Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

ANO NOVO

Prepara-se o jardim.
Há um movimento do botão à flor
em câmara lenta.
O rosto pequeno das violetas
esconde seu perfume nas folhas
sussurrando segredos
                    salta o sabiá na aragem
e suplica à rosa de ontem
que não desfolhe seu rubor.

Promete a nova noite
a estrela que quisermos.
O CISNE ― constelação que amamos ―
cintila noutro céu.
                    Entre ar e folhagem
o pedido calado alcança
um pássaro estelar.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.291.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

como não?

Ouvi hoje de uma colega de profissão que era imprescindível uma roupa nova para a virada do ano. E então, tomando de empréstimo o Verissimo, me ocorreu que sempre me espanto um pouco mais com a variedade humana. Somos todos da mesma espécie, mas o que encanta uns horroriza outros. Atenuando esses extremos, o que encanta uns espanta outros. Nunca essa coisa de roupa nova havia se colocado antes para mim, mesmo como uma possibilidade. A ideia, à parte a suscetibilidade à nuvem dos discursos, era-me até então indiferente. Este ano pensei mesmo em fazer algo totalmente diferente, uma viagem para um lugar sossegado, reservado e aprazível. Para o próximo ano não está descartada a ideia. Mas por que me lembrei agora da sugestão da roupa nova? Porque estou buscando uma nova roupagem com que vestir meu ser ― o mesmo que sentir em si algum sopro de renovação. Queria poder trocar de roupa por dentro, dar-me de presente novos trajes. Agora talvez esteja entendendo a simbologia da roupa nova na passagem do ano. E porque, via de regra, são roupas brancas. 

duplo, dobro, duplicado...

Súbito interesse em assistir A Dupla Vida de Véronique.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

AION

Flor sideral
docemente arremessada ao éter
guiou-me ao centro da linguagem
ensinou-me a ler como arúspice
entranhas de eventos e pássaros
gerando-me na árvore
do espírito em flor.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.176.

últimos dias do ano

São dias diferentes, estes. Passado o grande entusiasmo que envolve o Natal, resta menos que uma semana para o ano novo. É como se o ano inteiro convergisse para o Natal, e nesses pouquíssimos dias que faltam para o ano terminar fosse possível sentir uma densidade diferente no ar. Uma necessidade forte de recolhimento, de tocar o próprio tempo, afinal um detalhe insignificante no grande concerto cósmico. Nós ocidentais vivemos o tempo de duas formas: o tempo linear e o tempo cíclico. A passagem do ano projeta uma linearidade sobre um fenômeno que é, em essência, cíclico.

Millôr Fernandes sobre Rubem Braga

OUTSIDERS ― Eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis.  [aqui]

Dora Ferreira da Silva

OS POETAS ESTÃO COM MEDO...

Os poetas estão com medo das palavras:
é o sinal evidente que devem detoná-las.
A vida implora: quer ser refeita
sob os escombros. Tantas avenidas
trânsito parado rios enfermiços pássaros
em debandada: encontrarão talvez seu pouso
num disco voador receptivo ao voo e ao canto.
Desencanto do presente. Economia economia
economia e a casa em desordem.
Um pouco de filosofia não fará mal nenhum.
Os jovens poetas leem Giordano Bruno
Nietzsche e sabem que eles mais perto estiveram
do noumeno do que esses fenômenos de efeito
especial ― barulho e repetição. O mal
é o alienígena, bárbaro à vista como sempre
e outrora. Detonem a palavra ― poetas ―
poetas é outro nome de guerreiros e amorosos
do ser. Venham com seus amores transfigurados
com sua energia nuclear. A destruição pela
palavra é redemoinho no ar
para novas configurações do imaginário,
de um novo fabulário que liberte Andrômeda
de seus grilhões e torne o monstro
digestível. Tirem a palavra de sua bainha,
o coração, sem hesitar. A palavra
― sopro cosmogônico― nossa arma de predileção,
nossa bomba amorosa de efeito retardado
mas seguro. O mundo que se desmunda aí está
à espera de aragem sagrada de vossas bocas
dizei um novo Atharva-Veda poetas oficiantes
buscai o ponto de união de tantos cacos
dispersos; dizei o verso que vem aos trancos
e barrancos dependendo de vossa ousadia
e alegria, pois é sempre alegre
o gesto criador, a palavra inicial.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.401-402.

