Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quarta-feira, 23 de março de 2011

versão digital da minha tese de doutorado

Esta é a notícia alegre do dia, pelo menos do meu dia, e alegre para mim. A UFMG disponibilizou a versão digital, em PDF, de minha tese de doutorado (aqui). Gostaria de sinalizar dois aspectos técnicos, formais. O editor de textos não oferece recursos, pelo menos a uma leiga em informática como eu, para numerar as páginas conforme pedem as normas técnicas: embora a numeração conte desde o início, páginas exibindo números só poderiam aparecer a partir da segunda página do texto propriamente dito. Ou seja, a numeração das páginas iniciais não é a mesma da versão impressa, e há um segundo fator em cena. A ficha catalográfica, na versão impressa, aparece no verso da folha de rosto, enquanto na versão digital não consta a folha de aprovação, já que, como documento expedido pelo programa de pós-graduação, teria que ser escaneada para figurar no texto, alterando ainda mais a numeração (a folha de aprovação não conta como página numerada), e também porque a entrega da cópia digital, em CD, era um dos pré-requisitos para liberar a documentação, e eu precisava agilizá-la. Uma burocracia que exige paciência.

Dito isso, cumpre sinalizar que a versão definitiva sofreu pequenas alterações em virtude de ponderações da banca, e como essas alterações tiveram que ser feitas com rapidez para a liberação da documentação, pode ter escapado algum truncamento sintático, ao passo que na versão que seguiu para a banca, a que foi examinada e arguida, revisei o texto para eliminar problemas linguísticos/gramaticais e de digitação, e apenas um me foi apontado por um dos arguidores. Nem tão cedo pretendo reler o texto, preciso de um tempo para me refazer dos excessos que cometi para finalizá-lo. Então, a eventuais leitores, peço de antemão desculpas por problemas gramaticais e de normalização que forem encontrados. Peço a gentileza de não denunciá-los para mim: não me apraz rever nada no momento, além de me desagradar saber que deixei passar deslizes no uso da língua. Como o marido traído da história, prefiro não saber. É uma posição mais confortável no momento.

Mas, no que concerne a questões teórico-críticas, terei o maior prazer em discutir o que quer que seja. É para mim motivo de satisfação poder debater um trabalho que, afinal, me trouxe tanta alegria. E é essa alegria que estou partilhando ao divulgar, neste espaço, meu trabalho sobre a crítica literária de Sérgio Buarque de Holanda.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Manuel Bandeira: uma tradução de Joaquim Manuel de Macedo

“A outra ‘tradução’ era do ‘Adeus de Teresa’ [trata-se da recriação de um poema de Castro Alves]. Num comentário, de humour muito sofisticado, dava o meu poema ‘Teresa’ como ‘tradução tão afastada do original, que a espíritos menos avisados pareceria criação’. Na semana seguinte voltei ‘traduzindo’ estes versos do autor da Moreninha:

Mulher, irmã, escuta-me: não ames.
Quando a teus pés um homem terno e curvo
Jurar amor, chorar pranto de sangue,
Não creias, não, mulher: ele te engana!
As lágrimas são galas de mentira
E o juramento manto da perfídia.

Bem, dessa vez eu queria mesmo brincar falando cafajeste, e a coisa foi apresentada como ‘tradução pra caçanje’:

Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA

Piadas... diz Bandeira, piadas.

BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. [1954] Poesia completa e prosa. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009, p.596-597.

domingo, 24 de outubro de 2010

Charles Baudelaire

Tratando especificamente de Charles Baudelaire, Antonio Candido situa o espectro da influência que sua poesia teve entre os poetas brasileiros: “Já se tem escrito que o momento culminante da influência de Baudelaire no Brasil foi o Simbolismo, no decênio de 1890 e primeiros anos do seguinte. Momento fin-de-siècle, rosa-cruz e floral, que viu nele sobretudo a arte-pela-arte, o visionário sensível ao mistério das correspondências e o filósofo, autor de poemas sentenciosos marcados pelo desencanto. Logo a seguir os últimos poetas de cunho simbolista [...] o aproximaram perigosamente das elegâncias decadentes de Wilde e D’Annunzio. Os parnasianos, que vinham dos anos de 1880, também o admiravam, mas nunca o imitaram nem cultivaram tanto, salvo alguns secundários como Venceslau de Queirós e sobretudo Batista Cepelos. E caberia a um heterodoxo, Augusto dos Anjos, levar ao extremo certas componentes de amargura, senso de decomposição e castigo da carne, que se consideravam originárias dele, coadas através de Antero de Quental e Cruz e Souza. Depois do Modernismo não se pode mais falar em influência, mas apenas da presença normal de um grande poeta na sensibilidade dos escritores e leitores.”

