Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 6 de agosto de 2011

uma sinfonia bonita

A última vibração da noite, uma frase que condensava vida e música ― a vida dizendo-me uma coisa que me é tão cara que sequer tenho coragem de expressar aqui, ou mesmo em outro contexto, por medo de perder, e também porque algumas coisas pertencem à pessoa e mais ninguém, são seu recesso ― foi interrompida pelo despertador. Mas entendi que o despertador interrompia a torrente das imagens e palavras naquele ponto para que eu retivesse-o, aquele momento, desperte para o que este sonho está dizendo, e o que estava sendo dito era muito bonito, precioso ao extremo, vida que se renova, e isso confluía com a música, como a dizer: uma sinfonia bonita está tocando, ouça-a.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

W. H. Auden: poemas breves

Who can picture
Calvin, Pascal or Nietzsche
as a pink chubby boy?

Quem poderá jamais imaginar
Calvino, Pascal ou Nietzsche
Como um róseo garoto rechonchudo?

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.30-31.

sintonia fina

Chegar em casa, demitindo o barulho da rua, o dia, as pessoas, o excesso, o cansaço, menos valia do trabalho. Então apenas o despretensioso que pudesse ser esta combinação de palavras: l e v e z a. Gosto de músicas antigas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Graciliano Ramos: Paulo Honório

"Mas para quê? Para quê? não me dirão? Nesse movimento e nesse rumor haveria muito choro e haveria muita praga. As criancinhas, nos casebres úmidos e frios, inchariam roídas pela verminose. E Madalena não estaria aqui para mandar-lhes remédio e leite. Os homens e as mulheres seriam animais tristes.
Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. Os currais que se escoram uns aos outros, lá embaixo, tinham lâmpadas elétricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus.
Bichos. Alguns mudaram de espécie e estão no exército, volvendo à esquerda, volvendo à direita, fazendo sentinela. Outros buscaram pastos diferentes.
Se eu povoasse os currais, teria boas safras, depositaria dinheiro nos bancos, compraria mais terra e construiria novos currais. Para quê? Nada disso me traria satisfação.

RAMOS, Graciliano. S. Bernardo. 83.ed. Ed. revista. Rio de Janeiro: Record, 2006, p.217-18.

vivendo o visto mas vivando estrelas

A propósito de leveza e escuridão, em “São Marcos” o narrador diz que as palavras têm canto e plumagem, metonímia para o voo com que alguém pode se lançar nelas, nas palavras:

E eu, que vinha vivendo o visto mas vivando estrelas, e tinha um lápis na algibeira, escrevi também, logo abaixo:

Sargon
Assarhaddon
Assurbanipal
Teglattphalasar, Salmanassar
Nabonid, Nabopalassar, Nabucodonosor
Belsazar
Sanekherib.

E era para mim um poema esse rol de reis leoninos, agora despojados da vontade sanhuda e só representados na poesia. Não pelos cilindros de ouro e pedras, postos sobre as reais comas riçadas, nem pelas alargadas barbas, entremeadas de fios de ouro. Só, só por causa dos nomes.
Sim, que, à parte o sentido prisco, valia o ileso gume do vocábulo pouco visto e menos ainda ouvido, raramente usado, melhor fora se jamais usado. Porque, diante de um gravatá, selva moldada em jarro jônico, dizer-se apenas drimirim ou amormeuzinho é justo; e ao descobrir, no meio da mata, um Àngelim que atira para cima cinqüenta metros de tronco e fronde, quem não terá ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo ― Ó colossalidade! ― na direção da altura?
E não é sem assim que as palavras têm canto e plumagem.

No seguimento do conto, o narrador vai se enredar nas palavras, e perceber que seu canto e plumagem atira em todas as direções, inclusive da escuridão e da cegueira que experimentou. O rol de reis leoninos anuncia força, mas também o poder de vazar os olhos dos milhares de cativos vencidos.

ROSA, João Guimarães. São Marcos. Sagarana. 13. ed. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1971, p. 238.

a respiração da vida

Entre as pessoas, nos interstícios dados pelo contorno de cada criatura, pulsa em vibrações contínuas o ritmo em que se movem  a força que as mantém gravitando em torno da vida, embora seja fácil perceber como pode ser mais confortável a enganosa aparência de que gravitam umas em torno das outras ― já se acreditou que o Sol girava em torno da Terra. Assim jamais se poderá ser livre. Qualquer relação que pese mais que uma pluma já chamou a atenção para a palavra peso. Há uma força sutil que afasta e aproxima, plumagem que, parecendo adorno, é o próprio canto. 

