Não adianta, a cada palavra proferida pelo atual
mandatário da presidência da república, ou por alguém de seu entorno, não
adianta dizer: “é um absurdo”. Isso é calculado, a dose diária de choque, para
escandalizar, provocar reações de indignação, em última instância paralisar qualquer
reação. Por exemplo, o projeto de lei de um deputado estadual do Rio de Janeiro
para submeter os professores da rede pública estadual a exames toxicológicos a
cada três meses. Não adianta bradar nas redes sociais: “Que absurdo!”, ou,
conforme o grau de aberração, “Que horror!”. O horror marcha a toda a velocidade,
não foi detido quando ainda era possível fazê-lo. Está sendo naturalizado. Dois
conhecidos se encontraram no supermercado hoje de manhã e em pouco tempo
falavam com propriedade sobre a Amazônia. Me afastei para não ouvir a conversa, que era de embrulhar o estômago. Olho para as pessoas no entorno e enxergo os eleitores da
azêmola, muitos. A zona oeste praticamente o elegeu, assim como elegeu o
governador miliciano assassino e o prefeito pastor impostor. O difícil de ser
cidadão hoje no Brasil é que uma parte do país se tornou simplesmente
intragável. Muito mais difícil ainda é ser considerado inimigo por essa parte
intragável. Nós professores estamos sendo vistos e tratados como tal. Trata-se,
sem dúvida, de um projeto de destruição.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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quarta-feira, 2 de outubro de 2019
domingo, 22 de setembro de 2019
segunda-feira, 26 de agosto de 2019
terça-feira, 13 de agosto de 2019
quarta-feira, 1 de maio de 2019
domingo, 21 de abril de 2019
exílio às avessas
Já faz um tempo
que o que sinto é cansaço, da vida mesmo. Chegar aos 50 anos inevitavelmente
evoca a célebre fala de Glauber Rocha, de que aos 43 já tinha vivido tudo o que
tinha pra viver. Mesma sensação, sem a contraparte das realizações. Mas isso
não é uma carta de suicida. Suicídio é ter nascido no Brasil, vivido a abertura
política e a redemocratização, acreditado em alguma espécie de futuro (crença
fatal a qualquer jovem com alguma saúde mental) e agora encontrar o passado.
Não vou sair, é certo, porque sei que não há saída, e aqui é a luta. Entendo os
que precisaram ou escolheram sair. Mas acho desrespeitoso que, tendo condições
para tal, fiquem mandando selfies de
sua nova vida no exterior. Porque muitos não conseguem sequer sair da favela em
que nasceram. Então tudo isso dá um enorme cansaço, e não há o que fazer, a não
ser continuar.
domingo, 30 de dezembro de 2018
possessão
O PT e o PSOL não vão na cerimônia de posse, ou na possessão, como tem sido chamada no twitter? Não, não vão. Não vão
bater palma para maluco fascista dançar.
daqui a dois dias um fdp toma posse como presidente da república
Aguardando os memes: já é Bolsonaro na Austrália. E inferno
no Brasil. Nos vemos em 64, ou talvez mais pra trás ainda, na República Velha.
sábado, 27 de outubro de 2018
a candidatura que sequestrou o debate político
O
momento é difícil, grave, delicado, porque implica a possibilidade de se
retroceder 50 anos, pelo menos. Saí de grupos de whatsapp, rareei o contato com
a família, me espantei com declarações de estudantes, certa censura prévia
imposta a críticas ao inominável. Foi-se o tempo da oposição entre coxinhas e
mortadelas. Quando um dos filhos do coiso, ou coiso-filho, disse que se chegou
ao “fundo do posso”, ele atropelou mais do que a língua, pois estava dizendo
que o “posso” a ele pertence. De todas as declarações absurdas do inominável,
uma delas causou menos furor e escândalo, mas resume o apoio recebido de boa
parte do empresariado jeca do país: o trabalhador terá de escolher entre ter
emprego ou ter direitos. No fundo, é disso que se trata. Todos perderemos,
muito, mas a cruzada moral que assola o país não deixa enxergar isso. Não quero
ser pessimista, estou apostando que a democracia terá fôlego. Mas nunca
imaginei viver isso.
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
sábado, 21 de janeiro de 2017
domingo, 25 de setembro de 2016
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
ameaças do (e ao) subterrâneo - bernardo mello franco
"Vou contar
tudo o que aconteceu no impeachment, com todos os personagens que participaram
de diálogos comigo. Esses serão tornados públicos em toda a sua integralidade.
Todos, todos, todos. Todo mundo que conversou comigo", prometeu o agora ex-deputado.
Questionado se havia gravado as conversas, ele respondeu com um sorriso
irônico: "Tenho boa memória".
Desde os tempos da
Telerj, no governo Collor, Cunha cultiva a reputação de fabricar dossiês contra
adversários. A diferença é que ele não pode mais usá-los para acumular poder ou
ampliar os negócios. Agora as informações do subterrâneo da política se tornaram
a sua última arma para tentar escapar da cadeia.
http://folha.com/no1813104
terça-feira, 13 de setembro de 2016
terça-feira, 30 de agosto de 2016
domingo, 28 de agosto de 2016
quarta-feira, 13 de julho de 2016
o walking dead eduardo cunha
"Qual o risco
dessa armação? Sim, ele mesmo. O walking dead Eduardo Cunha, sem apoio do novo presidente da Câmara,
verá irem por água abaixo seus planos de adiar sua cassação e pode resolver
explodir o quarteirão com todo mundo dentro, inclusive Temer." (do blog "o cafezinho")
Será que Eduardo
Cunha, com todo o espírito de corpo, digo, porco, digo, raposa, de que dispõe,
não previu que seria rifado? Não previu que, em terra de traidores, quem trai
por último, trai melhor? Cunha é aquele vilão excessivamente perverso contra o
qual uma hora as forças acabam se voltando. Ninguém domina um contexto por
muito tempo apenas com o uso do cérebro (no caso, um cérebro doentio).
quinta-feira, 30 de junho de 2016
Armando Freitas Filho, na abertura da FLIP:
"A minha poesia, eu a entendo como a que toca todas as coisas,
inclusive as mais monstruosas. Que pode tocar um Temer, por exemplo",
declarou.
quarta-feira, 22 de junho de 2016
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