Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


Mostrando postagens com marcador nada a declarar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nada a declarar. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de junho de 2016

cidadão decreta estado de calamidade para não pagar suas contas - o sensacionalista


Em resposta ao decreto emitido pelo governador interino do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, onde ele coloca o Rio de Janeiro em estado de calamidade pública, um cidadão acaba de decretar estado de calamidade privada e assume que não poderá honrar com seus compromissos e pagar suas contas e dívidas. O cidadão, que não quis se identificar, comunicou aos bancos e aos prestadores de serviço que não tem dinheiro para pagar as despesas do mês e que está aguardando um aporte financeiro do governo para poder honrar suas dívidas. Outros cidadãos estão seguindo o exemplo e também estão decretando estado de calamidade privada, e aguardam também um jantar com Temer para resolverem suas vidas. (daqui)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

sábado, 10 de agosto de 2013

sexta-feira, 19 de julho de 2013

qual marcador?

Tenho marcadores aparentemente inúteis, vazios, ocos de sentido. Às vezes vem-me o ímpeto de dar uma arrumada na casa, varrer o entulho comunicativo. Mas logo em seguida já estou pensando em outra coisa, esqueço o furor higiênico, para voltar a ele quando vou postar alguma coisa e tenho dificuldade de me lembrar, num lance rápido, dos tais marcadores inúteis. Alguns certamente podem estar sobrando, englobando outros (como na enciclopédia chinesa de Borges), mas qualquer tentativa de ordenar, classificar, trai um esforço racional que, em si, é apenas uma das faces que reconheço em mim, forte, sem dúvida, esforçada o suficiente para dar sentido a imagens disparatadas dos sonhos, quem sabe prevalecendo sobre as demais. Um colega de filosofia me chamou de racionalista. Perguntei-lhe então, de modo até inocente, como quem pede esclarecimentos a alguém que sabe mais numa dada matéria, o que é um racionalista. Ele devolveu-me a pergunta, invertendo de forma irônica a situação.

quarta-feira, 6 de março de 2013

enquanto caminhava sob o sol forte da tarde

Apesar de ter ciência do ridículo de me expor, enquanto este blog for importante para mim ele vai existir. No dia que não for mais, eu simplesmente vou saber o que fazer.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

e quem não gosta de carnaval?

Nesta madrugada a prefeitura deixou alguns banheiros químicos aqui na rua. Tive esperança de que estivessem aqui só provisoriamente, destinados a outro lugar. Foliões de uma agremiação local fazem saber que o barulho ― muito ― será aqui também. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

palavrões engatilhados

Como pedestre contumaz, convivo com as infrações cometidas pelos motoristas, de variada espécie, a mais comum sendo o avanço do sinal vermelho, limitando ainda mais o tempo de travessia do pedestre. A rua é deles, dos carros e seus proprietários, os pedestres que se virem. Pois eu, além de me virar, tenho para essas situações alguns palavrões engatilhados, que pronuncio antes para dentro, mas que saem como resposta reflexa ao desrespeito. "Corno", por exemplo, eu sempre falo. Não vai mudar nada, mas também, se eu for atropelada, por exemplo, a única coisa que vai mudar é que vou deixar de existir ― morrer ―, porque a impunidade grassa como os cornos neste país. Nada vai mudar. Mas eu, dizendo meu xingamento, ainda que para dentro, fico mais forte, e adio minha morte.

sábado, 26 de janeiro de 2013

armadilhas

Na semana que ora finda uma amiga veio conversar comigo, em tom de conselho, sobre a imagem que decantou de mim após certo episódio. Claro que percebi a armadilha. Eu disse a ela que minha imagem já tinha passado por coisas bem mais complicadas, e que nada disso impediu que eu chegasse onde cheguei. Pelo contrário, até ajudou, porque me mexi, segui adiante. A armadilha em que minha amiga caiu, e na qual queria me enredar, foi achar que o problema dela também podia ser um problema meu: preservar a qualquer custo uma imagem: a que cada um acredita ser sua. Foi isso o que a colega me disse, em tom de conselho. Ela me mediu por ela.

domingo, 13 de janeiro de 2013

rebaixamento

Nunca no Brasil houve tanta mulher disposta a estampar capa de jornal barato ― e publicações congêneres.  Está surgindo uma nova profissão: subcelebridades, seres que vivem à custa da duvidosa imagem que alimentam através do corpo. Mulheres que estão fazendo do corpo objeto de uma posse coletiva e virtual, multiplicada pelas possibilidades exponenciais da internet. Seria interessante pensar quem está financiando essa superexposição do corpo feminino, quem está efetivamente lucrando (e obtendo satisfação) com isso e por que as mulheres (naturalmente as que estão se submetendo a essa distorção grotesca de sua sexualidade) estão permitindo esse avanço sem escrúpulos sobre seu corpo. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

telefone inteligente

Este foi o Natal do smartphone. É significativo o deslumbramento com a nova sensação da tecnologia da informação ― na rua, na chuva, na fazenda... Na mão dos alunos também.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

saúde

O carro-propaganda de uma farmácia passa berrando na rua: “A Drogaria Exata deseja a todos os seus clientes um Feliz Natal e um ano novo repleto de saúde.” Meu primeiro pensamento: querem falir? Mas logo depois as coisas migraram para seu lugar: no nosso tempo a saúde ― ou o que as pessoas chamam de saúde ― passa inevitavelmente pela farmácia. Não há assim qualquer risco de falência ou contradição no anúncio. As filas nas farmácias, que por sua vez se multiplicam em cada esquina, estão aí para confirmar a constatação assombrosa de que saúde passou a significar doença a curar. Felizmente as farmácias não são o único reduto da saúde.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

suco de limão

Suco de limão para desintoxicar o organismo. E para desintoxicar o dia, dormir? A discurseira corre solta, não é fácil preservar a boa saúde psíquica em meio a tantas oportunidades e sugestões para acanalhar-se. É preciso, pois, desintoxicar-se do dia, ou “desintoxicar o dia”, mesmo quando o avançado da hora diz que já faz tempo é noite. 

sábado, 8 de dezembro de 2012

a inevitável ironia

Na última aula de natação o professor falava, em tom de blague, sobre ser xingado quando aumenta muito o nível de exigência. Ao que eu disse: “Felizmente a água não escuta palavrões.”