Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 30 de dezembro de 2018

O que é um FDP?

Ainda vou escrever um artigo sobre o real significado do xingamento “filho da puta”. Não é a mãe que está sendo xingada, mas a própria pessoa. Prostitutas fazem sexo em troca de dinheiro: a função da procriação, prevista na Bíblia para a atividade sexual desde Adão e Eva, não está contemplada. Se prostitutas engravidam, trata-se de um acidente, de um desvio de função. Logo, se alguém é filho da puta, esse alguém é um equívoco, porque em princípio não era para ter sido concebido. É alguém que não deveria existir, considerando, como se colocou acima, a prostituição como uma atividade comercial. O fdp é um equívoco. É disso que se trata o xingamento.

possessão


O PT e o PSOL não vão na cerimônia de posse, ou na possessão, como tem sido chamada no twitter? Não, não vão. Não vão bater palma para maluco fascista dançar.

daqui a dois dias um fdp toma posse como presidente da república

Aguardando os memes: já é Bolsonaro na Austrália. E inferno no Brasil. Nos vemos em 64, ou talvez mais pra trás ainda, na República Velha.

fuck you


Que a nova direita fascista se esbalde na cerimônia de posse, dê vazão às suas taras, sua gula e luxúria. Depois vomite tudo e morra de overdose de poder. Mais aqui.

sábado, 27 de outubro de 2018

a candidatura que sequestrou o debate político

O momento é difícil, grave, delicado, porque implica a possibilidade de se retroceder 50 anos, pelo menos. Saí de grupos de whatsapp, rareei o contato com a família, me espantei com declarações de estudantes, certa censura prévia imposta a críticas ao inominável. Foi-se o tempo da oposição entre coxinhas e mortadelas. Quando um dos filhos do coiso, ou coiso-filho, disse que se chegou ao “fundo do posso”, ele atropelou mais do que a língua, pois estava dizendo que o “posso” a ele pertence. De todas as declarações absurdas do inominável, uma delas causou menos furor e escândalo, mas resume o apoio recebido de boa parte do empresariado jeca do país: o trabalhador terá de escolher entre ter emprego ou ter direitos. No fundo, é disso que se trata. Todos perderemos, muito, mas a cruzada moral que assola o país não deixa enxergar isso. Não quero ser pessimista, estou apostando que a democracia terá fôlego. Mas nunca imaginei viver isso.

domingo, 23 de setembro de 2018

vocação para o passado

Invariavelmente a banda que anima o barzinho da esquina toca legião urbana e capital inicial. O país não sai dos anos 80, e tudo indica que quer retroceder mais. “Nas favelas, no senado / sujeira pra todo lado.” Como assim, nivelar as favelas ao senado? O país não sai desse ponto, de Jânio Quadros e sua vassourinha pra varrer a corrupção. O problema não é a corrupção (ninguém parece ter ouvido falar em transparência internacional), mas a distribuição de renda.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Museu Nacional

O incêndio do Museu Nacional é da ordem do inominável. Quem viu de longe enxergou um país em guerra consigo mesmo:

“acordo com a insuportável notícia da destruíção do magnífico museu nacional do brasil, que é da ordem do absurdo.
como pode ser descurada uma casa daquelas? uma casa que definia o brasil, defenia a história do brasil.
o museu nacional do brasil não pode arder. só em tempo de guerra, no grotesco que a guerra pode ser, coisas assim acontecem. fico com a impressão de que o brasil está em guerra consigo mesmo.
meu abraço solidário a todos os que prestigiam o brasil e a sua cultura, e a todas as gerações futuras que se vêem impedidas de aceder ao melhor do seu próprio património e tanta da sua memória.
estou horrorizado.

Valter Hugo Mãe, escritor português, no facebook.

sábado, 1 de setembro de 2018

fim

2018 foi o ano em que perdi o que ainda havia de inocência em mim. Acabou. Grata a tod@s @s envolvid@s. Foi também o ano em que completei meio século de vida. Talvez sejam mesmo coisas excludentes.

fado tropical


Setembro começou, mas não tem Beto Guedes. Parecemos estar, desde 2016, num eterno novembro. Salvo engano, justo em novembro haverá possibilidade de reverter, ou afundar de vez.

domingo, 22 de abril de 2018

No mundo há muitas armadilhas - Ferreira Gullar


No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

Ferreira Gullar.  Toda poesia. 19.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010, p.163-164.