CANDIDO, Antonio. Os primeiros baudelairianos. In: ___. A educação pela noite. 5. ed. revista pelo autor. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006, p. 27.

sábado, 18 de setembro de 2010

Sérgio Buarque de Holanda e Vinicius de Moraes: episódios de uma amizade

Retrato de Vinicius

(entrevista a Sérgio Buarque de Holanda por Caio Túlio Costa)


Conheci o Vinicius, mesmo, fora de qualquer ligação intelectual literária; bom, ele já tinha publicado livros, eu não tinha publicado nenhum, embora fosse mais velho que ele. Tenho o segundo livro dele com uma dedicatória de 1935, e não era de um sujeito conhecido na hora não, era de uma pessoa que já conhecia antes. Pelo jeito da dedicatória se vê que não era novidade. De modo que pelo menos há 45 anos o conhecia. Eu ia muito ao Rio, durante algum tempo morei no Rio e ele vinha muito a São Paulo; no estrangeiro também nos encontramos várias vezes. Encontrei com ele na Itália, ele vinha em casa todas as noites tocar violão. Tenho a impressão que o Chico daí que pegou a coisa da música, ele ia escutar o Vinicius, e escondido, na hora em devia estar dormindo. Tinha oito anos (o Chico foi para a Itália com oito anos e voltamos quando ele tinha dez anos), ficava muito aceso, o Vinicius pensava que ele ia dormir, mas ele vinha escondido e mais de uma vez eu vi o Chico escondido para ouvir as músicas do Vinicius.
Vinicius foi a única pessoa que batizou uma das filhas do Chico, a mais velha, Silvia; que nasceu quando ele estava mais ou menos exilado na Itália. Ele não podia voltar para cá, foi em 1969. Lá nasceu a Silvia, tenho até uma gravação feita pelo poeta Ungaretti, que foi à casa de saúde:
 Sérgio, tu nipottina é bella!...
Faz um bruta elogio. Foi o Vinicius quem me trouxe a gravação do Ungaretti, eles estavam juntos lá.
A poesia dele é uma poesia coloquial... Ainda outro dia ouvi o Carlos Drummond falando. A gente não pode recitar a poesia dele assim com um tom poético, tem de ser uma coisa quase coloquial. Mas ele não começou assim. Na faculdade de direito, no Rio, ele tinha uma turma de colegas que depois ficaram importantes e numa posição totalmente diferente da dele, eram o Santiago Dantas que depois foi integralista; o Américo Jacobina Lacombe, o Octavio de Faria (este fez um livro sobre um livro de poemas de Vinicius); o Hélio Viana, todos do grupo chamado Caju. Mas ele logo se emancipou disto e foi para o lado oposto, até. A partir daí ele entrou para o lado da boemia. Começou a não ligar para a direita, era contrário, e conseguiu uma popularidade que raras pessoas hoje possuem. Ele tinha aquele jeito de tratar todo mundo com um certo charme pessoal.
Eu me lembro quando morávamos na Itália, tinha um amigo nosso que era Cônsul Geral em Roma, a mãe dele estava lá. Então ele deu uma reunião para vários cineastas. Tinha muitos, inclusive estudantes de cinema como o Rudá, filho do Oswald de Andrade. Convidaram o grupo para ir lá à noite. Para jantar convidaram-nos o Vinicius, minha mulher e eu porque a mesa era pequena para todo aquele pessoal. A mãe do anfitrião pediu por isso, que nós três fôssemos mais cedo. Já passava das nove horas quando o Vinicius chegou, atrasado, e sentou ao lado da senhora, e num instante quebrou-se o gelo.
― Mas que homem... ― ela dizia, esquecida do atraso. Ele agradava às pessoas, mas não agradava de propósito, era a maneira dele, naturalmente assim.
Depois ele passou para música, aí foi demitido do Itamaraty, no tempo do Costa e Silva; pediram que ele não fizesse mais shows, ou então largasse o Itamaraty.
― Então eu largo ― ele disse. Não, não foi cassado, foi uma coisa individual: não poder tocar a música que ele gostava.
O Vinicius passou dois meses em Roma, antes de assumir em Paris e ia todo dia em casa, eu era professor, dei curso na universidade. Ele ficou num hotel da Via Vittorio Veneto, onde se reuniam os atores, eu conto neste prefácio [do Operário em construção e outros poemas, Nova Fronteira] que cheguei um dia lá e o encontrei ao lado de Irene Papa (aquela do filme Z).
Numa dessas ocasiões apareceu um camarada mineiro, filósofo, que morreu agora. Era um sujeito muito diferente do Vinicius, muito sério. Ele e o Vinicius não davam certo. Não sei bem por que, pois o Vinicius tinha uma facilidade de se dar bem com as pessoas. Eu disse ao camarada: “Não o convido hoje porque já tenho compromisso”; era o Vinicius. “Vamos deixar para amanhã”.
― Não, amanhã vou jantar com o Cristiano Machado, embaixador no Vaticano, pode ser para depois de amanhã? ― foi a resposta. Eu disse que em princípio podia ser.
Aí chegou o Vinicius e eu disse que o camarada estava com vontade de vir, mas achei que os dois não combinavam bem, tão diferentes que eram, o outro era um sujeito brigão, tinha sido até boxeur. O Vinicius disse que eu tinha razão:
― Não vou com aquele sujeito não.
É raro ele ficar assim com outras pessoas. No dia seguinte o Vinicius apareceu e eu o lembrei que o camarada viria no outro dia. Disse ao Vinicius: se você quiser vir, venha, mas eu estou avisando: ele vem amanhã. No dia seguinte aparece o Vinicius. Aí eu disse: ah! você veio, né? Tá bem. O outro chegou tarde, às 9 horas, e jantamos juntos. Ele falando o tempo todo, metendo o pau numa moça que trabalhava num escritório comercial em Paris, onde ele teve que fazer qualquer coisa. E o Vinicius num silêncio mortal. Depois que ele saiu perguntei a razão daquele silêncio:
