Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

não adianta

Não adianta, a cada palavra proferida pelo atual mandatário da presidência da república, ou por alguém de seu entorno, não adianta dizer: “é um absurdo”. Isso é calculado, a dose diária de choque, para escandalizar, provocar reações de indignação, em última instância paralisar qualquer reação. Por exemplo, o projeto de lei de um deputado estadual do Rio de Janeiro para submeter os professores da rede pública estadual a exames toxicológicos a cada três meses. Não adianta bradar nas redes sociais: “Que absurdo!”, ou, conforme o grau de aberração, “Que horror!”. O horror marcha a toda a velocidade, não foi detido quando ainda era possível fazê-lo. Está sendo naturalizado. Dois conhecidos se encontraram no supermercado hoje de manhã e em pouco tempo falavam com propriedade sobre a Amazônia. Me afastei para não ouvir a conversa, que era de embrulhar o estômago. Olho para as pessoas no entorno e enxergo os eleitores da azêmola, muitos. A zona oeste praticamente o elegeu, assim como elegeu o governador miliciano assassino e o prefeito pastor impostor. O difícil de ser cidadão hoje no Brasil é que uma parte do país se tornou simplesmente intragável. Muito mais difícil ainda é ser considerado inimigo por essa parte intragável. Nós professores estamos sendo vistos e tratados como tal. Trata-se, sem dúvida, de um projeto de destruição.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

domingo, 21 de abril de 2019

exílio às avessas


Já faz um tempo que o que sinto é cansaço, da vida mesmo. Chegar aos 50 anos inevitavelmente evoca a célebre fala de Glauber Rocha, de que aos 43 já tinha vivido tudo o que tinha pra viver. Mesma sensação, sem a contraparte das realizações. Mas isso não é uma carta de suicida. Suicídio é ter nascido no Brasil, vivido a abertura política e a redemocratização, acreditado em alguma espécie de futuro (crença fatal a qualquer jovem com alguma saúde mental) e agora encontrar o passado. Não vou sair, é certo, porque sei que não há saída, e aqui é a luta. Entendo os que precisaram ou escolheram sair. Mas acho desrespeitoso que, tendo condições para tal, fiquem mandando selfies de sua nova vida no exterior. Porque muitos não conseguem sequer sair da favela em que nasceram. Então tudo isso dá um enorme cansaço, e não há o que fazer, a não ser continuar.

domingo, 30 de dezembro de 2018

possessão


O PT e o PSOL não vão na cerimônia de posse, ou na possessão, como tem sido chamada no twitter? Não, não vão. Não vão bater palma para maluco fascista dançar.

daqui a dois dias um fdp toma posse como presidente da república

Aguardando os memes: já é Bolsonaro na Austrália. E inferno no Brasil. Nos vemos em 64, ou talvez mais pra trás ainda, na República Velha.

fuck you


Que a nova direita fascista se esbalde na cerimônia de posse, dê vazão às suas taras, sua gula e luxúria. Depois vomite tudo e morra de overdose de poder. Mais aqui.

sábado, 27 de outubro de 2018

a candidatura que sequestrou o debate político

O momento é difícil, grave, delicado, porque implica a possibilidade de se retroceder 50 anos, pelo menos. Saí de grupos de whatsapp, rareei o contato com a família, me espantei com declarações de estudantes, certa censura prévia imposta a críticas ao inominável. Foi-se o tempo da oposição entre coxinhas e mortadelas. Quando um dos filhos do coiso, ou coiso-filho, disse que se chegou ao “fundo do posso”, ele atropelou mais do que a língua, pois estava dizendo que o “posso” a ele pertence. De todas as declarações absurdas do inominável, uma delas causou menos furor e escândalo, mas resume o apoio recebido de boa parte do empresariado jeca do país: o trabalhador terá de escolher entre ter emprego ou ter direitos. No fundo, é disso que se trata. Todos perderemos, muito, mas a cruzada moral que assola o país não deixa enxergar isso. Não quero ser pessimista, estou apostando que a democracia terá fôlego. Mas nunca imaginei viver isso.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

ameaças do (e ao) subterrâneo - bernardo mello franco

"Vou contar tudo o que aconteceu no impeachment, com todos os personagens que participaram de diálogos comigo. Esses serão tornados públicos em toda a sua integralidade. Todos, todos, todos. Todo mundo que conversou comigo", prometeu o agora ex-deputado. Questionado se havia gravado as conversas, ele respondeu com um sorriso irônico: "Tenho boa memória".
Desde os tempos da Telerj, no governo Collor, Cunha cultiva a reputação de fabricar dossiês contra adversários. A diferença é que ele não pode mais usá-los para acumular poder ou ampliar os negócios. Agora as informações do subterrâneo da política se tornaram a sua última arma para tentar escapar da cadeia.
http://folha.com/no1813104

quarta-feira, 13 de julho de 2016

o walking dead eduardo cunha

"Qual o risco dessa armação? Sim, ele mesmo. O walking dead Eduardo Cunha, sem apoio do novo presidente da Câmara, verá irem por água abaixo seus planos de adiar sua cassação e pode resolver explodir o quarteirão com todo mundo dentro, inclusive Temer." (do blog "o cafezinho")

Será que Eduardo Cunha, com todo o espírito de corpo, digo, porco, digo, raposa, de que dispõe, não previu que seria rifado? Não previu que, em terra de traidores, quem trai por último, trai melhor? Cunha é aquele vilão excessivamente perverso contra o qual uma hora as forças acabam se voltando. Ninguém domina um contexto por muito tempo apenas com o uso do cérebro (no caso, um cérebro doentio). 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Armando Freitas Filho, na abertura da FLIP:

"A minha poesia, eu a entendo como a que toca todas as coisas, inclusive as mais monstruosas. Que pode tocar um Temer, por exemplo", declarou.