Alexei Bueno

NESTE INSTANTE

Neste instante, neste,
Vê como sonhaste
Tudo o que viveste.

A vida é um engaste
De pedra roubada,
Mas nunca o notaste.

Nada deixou nada.
Dormimos a vida.
Nesta madrugada,

Nesta hora escolhida,
Tua alma, em teu quarto,
Virgem e esvaída,

Faz seu próprio parto.

BUENO, Alexei. Lucernário. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.254-255.

d e s e r t a r

...e colher os
desertos
onde respiram
as flores da
liberdade

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Rio antigo

Detalhe de Mapa Geral do Rio de Janeiro, de Randy Macnally, ano 1879 (aqui)

A tradução para inglês ver da cidade do Rio de Janeiro cria pérolas linguísticas e futebolísticas. Este paraíso ― em que o metrô, além de sempre lotado, agora conta com as mesmas freadas bruscas do trânsito comum, acompanhadas de um solene pedido de desculpas; em que as vans obedecem a estranhos mecanismos de deslocamento, para ficar só com dois exemplos do transporte coletivo, que é apenas um dos problemas da cidade ― dá exemplos contundentes de que Machado de Assis não trancou quem devia na famosa Casa Verde. O circo armado para o sorteio das eliminatórias da Copa de 2014, custando absurdos 30 milhões aos reais cofres públicos, é um pontapé inicial revelador de quão distorcida está a visão das autoridades sobre a cidade que governam segundo suas fantasias, eufemismo para interesses escusos. O brasileiro mal pago parece se sentir recompensado nas orgias financeiras do futebol, e acaba aceitando: é assim mesmo. O normal é relativo a quem diz o que é a normalidade. No tempo da Casa Verde, Machado de Assis já devia se horrorizar com o que via, e criou Itaguaí e seu médico-monstro. Ao que tudo indica, o Rio de Janeiro para inglês ver, versão 2014 e 2016, está se mostrando na sua mais tosca tradução. Resta saber, no mapa da remodelação da cidade, onde ficará the lunatic asylum. Há um século atrás a belle époque tropical engendrou a figura da mulata apertada em um vestido francês; na vertigem das mudanças em curso hoje que diria um Lima Barreto? Um Machado de Assis? No conto "Pai contra mãe", Machado fornece uma alegoria contundente das transformações por que passava então o país, regidas pela violência da reação e dos imperativos da sobrevivência. Cândido Neves salva seu filho da roda dos enjeitados, mas para tal uma escrava fugida tem o filho sacrificado: "Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração", formulação com que o narrador traduz a mistura entre sentimento e racionalidade em Cândido Neves. Para alcançar o que quer, Cândido Neves não poupa esforços, não tem qualquer piedade ou sentimento de solidariedade: é a fria razão no encalço da escrava fugida. Já a face voltada para o lar é toda ternura e afeição. Novamente o medalhão, a dupla face do capital entre nós: duro e áspero na consecução de seus objetivos; amoroso e terno para com seus beneficiados. A imagem de um Rio amoroso, afetivo: eles sempre vão encontrar uma solução sentimentaldisse Torquato. Nada aqui parece escapar disso. E eu não tenho qualquer ingenuidade em relação ao país em que me coube por destino viver. Poderia ser aquela escrava fugida, jamais o Cândido Neves. Hoje, na luta de pai contra mãe, está muito difícil saber quantos e quais são os lados.

Nicolas Roerich

Monhegan, Maine. Da série "Ocean". 1922.

Álvaro de Campos


Ah quem tivesse a força para desertar deveras!


Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.240.

Knockin' On Heaven's Door: versão over

Ao me lembrar do apanhado que fiz de versões para Knockin' On Heaven's Door, um lapso qualquer me fez pensar que havia deixado de fora esta, uma das melhores, com Tom Petty. Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria (“Não sei dançar", Manuel Bandeira). E pouca coisa me alegra mais que esta gaitinha, o que não chega a ser um critério, porque a vontade de alegria tem qualquer coisa de tirania, além de ser um completo mistério.