28 de dezembro

Perco o sono no meio da noite, e apesar de ainda ser noite ― madrugada ― já é dia 28 de dezembro. De uns tempos para cá, quando esses rituais de passagem ganharam dimensão para mim, sempre sei o que estou deixando para trás com o ano que finda. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

um acaso

O acaso, esse misterioso senhor, ajuda a tecer enredos ou está inscrito neles? Quando Machado de Assis, nas Memórias póstumas, referiu-se ironicamente ao pobre destino como grande procurador dos negócios humanos, pilheriava, com seu ceticismo, qualquer esforço de transcendência que alguém pudesse fazer, afinal nosso único legado seria a miséria ― naturalmente tinha em mira a miséria espiritual. Acontece que hoje o acaso me foi bastante generoso, sem eu precisar imaginar uma mão oculta do destino. O que preciso, mesmo, é escrever sobre isso, sobre qualquer coisa que me soe com um sentido diferente do previsível, que possa inclusive contrariá-lo. 

tema dos deuses: milton nascimento e som imaginário

paz profunda

Uma das mensagens de Natal que recebi este ano finalizava com a expressão “Paz Profunda”. Havia tal expressão de verdade nas palavras de quem enviou que, não sendo eu muito adepta de mensagens nesta época do ano, resolvi encaminhá-la a algumas pessoas que se fizeram presentes em minha vida ao longo do ano, seja concretamente, seja através das palavras, acrescentando: concretamente ou por meio de palavras são coisas intercambiáveis na vida de quem vive no meio delas, as palavras, e sabe de sua força. Uma amiga respondeu: Paz profunda é um desejo muito bonito e só quem precisa dela sabe como é valorosa. Agradeço esse desejo e redireciono-o a você. E só então percebi como aquela expressão havia ressoado, e continua ressoando, em mim. 

artichoke hearts (animação)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

inusitado

Ontem à tarde reinava um silêncio diferente de um domingo habitual, uma espécie de ressaca coletiva da noite de Natal. Uma placidez muito grande tomava conta do ar. Foi quando distingui um som meio distante, mas perfeitamente reconhecível, pérola daquele silêncio todo: owner of a lonely heart... 

nova imagem

Olhei-me hoje no espelho e achei meu cabelo bonito ― aquele cabelo da manhã, trabalhado pelo travesseiro. Olhei com mais vagar e achei meu rosto simplesmente leve, e considerei que valeria a pena tentar umas imagens amadoras, caseiras, para atualizar o perfil do blog. Feito. Fazia um tempinho que eu não encarava as lentes de uma máquina, a não ser por obrigação (3x4). Os problemas de saúde, no segundo semestre, desnortearam-me um pouco, e conheci uma espécie nova de tristeza. Agora parece que as coisas estão encontrando alguma calmaria, ou pelo menos resposta. De todo modo, gosto muito de meus cabelos ― e dos meus olhos também.

manhã molhada de chuva

Emily Dickinson

A Manhã é de todos -
A Noite - de alguns -
De poucos escolhidos -
A Auroreal luz.


Morning is due to all -
To some - the Night -
To an imperial few -
The Auroral light.


DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.78-79.

possibilidades

As coisas continuam muito misturadas ― o que tira a convicção para agir. Por outro lado, é espantosa a frequência com que o assunto 'dinheiro' comparece em meus sonhos, indicando tratar-se de fonte recorrente de preocupação. Nisso, aliás, tenho a companhia da maioria dos brasileiros. Mas não era a preocupação o mote das imagens desta noite, era a culpa. Agora me ocorre um trecho que li ontem de O homem sem qualidades, certamente a matriz do que sonhei (o que mostra, mais uma vez, que escrevendo as coisas ganham uma dimensão mais palpável): "Se quisermos distinguir entre si as pessoas com senso de realidade e senso de possibilidade, basta pensar em determinada quantidade de dinheiro. Tudo o que mil marcos contêm em possibilidades está ali contido, sem dúvida, não importa se possuímos os mil marcos ou não; o fato de o sr. Eu ou o sr. Você os possuírem acrescenta tão pouco aos mil marcos quanto acrescentaria a uma rosa ou uma mulher. Mas um louco os enfiará na meia, dizem as pessoas realistas, e um empreendedor há de realizar alguma coisa com eles; até a beleza de uma mulher sofrerá indubitavelmente acréscimo ou perda segundo quem a possua. É a realidade que traz as possibilidades, e nada mais errado do que negar isso. Mesmo assim, no total ou na média serão sempre as mesmas possibilidades repetidas, até chegar uma pessoa para a qual uma coisa real não signifique mais que o imaginado. Será ela quem dará sentido e destinação às novas possibilidades, que há de provocar." [MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Trad. Lya Luft e Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p.35]

pink floyd - marooned

domingo, 25 de dezembro de 2011

chuva...

papeis rasgados

A homeopatia e a psicanálise marcaram encontro em meu sonho, nas imagens de papeis rasgados. Desde a primeira consulta meu homeopata pediu que eu preenchesse um questionário, algo que sempre deixo para depois: responder perguntas é sempre invasivo. Ocorre que na última consulta o tal questionário voltou à baila, mas no sonho ele aparecia associado à minha analista, como se ele o tivesse solicitado. Ela não me apresentou nenhum formulário para preenchimento, mas faz perguntas de que me esquivo ― um direito que me assiste vivendo numa democracia. Parêntese: solicitado a se manifestar numa prova acerca da noção de hierarquia no texto de Millôr Fernandes, um aluno do 6º ano disse que era o contrário de democracia. Faz sentido, segundo a democrática noção de democracia que nos é vendida cotidianamente. Então uma pessoa com pendores democráticos teria facilidade de fazer análise ― desde que não visse naquela relação qualquer forma de hierarquia. Acontece que o rompante de rasgar os papéis (o dito questionário) e discutir com a analista, abandonando a sessão, é uma reação enérgica o suficiente para mostrar o direito à privacidade numa sociedade democrática. Logicamente que por de trás dos papéis rasgados em sonho há outros, e isso tem profundas implicações com a continuidade ou não do processo de análise, e do que (ou de quem...) poderá sair de lá. Por outro lado, há outros papéis sendo preenchidos, tentando quebrar a rigidez dos papeis rasgados em sonho. Há papéis com que se busca fazer a catarse. 

cinema, natal e chuva

Resolvi conferir um filme americano no DVD. Fiquei surpresa ― ao perceber-me sentindo falta do plim-plim ― para bom entendedor, sintoma de tédio. Mas não posso reclamar: fui eu quem buscou este passatempo, em vez de algo que fizesse pensar. Felizmente chove, uma chuva ótima aplacando o calor, o dia 25 correu perfeitamente calmo, e amanhã, como é pré-férias, não terei de trabalhar. 

veja (margarida) - vital farias

Emily Dickinson: "There is no Frigate like a Book"

Não há Fragata como um Livro
Para ver outras Terras
Nem bom Corcel como uma Página
Aos pés da Poesia -
O pobre vai por essas Rotas
Sem custos de Pedágio -
Como é singelo esse Veículo
Que o Espírito guia -


There is no Frigate like a Book 
To take us Lands away, 
Nor any Coursers like a Page 
Of prancing Poetry -  
This Travel may the poorest take        
Without oppress of Toll -  
How frugal is the Chariot 
That bears a Human Soul -


DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.78-79.

fleet foxes: mykonos (animação)

sábado, 24 de dezembro de 2011

espírito natalino IV

Dessa vez fiz diferente, e pela primeira vez eu prestei atenção no sabor da rabanada. Saber e sabor andam juntíssimos.

espírito natalino III

No supermercado lotado já pela manhã ― meu Deus, como fui parar lá hoje? ―, sol escaldante, um funcionário, rapaz jovem, repondo o estoque, distraía-se do dia que promete, cantarolando Renato Russo e suavizando esse imponderável que vai no meu coração: é preciso amaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar as pessoas como se não houvesse amanhã... Já na fila do caixa presenciei um bate-boca.

la dolce vita

Óssip Mandelstam

Não posso tocar, no escuro,
Teu vulto vago e sombrio.
“Senhor!”, por erro, murmuro,
Alheio ao que balbucio.

