Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Herberto Helder

Aberto por uma bala
de fora para dentro. Como um olhar de Deus,
ou da paisagem,
até à raiz do nervo de que vivo todo.
Aberto, descoberto.
Ou fechado inteiro para sempre.
E ao furo imaginário queimado
reflui o sangue do mundo.
O nó mais duro, o puro nó da carne
― o centro.
Furioso fulcro do espírito.
É aí que penso.
Por onde falo ainda tão depressa
que ressuscito, ardido.

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.349-350.

bullet the blue sky

Milton Nascimento: Morro Velho

Clarice Lispector: cada um é a gafe de si

CRÔNICA SOCIAL

... Perfeito, perfeito, perfeito, o almoço. Poderia ser transportado na íntegra ― mesa, comensais, comida, garçons ― para outra casa, quiçá outro país, como se diz de obra de arte (que não conhece fronteiras). E a consciência de que é de cada um que depende a falta de erro. Reunião é uma reunião em torno de uma gafe que não é cometida? A tensão da perfeição crescendo, a pele do tambor esticando-se. Risco excitante. Para cada um, a gafe que não é cometida. Que gafe, afinal? Eu. Cada um é a própria gafe muda. Que sob o sorriso de sonho atrai, atrai, atrai sádica, estou chegando perto, numa sorridente tortura de pesadelo. Mais um minuto, mais um instante ― e ― e eu acontece. Entre o conhaque e a fumaça, a perfeição esticada cada vez mais tênue. Esporte perigoso, esse.

Clarice Lispector. Para não esquecer: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.66-67.

o que os amigos nos contam... de nós

IDA:
Fernanda, não sei se você recebeu minha mensagem ontem pelo celular. O que ontem tive vontade de te dizer foi o seguinte: é que me sinto privilegiada em poder conviver com você, ter me tornado sua amiga. Nossa, você não tem ideia de como é bom conversar com você, como sua palavra abre uma brecha insuspeita, e que por vezes é um caminho bom de ir seguindo. Aí imaginei que também as pessoas que te rodeiam, sua família, devem sentir algo parecido, no sentido de que sua companhia agrega. Mais não sei dizer.

Vamos nos falando.
Beijo, Mari.

VOLTA:
Obrigada, minha querida.  Recebi, sim, a mensagem do celular.  Ia responder mas foi de noite e alguma coisa me interceptou. E agora esta mensagem, tão bonita.  Eu também fiquei pensando em te dizer coisas. Que achei você bem amadurecida em relação ao seu momento de vida, falando de você com profundidade, como sempre, e também com um nível de distanciamento e tranquilidade bacana.  Adorei aquele nosso papo. Também me sinto privilegiada de ter uma amiga como você, tão exigente com a sinceridade que quer ter consigo própria, tão corajosa pra isso!

Vamos nos falando e, sempre que pudermos, nos vendo, né?
Um beijo grandão,
Fernanda.

Então eu sou sincera comigo mesma? Não me poupo de minhas verdades? Já é um passo.

como os livros de poesia

não precisa marcador  não é necessário precisar a página

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Herberto Helder

Ríspido, zoológico,
olho de constelação vendo o quê na rapina celeste?
― mas o cego buraco negro
é que devora constelações inteiras.

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.500.

isso é muito importante

BOA NOTÍCIA PARA UMA CRIANÇA

Em tudo, em tudo você terá a seu favor o corpo. O corpo está sempre ao lado da gente. É o único que, até o fim, não nos abandona.

Clarice Lispector. Para não esquecer: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.84.

desmemorex (tv pirata): incomodada ficava a sua avó

Vielimir Khlébnikov: vestirei a razão / como geleira branca

Vento ― canção.
De quem? De quê?
Tensão
Da espada por ser esfera.
Gente acalenta o dia do fim
Como flor de estufa.
Nas cordas dos gigantes ― creiam ―
Agora rufa o Oriente.
Talvez um orgulho novo
Nos dê o mago das montanhas
E, guia do povo,
Vestirei a razão
Como geleira branca.

Poesia russa moderna. Trad. Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. São Paulo: Perspectiva, 2001, p.130.

saudades de chico buarque

não resisto...

que país é este?

― As cenas de vandalismo vistas durante essa greve têm a ver com essa falta de qualificação dos policiais? As manifestações foram radicais demais?