All Along the Watchtower

terça-feira, 2 de agosto de 2011

outra tradução para "The Fascination of What's Difficult" (Yeats)

THE FASCINATION OF WHAT'S DIFFICULT

 The fascination of what's difficult

 Has dried the sap out of my veins, and rent
 Spontaneous joy and natural content
 Out of my heart. There's something ails our colt
 That must, as if it had not holy blood
 Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
 Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
 As though it dragged road metal. My curse on plays
 That have to be set up in fifty ways,
 On the day's war with every knave and dolt,
 Theatre business, management of men.
 I swear before the dawn comes round again
 I'll find the stable and pull out the bolt.

Conforme já postado aqui, a tradução de Augusto de Campos traz como título "O Prazer do Difícil", formulação que parece padecer de certo preciosismo, quando a palavra fascinação tem outra vibração, em consonância com o espírito do poema e seus enigmas. No entanto, a tradução de Augusto de Campos é muito bonita, pela fluidez que o poema ganhou. O que surpreende, comparando as duas traduções, é que são, praticamente, dois poemas diferentes. Segue tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos:

A FASCINAÇÃO DO QUE É DIFÍCIL

A fascinação do que é difícil, a fascinação
Secou-me as veias e alugou o júbilo
Espontâneo e o prazer do coração.
Nosso potro, algo tem-no incomodado.
Fingindo não possuir sangue sagrado
Ou de nuvem em nuvem não saltar no Olimpo,
Ele tem de tremer com relho, esforço, tranco e suor,
Como a puxar pedra britada. Ergo o clamor
Contra as peças que hão de montar-se de cinquenta jeitos,
A guerra diária aos toleirões e maus sujeitos.
O negócio do teatro, o gerenciar homens.
Juro que antes de nova aurora despontar
Encontrarei o estábulo e o ferrolho hei de puxar.

Poemas de W. B. Yeats. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Art Editora, 1987, p.66-67.

papéis

Enquanto revolvo papéis acumulados nas disciplinas da universidade, me dou conta de que tudo que busquei foi dar vezo à minha imensa vontade de viver e aprender ― e um nicho onde pudesse repousar a cabeça. Machado de Assis, em passagem célebre de Brás Cubas, recomendava guardar as cartas da juventude. Pois estes papéis têm o valor que estas cartas teriam, caso existissem. Neles estão cifrados sentidos, vitórias, alegrias, histórias. Recebo alentado estímulo: fé na palavra-deus e pé na palavra-tábua! Tem encanto o contraste, o jogo de palavras e sentidos: a palavra-deus, criação; a palavra-tábua, achatamento, repetição. Onde a palavra-deus, a palavra-criação? Contam os românticos que Adão foi um privilegiado: recebeu diretamente de Deus o poder de criar pela palavra. Partindo de Friedrich Schlegel e Novalis, Walter Benjamin fez derivar da narrativa do Gênesis, alegoricamente, uma teoria sobre a origem da linguagem e seu caráter mágico. Na linguagem divina não haveria separação entre o nome e a coisa: a linguagem é o próprio ser, numa relação absoluta em que conhecer é criar. Essa linguagem criadora é doada ao homem, que se torna capaz de, refletindo em si o verbo divino, nomear as coisas, embora já o faça de forma limitada, como uma tradução: a linguagem nomeadora do homem é uma tradução da linguagem das coisas criadas por Deus na linguagem (no verbo), pois em Deus conhecer é criar, e criar é conhecer, de que a linguagem nomeadora do homem, segundo Benjamin, torna-se reflexo. Isso tudo me faz pensar que preciso rever o quanto antes minha dissertação de mestrado, onde falei estas e outras temeridades, revolver os papeis e colocar o bonde-linguagem para circular.

Alejandra Pizarnik

CUARTO SOLO

Si te atreves a sorprender
la verdad de esta vieja pared;
y sus fisuras, desgarraduras,
formando rostros, esfinges,
manos, clepsidras,
seguramente vendrá
una presencia para tu sed,
probablemente partirá
esta ausencia que te bebe.

Alejandra Pizarnik. Poesía completa. Barcelona: Lumen, 2000, p.193.