De mim, tal uma ave enorme,
O nome de Deus se evola.
À frente, um abismo informe,
Atrás, vazia, a gaiola.

CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006. p.117.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

superlotação

As ruas estão lotadas, as lojas, os shoppings, as praças de alimentação, as pessoas. Sobra pouco espaço para a vida.

um conto de William Saroyan

O OUSADO RAPAZ DO TRAPÉZIO SUSPENSO
Tradução João Cabral de Melo Neto

1. Sono

Horizontalmente desperto entre as dimensões do universo, praticando sorrisos e alegria, sátira, o fim de tudo, de Roma e também de Babilônia, dentes trincados, um enorme calor vulcânico, as ruas de Paris, as planícies de Jericó, muito deslizar como de réptil distraído, uma exposição de aquarelas, o mar e o peixe com olhos, sinfonia, uma mesa num canto da Torre Eiffel, jazz no Teatro da Ópera, um despertador e o sapateado da condenação, conversas com uma árvore, o rio Nilo, de Cadillac cupê até Kansas, o roncar de Dostoievsky, um sol sombrio.
Este mundo, a face de alguém que existiu, a forma sem o peso, pranto sobre a neve, a branca música, uma flor ampliada ao duplo do tamanho do universo, nuvens negras, o olhar fixo da pantera enjaulada, espaços sem morte, Mr. Elliot de mangas arregaçadas torrando pão, Flauber e Guy de Maupassant, uma rima silenciosa de sentido primitivo, Finlândia, matemática altamente polida e untuosa como uma cebola verde para o dente, Jerusalém, o caminho do paradoxo.
O canto profundo de um homem, os cochilos dissimulados de alguém invisível mas vagamente conhecido, furacão no trigal, uma partida de xadrez, faça calar a rainha, o rei, Karl Franz, o negro Titanic, Mr. Chaplin chorando, Stalin, Hitler, a multidão de judeus, amanhã é segunda, nenhuma dança nas ruas.
Ó fugaz minuto de vida: acabou, o mundo está de novo presente.