― Não vou dizer que o aumento das estatísticas de violência nesse período seja uma fantasia ― muito pelo contrário. Mas o que pode sim ser uma fantasia é a omissão de estatísticas do dia a dia, independentemente da greve. A greve faz com que determinadas informações, que não podem emergir em situações normais, sejam divulgadas. 80, 120 homicídios em uma semana? Isso, num período normal, representaria uma situação de extrema sensibilidade. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Vielimir Khlébnikov

Hoje de novo sigo a senda
Para a vida, o varejo, a venda,
E guio as hostes da poesia
Contra a maré da mercancia.

Poesia russa moderna. Trad. Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. São Paulo: Perspectiva, 2001, p.130.

poesia fora de hora

Indo até a altíssima águia ou sondando as camadas profundamente tranquilas de um rio, a poesia parece querer colocar sob suspensão (e suspeição) as camadas imediatamente aderentes deste mundo. O que faz com que confiemos nela. Se o rio reflete as nuvens, ambos no entanto são feitos da mesma água, como quer Manuel Bandeira. Mas tão diferentes. De um extremo a outro que a poesia sonda, a matéria parece ser a mesma ― mas há uma mudança de substância. O que fazer com o dado imediato brutal do mundo, que a própria linguagem parece querer enxotar? Hoje pensei assim: o mundo de Kafka não admite a poesia  e espero não estar dizendo nenhuma heresia.

Wallace Stevens

Os pensativos... Esses podem ver a águia pairando, a águia
Para quem os Alpes complicados não passam de um só ninho.

The pensive man... He sees that eagle float
For which the intricate Alps are a single nest.

FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.266-267.

Mário Faustino: o reverso do nada

...
Neste momento as sombras
fervilhando no bosque
procuram-se no bosque
como cobras, no bosque,
iguais a morcegos, sugam-se
penetram-se ― no bosque ―
como vermes.
Umas as outras acham-se
como quem acha o vácuo,
no bosque
o reverso do nada
deparam
para logo no bosque
perder: bosque e vazio.
Neste momento, os carros
ressoam sobre o concreto
por entre bosque e rio ―
neste momento o mar
trepida sobre o leito
por entre a praia, e praia ―
Neste momento a sombra
cobre mundo e vazio
neste momento o tempo
suga o vazio, o tempo
procura o tempo, encontra
o tempo, penetra o tempo e perde-se
sombra enrolada a sombra,
nó de víboras, sombra,
um só caos, busca e encontro
e perda e tudo: sombras.
...

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.118-119.

sonho?

O sonho até já fazia algum sentido, quer dizer, aquela falta de sentido usual dos sonhos, enquanto tentava ordená-lo pela manhã, fazê-lo caber na dimensão do dia... até revisitar a imagem do post anterior, e que por isso foi postada. Vi-a ontem, e uma de suas cenas (ou situações) compareceu no final do aloprado sonho, imediatamente lembrado, ganhando por assim dizer uma pátina ilustrada. Felizmente hoje tenho análise.

no divã...

sem disfarce

“Entrou numa sorveteria e comprou um sorvete. Passaram duas mocinhas de uniforme de colégio, conversando e rindo alto. Olharam para Tuda com a animosidade* que as pessoas sentem umas pelas outras e que os jovens ainda não disfarçam. Tuda estava sozinha e foi vencida. Pensou, sem ligar o pensamento ao olhar das meninas: que tenho a ver com elas? Quem esteve junto à doutora, falando de coisas misteriosas e profundas? E se elas soubessem da aventura nem entenderiam...

“Gertrudes pede um conselho”. Os melhores contos de Clarice Lispector. 3.ed. São Paulo: Global, 2001, p.197-198.


* má vontade constante ― segundo uma das acepções. 

essa imagem é tão ela própria que qualquer coisa que se diga sobra

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Walt Whitman

Ser, em qualquer forma, o que vem a ser ?
Se nada fosse mais evoluído que o marisco em sua concha calosa já seria muito.