― Eu estava aqui, só não dei nele porque ele estava na sua casa.
― Mas por quê? ― eu perguntei.
― Porque ele estava falando mal de uma mulher.
― Mas você conhece a mulher?
― Não, eu não conheço, mas falar mal de mulher é coisa que não suporto.
Ele não admitia que ninguém falasse mal de mulher, fosse quem fosse. De modo que ele era assim um pouco desse jeito. Estávamos certa ocasião na casa de um dos grandes amigos dele daqui em São Paulo, o Zequinha Marques da Costa. Certa hora ele se levantou e foi lá para dentro. Nesse momento o Zequinha me convidou para ver alguns quadros que tinha lá. Entramos, vi um quarto.
― Ali deve estar dormindo o Vinicius ― disse o Zequinha ― evitemos falar alto quando passarmos por lá.
Passamos então pelo quarto enorme, uma cama de casal, e o Vinicius no meio dormindo. Eu disse: olha aqui, vamos fechar essa luz. E o Zequinha respondeu:
― Não, não, não, o Vinicius não quer. Ele quer a luz acesa porque assim fica com a impressão de que tem gente.
Ele morreu assim, com quantidade de gente em volta. Dizem que só no apartamento dele foram mais de mil pessoas sem estar avisadas. Havia toda aquela gente chorando, amigos...
Mas os médicos achavam que ele não ia durar muito não. Tinha diabete, inclusive; não parava de beber. Quando fiz essa coletânea [Operário em construção e outros poemas, Nova Fronteira] fui ao Rio, estava no hotel, o Vinicius foi lá para ver. Aí eu pedi um uísque e disse: eu não peço para você porque você não pode tomar.
― Uísque não ― respondeu ―, mas tomo vinho branco.
― Mas não faz mal?
― Não, o médico disse que não.
Sabe, enquanto nós estivemos lá (a última mulher dele, Gilda de Queirós Mattoso, também estava) ele tomou cinco garrafas de vinho branco. Bom, eu tomei um bocadinho, mas o grosso foi ele quem tomou.
Quanto aos poemas eu gosto de muita coisa dele. Quando comecei a fazer esta antologia ele queria tirar as poesias que têm música. Mas depois ele mesmo achou uma como este Samba em prelúdio. Às vezes eu gosto de uns poemas dele, às vezes gosto de outros. Gosto muito do Soneto da fidelidade, onde ele fala do amor, que “não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Ele costumava dizer de brincadeira que mulher para ele dura três anos. Depois tem que mudar...
Este livro da Nova Fronteira foi quem pediu (sic) que eu fizesse uma antologia, uma introdução crítica. Agora não estou fazendo crítica literária, então resolvi fazer uma coisa sobre ele, a pessoa dele. Destas poesias faltam algumas que numa certa hora se perderam, em parte. Eu não sabia nem como construir e pedi que o Vinicius completasse, não incluí exatamente o Soneto da fidelidade. Fiz a seleção e este estava na outra lista, que se perdeu. Escolhi de diversos lugares, tem um soneto dedicado ao Neruda, foi o Vinicius quem me deu para sair aí, mas este não é um soneto novo, é antigo. Ele fez para o Neruda depois que ele chegou aqui. Havia perdido o soneto, de modo que não incluiu nos outros livros dele; é uma resposta ao Pablo Neruda. Ele o encontrou pouco depois e disse:
― Vamos publicar por causa disso.
É uma coisa inédita. Depois ele fez outro soneto para o Neruda, diferente deste. Queria publicar este aí porque era praticamente inédito. A outra parte disto foi uma antologia que saiu em Portugal, ele achava muito boa. Foi dali que eu tirei muita coisa, mas devolvi-lhe o volume português porque ele não tinha outro exemplar. Foi ele quem escolheu o título do livro. Eu ia fazer uma escolha, Antologia, qualquer coisa assim. Por ocasião da greve em São Bernardo ele foi lá e recitou isso para os operários. A letra tem algumas coisas sutis, muito sutis, como a história da tentação de Cristo pelo diabo. Mas o Lula, pelo menos, gostou muito.
No começo de sua carreira Vinicius jamais se indispôs pessoalmente com o grupo Caju, mas encontrou amigos do outro lado, grandes amigos, como o Rubem Braga, o Fernando Sabino, o Paulo Mendes Campos e o Otto Lara Resende ou os mais velhos, como Manuel Bandeira e Drummond. A poesia dele começou com a influência desse grupo, espiritualista. Não chegava a ser fascista não, embora alguns se fizessem integralistas, mas ele nunca foi isto não, foi até o contrário.
Os primeiros dois livros têm este lado individualista e meio espiritual, Caminho para a distância e Forma e exegese. Ele era muito moço ainda. Depois tem Ariana, a mulher, aí ele já estava mudando, foi tomando um tom mais lírico, mais amoroso, mais material talvez.
Os primeiros livros são desta fase espiritualista, depois ele descobriu que não era aquilo não, que gostava era de mulher. No meio dos primeiros tem muita coisa bonita, mas eram muito diferentes. Esta poesia lírica, junto com o Drummond e o Bandeira, formou uma espécie de trindade na poesia brasileira. O Murilo Mendes também tem um pouco. Uma tendência assim um pouco coloquial. A marca da experiência inglesa de Oxford parece-me ter sido decisiva para ele.
O traço social é visível em Operário em construção, é um pouco. Acho que ele estava caminhando para este lado, mas tinha muito o lado lírico, mulher no meio. Tinha as duas formas. Só as duas?

SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA: Encontros. Org. Renato Martins. Beco do Azougue, 2009, p. 168-173. (Publicado originalmente em Leia Livros, 1980)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

"O lado oposto e outros lados" - Sérgio Buarque de Holanda (1926)

O LADO OPOSTO E OUTROS LADOS

Qualquer pessoa que compare o Brasil intelectual de hoje com o de dez anos atrás não pode deixar de observar uma divergência apreciável entre os dois momentos, não só nos pontos de vista que os conduzem como ainda mesmo nos indivíduos que os exprimem. Não quero insistir na caracterização dessa divergência, que me parece profunda, nem vejo em que poderia ser útil mostrando o motivo que me leva a preferir um ao outro.
Está visto que pra mim os que exprimem o momento atual neste ano de 1926 contam muito mais do que os de 1916. A gente de hoje aboliu escandalosamente, graças a Deus, aquele ceptismo bocó, o idealismo impreciso e desajeitado, a poesia “bibelô”, a retórica vazia, todos os ídolos da nossa intelligentsia, e ainda não é muito o que fez. Limitações de todos os lados impediam e impedem uma ação desembaraçada e até mesmo dentro do movimento que suscitou esses milagres têm surgido germens de atrofia que os mais fortes já começam a combater sem tréguas.
É indispensável para esse efeito romper com todas as diplomacias nocivas, mandar pro diabo qualquer forma de hipocrisia, suprimir as políticas literárias e conquistar uma profunda sinceridade pra com os outros e pra consigo mesmo. A convicção dessa urgência foi pra mim a melhor conquista até hoje do movimento que chamam de “modernismo”. Foi ela que nos permitiu a intuição de que carecemos, sob pena de morte, de procurar uma arte de expressão nacional.
Não se trata de combater o que já se extinguiu, e é absurdo que muitos cometem. Mesmo em literatura os fantasmas já não pregam medo em ninguém. O academismo, por exemplo, em todas as suas várias modalidades ― mesmo o academismo do grupo Graça Aranha-Ronald-Renato Almeida, mesmo o academismo de Guilherme de Almeida ― já não é mais um inimigo, porque ele se agita num vazio e vive à custa de heranças. As figuras mais representativas desse espírito acadêmico e mesmo as melhores (como é o caso dos nomes que citei) falam uma linguagem que a geração dos que vivem esqueceu há muito tempo.
Alguns de seus representantes ― refiro-me sobretudo a Guilherme de Almeida e a Ronald de Carvalho ―, graças  a essa inteligência aguda e sutil que foi o paraíso e foi a perda da geração a que eles pertencem, aparentaram por certo tempo responder às instâncias da nossa geração. Mas hoje logo à primeira vista se sente que falharam irremediavelmente. O mais que eles fizeram foi criar uma poesia principalmente brilhante: isso prova que sujeitaram apenas uma matéria pobre e sem densidade. De certo modo continuaram a tradição da poesia, da literatura “bibelô”, que nós detestamos. São autores que se acham situados positivamente do lado oposto e que fazem todo o possível para sentirem um pouco da inquietação da gente da vanguarda. Donde essa feição de obra trabalhada conforme esquemas premeditados, essa ausência de abandono e de virgindade que denunciam os seus livros. Toda a América e Raça seriam talvez bem mais significativos para a gente se não fosse visível a todo o momento a intenção dos seus autores de criarem dois poemas geniais. Essa intenção é sobretudo manifesta em Toda a América. É um dos aspectos que tornam mais lamentável e pretensioso o movimento inaugurado pelos nossos acadêmicos “modernizantes”. Houve um tempo em esses autores foram tudo quanto havia de bom na literatura brasileira. No ponto em que estamos hoje eles não significam mais nada para nós.
Penso naturalmente que poderemos ter em pouco tempo, que teremos com certeza, uma arte de expressão nacional. Ela não surgirá, é mais que evidente, de nossa vontade, nascerá muito mais provavelmente de nossa indiferença. Isso não quer dizer que nossa indiferença, sobretudo nossa indiferença absoluta, vá florescer por força nessa expressão nacional que corresponde à aspiração de todos. Somente me revolto contra muitos que acreditam possuir ela desde já no cérebro tal e qual deve ser, dizem conhecer de cor todas as suas regiões, as suas riquezas incalculáveis e até mesmo os seus limites e nos querem oferecer essa sobra em vez da realidade que poderíamos esperar deles. Pedimos um aumento de nosso império e eles nos oferecem uma amputação. (Não careço de citar aqui o nome de Tristão de Athayde, incontestavelmente o escritor mais representativo dessa tendência, que tem pontos de contato bem visíveis com a dos acadêmicos “modernizantes" que citei, embora seja mais considerável.)
