Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 7 de julho de 2012

relendo grande sertão: veredas (XXV): "o mundo à revelia"

―“Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver...”
―“...Vejo um homem valente, preso...” ― aí o que disse Joca Ramiro, disse com consideração.
―“Isso. Certo. Se estou preso... é outra coisa...”
―“O que, mano velho?”
―“...É, é o mundo à revelia!...” ― isso foi o fecho do que Zé Bebelo falou. E todos que ouviram deram risadas.
Assim isso. Toleimas todas? Não por não. Também o que eu não entendia possível era Zé Bebelo preso. Ele não era criatura que se prende, pessoa coisa de se haver às mãos. Azouge vapor...

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.271.

Vale do Jucá: Siba Veloso (CD Metá Metá, de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Manuel Bandeira

A ESTRELA

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.174.

qual a diferença entre arte e publicidade? "o suspiro de uma conclusão"

Um trecho aleatório de A descoberta do mundo: “Não era mais que um impulso. Para ser mais precisa, era impulso apenas, e não um impulso. Não se pode dizer que este impulso mantinha a mulher porque manter lembraria um estado e não se poderia falar em estado quando o impulso o que fazia era continuamente levá-la. É claro que, por hábito de chegar, ela fazia com que o impulso a levasse a alguma parte ou a algum ato. O que dava o ligeiríssimo desconforto de uma traição à natureza intransitiva do impulso. No entanto, não se pode nem de longe falar em gratuidade do impulso, apenas por se ter falado de uma coisa intransitiva. Com o hábito de ‘comprar e vender’, atos que dão o suspiro de uma conclusão, terminamos pensando que aquilo que não se conclui, não se finda, fica em fio solto, fica interrompido. Quando, na verdade, o impulso ia sempre.”

A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.246-247, excerto de crônica publicada em 29 de novembro de 1969, “Da natureza de um impulso ou entre os números um ou computador eletrônico”.

PS. A intenção inicial era outra: nem de longe eu imaginava abrir aleatoriamente A descoberta do mundo e encontrar, de imediato, uma densidade tão grande. Esperava apenas o suspiro de uma dissonância.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

cidade ao anoitecer

Hoje, no Centro, já anoitecendo, um homem, batedor de carteira, corria em disparada, quando caiu violentamente no meio da rua e foi dominado por dois policiais, que mediam velocidade com ele em perseguição desatinada. Os transeuntes pareciam extasiados com a cena. Ouvi o baque de seu corpo de encontro ao chão. Enquanto isso, as lojas de roupas femininas estampavam liquidação com preços de três dígitos antes da vírgula. Na troca de turno dia/noite das ruas do Centro, aos poucos foram rareando os frequentadores habituais  exceto nos pontos de happy hour  e começando a ganhar evidência catadores de papel e moradores de rua  criaturas da noite, lembrando o título de uma canção cujo lirismo passa distante desse mundo desencantado.

the scream (animação)

relendo grande sertão: veredas (XXIV)

“Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Eh, bê. Mas, para o escriturado da vida, o julgar não se dispensa; carece? Só que uns peixes tem, que nadam rio-arriba, da barra às cabeceiras. Lei é lei? Lôas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo”.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.285.

deuses e titãs da mitologia grega em grande sertão

Em Grande sertão, na altura do julgamento de Zé Bebelo, todos os importantes chefes jagunços, tanto os reverenciados quanto os odiados por Riobaldo, estão presentes. E então uma outra narrativa se insinua mais forte, o duelo de titãs e deuses da mitologia grega. O nome Hermógenes  criatura que Riobaldo odeia acima do bem e do mal  é um índice contundente dessa aproximação, explorado desde sempre pelos estudiosos da obra de Guimarães Rosa. Mas há outro nome de chefe jagunço igualmente contundente: Titão Passos
O Julgamento, da série "O Diabo nas veredas mortas", de J. Murilo
(clique na imagem para ampliar)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

futebol, crise e cia.

Se uma simples final de Libertadores entre um time brasileiro de prestígio e o rival da Argentina está atraindo tantos holofotes da mídia, em especial da rede hegemônica, imagino que na cobertura da Copa do Mundo não se falará em outra coisa. Mas há outra coisa aí. Os holofotes estão sendo desviados da crise.  A CPI do Cachoeira foi deslocada para os confins do Brasil, a prefeitura de Palmas (Tocantins), enquanto a construtora Delta está sendo investigada por  ligações ilícitas com o governador do Rio de Janeiro, que foi claramente blindado. A rede pública federal de ensino está parada há mais de um mês, e outros setores do país também estão em greve, como a saúde. Os cortes na aposentadoria e a ausência de correção dos vencimentos pela inflação, bem como a ausência de clareza quanto aos planos de carreira, estão entre os motivos da deflagração da paralisação pelos professores públicos federais. Mas é claro que um jogo de futebol interessa muito mais. 

paulo leminski: iceberg ("Sim, inverno, estamos vivos")

segunda-feira, 2 de julho de 2012

negação

Começar um texto  a dizer alguma coisa ―pela negação é o modo de ser mais fiel às formas de representação de um dado saber. Porque a negação é certa. Numa sessão de análise, quantos silêncios rodeando a necessidade de (não) dizer!, o que não deixa de justificar o ritual. Há uma ideia prévia de fala. E, no entanto, o que é dito costuma passar longe. Há diferentes formas de exposição de si que uma pessoa pode (ou não) considerar aceitável. Um dos problemas da psicanálise é este: até que ponto a pessoa suporta a exposição, e se o ritual funciona quando a exposição fica aquém de um limiar qualquer que dispara o mecanismo da troca, ou transferência. Aqui, mediante a palavra escrita, envolta numa aura de anonimato e nulidade, a exposição é menos invasiva, mais contingente.

freud

Existir sem Freud nem aeroplanos. Desde que não inquietem as imagens dos sonhos...

posso sonhar?

Há a vida. E a vida que se vive.