WHITMAN, Walt. Folhas de relva. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.83. 

terteão

Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza por haver gerado um maluco e deixou-me. Respirei, meti-me na soletração, guiado por Mocinha. (...) Gaguejei sílabas um mês. No fim da carta elas se reuniam, formavam sentenças graves, arrevesadas, que me atordoavam. Certamente  meu  pai usara  um horrível embuste naquela  maldita manhã,  inculcando-me a excelência do papel impresso. Eu não  lia direito, mas, arfando penosamente,  conseguia mastigar  os conceitos sisudos: “A preguiça é a chave da pobreza ― Quem não ouve conselhos raras vezes acerta ― Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém.” 
Esse Terteão para mim era um homem, e não pude saber que fazia ele na página final da carta. As outras folhas se desprendiam, restavam-me as linhas em negrita, resumo da ciência anunciada por meu pai.
― Mocinha, quem é Terteão?
Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que Terteão fosse homem. Talvez fosse. “Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém”.
― Mocinha, que quer dizer isso?
Mocinha confessou honestamente que não conhecia Terteão. E eu fiquei triste, remoendo a promessa de meu pai, aguardando novas decepções.

Graciliano Ramos. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1995, p.99

a lua


“Que bem que se via a lua nessas noites de verão. Inclinou-se um pouquito, desinterressada, resignada. A lua. Que bem que se via. A lua alta e amarela a deslizar pelo céu, a coitadita. A deslizar, a deslizar... alta, alta. A lua. Então a grosseria explodiu-lhe em súbito amor: cadela, disse a rir.”
“Devaneio e embriaguez duma rapariga”, Clarice Lispector

Manuel Bandeira

 O RIO

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993,p.203.

falando em praças...

Era num outro tempo, numa outra encarnação... de mim mesma. Acabara de entrar nos vinte e poucos e numa crise sem precedentes, principalmente se se considerar que era fardo demais para quem tinha sido até então uma pessoa simples, na falta de termo melhor, perplexa de repente diante tudo, e com a experiência de apenas duas décadas de vida para se movimentar naquele novo mundo, que então era eu. Foi então que, num domingo de manhã (mas pode ter sido num sábado à tarde), eu me dirigi a uma das praças da cidade e me sentei num banco, para nada, ou melhor, como uma variante da problemática básica, então ainda com tintas suaves dos restos de inocência: mas que fiz eu? que fiz eu? Foi assim que ganhei uma oportunidade única: ouvir a confissão de um crime, ou quase isso. Um rapaz se aproximou e começou a conversar comigo, a falar aleatoriamente. Hoje acharia isso espantoso, nessa vida corrida e desconfiada. Eu era quase feliz na minha perplexidade de criatura diante do incompreensível. Era magra, mais do que hoje, e quase não aparecia como corpo. Talvez daí a sensação de leveza, e a confiança do rapaz, que falava, mais do que eu, que não me lembro mais o que falei. Lembro do que ouvi. No relato que me fez ― que precisava fazer, agora eu sei, a alguém anônimo e desconhecido, com quem ele nunca mais corresse o risco de encontrar ―, ele começou por dizer que era dono de uma oficina de automóveis e que tinha havido um acidente com morte, não sei se apenas uma. Acidente causado por uma falha no serviço que ele (ou sua equipe) fizera no carro ― isso ele sabia, hoje eu sei que ele sabia. Mas então, por estar tão mergulhada em minha própria perplexidade, acho que, porque mal ouvia o rapaz, tornava-me a escuta de que ele precisava. Pois ele não havia assumido a responsabilidade sobre o acidente. Mas falava dele ali comigo, falava de si, daquela culpa ― daquele crime? E então eu descobri que eu prestava para alguma coisa: para ouvir sem julgar. O rapaz terminou sua palestra, despediu-se de mim e foi embora, na certa desejoso de nunca mais tornar a me ver, pois havia alguém no mundo, uma desconhecida, a quem ele confessara uma grande culpa. Para não constrangê-lo, eu apenas sorri e disse tchau. E tempos depois me mudei daquela cidade, que é minha por acidente de percurso. Não antes de ter lido isso: “Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente.” (“Perdoando Deus”, Clarice Lispector). 

face

Uma amiga definiu o facebook: é a praça de hoje. 
imagem obtida aqui

a vida secreta da... vida

No mais elementar da natureza, beleza e indícios de uma complexidade no mínino subestimada, quando não até então insuspeitada, afinal, plantas são mudas. No topo da natureza... a guerra nossa de cada dia. Destila-se o veneno de sempre, mediante sofisticados sinais e emissões de fumaça forjados no mais sofisticado sistema de linguagem conhecido. E continuamos a afugentar com círculos de substâncias adstringentes.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Hölderlin (em tradução de Manuel Bandeira)

Maduras estão, em fogo emergidas, cozidas
E na terra provadas as frutas. É força
Que tudo penetrem, à guisa de cobras,
Profeticamente e sonhando nas
Colinas do céu. Muita coisa
Devemos guardar como um fardo
De lenha nos ombros. Entanto
São maus os caminhos. Indóceis

Cavalos, trabalham
Elementos e as velhas
Leis da terra. Ah, e sempre ao
Sem peias vai uma saudade. Contudo
Muito há que guardar. É mister a constância
Mas nós não queremos ver nem
Para diante e nem para trás! só queremos
É que nos embalem da mesma maneira
Que o lago num bote.