O que idealizam, em suma, é a criação de uma elite de homens, inteligentes e sábios, embora sem grande contato com a terra e o povo ― é o que concluo por minha conta; não sei de outro jeito de se interpretar claramente o sentido de seus discursos ―, gente bem-intencionada e que esteja de qualquer modo à altura de nos impor uma hierarquia, uma ordem, uma experiência que estrangulem de vez esse nosso maldito estouvamento de povo moço e sem juízo. Carecemos de uma arte, de uma literatura, de um pensamento enfim, que traduzam um anseio qualquer de construção, dizem. E insistem sobretudo nessa panacéia abominável da construção. Porque para eles, por enquanto, nós nos agitamos no caos e nos comprazemos na desordem. Desordem do quê? É indispensável essa pergunta, porquanto a ordem perturbada entre nós não é decerto, não pode ser a nossa ordem; há de ser uma coisa fictícia e estranha a nós, uma lei morta, que importamos, senão do outro mundo, pelo menos do Velho Mundo. É preciso mandar buscar esses espartilhos pra que a gente aprenda a se fazer apresentável e bonito à vista dos outros. O erro deles está nisso de quererem escamotear a nossa liberdade que é, por enquanto pelo menos, o que temos de mais considerável, em proveito de uma detestável abstração inteiramente inoportuna e vazia de sentido. Não me lembro mais como é a frase que li num ensaio do francês Jean Richard Bloch e em que ele lamentava não ter nascido num país novo, sem tradições, onde todas as experiências tivessem uma razão de ser e onde uma expressão artística livre de compromissos não fosse uma ousadia inqualificável. Aqui há muita gente que parece lamentar não sermos precisamente um país velho e cheio de heranças onde se pudesse criar uma arte sujeita a regras e a ideias prefixados.
Não é para nos felicitarmos que esse modo de ver importado diretamente da França, da gente da Action Française e sobretudo de Maritain, de Massis, de Benda talvez e até da Inglaterra do norte-americano T. S. Elliot comece a ter apoio em muitos pontos do esplêndido grupo modernista mineiro de A Revista e até mesmo de Mário de Andrade, cujas realizações apesar de tudo me parecem sempre admiráveis. Eu gostaria de falar mais longamente sobre a personalidade do poeta que escreveu o Noturno de Belo Horizonte e como só assim teria jeito pra dizer o que penso dele mais à vontade, pra dizer o que me parece bom e o que me parece mau em sua obra ― mau e sempre admirável, não há contradição aqui ―, resisto à tentação. Limito-me a dizer o indispensável: que os pontos fracos nas suas teorias estão quase todos onde elas coincidem com as idéias de Tristão de Athayde. Essa falha tem uma compensação nas estupendas tentativas para a nobilitação da fala brasileira. Repito entretanto que a sua atual atitude intelectualista me desagrada.
Nesse ponto prefiro homens como Oswald de Andrade, que é um dos sujeitos mais extraordinários do modernismo brasileiro; como Prudente de Moraes Neto; Couto de Barros e Antônio de Alcântara Machado. Acho que esses sobretudo representam o ponto de resistência necessário, indispensável contra as ideologias do construtivismo. Esses e alguns outros. Manuel Bandeira, por exemplo, que seria para mim o melhor poeta brasileiro se não existisse Mário de Andrade. E Ribeiro Couto que com Um homem na multidão acaba de publicar um dos três mais belos livros do modernismo brasileiro. Os outros dois são Losango cáqui e Pau-Brasil.

Revista do Brasil, 15/10/1926, p.9-10.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. O espírito e a letra. Estudos de crítica literária I, 1920-1947. Organização, introdução e notas Antonio Arnoni Prado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 224-228.

domingo, 12 de setembro de 2010

disputas modernistas: Sérgio Buarque de Holanda

O tom geral do ensaio de 1926 de Sérgio Buarque de Holanda, “O lado oposto e outros lados”, gerou muita polêmica nos arraiais modernistas, expondo divergências e ressentimentos. Manuel Bandeira e Mário de Andrade divergiram a fundo sobre as posições de Sérgio Buarque, e isso aparece na sequência de cartas trocadas entre ambos no período, um documento precioso para a apreensão dos bastidores da polêmica. Além de tudo, parecia estar em jogo a liderança do Modernismo, que o ensaio de Sérgio não faz pensar que ele estivesse chamando para si, pois tencionava exercer, no melhor sentido em que o compreendia, a crítica. O modo com que Sérgio Buarque e Prudente de Moraes, neto entendiam a crítica encontrou reservas em Mário de Andrade, que em carta a Manuel Bandeira comenta o tom geral do ensaio de Sérgio Buarque:

