Em resposta ao decreto emitido pelo
governador interino do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, onde ele coloca o
Rio de Janeiro em estado de calamidade pública, um cidadão acaba de decretar
estado de calamidade privada e assume que não poderá honrar com seus
compromissos e pagar suas contas e dívidas. O cidadão, que não quis se
identificar, comunicou aos bancos e aos prestadores de serviço que não tem
dinheiro para pagar as despesas do mês e que está aguardando um aporte
financeiro do governo para poder honrar suas dívidas. Outros cidadãos estão
seguindo o exemplo e também estão decretando estado de calamidade privada, e
aguardam também um jantar com Temer para resolverem suas vidas. (daqui)
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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sábado, 18 de junho de 2016
sexta-feira, 15 de abril de 2016
domingo, 20 de dezembro de 2015
quinta-feira, 4 de junho de 2015
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
sábado, 10 de agosto de 2013
sexta-feira, 19 de julho de 2013
qual marcador?
Tenho marcadores aparentemente inúteis, vazios, ocos
de sentido. Às vezes vem-me o ímpeto de dar uma arrumada na casa, varrer o
entulho comunicativo. Mas logo em seguida já estou pensando em outra coisa,
esqueço o furor higiênico, para voltar a ele quando vou postar alguma coisa e
tenho dificuldade de me lembrar, num lance rápido, dos tais marcadores inúteis.
Alguns certamente podem estar sobrando, englobando outros (como na enciclopédia
chinesa de Borges), mas qualquer tentativa de ordenar, classificar, trai um
esforço racional que, em si, é apenas uma das faces que reconheço em mim,
forte, sem dúvida, esforçada o suficiente para dar sentido a imagens
disparatadas dos sonhos, quem sabe prevalecendo sobre as demais. Um colega de
filosofia me chamou de racionalista. Perguntei-lhe então, de modo até inocente,
como quem pede esclarecimentos a alguém que sabe mais numa dada matéria, o que
é um racionalista. Ele devolveu-me a pergunta, invertendo de forma irônica a situação.
quarta-feira, 6 de março de 2013
enquanto caminhava sob o sol forte da tarde
Apesar de ter ciência do ridículo de me expor,
enquanto este blog for importante para mim ele vai existir. No dia que não for
mais, eu simplesmente vou saber o que fazer.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
sábado, 2 de fevereiro de 2013
e quem não gosta de carnaval?
Nesta madrugada a prefeitura deixou alguns banheiros
químicos aqui na rua. Tive esperança de que estivessem aqui só provisoriamente,
destinados a outro lugar. Foliões de uma agremiação local fazem saber que o
barulho ― muito ― será aqui também.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
palavrões engatilhados
Como pedestre contumaz, convivo com as infrações
cometidas pelos motoristas, de variada espécie, a mais comum sendo o avanço do
sinal vermelho, limitando ainda mais o tempo de travessia do pedestre. A rua é
deles, dos carros e seus proprietários, os pedestres que se virem. Pois eu,
além de me virar, tenho para essas situações alguns palavrões engatilhados, que
pronuncio antes para dentro, mas que saem como resposta reflexa ao desrespeito. "Corno", por exemplo, eu sempre falo. Não vai mudar nada, mas também, se eu for
atropelada, por exemplo, a única coisa que vai mudar é que vou deixar de
existir ― morrer ―, porque a impunidade grassa como os cornos neste país. Nada
vai mudar. Mas eu, dizendo meu xingamento, ainda que para dentro, fico mais
forte, e adio minha morte.
sábado, 26 de janeiro de 2013
armadilhas
Na semana que ora finda uma amiga veio
conversar comigo, em tom de conselho, sobre a imagem que decantou de mim após certo episódio. Claro
que percebi a armadilha. Eu disse a ela que minha imagem já tinha passado por
coisas bem mais complicadas, e que nada disso impediu que eu chegasse onde
cheguei. Pelo contrário, até ajudou, porque me mexi, segui adiante. A armadilha em que minha
amiga caiu, e na qual queria me enredar, foi achar que o problema dela também podia ser um problema meu:
preservar a qualquer custo uma imagem: a que cada um acredita ser sua. Foi isso
o que a colega me disse, em tom de conselho. Ela me mediu por ela.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
duas máximas (ou mínimas) para situações de interlocução rarefeita
“Nada a declarar.”
“Fale ao motorista somente o indispensável.”
domingo, 13 de janeiro de 2013
rebaixamento
Nunca no Brasil houve tanta mulher disposta a
estampar capa de jornal barato ― e publicações congêneres. Está surgindo uma nova profissão:
subcelebridades, seres que vivem à custa da duvidosa imagem que alimentam
através do corpo. Mulheres que estão fazendo do corpo objeto de uma posse
coletiva e virtual, multiplicada pelas possibilidades exponenciais da internet.
Seria interessante pensar quem está financiando essa superexposição do corpo
feminino, quem está efetivamente lucrando (e obtendo satisfação) com isso e por
que as mulheres (naturalmente as que estão se submetendo a essa distorção
grotesca de sua sexualidade) estão permitindo esse avanço sem escrúpulos sobre
seu corpo.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
telefone inteligente
Este foi o Natal do smartphone. É significativo o
deslumbramento com a nova sensação da tecnologia da informação ― na rua, na
chuva, na fazenda... Na mão dos alunos também.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
saúde
O carro-propaganda de uma farmácia passa berrando na
rua: “A Drogaria Exata deseja a todos os seus clientes um Feliz Natal e um ano
novo repleto de saúde.” Meu primeiro
pensamento: querem falir? Mas logo depois as coisas migraram para seu lugar: no
nosso tempo a saúde ― ou o que as pessoas chamam de saúde ― passa inevitavelmente
pela farmácia. Não há assim qualquer risco de falência ou contradição no anúncio. As filas
nas farmácias, que por sua vez se multiplicam em cada esquina, estão aí para
confirmar a constatação assombrosa de que saúde passou a significar doença a curar.
Felizmente as farmácias não são o único reduto da saúde.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
suco de limão
Suco de limão para desintoxicar o organismo. E para
desintoxicar o dia, dormir? A discurseira corre solta, não é fácil preservar a boa
saúde psíquica em meio a tantas oportunidades e sugestões para acanalhar-se. É
preciso, pois, desintoxicar-se do dia, ou “desintoxicar o dia”, mesmo quando o
avançado da hora diz que já faz tempo é noite.
sábado, 8 de dezembro de 2012
a inevitável ironia
Na última aula de natação o
professor falava, em tom de blague, sobre ser xingado quando aumenta muito o
nível de exigência. Ao que eu disse: “Felizmente a água não escuta palavrões.”
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