Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 28 de setembro de 2013

Ricardo Reis

Pobres de nós que perdemos quanto
Sereno e forte nos dava a vida
        O único modo
O único humano de a ter...
        Pobres de nós
Crianças tristes que mal se lembram
De pai e mãe
E andam sozinhas na vida cega
        Sem ter carinhos
        Nem saber nada
De aonde vamos pela floresta,
Nem donde viemos pela estrada fora…
E somos tristes, e somos velhos,
        E fracos sempre…
        Sem que nos sirva.

Poesia completa de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005, p.33.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

aflição moderna

Você está numa fila qualquer, via de regra de supermercado. A pessoa que está atrás de você dá, de repente, o ar de sua presença, através de um leve e inconveniente esbarrão, ou empurrão, suficiente para você sentir a presença física da pessoa e traduzi-la como pressão para andar mais depressa. Mas se você, incomodado com aquele contato súbito e indesejado, cede à pressão, arrisca-se a repetir o mesmo gesto com quem está na frente. Você então move-se um pouco, o suficiente para se proteger da pressão exercida por quem está atrás, mas a pessoa entende então que a fila andou, e anda também, mantendo a pressão para que você continue a andar, a avançar, para que chegue logo ao caixa, passe logo os produtos que veio comprar, pague rápido, porque você mal termina de fazer cada uma dessas etapas e quem está atrás já está ocupando o lugar que você achou que era seu na fila do supermercado. Então é desconfortável saber, sentir, que o lugar ilusório que se ocupa no mundo não é necessariamente a possibilidade de estar em paz, porque parece que ninguém está em paz.

domingo, 22 de setembro de 2013

O que é a vida espiritual de alguém?

Seria aquilo que, tradicionalmente, se opõe à matéria? Então seria mais por tradição linguística — ou conceitual — que se continua a falar em vida espiritual. Mas deixando essa oposição de lado, é difícil não admitir que há uma dimensão espiritual da existência, com necessidades próprias e pouco conhecidas, talvez porque sejam menos intercambiáveis que as demais, mais visíveis e evidentes por si. Reconhecer em si demandas espirituais é, de alguma forma, perceber-se à parte, ainda que se saiba pertencendo a uma maioria. Há as que são canalizadas e satisfeitas nas religiões. E há aquelas que não encontram refúgio ou sentido na religião. Mas continuam sendo espiritualidade.

o silêncio, esse ancestral do homem

Tantos nomes que não há para dizer o silêncio —

a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.

Evapora-se a roupa, mas não sinto.

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.247.