Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 21 de outubro de 2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Paulo Leminski - [ai daqueles]

       ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
       aqueles que deixaram
que a mágoa nova
       virasse a chaga antiga

       ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
       e que a pedra só não voa
porque não quer
        não porque não tem asa


Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 215. [distraídos venceremos, 1987]

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Mário de Andrade - Quarenta Anos

A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar… Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado… Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!… Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.


Poesias completas, vol.1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, p. 437-438. [1933]

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

degradação

Tenho um perfil mais ou menos consolidado na profissão docente, uma espécie de respeito associado ao bom convívio com os/as estudantes e os/as colegas de profissão. Pois bem. Ontem uma estudante da 3ª série do ensino médio conseguiu se superar. Venho percebendo o descaso de parte de uma turma de 3ª série com a disciplina de Português e Literatura, no retorno das aulas após o recesso do meio do ano. Ontem decidi não esperar mais e coloquei a roda para girar. Uma estudante continuou no pátio, depois de me ver subindo para a turma, enquanto alguns outros estavam simplesmente à deriva, numa postura que vem se repetindo nas últimas semanas. Quando retornei da sala para mandar um grupo de atrasados à bedelaria, a estudante lançou mão de alguns argumentos curiosos. Um deles foi sintomático da crise que atravessa o Brasil: Mas minha mochila está na sala, professora. Numa semana em que discuti o poema “O cacto” de Manuel Bandeira, paralelamente à presença dessa estranha forma de vida na pintura modernista brasileira, uma estudante me diz que tem coisas mais importantes a fazer do que assistir à aula, e pede que eu seja compreensiva, pois, afinal, sua mochila está na sala.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

também escrevo versos (quem não o faz, afinal?)

entre
o ar
e
o mar
há uma linha
que se vê ao longe,
uma letra que se dobra,
e um azul
que se quer
cor do horizonte

terça-feira, 27 de junho de 2017

Brasil: o que dizer?

Antes estava acompanhando o noticiário, e sofrendo muito. Agora compreendi que o que se passa no Brasil é um filme de terror, e saí da sessão.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Cecília Meireles - Neste longo exercício de alma...

Ciência, amor, sabedoria,
— tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)

Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
vence-se o abismo:
— cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.

Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.

Cecília Meireles. Antologia poética. 3.ed. São Paulo: Global, 2013, p.309.

sábado, 15 de abril de 2017

até que um dia

Viver é estar cercado por pessoas que podem morrer a qualquer momento, até que uma dia chega o momento em que tudo deixará de fazer sentido.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

incipiente

Eu escreveria um livro com o título: “A Incrível Capacidade das Mulheres pra Fazer Besteira”. Subtítulo: “quando o assunto é homem”. Meu Deus, que lástima!