Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

canção do exílio

O exílio da infância está na origem de todos os outros; é quando se aprendeu a língua mãe, pátria que se confunde com o rincão em que se nasceu. Se por acaso este lugar se chamar Espírito Santo, o exilado pode sentir-se íntimo de qualquer coisa que assume o aspecto de uma distância impossível: “Quando tudo passou a ser infinito e nada terra”.  O Espírito Santo continua ali, no mapa ― “Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa” ―, ao alcance de um telefonema, de uma passagem de ônibus, mas o mapa dos afetos confundiu as possibilidades, e viver tornou-se um verbo imperativo. A infância, tempo primevo da estreia num palco exclusivo, quando ainda não se sabe o que é palco ou improviso ou personagem, e está-se ali, brincando de aprendizagem, sob os mais diferentes disfarces, para mais tarde, embora isso dificilmente pudesse ser pressentido, desejar reencontrar no espelho a face, escondida por muitos e por vezes difusos papeis, da infância. Eu não sabia nada da infância, até percebê-la acabando... Ainda e sempre, o poema que abre o filme Asas do Desejo, "Song of Childhood": “When the child was a child, / it did not know that it was a child.” 


Versos citados de Vinicius de Moraes, respectivamente “Pátria Minha” e “Mensagem a Rubem Braga”. Vinicius de Moraes. Nova antologia poética. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

"Quando a criança era criança / não sabia que era criança" (Peter Handke)


“Quando a criança era criança, / andava balançando os braços, / queria que o riacho fosse um rio, / que o rio fosse uma torrente / e que essa poça fosse o mar. / Quando a criança era criança, / não sabia que era criança, / tudo lhe parecia ter alma, / e todas as almas eram uma.” (AQUI)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

De volta ao quarto 666 (entrevista com Wim Wenders)


A proposta reinveste sobre o que Wim Wenders fez em Quarto 666, tomando-o como entrevistado sobre o futuro do cinema. Mas se então o debate girava em torno do cinema e a emergência de novas mídias, como a televisão e o VHS, a possibilidade de assistir o filme em casa, o que conferia uma tônica de pessimismo às falas dos entrevistadoss, conforme o próprio Wenders pontua, sua posição, cerca de 20 anos depois, é otimista em relação ao cinema, otimista demais talvez, e o alvo que ele tem em mira é bastante problemático: "...as pessoas precisam do cinema, precisam desse instrumento, mais do que qualquer coisa. Todos nós sabemos que a 'palavra', a 'palavra falada' ou a 'palavra escrita', pertencem à cultura do passado. E que o futuro de nossa cultura é a 'imagem'. E este futuro recém começou." Há muito que se anuncia o fim do conhecimento centrado na palavra. A conclusão da entrevista é decepcionante, vinda de um cineasta como Wim Wenders, cujo brilhantismo da obra dispensaria esse triste papel de advogar em causa própria. 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Alice nas Cidades (Wim Wenders, 1974)

A televisão resolve reprisar o filme de sábado, e assisto enquanto as pestanas não me vencem. Está lá o estilo do cineasta alemão: seres misteriosos, silenciosos, deslocados, mas que não prescindem de humor e certo charme em sua itinerância. Como se trata de um road movie, isso tudo fica bastante marcado. Duas falas, a primeira quando o protagonista ainda está sozinho, a segunda já na companhia da menina Alice, que o acaso lhe trouxe. O jornalista alemão está rodando os Estados Unidos com o fito de fazer uma reportagem que não consegue escrever, e fica no plano do registro das imagens. Não suporta os canais de televisão, as músicas que tocam nas estações de rádio. No carro, ao mudar de estação, diz algo assim: É melhor falar sozinho, se bem que isso seja mais ouvir que falar. Já na companhia de Alice, e na Europa, num daqueles diálogos nonsense que acontecem entre crianças e adultos, numa sintonia fina ela lhe pergunta que tipo de medo ele tem. Ele responde com outra pergunta: existem tipos de medos? À afirmação dela, ele diz: Tenho medo do medo. Segue aqui um comentário inspirado, e no vídeo uma apresentação pelo telecine cult.

domingo, 14 de novembro de 2010

Nick Cave & the Bad Seeds - The Carny


The Carny

And no-one saw the carny go
And the weeks flew by
Until they moved on the show
Leaving his caravan behind
It was parked out on the south east ridge
And as the company crossed the bridge
With the first rain filling the bone-dry river bed
It shone, just so, upon the edge 

Dog-boy, atlas, half-man, the geeks, the hired hands
There was not one among them that did not cas an eye behind
In the hope that the carny would return to his own kind 

And the carny had a horse, all skin and bone
A bow-backed nag, that he named "Sorrow"
How it is buried in a shallow grave
In the then parched meadow 

And the dwarves were given the task of digging the ditch
And laying the nag's carcass in the ground
And boss Bellini, waving his smoking pistol around
saying "The nag is dead meat"
"We caint afford to carry dead weight"
The whole company standing about
Not making a sound
And turning to dwarves perched on the enclosure gate
The boss says "Bury this lump of crow bait" 

And thean the rain came
Everybody running for their wagons
Tying all the canvas flaps down
The mangy cats crowling in ther cages
The bird-girl flapping and squawking around
The whole valley reeking of wet beast
Wet beast and rotten hay
Freak and brute creation
Packed up and on their way 

The three dwarves peering from their wagon's hind
Moses says to Noah "We shoulda dugga deepa one"
Their grizzled faces like dying moons
Still dirty from the digging done 

And as the company passed from the valley
Into a higher ground
The rain beat on the ridge and on the meadow
And on the mound 

Until nothing was left, nothing at all
Except the body of Sorrow
That rose in time
To float upon the surface of the eaten soil 

And a murder of crows did circle round
First one, then the others flapping blackly down 

And the carny's van still sat upon the edge
Tilting slowly as the firm ground turned to sludge
And the rain it hammered down 

And no-one saw the carny go
I say it's funny how things go 

Fonte: site oficial de Nick Cave.

A tradução mais aproximada para carny seria carnavalesco. Um amigo confirma: O que eles chamam de carnaval é também aquelas feiras e exposições ambulantes, com circos e parques de diversão. Parece o sentido que a palavra tem na música.” Parte dessa música toca em Asas do Desejo, numa performance ao vivo do Nick Cave e The Bad Seeds, e ela figura como espécie de música-tema, no menu. Há de se considerar o espaço dado no filme ao circo tradicional, itinerante e via de regra carente de recursos ― um modelo em extinção. A música em si, nesta performance, é desesperada. E linda.

sábado, 9 de outubro de 2010

asas do desejo

Não é comentário, não é resenha, não é nada: é só uma fala atravessada por um desejo. Começo a assistir "Asas do Desejo", mas o filme tem uma densidade que não combina com sono. Mas é fatal começar a ver e entender tudo: "Quando a criança era criança,/ não sabia que era criança." O que dizer depois disso? Adultos maltratam-se inutilmente. Que anjos maravilhosos são aqueles, que nunca vi? Talvez, quando assistir ao filme inteiro, até apague este post, mas é que a parte inicial me trouxe uma saudade imensa de alguma coisa que nunca vi, ou vi e não fui capaz de reconhecer. Pois o desejo imediato suscitado pelo filme em mim foi acreditar que exista alguma coisa parecida com anjo que volta e meia passa perto de mim e me protege.