Eu tenho feito em artigos muita restrição ao Gui e ao Ronald restrição que não aceitaram ou que discutiram porém não brigaram comigo. Porém quando citei a frase de você foi pra chamar sua atenção sobre uma coisa: é que Prudentico principalmente inda mais que o Sérgio quando escrevem contra dão pras frases um ar de ataque que fere. Fazem a restrição com uma secura uma aspereza que pode ser peculiar neles porém faz com que os outros caiam na ideia do ataque. Sobre isso já me preveni bem porque sei que me atacarão e si o ataque vier assim não me ressentirei porque pode ser feitio deles. [...] Pra quê? E mesmo certo de que isto não é obrigação de elogio mútuo eu pergunto pra você se não é verdade que essa não é a maneira de tratar um trabalho ruim de um camarada. Eu quando tenho um camarada procuro lhe ocultar os defeitos e quando sou obrigado a reconhecer estes, os reconheço porém amigavelmente. E creio que não sou nenhuma exceção. [ANDRADE e BANDEIRA, 2001, p. 323. Os apelidos aludem a Prudente de Moraes, neto e Guilherme de Almeida]

De maneira geral, as reservas de Mário de Andrade estendem-se do tom ao conteúdo do ensaio, ao contrário de Manuel Bandeira. Ao final da sequência de cartas em torno da polêmica, Manuel Bandeira sintetiza bem quais seriam as possíveis razões para a atitude mais desbragada de Sérgio Buarque e Prudente de Moraes face à crítica literária e aos rumos então tomados pelo Modernismo:

O “nós” do Sérgio, tomei por ele, Prudente e outros da idade deles que não suportam o verbalismo do R., do G. e outros. A respeito de verbalismo, penso como você. Há verbalismo e verbalismo. Euclides, êta! Aprecio às vezes o de R. e Gui, sem achá-los tão maravilhosos quanto você. Sempre defendi sozinho contra Oswald, Sérgio, Prudente, e outros a arte, a técnica fantástica do Gui. Mas realmente, Mário, os rapazes sinceramente não fazem caso nenhum disso. No fundo eu dou razão a eles, mas como o gosto é livre eu continuo a admirar o tour de force criador rítmico do Guilherme fazendo ritmo de 11 sílabas com qualquer quantidade de sílabas, como ele faz em “Raça”. Mas reconheço que é arte, e poesia é outra coisa. [...] A poesia do R. é bela, porém me dá a impressão de arte decorativa de motivos socializantes. Boa pra se comentar mas... não faz a gente “dar nos gostos”. Aliás a “gente” está aí por “me”: eu sei, e compreendo bem, que você, o Ribeiro Couto gostam da poesia do R. e são sinceros. Já o R. C. não tolera a do Guilherme. O que atrapalha tudo é essa história de modernismo. Que coisa pau! Parece uma putinha intrigante que apareceu para desunir os amigos. Ninguém sabe definir essa merda, que todo mundo quer ser! Isso sempre me aporrinhou. Não tem a menor importância ser modernista! Vamos acabar com isso? [ANDRADE e BANDEIRA, 2001, p. 327. Os apelidos e abreviações aludem a Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida]

Na fala de Manuel Bandeira, pelo menos três elementos chamam a atenção: primeiramente, a diferença de gerações dentro do próprio Modernismo, fazendo com que os mais jovens tivessem uma posição mais aguerrida e combativa que os demais, a par de concepções de literatura e arte não totalmente esposadas por Guilherme de Almeida, por exemplo, inegavelmente um poeta da outra geração. Então, na visão de Sérgio Buarque e Prudente de Moraes, neto, ele também seria um “passadista”, embora isso não seja declarado. O segundo elemento é a distinção entre poesia e arte que Manuel Bandeira propõe, distinção dificílima no contexto em que é enunciada, por sugerir que os dois poetas referidos  Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho  poderiam ser bons versejadores, bons poetas no sentido mais tradicional do termo, mas não no sentido moderno que a palavra poesia passou a comportar. Por fim, o terceiro elemento seria justamente a discussão do que seria moderno em arte, e a polêmica em torno do ensaio de 1926 sugere que os principais nomes do Modernismo não tinham muita clareza acerca disso, e cada qual estava tateando seu caminho, tentando em maior ou menor grau ser moderno. E parece que justamente quanto maior a preocupação em sê-lo, menor o efeito alcançado, como se pode depreender da última frase de Manuel Bandeira, poeta modernista por excelência, mas que parecia dar pouca importância ao rótulo. Ou seja, a adesão epidérmica aos pressupostos estéticos do Modernismo não poderia funcionar como garantia de produção poética de qualidade, num contexto em que praticamente tudo estava em discussão, inclusive os tais pressupostos.