Manuel Bandeira. Alguns poemas traduzidos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, p.65.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

porque aves são sempre lindas

ângelo

Confundi-me agora há pouco, trocando o nome do letrista Nelson Angelo pelo do escritor Ivan Ângelo, de quem li um conto na coletânea Os cem melhores contos brasileiros do século. Mas então já pensava em outra coisa, em como é bonito o nome Ângelo, com ou sem acento, e no meu falecido avô materno, que tinha esse nome.

uma canção lembrada no meio da tarde

Atravessava a ponte Rio-Niterói, sentido Rio, quase final da tarde, e o olhar se fixava, aleatoriamente, nas muitas embarcações paradas na Baía de Guanabara, aparentemente esperando vez no porto, ou outra vez qualquer. Estranho... olhar e não entender. Por que ficam ali parados? Estariam ancorados? Então comecei a divagar quais deles seriam navios e quais barcos, e daí deslizei a memória para os diferentes nomes que recebem as embarcações, essas estruturas capazes de navegar na água: navio, barco, lancha, veleiro, canoa... como aquela da terceira margem do rio, não o de janeiro. Outros rios. Foi assim que uma música muito antiga e poética veio-me à baila na memória. Trata-se de uma canção de Nelson Angelo e Fernando Brant.

Alberto Caeiro

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar —
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o inverno da minha pessoa e da minha vida?
O inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do verão
E o frio da terra no cimo do inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo.

Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”, 49, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 139 (daqui).

Jorge de Lima: Livro de Sonetos

Não procureis qualquer nexo naquilo
que os poetas pronunciam acordados,
pois eles vivem no âmbito intranquilo
em que se agitam seres ignorados.

No meio de desertos habitados
só eles é que entendem o sigilo
dos que no mundo vivem sem asilo
parecendo com eles renegados.

Eles possuem, porém, milhões de antenas
distribuídas por todos os seus poros
aonde aportam do mundo suas penas.

São os que gritam quando tudo cala,
são os que vibram de si estranhos coros
para a fala de Deus que é sua fala.

Jorge de Lima. Poemas negros. Rio de Janeiro: Record, 2007, p.149.

watchmen intro: the times they are a-changin

encontrei no vimeo, canção completa; no youtube a incorporação foi desativada

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Walt Whitman

E o que é o homem afinal ? O que sou eu ? e o que é você ?
Tudo o que assinalo como meu você tem que compensar com o que é seu,
Ou estaria perdendo seu tempo me ouvindo.

WHITMAN, Walt. Folhas de relva. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.69. 

watchmen - o filme

Watchmen é um filme fabuloso, que pede do espectador uma segunda ou quem sabe terceira visada, sobretudo pelos diálogos. Perfeição técnica, suspense, vilões charmosos, diálogos requintados, trilha sonora empolgante ― elementos arrolados casualmente numa primeira impressão. Comprei o DVD um tanto tendenciosamente, pela magnífica abertura ao som de “The Times, They Are A-Changin”. Bob Dylan comparece mais duas vezes, em “All Along the Watchtower, por Jimi Hendrix, e “Desolation Row”, numa versão alucinada da banda My Chemical Romance. Por enquanto é isso, trilha sonora. Um detalhe: há uma paródia de cena clássica do filme Apocalypse Now, ao som de "Ride of the Valkyries".

música com sonoridade: mil tons de milton

inserções em circuitos ideológicos: projeto cédula (cildo meireles)

