Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

decoração de interiores

imagem obtida aqui. créditos ao blog não gosto de plágio

Rainer Maria Rilke

A PANTERA

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Tradução Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.56-57.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

enxergar

Enxergar, verbo de origem controversa, fazendo par com ver. Destaco, do dicionário, os sentidos: distinguir, perceber pela visão; ver a custo; divisar, entrever. É como um sentido situado atrás da visão, que pode não depender dela, dos olhos. É fácil, embora incômodo, fingir não enxergar o que os olhos veem, assim como pode levar anos para se conseguir enxergar o que os olhos então não puderam mostrar.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

rock

Não saberia dizer o que é o rock, em sua essência, se alguém me perguntasse, ouvinte amadora que sou e também restrita. Mas acho que consigo dizer o que não é rock. A memória desse estupendo movimento musical, dos grandes talentos que o criaram e deram-lhe continuidade, está sendo sugada pelo apetite do consumo fácil e descartável. E de tão pasteurizado, diluído, mixado, o rock vai se tornando irreconhecível, convertendo-se em mero aditivo da publicidade e do espetáculo. Até aqui o texto. Agora o subtexto, embora fosse perfeitamente dispensável a alusão.

Dora Ferreira da Silva

CONVERSA COM PESSOA

Ai, não ter a vida provas de revisão
para mudar-lhe as vírgulas, acrescentar-lhe pontos de interrogação
e sobretudo passar a limpo dores e amores
arranjar vasos de flores, ter um gato de estimação,
ouvir a rolinha e consolar-lhe a aflição...

Ai, não ter a vida provas de revisão
para endireitar-lhe as linhas, trocar palavras
e afinal arrancar as páginas todas do livro
e suprimir-lhe a edição.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.182.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pertencer - Clarice Lispector

“Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano no berço mesmo já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pele menos eu pertencia um pouco a mim mesma. O que é um fac-símile triste.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de ‘solidão de não pertencer’ começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso o que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertencesse. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos ― e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força ― eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Embora eu tenha uma alegria: pertenço, por exemplo, a meu país, e como milhões de outras pessoas sou a ele tão pertencente a ponto de ser brasileira. E eu que, muito sinceramente, jamais desejei ou desejaria a popularidade ― sou individualista demais para que eu pudesse suportar a invasão de que uma pessoa popular é vítima ―, eu, que não quero a popularidade, sinto-me no entanto feliz de pertencer à literatura brasileira. Não, não é por orgulho, nem por ambição. Sou feliz de pertencer à literatura brasileira por motivos que não têm a ver com literatura, pois nem ao menos sou uma literata ou uma intelectual. Feliz apenas por ‘fazer parte’.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.110-111. Crônica publicada em 15 de junho de 1968.

Stephen Dedalus: "Tece, tecedor do vento"

“Não tivesse Pirro tombado às mãos de uma megera em Argos ou Júlio César sido apunhalado de morte? Não são para não serem pensados. O tempo ferreteou-os e agrilhoou-os, eles estão alojados no compartimento das possibilidades infinitas que eles expulsaram. Mas podem estas ter sido possíveis atendendo a que nunca foram? Ou era só possível o que ocorreu? Tece, tecedor do vento.
― Conte-nos uma história, senhor.
― Conte, senhor, uma de fantasmas.
[...]
Deve ter havido um movimento então, uma efetivação do possível como possível. A frase de Aristóteles se formou a si mesma em meio aos versos parlapatões e sobreflutuava no silêncio estudioso da biblioteca de Santa Genoveva, onde ele lera, abrigado do pecado de Paris, noite a noite. Ao seu cotovelo um siamês delicado esmiuçava um tratado de estratégia. Nutridos e nutrientes cérebros ao meu redor: sob lâmpadas incandescentes, pingentes com filamentos pulsando desmaiados: e na escuridão de minha mente uma preguiça de inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranquila. A alma é de certo modo tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranquilidade súbita, vasta, candescente: forma das formas.

JOYCE, James. Ulisses. Trad. Antonio Houaiss. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p.34-35.

Claude Monet

Obras de Monet em site interativo: http://www.monet2010.com/

domingo, 18 de setembro de 2011

"brainstorm"- Clarice Lispector (trecho)

“Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz a outra? Fora ‘como vai?’ Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível consciente, e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criadora inconsciência do mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria. A pior cegueira é dos que não sabem que estão cegos. Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo.”

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.245.

a arenga dos discursos

Diz-se amiúde: cada um luta com as armas que tem. É engano: a luta é com as armas que se consegue manusear. E mesmo isso é passível de questionamento (e o que não é?): a palavra "arma" põe em cena um componente belicoso próprio de um tempo em que tudo parece estar em guerra. O embate, qualquer que seja, começa na linguagem, e assumir a posse de armas é colocar-se no terreno da disputa que a postura parece querer encampar. Passa despercebido que e como o mundo penetra na linguagem e a elege como território privilegiado de seu campo de batalhas, da qual emanam ditos simplificadores dispondo as pessoas, supostamente, de armas com que lutar.