ANDRADE, Mário; BANDEIRA, Manuel. Correspondência de Mário de Andrade & Manuel Bandeira.  2. ed. Org., introdução e notas Marcos Antonio de Moraes.  São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Instituto de Estudos Brasileiros/USP, 2001.

domingo, 5 de setembro de 2010

Sérgio Buarque de Holanda: “os novos do Piauí” (1926)

Segue um trecho em que Francisco de Assis Barbosa relata a participação de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e outros intelectuais ligados à Revista do Brasil, fase Assis Chateaubriand, no episódio dos “novos do Piauí”. Em seguida, o depoimento do próprio Sérgio Buarque, em entrevista concedida em 1975:

“Assis Chateaubriand havia entregue a Rodrigo M. F. de Andrade a direção da Revista do Brasil, que aparece em formato diferente, bem mais flexível. Prudente [de Moraes, neto] é o secretário, Sérgio, colaborador. Gilberto Freyre, PhD pela Universidade de Columbia, EUA, fixa-se em Pernambuco. Para o Livro do Nordeste, que aparece para comemorar o primeiro centenário do Diário de Pernambuco (1825-1925), a pedido de Gilberto Freyre Manuel Bandeira havia escrito a ‘Evocação do Recife’, que marcou o reencontro do grande poeta com sua terra natal. Rodrigo, Sérgio e Prudente logo se irmanaram àquele novo companheiro que a todos fascinava pela autenticidade e ausência de pose. Na Revista do Brasil, começou a publicar crônicas ora com o pseudônimo de Esmeraldino Olímpio, ora com o de J. J. Gomes Sampaio. Um desses artiguetes chegou a despertar a atenção de alguns intelectuais, como Nestor Vítor, que fez questão de conhecer J. J. Gomes Sampaio, que escrevera sobre ‘Os novos do Piauí’, todos ou quase todos mais simbolistas que propriamente modernistas. Acontece que não existiam os ‘novos’ do Piauí, pura invenção lúdica aos que acreditavam demais no Modernismo.”

BARBOSA, Francisco de Assis (Org.). Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p.21-22. OU: BARBOSA, Francisco de Assis. Verdes anos de Sérgio Buarque de Holanda. In: Sérgio Buarque de Holanda: vida e obra. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura; Universidade de São Paulo, 1988, p.39.


Maria Célia Leonel ― Os colaboradores faziam reuniões para a elaboração da revista [Estética]?

Sérgio Buarque de Holanda ― Não, mesmo porque tenho a impressão de que uma parte dos colaboradores estava em São Paulo, como o Couto de Barros. Ele era um sujeito sério que escrevia contos engraçados, como aquele da mulher que virou infinita, da Klaxon. Tem outro conto, mas não sei onde saiu. Talvez na Revista do Brasil, na segunda fase, que foi feita pelo Rodrigo, pelo Prudente e em que colaborei. Nela saiu um artigo sobre os “novos do Piauí” escrito pelo Gilberto, mas assinado J. J. Gomes Sampaio. Entre outros “novos” piauienses inventados lembro-me de um que se chamava Esmeraldino Olímpio. Esses e outros serviram depois de pseudônimos em artigos onde nós mesmos nos criticávamos e enaltecíamos, por exemplo, o Oswaldo Orico. O Gilberto mandou imprimir um cartão de J. J. Gomes Sampaio, com a indicação: literato. Pensamos então em um piauiense ilustre, e com ele foi posto o nome da rua: Marquês de Paranaguá, número 14. Não podia ser muito alto, ninguém sabia se a rua, caso existisse, era grande. Antônio de Alcântara Machado fez um artigo, se não me engano com o nome de Esmeraldino Olímpio. Gilberto Freyre estava no Rio e se deixou apresentar como sendo J. J. Gomes Sampaio a um crítico do Simbolismo, que o cumprimentou e o chamou de mestre. Creio que o homem desconfiou do negócio. [...]  

LEONEL, Maria Célia. Estética e Modernismo. Revista trimensal. São Paulo: Hucitec, 1984, p. 174. [Trecho de entrevista concedida por Sérgio Buarque à autora do estudo]

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Graciliano Ramos e os modernistas de 22


Trecho da entrevista concedida por Graciliano Ramos a Homero Senna, em 1944:

NUNCA FUI MODERNISTA

― Então, se procurava manter-se tão bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, lá de Palmeira dos Índios, o movimento modernista.
― Claro que acompanhei. Já não lhe disse que assinava jornais?
― E que impressão lhe ficou do Modernismo?
― Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeação desonesta. Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.
― Não exclui ninguém dessa condenação?
― Já disse: “salvo raríssimas exceções”. Está visto que excluo Bandeira, por exemplo, que aliás não é propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o “Solau do Desamado” é como as “Sextilhas de Frei Antão”. Por dever de ofício, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do Modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glória literária?
Franze a testa, detém-se um instante, mas logo prossegue:
― Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E, querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarnação da literatura brasileira ― o que era um erro ― fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condenação maciça cometeram injustiças tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organização da coletânea a que me referi, encontrei vários contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura. Lembro-me de alguns: “O Ratinho Tique-Taque”, de Medeiros e Albuquerque; “Tílburi de Praça”, de Raul Pompéia; “Só”, de Domício da Gama; “Coração de Velho”, de Mário de Alencar; “Os Brincos de Sara”, de Alberto de Oliveira. Nas antologias que andam por aí essas produções geralmente não aparecem, e de alguns dos autores citados são transcritos contos que não dão idéia exata do seu talento e do domínio que tinham do gênero. Só posso atribuir isso, como já disse, à desonestidade. Porque, se os compararmos aos produtos dos líderes modernistas, estes se achatam completamente.
― Quer dizer que não se considera modernista?
― Que idéia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.