A Hard Rain's A-Gonna Fall


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

as palavras que salvam

Alguma coisa como perceber as trilhas que a vida... qual foi verbo? Fazer? Abrir? Construir? O tempo verbal? As trilhas que a vida vai construindo, por exemplo. Tenho que me contentar com a lembrança da frase, no sentido da expressão, pela linguagem, de alguma coisa que ficou ecoando. Há muito tatear no percurso ― e no discurso. Perceber a vida como agente ― de quê? Naturalmente não é tão simples assim, foi apenas uma frase elementar para dar formulação a divagações complexas, e afinal me pergunto se é simples pensar a vida como agente ― mas enquanto a vida se faz, o contorno de um destino vai se delineando, e esse destino se vê agente de suas escolhas, aquelas possíveis. O resíduo do dia pode ser, por exemplo, poder dizer: há um lado em mim que não aceita ser governado. 

domingo, 31 de julho de 2011

Como exprimir a beleza? William Carlos Williams

O alfabeto das
árvores

vai desmaiando na
canção das folhas

Versos iniciais do poema “The botticellian trees”, na tradução de José Paulo Paes. No original:

The alphabet of
the trees

is fading in the
song of the leaves

A música da natureza, não importa qual seja e como cada um consegue ouvi-la, admiravelmente expressa como o alfabeto ― linguagem ― das árvores. A canção das folhas: 

No estio a canção 
canta-se por si

acima das palavras surdas ―

William Carlos Williams. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.98-101. O poema integral pode ser lido AQUI.

d e l i c a d e z a

escutar pacientemente o silêncio
e ver na palavra a fé
a própria palavra fé ―
para que não se traia
o que ainda é possível ―
um devir que se sabe
opacidade, espera, escuta ―
esperança de desvelar
os delicados e tênues fios
da infância.

All The Tired Horses


All the tired horses in the sun
How'm I supposed to get any ridin' done? Hmm.

as portas da ficção

No ensaio “Ficções do sujeito moderno”, Julio Ramos abre muitas portas, especialmente aquela a partir da qual a literatura latino-americana pode se enxergar. Se na modernidade tardia a própria realidade se converteu em um narcótico, na síntese que faz sobre o impacto da eterna novidade da mercadoria sobre o consumidor dependente e dela intoxicado, Julio Ramos abre, por assim dizer, as portas da ficção. Pergunta-se ele, sem qualquer pretensão de encontrar uma resposta imediata: “como se dá a passagem da escrita teórica para a ficcional? ‘Fumando haxixe’, me responderá alguém. Não necessariamente ― prossegue Ramos ―, porque é mais do que sabido que quem fuma haxixe raramente escreve, ou escreve pouco e dorme. O haxixe retira de circulação o sujeito; a escrita, por outro lado, o insere numa economia de dívidas e intercâmbios, uma economia simbólica, que ― mais que a ‘morte’ sob o peso da lei ― pode muito bem implicar uma ética do desejo.”

Julio Ramos alude à morte de Walter Benjamin após ter ingerido uma dose elevada de morfina, para não cair nas mãos do nazismo. Mas sua análise é bem mais ampla e sutil, focalizando, nos muitos labirintos trilhados pelas hipóteses que descortina, intoxicações que produziram o mito moderno do criador que se autodestrói para poder criar: “A arqueologia do mito do artista autodestrutivo nos leva para uma referência mais próxima da literatura latino-americana, ao clássico relato de Julio Cortázar sobre Charlie Parker, El perseguidor, em que o pudor de Cortázar o leva a substituir a heroína de Charlie pela marijuana de Johnny Carter. O anverso do mito aparece também em outros campos da literatura latino-americana.”

De Benjamin a Pessoa, do haxixe ao ópio, dos interditos às ficções pessoanas, Julio Ramos vai conduzindo o leitor a uma nova visida do projeto estético da modernidade: “Se para Benjamin o fármaco operava como o parapeito de uma (hiper) sensibilidade exacerbada e excessivamente exposta ao shock do estímulo moderno, e ― se como assinalava Adorno em sua sutil despedida do amigo morto ― o próprio parapeito estético apenas imitava a lei do fetichismo das mercadorias e sua máquina compulsiva de produção e consumo de novas sensações, em Pessoa encontramos uma opção mais criativa: a ficcionalização literária. A literatura desvencilha o eu da sobrecarga e do trauma hipersensorial, produzindo, mediante a novidade da ficção, um laboratório de mundos e sensações possíveis, sem o engate ― o hook ― do ego submetido à compulsão regressiva e narcisista do uso e consumo de drogas ou objetos.”