INSERÇÕES EM CIRCUITOS IDEOLÓGICOS (1970)*
Cildo Meireles
    Eu me lembro que em 1968-69-70, porque se sabia que estávamos começando a tangenciar o que interessava, já não trabalhávamos com metáforas (representações) de situações. Estava-se trabalhando com a situação mesmo, real. Por outro lado, o tipo de trabalho que se estava fazendo, tendia a se volatilizar e esta já era outra característica. Era um trabalho que, na verdade, não tinha mais aquele culto do objeto, puramente; as coisas existiam em função do que poderiam provocar no corpo social. Era exatamente o que se tinha na cabeça: trabalhar com a ideia de público. Naquele período, jogava-se tudo no trabalho e este visava atingir um número grande e indefinido de pessoas: essa coisa chamada público. Hoje em dia, corre-se inclusive o risco de fazer um trabalho sabendo exata­mente quem é que vai se interessar por ele. A noção de público, que é uma noção ampla e generosa, foi substituída (por deformação) pela noção de consumidor, que é aquela pequena fatia de público que teria o poder aquisitivo.
    Na verdade, as "Inserções em circuitos ideológicos" nasceram da necessidade de se criar um sistema de circulação, de troca de informações, que não dependesse de nenhum tipo de controle centralizado. Uma língua. Um sis­tema que, na essência, se opusesse ao da imprensa, do rádio, da televisão, exemplos típicos de media que atingem de fato um público imenso, mas em cujo sistema de circulação está sempre presente um determinado controle e um determinado afunilamento da inserção. Quer dizer, neles a 'inserção' é exercida por uma elite que tem acesso aos níveis em que o sistema se desenvolve: sofisticação tecnológica envolvendo alta soma de dinheiro e/ou poder.
    As "Inserções em circuitos ideológicos" nasceram com dois projetos: o projeto "Coca-Cola" e o projeto "Cédula". O trabalho começou com um texto que fiz em abril de 1970 e parte exatamente disso: 1) existem na sociedade deter­minados mecanismos de circulação (circuitos): 2) esses circuitos veiculam evidentemente a ideologia do produtor, mas ao mesmo tempo são passíveis de receber inserções na sua circulação: 3) e isso ocorre sempre que as pessoas as deflagrem.
    As "Inserções em circuitos ideológicos" surgiram também da constatação de duas práticas mais ou menos usuais. As correntes de santos (aquelas cartas que você recebe, copia e envia para as pessoas) e as garrafas de náufragos jogadas ao mar. Essas práticas trazem implícita a noção do meio circulante, noção que se cristaliza mais nitidamente no caso do papel-moeda e, metaforicamente, nas embalagens de retorno (as garrafas de bebidas, por exemplo).
    Do meu ponto de vista, o importante no projeto foi a introdução do conceito de 'circuito', isolando-o e fixando-o. E esse conceito que determina a carga dialética do trabalho, uma vez que parasitaria todo e qualquer esforço contido na essência mesma do processo (media). Quer dizer, a embalagem veicula sempre uma ideologia. Então, a ideia inicial era a constatação de 'circuito' (natural), que existe e sobre o qual é possível fazer um trabalho real. Na verdade, o caráter da 'inserção' nesse circuito seria sempre o de contra-informação.
    Capitalizaria a sofisticação do meio em proveito de uma ampliação da igualdade de acesso à comunicação de massa, vale dizer, em proveito de uma neutralização da propaganda ideológica original (da indústria ou do Estado), que é sempre anestesiante. É uma oposição entre consciência (inserção) e anestesia (circuito), considerando-se consciência como função de arte e anestesia como função de indústria. Porque todo circuito industrial normal­mente é amplo, mas é alienante (ado).
    Por pressuposto, a arte teria uma função social e teria mais meios de ser densamente consciente. Maior densidade de consciência em relação à sociedade da qual emerge. E o papel da indústria é exatamente o contrário disso. Tal qual existe hoje, a força da indústria se baseia no maior coeficiente possível de alienação. Então as anotações sobre o projeto "Inserções em circuitos ideológicos" opunham justamente a arte à indústria.
    (...)
    Porque tem uma transação em artes plásticas que se baseia ou na mística da obra em si (embalagem: tela, etc.) ou na mística do autor (Salvador Dali ou Andy Warhol, por oposição, são exemplos vivos e atuais): ou parte para a mística do mercado (o jogo da propriedade: valor de troca). A rigor, nenhum desses aspectos deveria ser prioritário. No momento em que há distinções nessa ou naquela direção, surge a distinção de quem pode fazer arte e quem não pode fazer. Tal como eu tinha pensado, as "Inserções" só existiriam na medida em que não fossem mais a obra de uma pessoa. Quer dizer, o trabalho só existe na medida em que outras pessoas o pratiquem. Uma outra coisa que se coloca, então, é a ideia da necessidade do anonimato. A questão do anonimato envolve por extensão a questão da propriedade. Não se trabalharia mais com o objeto, pois o objeto seria uma prática, uma coisa sobre a qual você não poderia ter nenhum tipo de controle ou propriedade. E tentaria colocar outras coisas: primeiro, atingiria mais gente, na medida em que você não precisaria ir até a informação, pois a informação iria até você; e, em decorrência, haveria condições de 'explodir' a noção de espaço sagrado.
    (...)
    Enquanto o museu, a galeria, a tela, forem um espaço sagrado da representação, tornam-se um triângulo das Bermudas: qualquer coisa, qualquer ideia que você colo­car lá vai ser automaticamente neutralizada. Acho que a gente tentou prioritariamente o compromisso com o público. Não com o comprador (mercado) de arte. Mas com a plateia mesmo. Esse rosto indeterminado, o elemento mais importante dessa estrutura. De trabalhar com essa maravilhosa possibilidade que as artes plásticas oferecem, de criar para cada nova ideia uma nova linguagem para expressá-la. Trabalhar sempre com essa possibilidade de transgressão ao nível do real. Quer dizer, fazer trabalhos que não existam simplesmente no espaço consentido, consagrado, sagrado. Que não aconteçam simplesmente ao nível de uma tela, de uma superfície, de uma representação. Não mais trabalhar com a metáfora da pólvora ― trabalhar com a pólvora mesmo. 