SENNA, Homero. República das letras. Entrevista com 20 grandes escritores brasileiros. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 201-202.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Graciliano Ramos e a renovação modernista da linguagem

Trecho de entrevista concedida por Graciliano Ramos a Homero Senna, em 1944:


H S – Sabe que é apontado como um dos nossos escritores modernos que melhor manejam o idioma?
G R Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do Nordeste, que falam bem. É lá que a língua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de regência, por exemplo, entre a linguagem de um doutor e a de um caboclo, não tenha dúvida, vá pelo caboclo, e não erra. Note que me refiro ao caboclo do sertão. O do litoral vai-se estrangeirando...

H S – Mas não venha me dizer que seu aprendizado da língua se fez apenas com os caboclos de Buíque e Palmeira dos Índios?
G R – Claro que não... Muitas coisas não poderiam eles ensinar-me. Está visto que tive de chatear-me lendo gramáticas.

SENNA, Homero. República das letras. Entrevista com 20 grandes escritores brasileiros. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 206.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

belle époque carioca: Lapa / Pasárgada (Manuel Bandeira)

Entre as leituras de obrigação do doutorado, deparei-me com o livro de memórias de Luís Martins, Noturno da Lapa, o melhor itinerário para quem quer conhecer o que foi a vida noturna e boêmia da Lapa nos anos 30. Martins teve uma vida movimentada, caiu em desgraça com o governo Vargas por conta de seu romance Lapa, e foi se refugiar em São Paulo, na fazenda de Tarsila do Amaral, com quem se casou. O trecho que segue é interessante por assinalar o fim da belle époque brasileira, quando Luis Martins começa a frequentar a Lapa:

"Ao contrário do que aconteceu na Europa ... no Brasil, país de economia rudimentar, que até bem pouco tempo tudo importava ... a belle époque foi um reflexo tardio da européia, tendo durado até 1930, ano da revolução política que derrubou a República Velha e fez sentir, com maior dramaticidade, os efeitos da grande crise do café. ... A belle époque brasileira (ou carioca, se o quiserem), são os vinte e cinco anos que vão do governo de Rodrigues Alves à deposição de Washington Luís. No tempo, portanto, em que eu, meninote e adolescente, me perdia em excursões solitárias pelas ruas da Lapa, essa belle époque ia chegando ao fim. Ora, mais ou menos por essa época, exatamente nesse período, um grupo ilustre, que reunia algumas das figuras mais brilhantes e expressivas do modernismo brasileiro, antes e depois da Semana de Arte Moderna, enchia, com o tumulto de sua mocidade inquieta, os clubes noturnos, os cabarés, os botequins, as rues chaudes do famoso bairro. Eu tenho para mim que foi esse grupo que verdadeiramente “descobriu” a Lapa e criou sua legenda romântica de versão montmartriana dos trópicos. Uns dez anos antes de nós. Chamavam-se, esses boêmios de talento, Raul de Leôni, Ribeiro Couto, Jaime Ovalle, Caio de Mello Franco, Di Cavalcanti, Oswaldo Costa. Nos últimos tempos, Sérgio Buarque de Holanda e Dante Milano, os benjamins da turma. E, em fugazes aparições, aparece, esquivo, intermitente e raro, porque a saúde frágil e comprometida não lhe permitia excessos de vida desregrada, Manuel Bandeira, que morava no Curvelo, no morro de Santa Teresa ... Aliás Ribeiro Couto já morava no Curvelo, antes mesmo de para lá se mudar o grande poeta de Libertinagem, o que este fez em 1920, depois que perdeu o pai." (Noturno da Lapa, 2004, p. 49-51).

Há uma sugestão interessante, que li num crítico autorizado na obra de Manuel Bandeira, de que a Pasárgada do poema na verdade seria uma imagem mítica da própria Lapa, quer dizer, a Pasárgada que todos nós aprendemos a projetar no terreno da utopia talvez fosse a elaboração de experiências vividas na concretude de uma vida noturna fora do radar das moças de família. E vividas de forma intermitente, dado os problemas de saúde do poeta. Afirma o crítico: "... a Lapa literária, tecida entre todos, lembra Pasárgada, com sua consistência de desejo e sonho, feita do tecido da imaginação, mas correspondendo a realidades profundas da alma e a aspectos concretos da vida material. Na verdade, se percebe o quanto a própria Pasárgada bandeiriana tem a ver com a atmosfera da Lapa literária e boêmia dos anos 20, de modo que as aspirações singulares do poeta, barradas pela vida madrasta, se descobrem de repente realizáveis no mundo próximo e libertário da vida boêmia, no mais prosaico dia-a-dia do ambiente carioca." (Arrigucci Jr., Davi. Humildade, paixão e morte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 66).