2. Vigília

Ele (o sobrevivente) vestiu-se e fez a barba, olhando-se com desgosto no espelho. “Bem antipático”, pensou. Onde está minha gravata? (Ele só possuía uma.) Café e céu cinzento, o fog do Oceano Pacífico, o estrépito de um bonde de um bonde passando, gente indo à cidade, novamente a hora, o dia, prosa e poesia. Desceu rapidamente as escadas para a rua, e saiu a caminhar, começando inesperadamente a pensar: “é somente no sono que podemos saber se existimos. Somente lá, naquela morte viva, poderemos encontrar a nós mesmos e à terra distante, a Deus e aos Santos, os nomes de nossos pais, a substância de perdidos momentos; é lá que os séculos se revelam no instante, que o inconcebível se transforma no limitado, átomo tangível da eternidade.”
Saiu a caminhar na manhã, tão desperto quanto podia, dando batidas secas com os calcanhares, recebendo com os olhos a verdade superficial das ruas e das estruturas, a verdade banal da realidade. Sem que o procurasse, viu-se a cantarolar: “Com a maior facilidade voa no imenso espaço, o ousado rapaz do trapézio suspenso”,* e depois riu com toda a capacidade do ser. Estava, na verdade, uma esplêndida manhã; nublada, fria e triste, uma manhã para a vida interior; ah, Edgar Guest, que fome de tua música.
Descobriu na sarjeta uma moeda, um pêni datado de 1923, e colocando-a na palma da mão examinou-a minuciosamente, procurando lembrar-se daquele ano e pensando em Lincoln cujo perfil nela estava gravado. “Hei de comprar um automóvel”, pensou. “Hei de me vestir como um grã-fino, visitar as pensões de mulheres, beber e jantar, e voltar depois a uma vida sossegada. Ou então, colocarei a moeda na fenda de uma balança e me pesarei.”
Era bom ser pobre, e os comunistas... ― Mas era horrível ter fome. Que apetite o deles, como eram loucos por comida! Estômagos vazios. Lembrou-se de quanto ele necessitava de comida. Seu único alimento era pão, café e cigarros, e agora não tinha mais pão. Café sem pão não constituía ceia razoável, e no parque não havia ervas que servissem para se cozinhar como espinafre.
A dizer a verdade, embora já tivesse meio morto de fome, compreendia haver ainda um número infindável de livros que precisava ler antes de morrer. Lembrou-se do jovem italiano do Hospital do Brooklyn, um insignificante e doente funcionário chamado Mollica, a dizer, desesperadamente: “como gostaria de ver a Califórnia, ainda uma vez, antes de morrer”, e pensou com gravidade, “preciso ao menos ler Hamlet de novo; ou talvez Huckleberry Finn”.
Foi então que tornou-se inteiramente lúcido à ideia de morte. A lucidez, agora, se assemelhava a um estado de choque prolongado. “A um rapaz era muito mais fácil morrer discretamente”, pensou, e ele já estava meio morto de fome. A água e a prosa eram boas, preenchiam muito espaço inorgânico, mas eram insuficientes. Se ao menos houvesse algum trabalho que pudesse fazer por dinheiro, algum trabalho vulgar, do tipo chamado comércio. Se ao menos lhe fosse permitido sentar-se a uma cadeira, e ali, todo o dia, somar cifras, subtrair, multiplicar, dividir, talvez então não viesse a morrer de fome. Poderia comprar comida, todas as espécies de comida: iguarias nunca provadas da Noruega, Itália, França; carne de vaca preparada de todas as maneiras, carneiro, peixe, queijo; uvas, figos, peras, maçãs, melões, coisas que ele adoraria depois de satisfeita sua fome. Numa travessa, colocaria um cacho de uvas vermelhas entre dois figos negros, uma grande pêra amarela e uma maçã verde. Durante horas, levaria ao nariz uma fatia de melão. Compraria grandes formas de pão francês, legumes de todas as qualidades, comida; haveria de comprar vida.
De uma elevação divisou a cidade que se erguia a leste, majestosamente, com suas grandes torres, compacta à sua maneira, e de repente sentiu-se fora de tudo aquilo, quase, definitivamente convencido, persuadido mesmo de que jamais conseguiria ser admitido naquele mundo injusto, ou melhor, naqueles tempos injustos, muito embora tentasse o que quisesse... e agora, um rapaz de 22 anos estava sendo permanentemente rejeitado desse mundo. Este pensamento não era de entristecer. Disse consigo mesmo: “muito em breve terei de preencher um pedido de Licença para Viver”. Aceitou a ideia de morrer sem piedade de si mesmo ou dos homens, imaginando que ao menos dormiria ainda uma noite. O aluguel de um outro dia estava pago: contudo, haveria sempre outro amanhã. E além disso, podia ir onde vão os homens sem lar.
Podia mesmo visitar o Exército da Salvação ― entoar hinos a Deus e a Jesus (desafeto de minha alma), ser salvo, comer e dormir. Mas ele bem sabia que não iria lá. Sua vida era uma vida privada. Não desejava perder essa qualidade. Qualquer outra solução seria melhor.
“Pelo ar, no trapézio suspenso”, murmurou seu subconsciente. Era divertido, terrivelmente engraçado. Um trapézio até Deus ou até nada, um trapézio suspenso em alguma eternidade; rezou objetivamente pedindo coragem para empreender graciosamente aquele voo.
― Tenho um cêntimo ― disse. ― Uma moeda americana. Mais tarde eu a polirei até que venha a brilhar como um sol e decifrarei suas palavras.
Caminhava agora na própria cidade, entre gente viva. Havia um ou dois lugares aonde ir. Entreviu sua imagem no vidro das vitrinas das lojas e ficou desapontado com sua aparência. Não parecia absolutamente tão disposto como se sentia; parecia, na verdade, um débil enfermo, alguém que sofresse de cada parte do corpo, do pescoço, ombros, braços, tórax e joelhos. Isso nunca, disse, e com esforço recompôs as peças desconjuntadas, tornando-se tensa e artificialmente ereto e sólido.