*Extraído do depoimento de CM registrado na pesquisa Ondas do corpo, de Antônio Manuel. Copy-desk e montagem do texto: Eudoro Augusto Macieira. Publicado no Livro "Cildo Meireles"  da FUNARTE. Rio de Janeiro, 1981. AQUI. 

do conto mais hermético de C.L.

“É que há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente não podem ser levados em consideração. Para os que sucumbem e se tornam individuais é que existem as instituições, a caridade, a compreensão que não discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.”
Clarice Lispector, “O ovo e a galinha”.

coincidência?

Sonhei com Fernanda e Fernando. O que faziam eles, um tanto diferentes do que deles conheço, juntos em meu sonho, já que sequer se conhecem? A rigor, não estavam juntos: participavam do mesmo cenário. O que sei é que o desdobramento do sonho me lançava num quase labirinto.

o inominável

A trama dos sonhos, no sentido daquilo que os constitui e não necessariamente algum ou qualquer esboço redutível à linguagem ― pois que são matéria avessa ao discurso ―, sua trama, prosseguindo, às vezes encontra ecos (para falar junto com a ninfa Eco e seu obscuro amante Narciso) na trama da vida, esta mais palpável. Foi assim: encontrava-me a passear os olhos pelo livro de Manuel António Pina (Poesia, saudade da prosa) quando esbarrei nos versos:

Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: “Que fez algum
poeta por este senhor?” E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive de voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
(“A poesia vai”, p.60)

Num primeiro momento achei qualquer coisa de presunçoso e banal, como se a poesia fosse a luz que faltasse ao “senhor míope”, e me esquivei do poema. Mas depois rearranjei, pois o verso anterior mencionava "repartição pública", e o senhor míope atendendo devagar ao balcão tomou a forma de funcionário público, e tudo mudou de cores, para cinza, digamos assim. Lembrei-me de um conto imperdível de Osman Lins, “Noivado” (Nove, novena: narrativas), em que insetos... (vale deixar o suspense), e tantos outros exemplos focalizando funcionários públicos na literatura brasileira. E mais: no excerto do poema, a pergunta incide sobre os poetas... De forma que, pelo desconforto, fui em busca de outro poema com que estrear o livro citado de Manuel António Pina no blog, e postei o que se lê aqui. Então, quando digitava os versos seguintes, “para poder ver o início / da sua queda caótica”, detive-me em espanto de susto, pois naquele momento (era pela manhã, circunstância importante para o que se seguiu) vieram-me de chofre as imagens perturbadoras, para dizer o mínimo, que tinham povoado a parte que chegou até mim dos sonhos da noite anterior, e que de tão fortes e incômodas eu certamente havia censurado. Imagens que me fizeram suspender no ato a digitação do texto e tentar me situar naquele outro universo, no que ele trazia de medo e ameaça. E de perversidade também, não sei de quê ou de quem, mas era um sonho de desamor, para o caso de resumi-lo numa palavra. Nele deslizavam imagens minhas misturadas a muitas cenas e diálogos recentes, mas o que nele se condensava, num triângulo conhecido e misterioso, ainda vai me ocupar por um bom tempo.