiva
Em uma sílaba pronunciada
O peso o esmagaria.


Could mortal lip divine
The undeveloped Freight
Of a delivered syllable
‘Twould crumble with the weight.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.268-269.

Jefferson Airplane - Somebody to Love


Esta ótima música, que tem tudo de rock'n roll, está na 279ª posição no ranking da revista Rolling Stone (edição especial de colecionador, 2010) das 500 maiores músicas de todos os tempos (aqui, aqui, aqui...). Sou apenas uma conhecedora razoável, para não dizer amadora, de música, mas a partir da 3ª eu já discordei (com qualquer ranking deve ser assim). E é claro que o ranking está circunscrito ao universo pop rock em língua inglesa, século XX, com alguma coisa do XXI. 500 greatest songs of all time: na língua inglesa, song não recobre o mesmo campo semântico de music. Diz o Oxford em song: "a short piece of music with words that you sing";  music: "sounds that are arranged in a way that is pleasent or exciting to listen to. People sing music or play it on instruments: pop/dance/classical/church music", já aí entrando na espinhosa questão de gêneros e classificação. Então na tradução brasileira seria mais apropriado as 500 melhores canções de todos os temposMas o fato é que a Rolling Stone queria fazer seu ranking do pop rock em língua inglesa e escolheu um título atraente, não havia muito o que pensar quando o assunto é capa, e a tradução brasileira cochilou, ou pensou mais no mercado que na semântica. Em tempo: a música de Jefferson Airplane foi tema do ótimo Um Homem Sério (2010), dos irmãos Coen (segue o trailer e um comentário), um filme com as tintas e o humor de Kafka.