Com magnífica disciplina, recusando-se mesmo a relanceá-los, passou por numerosos restaurantes, e chegando, por fim, a determinado edifício, nele entrou. Um elevador levou-o ao sétimo andar, onde ele, cruzando um vestíbulo e abrindo uma porta, penetrou no escritório de uma agência de empregos. Já uns vinte rapazes se achavam na sala; descobriu um canto onde, de pé, aguardou sua vez de ser entrevistado. Por fim, este grande privilégio lhe foi concedido e foi interrogado por uma magra e estouvada senhorita de uns cinquenta anos.
― Agora me diga ― falou ela ―, o que sabe fazer?
Sentiu-se embaraçado.
― Sei escrever ― disse enfaticamente.
― Quer dizer... sua letra é boa? É isso? ― disse a idosa senhorita.
― Bem... é ― replicou ele. ― Mas o que quero dizer é que sei escrever.
― Escrever o quê? ― disse a moça, quase com raiva.
― Prosa ― respondeu ele simplesmente.
Houve uma pausa. Por fim a moça disse:
― Sabe escrever à máquina?
― Naturalmente ― disse o rapaz.
― Está bem ―  continuou a moça, ficando com seu endereço ―; estaremos em contato com o senhor. Esta manhã não há nada, absolutamente nada.
A mesma coisa aconteceu em outra agência; apenas ele foi interrogado por um rapaz pretensioso, extremamente parecido com um porco. Das agências ele foi à administração das grandes lojas; havia um grande luxo, alguma humilhação de sua parte e finalmente a informação de que não podia ser aproveitado. Não se sentiu aborrecido, e por mais estranho que pareça nem mesmo sentiu que estava pessoalmente envolvido com toda aquela maluquice. Ele era um ser vivo, que tinha necessidade de dinheiro com que continuar a sê-lo, e nenhum meio havia de consegui-lo senão trabalhando para isso; mas não havia trabalho. Tratava-se simplesmente de um problema abstrato que pela última vez tentara resolver. Mas agora se alegrava de ver o assunto liquidado.
Começou a perceber toda a precisão do curso de sua vida. exceto por momentos, ela nunca tivera uma direção definida, mas agora, no último minuto, ele determinara que ela devia ser tão pouco imprecisa quanto possível.
Em seu caminho para a A.C.M., passou por cafés e restaurantes sem conta, e lá arranjando papel e tinta começou a preencher sua inscrição. Durante uma hora preparou esse documento, e depois, devido ao ar abafado e à fome, sentiu subitamente que ia desmaiar. Sentia-se como se nadasse para fora de si mesmo, em grandes braçadas, e precipitadamente abandonou o edifício. No parque Central, enquanto se encaminhava para o edifício da Biblioteca Pública, bebeu quase um litro de água e sentiu-se reconfortado. No centro do passeio de tijolos, um ancião cercado de gaivotas, pombos e pintarroxos tirava um punhado de migalhas de pão de um grande saco de papel atirando-as aos pássaros num elegante movimento.
Secretamente sentiu-se impelido a pedir ao velho uma porção das migalhas de pão mas não deixou mesmo que tal pensamento se tornasse consciente. Entrou na Biblioteca Pública e, durante uma hora, leu Proust. Mas sentindo-se novamente como se nadasse para fora de si, apressou-se em sair. Na fonte do parque bebeu mais água e começou o longo caminho para seu quarto.
“Dormirei um pouco mais”, pensou. “Não há outra coisa a fazer.” Compreendia agora estar muito cansado e fraco para procurar enganar-se a respeito de seu estado. Todavia sua razão parecia ainda, de algum modo, flexível e alerta. Ela persistia, como se fosse uma entidade diversa dele, em inventar impertinentes brincadeiras a propósito de seu sofrimento real. Às primeiras horas da tarde chegou a seu quarto e imediatamente preparou café no pequeno fogareiro a gás. Não havia leite na lata e a meia libra de açúcar comprada uma semana antes se havia acabado; tomou uma xícara de líquido quente e negro, sentando-se no leito e sorrindo.
Da Associação Cristã de Moços ele furtara umas 12 folhas de papel de carta com as quais pensava terminar sua inscrição, mas a simples ideia de escrever lhe era agora desagradável. Nada tinha a dizer. Começou a polir o pêni achado naquela manhã, e esse ato absurdo como que lhe deu um grande prazer. Nenhuma moeda americana se podia fazer brilhar tanto como um pêni. Quantos daqueles precisaria para continuar vivendo? Não haveria mais nada que pudesse vender? Olhou em volta o quarto desguarnecido. Nada. Seu relógio se fora; seus livros também. Todos aqueles belos livros; por nove deles recebera oitenta e cinco cêntimos. Sentiu-se incomodado e envergonhado de se haver separado de seus livros. Seu melhor terno fora vendido por dois dólares, mas isso compreendia. Ele não ligava absolutamente para isso de roupas. Mas os livros... Aí o caso era diferente. Deixava-o exasperado pensar que não havia respeito pelas pessoas que escrevem.
Colocou a reluzente moeda sobre a mesa, contemplando-a com o prazer de um avarento. Quão lindamente ela sorri ― disse. Sem que as lesse passou os olhos sobre as palavras E Pluribus Unun Um Cêntimo ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, e virando-a contemplou Lincoln e as palavras In God We Trust Liberty 1923. “Como é lindo”, pensou.
Começou a ficar sonolento e sentiu um angustiante mal-estar invadir seu sangue, uma impressão de náusea e desintegração. Perturbado, pôs-se de pé ao lado da cama, imaginando que nada lhe restava fazer senão dormir. Já se sentia dando aquelas grandes braçadas através de uma zona fluída do universo, nadando em direção às origens. Caiu de bruços sobre a cama, dizendo: preciso ao menos dar a moeda a alguma criança. Qualquer criança pode comprar um número sem fim de coisas com um pêni.
Então, rapidamente, elegantemente, com a graça do rapaz do trapézio suspenso, afastou-se de seu próprio corpo. Durante um minuto que lhe pareceu sem fim, ele foi todas as coisas ao mesmo tempo: pássaro, peixe, roedor, réptil, homem. Um mar de gravura ondulava diante dele, escuro e sem fim. A cidade ardia. Multidões aglomeradas revoltavam-se. O mundo se afastava girando, e vendo que se afastava também, voltou sua face perdida para o céu vazio e tornou-se sem sonhos, sem vida, perfeito.