Que se escreva, pois. E se leia, engendrando laboratórios de possibilidades de fuga ao curto-circuito-cicuta do capitalismo.

RAMOS, Júlio. Ficções do sujeito moderno: um diálogo improvável entre Walter Benjamin e Fernando Pessoa. Trad. Rômulo Monte Alto. ___. SOUZA, Eneida Maria; MARQUES, Reinaldo (Orgs.). Modernidades alternativas na América Latina. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p.32-55.

sonhando o caos

Nas imagens desta noite, a vida mostrou sua face de compartimento e de barro amontoado. Num lugar conhecido, já trilhado, prédios eram arrasados para dar lugar a novos, o furor da renovação. Ia visitar uma amiga, que se responsabilizara por um importante documento meu ― e ao final descobri que ela perdera-o de forma negligente, e então teria que começar todo o processo novamente. Movia-me em espaços estranhos, montes de areia e uma geografia já pouco reconhecível. Mas o mais assustador era o compartimento a que esta amiga tinha sido reduzida (é preciso tomar cuidado ― a responsabilidade aumenta ou diminui consoante a forma verbal). Se sonhos são condensações ― e se a fantasmagoria de Dostoiévski mostrou o quanto o espaço pode limitar as pessoas ― então havia algo em forma de geladeira dividido em três partes, e a parte de cima cabia à amiga ― ou àquela amizade? ― vida congelada e vazia a um só tempo ―, amiga que não cheguei a encontrar... Caminhava sobre destroços ― meus, do passado (o pálido documento perdido, papel branco organizado contrastando com o barrento e amontoado de tudo), da amizade finda, da vida afinal engolida pelo mais forte das grandes estruturas ―, e enquanto caminhava ia tentando encontrar um ponto onde afetivamente pudesse me reconhecer, para então retornar. Para onde? Uma viagem costuma ter um ponto de partida: o ponto de partida desta parecia ser o próprio percurso, mais propriamente a busca pelo documento. E se há o branco do gelo, do papel alusivo ao documento apenas vislumbrado na imaginação que sonhava, predominava o marrom dos destroços, dos monturos de terra. Vida em movimento. Documento: o pálido papel branco tentando mostrar como organizado e limpo o barrento e amontoado de tudo. Compartimento que resume, reduz. Documento: há sempre muitas versões, mas aquela dada pela noite mostra o quanto o documento do dia  tênue papel branco mais desejado que efetivamente posse de uma concretude  empalidece ante o barro ― matéria viva, da vida ― que a noite coloca em movimento.

Dylan Thomas: vision and prayer (fragmento)

Forever falling night is a known
Star and country to the legion
Of sleepers whose tongue I toll
To mourn his deluging
Light through sea and soil
And we have come
To know all
Places
Ways
Mazes
Passages
Quarters and graves
Of the endless fall.
Now common lazarus
Of the charting sleepers prays
Never to awake and arise
For the country is the heart’s size


A noite que vai caindo para sempre é uma estrela
Conhecida e um país diante de uma legião
De adormecidos cuja língua faço ecoar
Para vestir de luto sua diluviana
Luz através do mar e do solo
E eis que chegamos
A conhecer todos
Os lugares
Vias
Labirintos
Desfiladeiros
Quarteirões e tumbas
Da queda que não tem fim.
E agora Lázaro comum dos
Adormecidos sobre o mapa roga
Para ele jamais acordem e se ergam
Pois o país da morte é a medida do coração

Dylan Thomas. Poemas reunidos. Trad. Ivan Junqueira. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: José Olympio, p.190.


Para sempre caindo a noite é uma estrela
Conhecida e um país para a legião
Dos dormientes cuja língua eu tanjo
Para prantear sua diluviosa
Luz através de mar e solo
E assim viemos
A conhecer
Lugares
Ruas
Labirintos
E passagens
Bairros e túmulos
Da queda interminável.
Agora lázaro comum
Das orações que armam os dormientes
Para nunca acordar e levantar-se
Pois o país da morte é igual a um coração

CAMPOS, Augusto. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.352-353. 

Overtime (tributo a Jim Henson)