Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Chico Buarque: A L M A N A Q U E (por Oswaldo Montenegro)

Se adianta tomar uma aspirina / Ou se bate na quina aquela dor

escrita

É conhecida a simbologia da água associada à vida, e que mulheres grávidas sonham com água. Pois bem: há muita água neste blog, o que não quer dizer que ele não possa fazer água. 

Bob Dylan: I'm Not There (song)

denunciar spam

Quem dera que o inconsciente recebesse os spams sem fazer alarde. Minha caixa de spam anda cheia de coisas supostamente inúteis, mas meus sonhos me dizem não (ou sim), que talvez haja outras possibilidades, que eles (ou elas) estão tentando me comunicar coisas que o super eu, que quer lotar a caixa do spam, teima em não perceber. Percebe, na verdade percebe, mas há situações em que não há nada a fazer, a não ser escutar, com toda sensibilidade possível, os sonhos, essa outra vida que se vive no mundo da noite. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

lua, rio, 10/11/2011







antes da lua

Mas antes da lua houve a passagem pela livraria, que é outra forma de se mirar.  

lua metafísica ornando o céu

Acaso, coincidência, simples questão de percepção... O fato é que ontem, saindo de dado lugar, já à noite, onde tinha ido cumprir ritual ligado à saúde, ou à falta dela, conforme se entenda, olhei distraidamente para o céu e vi uma enorme lua cheia suspensa, pairando absoluta. Num átimo, dei-me conta de que, conforme o ciclo da lua, há exatas quatro luas saía do mesmo lugar, em horário similar, cumprido o mesmíssimo ritual, quando olhei para o céu e vi uma bela e enorme lua. No mínimo o inusitado de tudo me trouxe, num relance, a intuição de que preciso desviar mais vezes meu olhar das coisas comezinhas, ou quem sabe mudar o ângulo do olhar, que há um alto pairando sobre o turbilhão absorvente da vida. 

Eu (não) me resigno. | Fernando Pessoa (curta)

Nunca tinha lido ou ouvido falar deste poema de Fernando Pessoa... surpreendente...

oneironaut (animação)

"Faço no tempo soar minha sílaba" (Caetano Veloso)


Das versões desta música maravilhosa de Caetano Veloso, ainda é a de Roberto Carlos minha preferida. Mas Adriana Calcanhoto e Paulinho Moska fizeram bonito.

água batendo na proa

Meu lado que comunica ― pequena ilha ― é uma concessão à imensidão que quer silêncio, oceano que se basta em seus rumores e sons, maravilhosos sons de água batendo na proa.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

seguindo um conselho

“Se vocês gostam de escrever ou desenhar ou dançar ou cantar, façam porque é ótimo: enquanto a gente brinca assim, não se sente mais sozinha, e fica de coração quente.”

Clarice Lispector. O mistério do coelho pensante e outros contos. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010, p.28.

Sayonara (animação)

parcimônia

Alguns provérbios não deixam de ter seu grão de verdade: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Mais proverbial que os provérbios é a poesia, que alivia a pimenta dos olhos. Há um sentido obscuro em estar aqui, vivo, sentindo a pimenta arder nos olhos e sabendo que um dia tudo será pó, podendo sobreviver-lhe, por um tempo cuja extensão é absolutamente incógnita, as palavras que deram chama à vida. 

distância

Ando cá em diálogos com a paz, a saber o que preciso ceder para ter a sua companhia. Não entendo o que ela diz, ainda, mas sinto que houve um progresso; afinal, estamos dialogando. 

Emily Dickinson

Desafiei todos os ventos
Até que uma Lição
Me deu irada a Natureza
E furou meu Balão.

I bet with every wind that blew
Till Nature in chagrin
Employed a Fact to visit me
And scuttle my Balloon.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.118-119.

domingo, 6 de novembro de 2011

minha vida de cachorro


Revejo Minha Vida de Cachorro. Quando assisti no cinema, mal captei uma atmosfera de criança angustiada. Houve um avanço, pois pude apreender uma outra esfera da história: o menino fala, do princípio ao fim, que é sempre bom comparar, recorrendo para tanto aos exemplos mais bizarros, como a cachorra Laika, mandada ao espaço e de lá não voltando viva, mas que contribuiu com seu sacrifício para o progresso humano. 

dez passos depois das árvores


Colectivo Silêncio da Gaveta. Trecho de poema de João Rios (aqui):
...
se o que os atravessa se despenha no horto como pedras exaustas
de ter pássaros doendo nas raízes
acordam os pés cegam as árvores
são uma paisagem de costas atando-os à robustez equídea que os
ocupa
...