Contos norte-americanos: os clássicos. Org. Vinicius de Moraes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p.498-503. * Nota do tradutor: “The daring young man on the flying trapeze.” Famosa canção popular americana.

millôr fernandes: fábulas fabulosas III

OS GASTOS DISPENSÁVEIS

Estava o homem dentro da mata, cortando a sua arvorezinha, quando ouviu o grito de socorro: “Au secours! Souvez-moi!” Imediatamente, com aquela humanidade de que todos somos feitos, pôs-se a correr. Evidentemente, com aquela humanidade de que todos somos feitos, na direção contrária ao grito do socorro. Mas, por isso ou por aquilo, foi dar exatamente no local de onde partiam os gritos de socorro. Numa pequena clareira se lhe deparou então um quadro horrível: um homem, ou melhor, um camponês, lutando braço a braço com uma fera. Sentada numa pedra, com um rifle na mão, uma mulher, aparentemente mulher do camponês, contemplava a luta, pitando o seu pito. Sem saber como agir o homem avançou para os dois que lutavam, logo recuou, logo tentou avançar de novo, recuou de novo e, sem ter o que fazer, atarantado, voltou-se para a mulher e berrou: “Que faz você aí, mulher dos infernos? Por que fica assim, sem fazer nada? Por que não atira? Vamos, atire!” E a mulher, pitando seu pito, respondeu então: “Calma. Calma, homem! Pode ser que a fera me economize uma bala.”

MORAL: Os nossos pontos de vista não são necessariamente os alheios.

 Millôr Fernandes. Fábulas fabulosas. 15.ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1999, p.41-42.

millôr fernandes: fábulas fabulosas II

HIERARQUIA

Diz que um leão enorme ia andando chateado, não muito rei dos animais, porque tinha acabado de brigar com a mulher e esta lhe dissera poucas e boas. Ainda com as palavras da mulher o aborrecendo o leão subitamente se defrontou com um pequeno rato, o ratinho mais menos que ele já tinha visto. Pisou-lhe a cauda e, enquanto o rato forçava inutilmente pra escapar, o leão gritou: "Miserável criatura, estúpida, ínfima, vil, torpe: não conheço na criação nada mais insignificante e nojento. Vou te deixar com vida apenas para que você possa sofrer toda a humilhação do que lhe disse, você, desgraçado, inferior, mesquinho, rato!" E soltou-o. O rato correu o mais que pôde, mas, quando já estava a salvo, gritou pro leão: "Será que Vossa Excelência poderia escrever isso pra mim? Vou me encontrar com uma lesma que eu conheço e quero repetir isso pra ela com as mesmas palavras!"

MORAL: Afinal ninguém é tão inferior assim.
SUBMORAL: Nem tão superior, por falar nisso.

Millôr Fernandes. Fábulas fabulosas. 15.ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1999, p.110.

millôr fernandes: fábulas fabulosas I

A MORTE DA COLIBRI

Morreu a colibri. Morreu rápido, fácil, sem dores ou aflições. Morreu como um passarinho. Sua única tristeza, ao partir, parecia ser a certeza de que, como todos os colibris, o esposo morreria assim que ela abandonasse o mundo. Pois é sabido que um colibri não pode viver sem a sua companheira. Jamais houve um colibri que conseguisse resistir à morte da fêmea, eis a suprema grandeza de um amor. Mas como a colibri sabia disso, isso também sabia o dono do colibri viúvo. E, assim que a colibri morreu, o esperto dono, rapidamente, colocou diante do colibri um espelho perfeitamente polido para que a avezinha não sentisse a falta da companheira. E como tal se buscava, tal se deu. O colibri, que era míope ou narcisista, vendo-se refletido no espelho, considerou duplicada a sua vida e, assim, continuou vivendo, contrariando a lenda e a ornitologia. Mas lá veio o dia fatal em que um moleque atirou uma pedra na gaiola, tentando acertar o colibri. Não acertou no colibri mas acertou no espelho. E logo, num minuto, olhando em volta, atônito, apalermado, o colibri entrou em pânico, em agonia, e sucumbiu. O médico chegou apenas a tempo de constatar a morte e declarar a causa: morreu de espelho partido.

MORAL: Ninguém pode viver sem o reflexo da própria imagem.


Millôr Fernandes. Fábulas fabulosas. 15.ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1999, p.27-28.

Álvaro de Campos

Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas ―
As de jogar ou as de Tarot ―
Podem revelar qualquer coisa.

Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.

Sim, não sei
Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias,
Cuja autenticidade ninguém me garante,
Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cómodo,
Acreditar em qualquer outro sol ―
Que ilumine até de noite, ―
Qualquer profundidade luminosa das coisas
De que não percebo nada...

Por enquanto...
(Vamos devagar)
Por enquanto
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro,
Seguro com a mão ―
O corrimão que não me pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... Ascendo...
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.484-485.